12
Jul 10
FLAGRANTES DA VIDA REAL RECEITA MEDICINAL Dores constantes, mau estar a toda a hora, rabujice e outras más disposições do Zé da Aurora, levaram a que tia Aurora, procurasse o médico e lhe expusesse o estado do seu “home”. :- Então o que a traz por cá, senhora Aurora ? - Se “dotor”, o meu “home” não anda nada bem. É todo o dia a queixar-se, é a toda a hora, amarrado à barriga, e vai daí “num tenho uma horinha de sossego”. Queria ver se o se “dotor”, lhe dava um remédio para o curar. Eu queria trazê-lo. Mas ele teimoso que nem um burro, não quis, diz que “isto passa”, mas já vão um ror de dias e “num” ata nem desata. :-Olhe lá, ele faz bem ? Isto é não está preso ? - Isso não sei bem, mas parece-me que ele vai de vez em quando à casinha. - Bom pergunte-lhe e sempre será bom fazer uma limpeza aos intestinos. - A quê, se “dotor” ? - À tripa. Você tem lá em casa um irrigador ? - “Atão, num” devia de ter ; é coisa que sempre o uso. - Então lance dentro uma canada de água, e junte-lhe uma colher de azeite e depois com cuidado, meta-lhe a cánula no rabo e ele que aguente um pouco e assim deve melhorar. Por certo é prisão de ventre. Percebeu ? E amanhã diga alguma coisa. No dia seguinte a tia Aurora aparece, muito consumida, e o médico pensando que alguma coisa tinha corrido mal, interroga-o : -Então o seu marido está melhor ? - Se “dotor” está na mesma ? - Não lhe deu o clister ? - Ó se “dotor”, eu bem queria mas ele dizia “ó mulher tu não vês que isso não cabe?” Bem “tentei”, mas ele não deixou. -Ó mulher como não cabe, que é que usou ? -Se “dotor”, em bem despejei a canada de água e a colher de azeite, mas não valeu de nada. Teimoso não deixou que fizesse aquilo que mandou. -Mas a cánula é tão fina, como é que não cabia ? Onde é que você arranjou o irrigador? -Foi no quintal, o de regar as “coivas”. ##################
publicado por Varziano às 14:30

02
Jun 10

               L  I  B  E  R      F  I  D  E  I

 

                                       S A N C T AE   B R A C A R E N S I S   E C C L E S I AE

 

A edição crítica do Cartulário LIBER FIDEI, compilada pelo Padre Avelino de Jesus Costa, Cónego e Professor Doutor da Universidade de Coimbra, publicada pela Junta Distrital de Braga, em três tomos, cujo primeiro tem a data de 1965, o segundo 1978 e finalmente o terceiro 1990, é um trabalho de grande fôlego e canseira que o insigne investigador nos deixou.

 Felizmente conseguiu ver publicada a cópia do Liber completa com o terceiro e último tomo, pouco tempo antes da sua morte, ele que tudo fez para que esta monumental obra não ficasse no esquecimento e no pó dos arquivos. Sacrificando a sua débil saúde, ao longo desse dilatado período de 25 anos, alternando com outros trabalhos de enormíssimo mérito, não descansou até que viu compensado o seu labor. Por certo, não fora inusitado e louvável esforço, lutando tenazmente, apesar do seu franzino corpo, este cartulário, de sumo interesse para a história da igreja bracarense dos primeiros séculos depois da reconquista cristã de Braga, ficaria ainda por longos anos no olvido.

 Reproduzindo documentos desde a centúria de 500, vai num total de 953, o último dos quais é de 12 de Julho de 1712, data, já fora do contexto original, e que tem o número de 954, que no resumo devido Avelino de Jesus Costa, narra :

“O Cabido aceita e aprova o Breve em que Clemente X concedeu que todos os membros do Cabido e mais beneficiários da Sé recebessem o primeiro ano depois da sua morte para com ele se poderem fazer os sufrágios e pagar qualquer dívida, se a houvesse”.

Ficou conhecido este Breve por ANO DO MORTO.

Para o arciprestado de Vila do Conde / Póvoa de Varzim, tem o cartulário bastante interesse, pois, para cada uma das agora cidades, refere pelos menos dez documentos, ao mesmo tempo que pela sua análise tomamos conhecimento de que, pelos princípios do segundo milénio, o clima da costa Norte era muito diferente do actual, dada a enorme profusão de salinas que se encontravam em exploração desde a foz do rio Ave, até Viana.

Assim, quanto ao concelho da Póvoa de Varzim, encontramos no :

PRIMEIRO TOMO

Sobre Sesins, Amorim, onde pertencia Aver-o-Mar (Abonemar no Cartulário):

            documento nº 146, datado de 22 de Novembro de 1098:

            “O presbítero Mendo vende a arcediago Guido metade do que possui em Sesins, Amorim ( concelho da Póvoa de Varzim);

            documento nº 150, com data de 25 de Outubro de 1099:

   “O arcediago Guido doa a São Geraldo e à Sé metade do que tem em Sesins…,intervindo na doação os herdeiros desta vila”:

           documento nº 153, com a data de 30 de Março de 1100:

                        “ Mendo Tructiz vende a São Geraldo parte do que possui em Sesins…”

No lugar de Cadilhe :

            documento nº 152, datado de 19 de Março de 1102:

                         “ Alvito vende ao arcediago Guido metade de uma leira em Cadilhe…”

NO SEGUNDO  TOMO

Sobre Murgatães:

documento nº 341, com a data de 20 de Julho de 1106: “Guterre Soares doa à Sé de Braga a oitava parte dos bens que possui em Murgutães”

  TERCEIRO   TOMO

De novo em Sesins :

Documento nº 645, data de 30 de Março de 1100:

“ O presbítero Mendo Tructiz doa à Sé de Braga uma herdade em Sesins… e outros bens na mesma região”

            Documento nº680,  de 25 de Outubro de 1100:

“ O arcediago Guido doa à Sé de Braga os bens imóveis que possui em Sesins e um barco, um boi e três ovelhas”

DE HEREDITATIBUS DE SESIM PROPE  ABONEMAR

             documento nº 616, refere-se a um testamento a favor da Sé de Braga, feito 1078 (?):

            “ Foila Crescones, encontrando-se doente, faz testamento em favor da Sé de Braga, … do mosteiro de Rates, de outras igrejas e de diversas pessoas:

… et Arias  Petriz Iº bove et Sancto Petro de Ratis Iª vacca et XII modios de pan…”

V I L A    D O    C O N D E

                                                           PRIMEIRO  TOMO

Documento  nº 108, com data de 2 de Abril de 1081:

“ Dolquite Moniz e esposa Elvira Pais vendem ao diácono Galindo Alvites a sexta parte dos bens que possuem em Mindelo…com as respectivas pesqueiras.”

