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Ago 08
A CEIA DE NATAL ANTIGA CONSOADA PÓVEIRA Manhã cedinho a catraiada que nos dias anteriores não tinha arranjado o musgo para o presépio, avança, pressurosa pelo velhos caminhos, munido de uma faca para escarabichar os muros e extrair dele aquele elemento necessário para atapetar o chão onde figuras de cerâmica popular, iram recrear a Noite Santa. Na feira da Vila, já tinham, com a meia dúzia de patacos que tinham amealhado, comprado as figuras principais – a Nossa Senhora, o São José, o nuzinho Menino Jesus, o burrico e boizinho, os três Reis Magos com as suas oferendas – ouro, incenso e mirra, “ ofereciam-lhe ouro como a verdadeiro rei, porque este é o principal ornato de magestade real; ofereciam-lhe incenso como a Deus, porque este é próprio dos sacrifícios; ofereciam-lhe mirra como a verdadeiro homem mortal, porque com mirra se embalsamam os corpos” - três ou quatro pastores com os seus rebanhos de ovelhas e, não podendo esquecer, o facinoroso Rei Herodes. Para marcar o caminho, que desde o Oriente, orientados pela estrela, vinham a caminho, prestar homenagem ao Rei do Reis, servia a areia fina que tinham apanhado, na língua da maré, junto do paredão que anos antes o Rei Dom Luís tinha inaugurado. À tarde a azafama era grande. Enquanto os garotitos armavam a “cascata”, a mãe, atarefada, estava a preparar o cozido, o prato forte e único dessa noite maravilhosa, onde não faltaria o belo ruivo, a saborosa raia ou patelo, o congro, o cação e outras espécies que “ o Senhor dá do Mar” e que, no calor do estio, onde algumas, nos varais, quais bandeiras se balançam ao sabor da nortada, secam e se curam. O indispensável bacalhau, bem demolhado, seria talvez, um dos peixes mais apreciados. Da lareira saía, um fumo branco que se espalhava pelo cubículo, exalando um perfume a resina, para o qual contribuíam as pinhas a assar e a rama de pinheiro a arder. Nessa Santa Noite, o mar era um deserto. Nenhum pescador ia ao mar. Era a noite do Senhor, tudo ficava em terra – os barcos varados na areia, longe da maré alta, as redes no palheiro, a vela enrolada. O farol da Senhora da Lapa, lá continuava aceso, mas apenas um luzeiro a iluminar o terreiro, sem préstimo nessa noite para o enfiamento da barra – no mar só o bramir das ondas – e, neste caso, talvez, para indicar ao Menino Deus, uma crente colónia de bons cristãos. Chegada a noite, na cozinha, onde estava caldeira para cozer a casca de salgueiro e a masseira, onde depois do cozimento as redes seriam “encascadas”, isto é tingidas e para as tomarem mais resistentes ao salitre marítimo, compartimento de chão de terra batida, era lançado e espalhado numa grande roda, um colmo de palha trigueira, e sobre o qual era colocada uma toalha branca de linho, luxo que só em dias de grande festa, saía da arca. Do cimo, do balaio, pendurado no tecto da pequena e única sala, tomava-se o pão meado, ali posto no alto para evitar a “rataria”. À volta e sobre a toalha, estavam os aprestos para a ceia. Ao centro num grande alguidar, fumegante de vapor e cheirinho, o cozido à “poveira”, com todos os produtos necessários a satisfazer a gula dos presentes, com os tradicionais peixes, as batatas das “masseiras” de Aguçadoura, com sabor especial do adubo do mar – sargaço e pilado – e as tronchudas de Abremar, ricas do “mimo” que durante o ano lhe foi lançado, regadas com o molho fervido – azeite, vinagre, cebola estalada e colorau – que ensopavam o pitéu e as “sopas de por debaixo”, fatias de pão trigo colocadas no fundo do alguidar, que bem saborosas ficam com este molho. Sentados no chão, à roda, pai, mãe e filhos, depois de uma breve oração iniciam o repasto. Cada um tirava do grande cozido uma parte e entre acalorada conversa, o alguidar se ia esvaziando. Nem admira, por que depois do “desfastio”, pela manhã, era aquela primeira refeição. Ao meio dia, jejuava-se, nada se comia, para à noite “tirar a barriga de misérias”. Mas uma coisa era indispensável – não para abrir o apetite, pois não faltava, mas para acompanhar e para uma boa digestão – vinho verde, rascante, do de “pinta a maurga”, comprado