Documento nº 110, de 30 de Dezembro de 1082:

“O diácono Galindo Alvites doa à Sé de Braga a sexta parte da vila e da igreja de Mindelo…com as suas pesqueiras, que comprou a Dolquite Moniz e esposa.”

TERCEIRO  TOMO

Documento nº 612, com data de 29 de Junho de 1082:

“O diácono Galindo Alvites doa à Sé de Braga a sexta parte da vila e igreja de Mindelo…com as suas pesqueiras.”

Documento nº 746, com a data de 1 de Maio de 1127:

“ Gonçalo Fernandes troca com a Sé de Braga a sua herdade… e em Mindelo”.

Documento nº 777, de 22 de Janeiro de 1151:

“ Paio Soares, em  satisfação pelo sacrilégio cometido no mosteiro de Lagoa (conc. de V. N. de Famalicão), doa à Sé de Braga, com reserva de usufruto, o casal da Fonte, no lugar do Freixo, Guilhabreu.”

S   A   L   I   N   A  S  

 T  O  M  O    P  R  I  M  E  I  R  O

VILA DO CONDE

 Documento nº 103, datado de 27 de Julho de 1078 :

“ Froila Crescones doa ao bispo D. Pedro… cinco salinas na foz do Ave.”

Documento nº 104, 28 de Janeiro de 1078 :

“ Froila Crescones doa a Sé… doze talhos de salinas em Vila do Conde e outros bens.”

Documento nº 155, de 14 de Novembro de 1100 :

“ O presbítero Randulfo Leovegiz doa à Sé de Braga duas salinas em Vila do Conde.”

T O M O    S E G U N D O

      D A R Q U E  ( Viana do Castelo )

Documento nº 288, 17 de Abril de 1085:

“Gomes Eitaz e Sesnando Vital e esposas doam ao mosteiro de Santo Antonino três salinas em Darque.”

Documento nº 290, de 2 de Março de 1085:

“ Anagildo e esposa vendem ao abade e frades de Santo Antonino duas salinas em Darque.”

Documento nº 294, 18 de Fevereiro de 1086 :

“ Aires Sandiz e outros doam ao mosteiro de Santo Antonino seis salinas em Darque.”

Documento nº 304, de 24 de Junho de 1091 :

”Sesnando Vidal doa ao mosteiro de Santo Antonino duas salinas em Darque.”

FÃO ( Esposende )

Documento nº 462, Abril de 1135 :

“ Aires Teles e mulher vendem ao arcebispo  de Braga dezanove salinas em Fão.”

TOMO  TERCEIRO

 VILA DO CONDE

Documento nº 615, 27 de Julho de 1078 :

“Froila Crescones doa ao bispo D. Pedro … cinco talhos de salinas na foz do rio Ave.”

Documento nº 616, 1078 (?):

“Froila Crescones, encontrando-se doente faz testamento … pro darent Sancto Isidori pan in adiutorio et pro Bracara XII talios de salinas in Villa de Conde e una mula.”

FÃO ( Esposende )

Documento nº 695, de 21 de Abril de 1111 :

“Paio Forjaz doa à Sé de Braga algumas salinas em Fão (Esposende), umas directamente, e outras no caso de sua filha não ter descendência legítima.”

Documento nº 721, de Abril de 1135 :

“Aires Teles e sua mulher vendem à Sé de Braga dezanove salinas em Fão.”  

 

 

Braga, 14 de Fevereiro de 2008

 

                                                                      LUÍS COSTA

   

 

 

 

 

 

 

        

         

 

  

 

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02
Fev 10
UM COMÍCIO POLÍTICO EM 1960 Prólogo: Figurantes: Apresentante, Regedor, Candidato a Deputado, Zé Povinho e Zé Póvinhas. Fala o apresentador: De teatro uma peça Vou tentar apresentar. Mas que ninguém a meça Pois por métrica não sei pensar ! O que vos vou relatar Numa praia perto do Porto Acabou por se passar. Um regedor atrapalhado Quase dava em morto, Por barco não ver varado Onde pudesse … evacuar ! Facto relatado nos jornais P’ra quem quisesse ler. Era uma oportunidade Que não se podia perder ! Aproveitar tal história, Sem incómodo da Censura, Logo me passou p’la memória. A ideia surgiu com pressura Rapo do lápis e escrevo Um artigo de chalaça. E pela Censura passa, E eu a tremer de medo ! No dia anterior ! Fala o regedor : Minha gente, amanhã, Vamos fazer um comício Ao qual ninguém faltará Senão vai parar ao hospício ! Uma mulher do povo: Mas “seu” regedor, p’ra que é Q’a gente tem de vir ? Se não puzer cá o pé, Onde é que eu vou cair ? O regedor: Já lhe disse e ordenei; Mas quem não for Ao comício que planeei, Terá que se haver com dor ! A mulher: Mas “seu” regedor Eu cá não sou política Nem m’interessa o governador Q’o senhor nos indica ! O regedor: Cale-se, sua besta ! Faça o que lhe ordenar. Ponha merenda na cesta P’ró deputado petiscar ! A mulher : Então política é comer À custa de todo o povo ? Ora vá lá se …morder, Q’o seu cantar não é novo ! O regedor: Pois então estas noites, Já sabe onde dormirá ! A Pide lhe dará açoites, E o mais q’adiante verá ! A mulher: Triste vida é a nossa De ter de os “agantar”. “Inda” quer que não possa Estar contente, sem piar ! O apresentante: À noite lá foi a gancho A mulher tão refilona. Não comeu só rancho, Comeu também “tapona” ! O regedor “bota faladura” Montemos o cenário,. Voltemos ao tempo, Tomaz O regedor Zé Canário Sabe bem o que faz ! O apresentante: No dia do comício Estava o terreiro cheio ! Montaram um edifício, P’ra se falar sem receio ! Mesa p’r’ós oradores Botarem figura do fino, Nem os afligirem os ardores Do Sol mesmo a pino ! Uma praça cheia de gente, Todinha a abarrotar. O regedor está presente, Vai principiar a falar ! O regedor: Fala para o deputado Imponente todo inchado : Como vê, caro deputado, Quem manda aqui sou eu ! Tomei conta do recado Q’o senhor ontem me deu! O deputado: Em confidência para o regedor Que se mostrava tão falador: Assim é que é. Traze-los Bem presos às ideias ; Caso contrário é prende-los P’ra lhes acabar c’o as peneiras ! O apresentante: Tudo a postos, vai começar a sessão. E cada um tratará da sua função. Fala ; Primeiro o deputado, Até aí muito calado : Vou apresentar um programa Em que todos votarão ! Pois de trás, traz fama, Pois é a “Bem da Nação” Um programa de concórdia Que é o da “Acção Popular”; Não é o da discórdia P’ra que nos querem levar ! Á parte, em surdina: A ferro e fogo, se preciso, P’ra saber quem manda ! Salazar é nosso amigo, Faz-nos encher a “pança” ! Voltando-se para o Zé Povinho: Não tendes alternativa, Já vos disse o regedor. Se quereis boa vida, Salazar é nosso senhor ! Ele é quem manda ! Vós como gentes portuguesas, Deveis defender-nos na dança Duma “eleição sem surpresas” ! O Zé Povinho, à parte : Olha que esta é boa ! A gente tem que votar Em quem, lá de Lisboa, Nos interessa governar ? Se eles tem tanto interesse, Teremos que desconfiar, Pois é grande a messe, E o que querem é “mamar” ! O regedor, pensando : Raio, nunca mais acaba Este gajo de falar, E no íntimo pensava, As ameixas “tavam por madurar” ! Pois a barriga às voltas, Lhe fazia recordar Q’as tripas andavam soltas, E o que queria era… despejar ! Fala o apresentante: E o deputado falava, falava, E o programa apresentava ; E o regedor suava, suava ; E a barriga apertava, apertava ! Por fim o deputado, Acabou c’o palavriado. E o regedor, coitado De tanto sofrer, entalado Principiou o seu discurso; Rapa do papel. E suando como um urso Começou o aranzel ! O regedor : Meus amigos, vou A c’o a pressa com que estou, Apresentar o programa Q’a nossa terra reclama ! Como sabeis ao votar No partido “Nacional” Podeis contar C’o melhor q’á em Portugal ! Digo-vos que com o programa Que vos vou apresentar, Todos terão cama, Boa ou má p’ra se deitar 1 Fome e sede não passarão ! Cama, mesa e roupa lavada, Mesmo q’uma levada, Vos carregue p’ra prisão ! Que melhor situação Querem vocês, seus palermas ? Votem com a “Nação”, Não tereis problemas ! Á parte : Mas se não quiseres votar, Cá estou à vossa espera. “Pedreiros livres”, nem pensar, Ideia que não entra na terra ! De novo voltado para o Zé povinho : Podeis estar tranquilos, C’os homens que vão mandar. São todos nossos amigos, Ás ordens de Salazar ! ---------------- Voz do apresentante : De repente, em grandes ais Corre até à penedia, E ali se alivia, Pois não podia mais ! E por onde passou A sofrer co’a a dor, Um perfume deixou Que diziam ser fedor ! Aqui acaba a história Do comício naquela vilória, Q’ali p’rós lados do Porto, Ia dando c’o regedor morto ! Acabada a função Vamos nos despedir. Adeus, até então, Só quisemos fazer rir ! Braga, 1960 VISADO PELA COMISSÃO DE CENSURA Agora!!!... não foi. (distribuído secretamente aos amigos do REVIRALHO )
publicado por Varziano às 16:37

17
Jun 09
A FEIRA DA LENHA E DOS PORCOS NO MONTE DAS DORES Quem se lembrará hoje daquela velha feira da lenha e dos porcos que nos finais dos anos de vinte e princípios de trinta do século que findou se realizava, semanalmente ás quarta feiras, no largo das Dores ? Alguma velha carcaça como eu, a caminho dos oitenta e oito. Logo pela manhãzinha, ainda sem despontar a aurora, os lavradores ocorriam aquele vasto largo ocupado entre a Capela da Senhora das Dores, Igreja da Misericórdia, Hospital e Escola Conde Ferreira, um lugar estratégico para porem bem à vista os carros de bois puxados por valentes juntas com as canhotas de pinheiro, único combustível usado para a confecção das refeições e mesmo para as padarias cozerem o pão. Era um tempo que hoje recordo com saudade, em que me parece que os alimentos tinham outro sabor, principalmente o pão, a boroa, como por vezes nos é dado hoje, com o gosto e até cheiro do gasóleo. Que bom era uma sardinhada assada nas brasas das canhotas !!! Hoje, nas nossas casas ou é assador eléctrico ou assador a gás. Deixaram de pingar, na brasa e logo, estragam o pitéu. Mas não é pitéu a razão da crónica de hoje, é a feira das quartas no largo das Dores. Como disse, e isto comprovava-o com a minha avó, quando o stok das canhotas no casinhoto do fundo do quintal estava quase a esgotar-se ou o inverno se aproximava, era preciso proceder à renovação e mesmo prevenir porque a lenha ou estava molhada ou verde. Com olho experimentado, ou ela não tivesse a sua origem nos altos de Bastuço (Bastuces, como diz o pescador poveiro, quando no mar alto procura orientação), por entre os pinheirais que lhe serviram de berço, escolhia a melhor carga e com espírito de boa observadora avaliava a dezena de canhotas, o seu estado de seca e discutia com mestria a quantidade da carga, o seu o preço certo. Era um “corre-corre” até meio da manhã, a procura da lenha era uma necessidade – eram os padeiros, os donos dos hotéis e restaurantes, enfim as donas de casa – todos procuravam o melhor lote e o mais barato e, porque com os carreteiros, assim se chamavam os vendedores, os carros carregados chegavam aos seus destinatários sem mais qualquer ónus. A feira decorria, entre o espaço que disse, já que a parte nascente, ou melhor a parte norte-nascente, em frente da Cadeia, estava ocupada pelos grossos toros das árvores que foram derrubadas em toda a Avenida Mousinho, que tinha sido um túnel arbóreo desde praticamente o Passeio Alegre até à Misericórdia. Talvez, e aí tenho uma certa dúvida, haveria por certo, algum vendedor de pinhas e carqueja, combustível ideal para incendiar a lenha, previamente partida em cavacos. Alinhados os carros ao longo dos carreiros, os vendedores procuravam estabelecer o seu negócio que alguns deles completavam para a venda de suínos, já que a feira tinha o aspecto de venda de lenha e assim de “uma só cajada” matavam dois coelhos com soí dizer-se, e, principalmente as feiras onde mais eram transaccionados decorriam entre os meses de Outubro e Novembro, próximo da época da matança. No entanto nos outros meses do ano eles também apareciam não tanto para venda mas para proceder à operação que destinaria os bácoros à engorda. Nesses já longínquos fins de vinte do século passado e ainda alguns da seguinte década, o adro da igreja da Senhora das Dores, ainda não estava delimitado por a hoje balaustrada e, como tal, local para a rapaziada da Escola ao lado, Conde Ferreira - agora ocupado pela G.N-R. – assistir, comodamente sentado e com as pernas a balouçar aos negócios que se estavam a realizar. Hoje, dir-se-á e com razão, o cruel e que mais impressionava a catraiada era o espectáculo de capar os infelizes bacorinhos. Nesse tempo não sabíamos para que os capavam e já depois de anos é que chegaríamos á conclusão da razão porque sujeitavam os pobres animais aquela torpeza. Uns carrancudos e insensíveis homens, os chamados capadores, exerciam a sua tenebrosa profissão, à vista de miudagem, da navalha em punho, cortavam, eliminando sem dó nem piedade o aparelho reprodutor da espécie. Sinistra operação para o sacrifício, é certo que necessário para a engorda que normalmente viria a ter lugar em Novembro, e que de novo num espectáculo impressionante feito na presença de observadores, crianças e adultos. Amarrado o suíno, bem nutrido de carnes e gordura, aos guinchos tenebrosos, como parecendo que estava a adivinhar a sua sorte, presas as patas dianteiras e traseiras, que viriam a tornar-se em belos e saborosos presuntos, era colocado no banco do sacrifício, de lado, enquanto que dois fortes “carrascos, lhe seguravam a cabeça, imobilizando-o para o que “matador” munido de um grande facalhão num golpe certeiro o introduzisse até ao coração e escorrendo o sangue para um alguidar, onde mais tarde se transformaria juntamente com os temperos e algumas miudezas nas famosas morcelas tão agradáveis ao paladar no tradicional cosido à portuguesa minhoto. Depois, um molho de palha a arder, era passado pelo cadáver, e a pelagem desaparecia consumida peças chamas. Finalmente, depois de dependurado para escorrer o pouco sangue que restava e a água da lavagem era esquartejado e a salgadeira era o destino da carcaça para, pode dizer-se, passar a ser a reserva alimentar para os meses e semanas que seguiriam, sendo, para muitos, uma bem sortida reserva e a única que carne consumiam. Costumes bárbaro, não admissível os tempos de hoje, a matança, tal como era efectuada, e ainda é nos recônditos lugarejos desta tradicional região, é um costume que aos poucos vai desaparecendo, dadas as campanhas que se fazem para a sua abolição desta maneira de prover as salgadeiras. Hoje a morte do bicho é mais sensata e o sofrimento do animal quase nem é sentido. Também agora, a dispensa não precisa desse abastecimento. Os talhantes estão sempre providos e, sanitariamente, o público tem a sua saúde protegida. Mas a rapaziada, ficou a perder. Diziam que as cerdas eram ideais para pincéís, e vai daí, à sucapa, toca a arrancar os pelos para os construir, para as pinturas a aguarela que tinham de desenhar nos cadernos. Braga, 18 de Maio de 2009 LUIS COSTA
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11
Jan 09
B O A S F E S T A S Nos resquícios da minha esfumada memória veio-me à lembrança de que quando, no primeiro lustre dos anos de 20 do século passado, eu então menino, talvez com quatro anos, morava com meus pais, no então largo do correio, numa casa mesmo à ilharga do posto, uma geradora ( hoje sei que assim se chama ), se achava ali instalada no centro do largo. Será que seja uma fantasia que se arreigou no meu pensamento, ou seria de facto um primeiro ensaio de fornecimento de energia eléctrica à Póvoa ? É uma dúvida que me assalta mas, a impressão resulta de uma descarga eléctrica, tal qual um raio, que parece me assustou. Quanto a certeza de luz eléctrica à Póvoa, tenho-a, de várias vezes, nos intervalos da escola Conde Ferreira, ir espreitar o conjunto montado em 1925 na Central Eléctrica no Largo Da Senhora das Dores, junto à cadeia. Mas o assunto deste apontamento, não é o do fornecimento da energia a uma pequena parte das casas poveiras, ou mesmo da iluminação pública, nesse tempo talvez a meia dúzia de arruamentos e outras tantas casas. A iluminação, na maior parte das casas particulares, era apenas restrita às principais salas e o resto continuava a ser fornecida pelas velhas velas de estearina. Não porque a energia fosse cara, como agora, mas as instalações eram-no e as lâmpadas de filamento de carvão não eram práticas, bastava um pequeno abanão e lá iam “p’ró maneta”. Mais tarde foram substituídas por filamento a tungsténio ou outro material e então a sua resistência passou a ser maior. No entanto as lâmpadas de carvão, de excessivo consumo (chegaram a substituir os vulgares transformadores da campainhas eléctricas ), se não lhes tocassem, as deixassem estar quietinhas, duravam uma eternidade. Mas deixemos estes preâmbulos a vamos ao assunto que originou este apontamento. Logo após a instalação da Central Eléctrica no Monte das Dores, os directores e pessoal da electricidade tinham na noite de Natal, um curioso meio de desejar as Boas Festas, aqueles que eram seus clientes e possuíam a felicidade de ter à mão do interruptor para iluminar a sua sala da ceia de Natal. Consistia esse sistema de desejar um Santo Natal, em interromper, por breves segundos e por três vezes, o fornecimento da LUZ ELECTRICA . Braga, Natal de 2008 LUIS COSTA www: varziano.blogs.sapo.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt www: bragamonumental2.blogs.sapo.pt email: luisdiasdacosta@clix.pt
publicado por Varziano às 17:20