no Zé da Mata ou no Melro (estas vendas são, talvez, mais recentes) que o tinham sempre do bom, dos lados de “São Trocato”, como no seu linguajar pronunciavam. Depois era a vez, do adoçar o “bico” - isto para não ficar com “boca de lacaio”. As castanhas assadas, para os de melhor dentadura, ou cozidas para aqueles a quem os dentes, já tinham “dado o que tinham a dar”, figos secos, nozes, e uma dose de aletria e rabanadas de água ou de vinho, que isso de outra mimos açucarados, não era para a pescaria. Água-pé era a companhia destes mimos, muitas das vezes trazidas pelas moçoilas, pescadeiras que no “corre, corre por estrada fora” levavam as saborosas sardinhas até, entre outros lugares, a Airó, já perto de Barcelos. No final da refeição natalícia, enquanto esperavam a hora da missa do Galo, os homens entretinham-se, entre uma “cachimbada” de tabaco holandês que queimava a garganta a narrar as suas aventuras no mar – o pescador poveiro só sabe do mar – mas como é crente sincero, vai narrando os perigos em que se viu e dos quais se livrou graças à intercessão da Senhora da Lapa, da Senhora da Assunção, da Senhora do Alívio, da Senhora das Dores, São José, de São Bento e muitos outros santos da sua devoção, ao mesmo tempo que acreditando também nas “Almas do outro mundo”, nos “Corredores”, nas “Moiras encantadas”, vão discutindo o que aconteceu com o seu amigo, que ficou embruxado por esses excomungados que “andam pelo mundo para perdição das almas”. As mulheres tem outras conversas, mais “terra a terra”, são os namoricos, as vestimentas que pensavam comprar, quando a safra for boa, isto é quando o generoso Senhor “der do mar”, conversas de entretenimento, para afastar o sono que teima em lhes fechar os olhos. A catraiada, essa para já não estava ensonada, ainda era cedo e o “ Zé pestana” só lhe deveria chegar lá pela missa do Galo, quando o senhor pároco principiasse com a homilia. Agora estava entusiasmada com os irmãos ao “Par e pernão”, jogo tradicional do Natal a pinhões com o Rapa – rapa, tira, põe ou deixa. Finalmente a torre da Lapa dava o sinal para a Missa. Os homens enfiando o Gabão e catalão na cabeça, não que a noites de Dezembro são frias, e a cozinha estava quentinha, as mulheres com a saia pela cabeça, os miúdos aos pinotes não há frio que lhes chegue, iam em direitura à igreja, e as mulheres dentro do templo “alampam-se” enquanto os homens assistiam de pé. Os miúdos enrolavam-se prevendo uma soneca. Enquanto decorria o Santo Sacrifício os devotos abriam os braços quando, com o maior respeito o decorrer do ofício isso impunha, ajoelhando-se também nas ocasiões oportunas e todos recebiam o “Pão do Senhor”, o Corpo de Cristo tendo antes rezado a oração “Senhor não sou digno que entreis na minha morada, mas dizei uma só palavra e eu serei salvo” No final toda a assistência ia até ao altar onde o reverendo dava a beijar, num cerimónia tradicional a pequena imagem do Menino Jesus, desnudada, que todos amorosamente beijavam e se benziam. Depois do dever cumprido, regressavam todos ao seu lar, bastante desconfortável, pois não tinha janelas e só duas portas, uma delas voltada para a rua, com um postigo, que abria em dias de muita chuva, para entrar um pouco de luz, já que nos dias soalheiros estava sempre aberta e a outra dava para o quintal, onde no chiqueiro, se a safra do ano tivesse sido boa, engordava um porquito e onde também se arrecadavam entre umas galegas que serviriam para o “caurdo” com feijões, alguns apetrechos da sua arte do mar a única que o poveiro conhece. Nas duas camaretas, estilo usado nos barcos mercantes, aninhavam-se para dormir o “sono dos justos”, enquanto que os catraios dormiam a seu lado. E assim terminava, há mais de século e meio, a noite de Natal do Pescador poveiro. Braga, l de Dezembro de 2005 Obs. A Ceia antiga poveira, foi-me relatada há muitos anos pela minha vizinha Emilinha Serradeira e sua filha Felicidade Trocado, que a reconstituíram na cozinha da sua casa da rua de Santos Minho e que, até certo ponto também participei, pelo menos no final.
publicado por Varziano às 17:37

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