03
Nov 08
Expostos 2 – continuação Como dissemos a Câmara, não tendo possibilidades para as necessárias obras de remodelação da casa dos expostos do Campo de Touros, e para obter alguma comparticipação nos encargos com as instalações alugadas e também conseguir alguns proventos para ajuda da sustentação dos expostos resolveu vender o antigo albergue. A isso se opôs o arcebispo alegando que o prédio pertencia ao arcebispado. Valeu à Câmara o registo da troca e escambo inserida no livro de Tombos com a afirmação confirmada por Dom José de Bragança, arcebispo. Sem mais entraves procedeu-se à venda do prédio que, segundo nos parece, é onde hoje está instalada a farmácia Coelho. O REGISTO DOS EXPOSTOS Quando uma criança era lançada na roda, a rodeira, pessoa encarregada de ter à sua conta o cargo da roda, assim chamado o recipiente onde se colocavam os expostos – cilindro aberto por metade de um lado e fechado pela outra metade – tinha ao seu lado um sino ou campana que servia para chamar a atenção que o sítio tinha lá freguês. A rodeira, logo que o recolhia tinha de ter o cuidado de ver qual a marca que a criança trazia – por exemplo uma tesourada no cabelo junto à testa ou orelha, uma medalha, com a figura de um santo ou qualquer outro símbolo, uma fralda de determinada cor – isto é, qualquer coisa que a pudesse vir a identificar, no caso de mais tarde vir a ser reclamado. Num livro próprio, era anotada essa marca e bem assim a data em que foi encontrado na roda. Por vezes, um bilhete anónimo colocado na sua roupa informava que o exposto já tinha sido baptizado e indicando também o nome de baptismo. Outras missivas pediam para o baptizarem indicando um nome que deveria ser-lhe posto. Muitas e muitas vezes, apenas traziam a marca e mais nada. Cabia ao vereador dos expostos – sempre havia um com este cargo - de resolver os problemas e anotar no respectivo livro os elementos que serviriam mais tarde para os identificar para entrega a quem, de direito, os reclamasse. Convém anotar que muitas vezes a entrega à Casa da Roda de um exposto, era motivada pela falta de condições das mães pelo seu sustento e tratamento e não por simples abandono. As crianças eram mantidas sob a administração da instituição até aos sete anos, idade em que eram reclamadas pelos seus familiares, quando estes apareciam, ou passavam para outras instituições, onde houvesse vaga. A Câmara só era responsável até aos sete anos, partindo do princípio, errado, de que um ente com sete anos já se podia defender !... O Director da Casa, entregava sempre que possível, os expostos a amas criadeiras, pagando a cada uma, isto em 1876, a importância de 260 reis diários, como salário, para o seu sustento e criação dos expostos. Se é certo que algumas os acarinhavam como seus filhos, outras havia que apenas serviam para os explorar, dedicando-os à mendicidade. O vereador constantemente procedia, podemos dizer a um inquérito, convocando as amas e as crianças para evitar abusos. Tinham os expostos um certo apoio médico e até, quando o médico do partido achava necessário, iam a tratamento termal e até a banhos de mar. Curiosa era a maneira, pelo menos no que diz respeito a banhos de mar, como se processava essa ida a banhos. O médico indicava o número de mergulhos no mar e o vereador passava a guia dirigida à autoridade do local onde se iria fazer o tratamento. Por umas actas da Câmara de Braga, de meados do século dezanove sabemos como se processava esse tratamento. Depois de ser atestado pelo médico a necessidade de banhos de mar de um determinado exposto, foi escolhida a praia da Póvoa de Varzim. Passada a autorização, foi então passada uma guia na qual estava mencionado o nome do órfão ou exposto e bem assim o nome da ama. Esta recebeu a quantia necessária para a deslocação e tendo como obrigação de, chegada à Póvoa, se apresentar ao Administrador do Concelho para, no registo poveiro, ser anotado o número de banhos prescrito pelo facultativo. Findo o tratamento a ama voltaria à presença do Administrador do Concelho para este passar atestado em como, o menor, tinha cumprido a prescrição médica, isto é, tinha dado o número de “cachafundas” medicadas, atestado que serviria para apresentar ao respectivo vereador, em Braga, provando que se tinha cumprido com a receita médica e assim poder, a ama, receber o estipêndio acordado. Este foi, talvez, uma maneira, prática e cómoda, de uma ama passar umas férias e provar as salsas águas do mar da Póvoa!... Alguns dos recolhidos na Casa da Roda, apesar do seu triste início de vida, vieram mais tarde a ser a compensados pelo seu trabalho e até pela sorte. De alguns temos exemplos extraordinários, apesar o estigma que os apontava como Expostos no seu nome. Aqui bem perto de Braga, um dos grandes empresários tinha no final do seu nome o de Exposto, por certo por não ter ido reconhecimento. Um outro, recolhido no final do século dezanove, chegou a ser um capitalista e, no final da sua vida, considerado um benemérito e homenageado com todo o direito. Recolhido na Roda de Braga, foi aos sete anos entregue a um dos principais comerciantes desta cidade e que quando o viu completar catorze anos o encaminhou para o Brasil, onde pela sua honradez e trabalho, angariou uma considerável fortuna. De regresso a Portugal, trouxe consigo o mal daqueles tórridos e húmidos climas do Amazonas, o reumatismo. Procurando remédio em quase todas as termas nacionais e experimentando todos os remédios aconselhados, nunca surtiu melhoras até, alguém o aconselhou os banhos quentes, da Póvoa do Mar. Assim procurou a Póvoa, onde talvez tivesse tido a dita de, em miúdo, por lá passar. Foi remédio santo. As melhoras se foram acentuando de tal maneira que naquela praia fixou residência e por lá acabou os seus dias. Foi um grande benemérito da Póvoa que em agradecimento atribuiu o seu nome – Santos Minho - a um arruado poveiro e lhe construiu um mausoléu no Cemitério da Giesteira. O seu nome da baptismo era o de João Santos, mas adoptou o de Minho, província que o viu nascer. Notável foi a sua acção perante a Câmara de Braga. No seu testamento deixou à edilidade bracarense, o importante donativo de duzentos mil reis, afirmando que julgava seria, talvez, essa quantia que tinha sido dispendida pela Câmara, com o seu internamento na Casa da Roda. Braga, 2 de Novembro de 2008 LUIS COSTA www: bragamonumental.blogs.sapo.pt www: bragamonumental2.blogs.sapo.pt www: varziano.blogs.sapo.pt email: luisdiasdacosta@clix.pt.
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LUIS COSTA O S E X P O S T O S AS CASAS DA RODA DE BRAGA No Campo de Touros em parte do que foi depois o Edifício do Paço de Dom José (Arquivo Distrital de Braga) Ainda no Campo de Touros, por perto do que foi Edifício dos Órfãos de São Caetano Finalmente na rua de São João do Souto no Casa dos Paiva Marinho UBATI –Universidade Bracarense do Autodidacta e da Terceira Idade 2008 AS CASAS DA RODA DE BRAGA ORFÃOS E EXPOSTOS Por certo para grande parte dos bracarenses, ao falarmos da Casa da Roda, todos aliam a sua localização no edifício da rua de São João do Souto e com razão, pois não há nem poderia existir alguém na cidade que se possa lembrar doutro local onde se recolhiam essas crianças, exposta ou órfãs. O actual edifício que foi o último a receber esses quase, senão mesmo muitas vezes, desprezados da sociedade quem os gerou. Mas vamos por hoje recuar uns centos de anos, e até milénios. Podemos pensar que o abandono de entes, quase que logo à nascença, é uma coisa que vem de muito longe. Uns para encobrir maternidade ou paternidade; outros, eram entregues incógnitos, que por dificuldades financeiras, não podiam dar a assistência aos seus filhos, alimentar e medicamentosa e, ainda por outras razões como a das perseguições religiosas. Recordemos aqui Moisés, colocado numa balsa ou cesto, por sua mãe, uma mulher da tribo de Levi, o lançou, vogando rio Nilo abaixo para assim ser salvo da morte que havia sido decretada por um faraó egípcio, ordenando que todas as crianças do sexo masculino judias seriam assassinadas, tendo vindo a ser sido recolhido pela filha do rei. Talvez, em Portugal, o caso de abandono ou entregue de recém nascidos a outros, amas (mães adoptivas), abandonados ou entregues a instituições se tenha acentuado, a partir do século XIV, quando o “o cheiro da pimenta e da canela” fez com que “se despovoasse o reino” , com o embarque para as conquistas de muitos jovens que deixavam à míngua as suas mulheres e filhos. Parece e mesmo segundo a tradição,”vox populi, vox Dei”, uma das primeiras pessoas que sentiu esse descalabro foi logo no princípio do século XVI, o arcebispo bracarense Dom Diogo de Sousa que tentou, em Braga, dar algum remédio a este problema fazendo um, podemos dizer, ensaio, recolhendo uns expostos na conhecida casa do Passadiço. No entanto é uma afirmação, não documentada e, portanto, de crédito duvidoso. A ser verdade seria talvez este o primeiro albergue para expostos em Braga. Mas de certeza temos o da instalação da Casa dos Expostos no Campo de Touros (Praça Municipal). O seu local era onde hoje está o Paço de Dom José, Arcebispo de Braga, onde agora se encontra instalado o Arquivo Distrital e Biblioteca Pública de Braga, na parte voltada para o referido campo e do lado antiga capela de Santo António da Praça. Mas façamos um pouco de história. Dom José de Bragança, ao chegar a Braga, quis como Príncipe Real, estabelecer na sua cidade uma corte, já que assim vinha habituado desde Lisboa, achando que não se coadunava com a sua categoria real o paço dos antigos arcebispos. Como existia nesse lado nascente do Campo de Touros um albergue Casa dos Expostos, entrave aos seus projectos de fazer um palácio grandioso nesse local, airoso e desafogado, tratou com a Câmara, que iria também situá-la no Campo de Touros, ou do Arcebispo, nome este que vinha do tempo de Dom Agostinho de Jesus, de o desafectar do domínio camarário por troca ou escambo, conforme consta do livro de Tombos da Câmara do período de 1750, com uma casa, nesse campo edificada, e pertença do arcebispado junto ao que, onde mais tarde, foi a primeira séde do Colégio dos Órfãos. Ora, portanto, à face de documentos é esta Casa de Expostos, no local da Biblioteca, considerada a primeira casa de Expostos, ou a Chamada Casa da Roda de Braga. Resolvido o desiderato, a Casa de Expostos e Órfãos, passou a ocupar um prédio no lado norte do campo de Touros, como dissemos, entre o edifício que mais tarde foi a primeira séde do Colégio dos Órfãos de São Caetano e a casa Costas Pereira. Aqui se manteve durante perto de 150 anos até que o adiantado estado de degradação e higiene aconselhava a obras dispendiosas. Vendo, a direcção, sob a direcção do Presidente da Câmara, Dr. Jerónimo da Cunha Pimentel que muito convinha obter um edifício próprio, com mais comodidades e onde se estabelecesse definitivamente o hospício, propôs à Junta Geral do Distrito que votasse a quantia de 1:800$000 reis, para a compra de uma casa condigna destinada a tal fim não tendo a Junta anuído ao pedido Gorada esta solução, a Câmara, cujo responsabilidade pela administração dos Expostos e casa era da sua competência, viu que não tinha disponibilidades financeiras para se lançar no empreendimento. E assim depois de muitos considerandos, consultas e exposições, resolveu, estava-se quase no último quarteirão século dezanove, alugar pela fabulosa quantia de cem mil reis anuais, a casa dos Paivas, ou da rua de São João, gaveto com a antiga rua das Oussias (Rua de Nossa Senhora do Leite) e que hoje conhecemos por Casa da Roda. Passou esta a ser, portanto, a segunda e última Casa dos Órfãos e Expostos de Braga – vulgo Casa da Roda. E assim desde finais do século XIX e até cerca de 1930, serviu esta casa para albergar os expostos e órfãos não só de Braga, como de concelhos limítrofes – a princípio vinham caír a Braga expostos de Amares, Terras do Bouro, Aboim da Nóbrega, Larim e outro concelhos, alguns depois extintos pela reforma de 1850. Esses de fora do concelho de Braga, eram aqui alojados mas as despesas eram cobertas pelas respectivas Câmaras as quais pertenciam mas muitas vezes os atrasos eram notórios e a Câmara de Braga, via-se na necessidade de intimar o pagamento dos débitos. Cerca de 1930, acabaram as Casas de Expostos, em Portugal. Um decreto emanado pelo Governo, extingui-as. Em Braga era já muito reduzido o número de expostos mas havia necessidade de lhes dar uma saída. Primeiro foi tentada a sua colocação na Santa Casa da Misericórdia, que tinha recebido um importante legado para os expostos, mas isso se opôs a direcção, os médicos e enfermeiros pois achavam que não estava nas suas atribuições tratar de expostos mas sim de doentes e mesmo era um perigo levar crianças sadias para um hospital. Depois foi tentada com êxito a colocação desses miúdos na Creche de Braga, onde foram recebidos e por lá terminaram a sua estadia até aos sete anos, idade em que foram entregues às famílias que os reconheciam, ou passaram a outras instituições como, mais tarde, o Colégio dos Órfãos. Pelas gravuras que acompanham esta crónica poder-se-à localizar as casas que em Braga prestaram assistência a expostos. A gravura nº 1, mostra-nos a Casa do Passadiço, (século XVI), mandada construir pelo Deão do Cabido da Sé, D. João da Guarda, casa ou local onde possivelmente serviu para Dom Diogo de Sousa albergar uns expostos. A gravura nº2, revela um aspecto do Campo de Touros, com o edifício da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, ocupando o local onde esteve a Casa dos Expostos. A gravura nº 3, mostra outro aspecto do Campo de Touros com o edifício dos Órfãos de São Caetano, a casa dos Expostos e a Casa Costas Pereira. Nº 4, vê-se a Casa dos Paivas, ou agora conhecida por Casa da Roda. Nº5, aspecto da Casa da Roda, antes da recuperação . Nota: As gravuras 1 e 4, são extraídas do livro “As ruas de Braga”, 1750. As Nºs 2 e 3, são desenhos de João Vieira Gomes, o Dr. Chasco, 1834. . . / . . .
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Set 08
DA JUNQUEIRA AO FERRO DE ENGOMAR - 4 - Recordo, na Junqueira, o dentista Truco, logo seguida do salão de cabeleireiro de homens, Bastos, a casa de confecção de chapéus de senhora, Umbelina Bastos, a farmácia Moderna, onde se reunia uma tertúlia de advogados e magistrados, sob a proficiente assistência do farmacêutico Lemos. Em frente, a marcenaria do Bailardo, destruída por volta dos finais dos anos de vinte, por um pavoroso incêndio. Não se pode esquecer a loja de tamanqueiro e sapataria do Abreu, com a sua enorme bota de propaganda sobre a porta de principal - A Bota do Abreu. Segundo Fernando Barbosa, esta bota tinha história, era um testemunho físico da revolta militar do 31 de Janeiro. Nesse dia estava a assinalar um estabelecimento do género na rua de Santo António, no Porto, e como prova tinha bem marcados os buracos das balas, o que ele dizia com graça “ter sido fuzilada”. Continuando, por volta dos finais dos anos vinte e princípios de trinta ainda se encontrava por este lanço da rua o estabelecimento do espanhol, Alejandro Flores, “O Rendeiro”, como era conhecido, junto da Ourivesaria Gomes, local depois ocupado pela sociedade da ourivesaria, que aqui instalou, creio, um comércio de antiguidades. Na fachada da Ourivesaria Gomes, havia e há uma curiosidade que despertava, e certamente ainda hoje desperta, a atenção da gente miúda e graúda – de um lado o relógio marca 24 horas e, do outro, 12. Também neste estabelecimento, dois grandes espelhos colocados ao fundo, davam a ilusão de um enormíssimo estabelecimento. Nele imperava, como num trono, a figura da filha de António Gomes, a Menina Irene. Quase em frente da ourivesaria, estava um local onde se reunia a maior parte da juventude intelectual poveira. Tratava-se da Livraria Académica, onde o saudoso livreiro-poeta Ademário Ferreira, disputava a primazia de todas as novidades literárias. Este poveiro, que andou, como muitos dos seus compatriotas, pelos ares de Manaus, deixou pelo menos uma dúzia de pequenas obras de poesia de entre as quais podemos destacar “Tristes Rebentos”, “Braçado de Cravos”, “Castanhas, Figos e Nozes”, “Tigela de Amores” e outras que, certamente, se encontram na Biblioteca Poveira. Na fachada desta livraria e como que suportando a varanda, duas elegantes sereias foram esculpidas, coisa escandalosa para os moralistas da época que, em resultado, fizeram com que pelas suas recriminações deixassem de passar pela Junqueira as procissões. Ademário Ferreira, pode dizer-se, foi o precursor da emissão da música gravada na Póvoa. Na varanda colocou uns altifalantes que durante o dia faziam ouvir as modinhas da época. Mais ou menos em frente à Académica, estava uma padaria ( não tenho a certeza do seu nome, mas parece-me que era do “Marinheiro”) e logo a seguir estava um comerciante, cuja especialidade era a venda de café, e que tinha como atractivo publicitário uma escultura de um menino negro, que veio a dar o nome ao estabelecimento – O Pretinho. Essa pequena escultura veio parar a Braga, onde se encontra numa espécie de quiosque, junto à Sé. O negócio dos artigos de Carnaval – bombinhas, trik-trak, ampolas mal cheirosas, serpentinas, confetti, bisnagas de perfume e outros artigos eram vendidos pelo Baldomero, uma casa de brik-a-brak, situada pouco depois do Pretinho. Nos dias de Carnaval, a Junqueira era um lugar de festa. No gaveto formado pela Junqueira e dando saída para o lado da praia do pescado, estava e ainda está a padaria do Cadeco, fundada por um mareante que pelo seu mister de padeiro, trabalhando em navios, correu meio mundo. No lado contrário e já no velho Ferro de Engomar, uma senhora já de certa idade, vendia fruta, castanhas, verduras e rebuçados. O Ferro de Engomar, atribuído pela giria poveira, ao quarteirão formado pela travessa de acesso a Santos Minho, Garrett, largo Dr. David Alves e final da Junqueira, esteve durante muitos anos ameaçado de demolição, o que veio a ser posto de parte, muito embora fosse desejado por muita gente. Finalmente chegamos ao antigo largo do Café Chinês, nome que recebeu por influência deste café, que pela ousadia da sua decoração oriental, era o mais luxuoso da Póvoa. Serviu, praticamente, desde a regulamentação do jogo da fortuna e azar, como sala oficial de jogo na Póvoa de Varzim. Num dos seus ângulos, e quase em frente da Farmácia Rainha, estava a Camisaria Hig-life ( parece ser assim que se escreve) e no outro uma barbearia. No lado norte deste largo era a residência do Dr. David Alves e dos seus filhos Neca David, com a esposa, e Davidinho. O filhos de Neca David, Manuel, João Paulo, Rui e a filha Ana Maria, ali viveram nos tempos que passei na Póvoa, e com os quais mantive longa amizade. Também neste largo tiveram consultório os médicos Dr. Abílio Garcia de Carvalho e Dr. Silva Pereira. Voltando recorrer ao já várias vezes citado velho Comércio, ali esteve instalada a firma: EMPREZA ELECTRICA POVOENSE, LIMITADA Máquinas eléctricas, motores, ventoinhas, para-raios, candieiros, etc. O maior stock de material eléctrico para todas as instalações. Únicos depositários das afamadas lâmpadas FILIPS --- Orçamentos grátis ----- Largo do Café Chinês, 12 Para terminar este nosso passeio diremos que, de São Roque, pela Junqueira e até ao largo Café Chinês, este trajecto foi sempre UM VERDADEIRO CENTRO COMERCIAL e que, portanto não foi preciso chegar o século vinte para se inventar esta maneira de comerciar. Aqui podiam e podem os noivos procurar o seu enxoval e as donas de casa abastecer a sua dispensa, afora os produtos do mar e os de produção animal. Braga, 14 de Agosto de 2008 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 16:15

AINDA NA JUNQUEIRA - 3 - Continuando na nossa rota Junqueira fora, e como ficamos no entroncamento desta principal rua poveira com a rua Cândido Landolt, centro comercial de envergadura, lugar de passeio, abrigado das inclemências das nortadas e, como tal, muito frequentado, especialmente de verão, onde as montras dos seus numerosos estabelecimentos são avidamente escalpelizadas, principalmente pelas gentis veraneantes, diremos que quase em frente da ourivesaria Fontainha, encontrava-se a Farmácia Prudêncio e, enfrentando esta uma alfaiataria, cujo proprietário era conhecido por um apelido que agora já não recordo. Metros à frente, era a Pensão Guimarães, e agora recordo o velho amigo Nené Guimarães, um desportista que chegou a fazer parte da equipa do Sporting Clube da Póvoa, defendendo as suas balizas. Enfrentando esta casa outra pensão existia e, senão me engano era a Famalicense, onde por volta dos anos quarenta chegou a ser sede do glorioso Varzim. Deixando a Pensão Guimarães, encontramos a lavandaria Reina, que ocupa o lugar de um terreno que pertencia a Avelino Barros. Antes de ser vendido à lavandaria, esteve aqui por um ou dois meses, uma cascata monumental movimentada. As instalações da Lavandaria Reina, situavam-se antes do actual local, um pouco a frente, no lado poente. Recorrendo de novo ao velho exemplar do Comércio citado, vamos extrair um novo anúncio : “SAPATARIA VELHINHO” # DE # ÁLVARO DIAS DE OLIVEIRA Rua Cinco de Outubro, 31 Nesta sapataria executam-se sempre os mais recentes modelos de calçado de luxo, para senhora homem e criança. Fabricação de botas e bolas para Foot-ball ELEGÂNCIA, PERFEIÇÃO E SOLIDEZ A galeria de exposição da Fotografia Avelino Barros, encontrava-se em frente do Velhinho, e ao lado desta galeria morava uma pobre mulher, não no sentido que se pobreza, mas sim de doente, a Maria do Sol. Tinha a mania de sempre que saía de casa a trancar pela parte de fora e, por vezes, era um grande problema para nela entrar. Pouco depois, e neste mesmo lado encontrava-se o estabelecimento do “Calças Curtas”, que veio a também a ser ocupado pelos finais dos anos de trinta pelo Marcelo. Continuando na descrição de estabelecimentos, por volta dos anos 34, neste lado nascente da Junqueira, foi fundada a “Rosa de Ouro”, uma mercearia fina, cujos sócios eram o Coelho e Joaquim Teófilo Nunes Bento. O nome desta casa resultou de uma guerra de duas rosas ( não só a Grã-Bretanha pode citar uma Guerra das duas rosas, também a Póvoa a teve e na Junqueira ). Em tempos tinha existido uma casa comercial, na Junqueira, com o nome de “Rosa Chã”, nome aproveitado para um novo estabelecimento, cujos proprietários eram Coelho & Oliveira. Por razões que não vem para aqui, a sociedade desfez-se e dai resultaram dois estabelecimentos de mercearia fina. Formaram-se duas novas sociedades, uma Coelho & Bento e a outra Oliveira & Gonçalves, tendo esta registado na Conservatória do Registo Comercial, o nome de “Rosa Chã”. Com o registo feito, só Oliveira & Gonçalves é que podia usar o nome de “Rosa Chã”. Foi o diabo e assim principiou a guerra, tendo a firma Coelho & Bento de adoptar uma nova designação “Rosa de Ouro”. Sentindo-se estes prejudicados um deles fez imprimir uma espécie de comunicado alegando as suas razões, impresso que foi distribuído profusamente pelos seus clientes e população poveira. Estávamos no princípio da ditadura e os governantes não podiam deixar que isto acontecesse. Talvez temendo o que seria um exemplo a discordância, vai daí, proibiram a distribuição do panfleto. E assim acabou, à ordem do Estado Novo, a Guerra das duas rosas, na poveira Rua da Junqueira, então ainda denominada 5 de Outubro. Por esta semana, ficamos por aqui. Depois haverá mais, se a paciência dos leitores e a direcção do Comércio o consentirem. Braga, 13 de Agosto de 2008 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 16:11

PELA VELHA JUNQUEIRA - 2 – Continuando o nosso passeio pela Junqueira fora vamos deparar, logo no começo, com a entrada para a sacristia e lateral templo de São Tiago, também conhecido, outrora por São Roque. A construção da sacristia não é da mesma época da igreja. Vários foram os motivos que atrasaram a sua edificação, devendo destacar-se o último, talvez pelos finais do século dezanove ou princípios de vinte que foi devido a que o proprietário do terreno, feroz anti-religioso, não esteve pelos ajustes de o ceder. Só depois do seu falecimento é que foi resolvido, pela sua viúva, o imbróglio. Em frente, a seguir à barbearia Costa, a casa que em tempos foi a residência do cenógrafo Rebelo Júnior, que deu a sua valiosa colaboração durante as festas de verão na concepção de vários elementos decorativos e muito principalmente aos cortejos das “Marchas Luminosas”, cujo estaleiro era na cerca dos Bombeiros Voluntários, no quartel da rua Santos Minho. Foi em tempos a morada do conhecido Amorim, reputado mação, conhecido por “Miroma”. Aqui foi o consultório do médico poveiro, Dr. Agra Amorim. Fronteira a este prédio habitava outro conhecido poveiro, Ângelo Ferreira Barbosa, comerciante estabelecido no mercado Dr. David Alves, com um talho. Mas este chorado bom amigo era também industrial, a fazer fé num anúncio publicado neste nosso velhinho Comércio da Póvoa, quando ainda um jóvem de 23 anos, em 26 de Fevereiro de 1926, no número oitavo publicava : “Sociedade Industrial de Produtos Químicos ‘IRS’ Ldª FÁBRICA DE SABÃO Peçam em todas as mercearias o nosso sabão É O MELHOR FABRICADO E ISENTO DE MATERIAIS PREJUDICIAIS Pedidos por junto ao administrador-gerente ÂNGELO FERREIRA BARBOSA Um pouco a seguir encontra-se o edifício onde morou o insigne poveiro Santos Graça e que durante algum tempo também serviu de residência a Leonardo Coimbra. Nos baixos encontrava-se um estabelecimento comercial de venda de fazendas. No seguimento, estava a casa também de venda de fazendas, “O Leão de Ouro”, cujo proprietário era o pai de sempre lembrado Quim Martins. Mais tarde e depois do falecimento do comerciante, foi esta casa ocupada pela Casa Espanhola, de capelista, onde pontificava Alejandro Flores, vice-consul na Póvoa, da nação espanhola, mantendo na fachada e encimando a porta principal o famoso Leão de Ouro, uma das curiosidades da Junqueira. Quase fronteira a este prédio, estava e está a Padaria e Pastelaria Valonguense, cujo dono, João Dias, introduziu na Póvoa as famosas bolachas ali fabricadas, Maria. Este industrial era o pai dos falecidos amigos Eugénio e Tone Dias ( o Padre Jesuíta Olimpo Dias) e também do Quim Dias, que um dia enfeitiçado pelo amor de uma gentil carioca, abalou até aos “Brasis” e por lá se mantém, pleno no gozo da sua provecta idade ( daqui vai um vigoroso abraço e votos de saúde e mais longa vida). Prosseguindo a nossa excursão, repararemos num prédio quase seguinte onde junto á platibanda, quase escondida, uma placa assinala a casa onde morou Cândido Landolt. Em frente a Farmácia Central, cuja fundação se deve ao amigo familiar Madureira e cujo filho, Dr. Madureira Pires, meu ilustre amigo é actual proprietário. Passos andados, deparava-se então nos anos de 30/40, uma casa de modas e tecidos, “Paris na Póvoa”, que enfrentava a rua, creio que se chama Cândido Landolt, local hoje ocupado pela livraria de outro amigo falecido, o Marcelo. No gaveto sul, estava um dos três cafés que então havia de inverno na Póvoa, o Café Nogueira, onde pontificava o Vicente, que mais tarde, muito mais tarde, fundou o Diana Bar. Era neste café que se reuniam os columbófilos poveiros. Voltando à velha edição do Comércio, já referenciada, vamos encontrar o anúncio da casa de ourivesaria que se situava no gaveto frente ao Nogueira. Vamos por hoje respigar o anúncio nele inserido : == O U R O == e PRATA USADA --- C O M P R A --- Ourivesaria Fontainha & Fontainha Rua Cinco de Outubro PÓVOA DE VARZIM E por agora ficamos por aqui, com a promessa de voltar à velha rua da Junqueira e Largo do Chinês, pois ainda muito há para recordar. Braga, 11 de Agosto de 2008. LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 16:05

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