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Ago 08
O B O I B E N T O Várias vezes tenho encontrado referências, tanto na revista cultural “Bracara Augusta” ( 1 ), como nos estatutos de velhas confrarias, que nas muitas procissões que em séculos passados eram obrigação da Câmara efectuar à sua custa, sempre à frente do cortejo religioso, seguia um boi, chamado então de “Boi Bento”. Entre essas muitas estavam por exemplo a de Santa Isabel, a de São João Baptista, a de São Pedro e, com especial atenção a de “Corpus-Christi”. Tentando achar uma explicação para essa tradição, por mais que rebuscasse, jamais fui capaz de satisfazer a minha curiosidade. Nunca encontrei também alguém que fosse capaz de me elucidar. Assim vemos que o motivo do meu interesse é manifestado pela consulta no Boletim Cultural que, quanto à procissão de S. Pedro Mártir, ordenou a Câmara ( 1569 ), entre outras disposições que : “ it 10, acordaram mais que haja um touro grande e formoso para ir na procissão do dito dia pelas cordas e o levarão os carniceiros de gado miúdo”, bem como o mesmo se vê em 1572 e referido no it. também 10. E quanto à incorporação do boi bento na procissão do Corpo de Deus, a primeira referência que encontrei no referido boletim data do tempo do Arcebispo Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, em que no dia de “terça-feira, seis de Maio de sessenta e um (1561) foram juntos em Câmara os senhores Henrique Sobrinho Juiz e o doutor Manuel Aranha, João Teixeira, vereadores, João de Reudoma Procurador do concelho e o doutor Pedro Alvares Juiz o qual não foi ao cabido” tendo nessa reunião ficado deliberado a ordem procissão: “(…it.47 – o boi das cordas que há-de ir na procissão do dia levaram os moços (?) muito a recado a ver que se não desmanchem nem façam desarranjo… )” , e já na data ( 1575 ), pelo it. 47 ficamos a saber que: “o boi das cordas que há-de ir na procissão do dia diante levarão os de Nogueira muito aferrado (agarrado ?) que se não desmanche nem faça desarranjo na procissão e virá a dita freguesia pela manhã muito cedo com o Jurado para lhe entregarem e o Jurado notificará a dita freguesia e dará a fé da notificação e o Procurador do Concelho lhes dará para beberem 50 reis.” Mas andemos mais cerca de 150 anos, tempos do arcebispo Moura Telles, e vamos encontrar, segundo Albano Belino, (2) o mesmo costume : “A procissão levava na frente o “boi bento” com as pontas enfeitadas de fitas multicores e grandes folhos ao pescoço. Este boi era oferecido pelos marchantes e conduzido por um lavrador de Nogueira”. E o mistério, para mim, do costume da incorporação do bovídeo na procissão, continuava aumentando a curiosidade até que, ao ler, numa colecção de “Mitos e Lendas da Galiza”, publicado em 1993, pelo jornal diário espanhol “Faro de Vigo”me surgiu uma pequena luz que, talvez, me venha dar resposta, à tradição que me intrigava e que durante muitos anos se manteve nas procissões. È sabido que os mouros que em 711, atravessaram estreito Gibraltar para divulgar a doutrina de Alá, há pouco surgida, e conquistar a Península. Na sua fúria avassaladora, quase conquistaram toda a Ibéria, exceptuando um pouco do abrupto território no Cantábrico, onde se refugiaram os restos dos exércitos cristãos. Os sarracenos tinham conseguido aterrorizar os povos de Allariz, pois estes não eram capazes de se defender contra a hordas tão excitadas e bem armadas. Perante tal mal estar, diz a lenda, apareceu um cavaleiro, montado num touro muito feroz, o qual arremeteu contra a chusma de infiéis, pondo-os em debandada. Esta lenda antiga, parece que foi depois aproveitada, no século XIV, para um fim semelhante. Neste século conviviam, o mais pacificamente que podiam, judeus e cristãos nas cidades e vilas da Hispânia. Os hebreus, laboriosos e aforradores, eram os senhores do dinheiro em quase todo o mundo. Os cristãos, muito embora os odiassem, tinham muitas vezes de recorrer a eles em casos de aperto de finanças. Viviam os filhos de Levi, na judiaria de Socastelo, pequena vila onde a população era de maioria cristã. Dado a reduzida dimensão da povoação, na festividade do Corpo de Cristo, o cortejo tinha de percorrer todas as poucas ruas, numa das quais se achava a judiaria. Quando Santíssimo exposto na Custódia, passava pela Sinagoga, os hebreus faziam mofa, e “censuras a eclesiásticos e meninos do coro, devotos e fiéis em geral, o que derivava em confrontos com efusão de sangue”. Nada podiam fazer os cristãos senão aguentar os desvarios, até que aparece, não se sabe de onde, um cavaleiro de nome dom Xan de Arzúa, que por meio do ardil, já conhecido pela tradição oral, praticá-lo como no século oitavo o fez o cavaleiro alaricano contra as hordas de Maomé. Pediu um boi a um lavrador, atou-lhe na cornadura, uma larga soga, enfeitou-o e, ajudado por um par de valentes, colocou o boi à frente da procissão, nem sem antes, para o tornar mais furioso do que os berros da populaça o faziam, diz também a tradição, colocou “junto ao boi um saco com formigas negras, das que se enfurecem e mordem”. Quando os hebreus em grande alarido provocavam os cristãos, soltavam o animal que com grande fúria arremetia contra os que o enfrentavam – os judeus. Com a expulsão dos levitanos da Espanha, pelos reis católicos – Fernando e Isabel – no século XV, as questões entre judeus e cristãos desapareceram, mas a tradição estava muito arreigada no espírito das gentes de Allariz, e o boi continuou, por muitos anos, a abrir a procissão do Corpus Christi. Como sabemos que as tradições, os costumes, a cultura, as festas são muito comuns entre a Galiza e o Minho, teria o costume do boi bento nas procissões do final da Idade Média e princípios da Moderna, vindo da Galiza até aos nossos avoengos que passaram também a inclui-lo nos cortejos religiosos ? Braga, 29 de Maio de 2007 LUIS COSTA B.I. nº 1507748 – Braga Morada: Rua Dr. Elísio de Moura, 141 r/c 4710 – 422 Braga – telf.253 216 602 . assinante do “O Diário do Minho” Email :luisdiasdacosta@clix.pt www. bragamonumental.blogs.sapo.pt 1-“Bracara Augusta” vol.25/6, ano 1971/2, pag.469, - vol.27, 1973 pag.596 - vol.29, 1975, pag.423 – vol. 30, 1976,pag. 724 – vol. 27, 1973, pag.590. 2 –“Archeologia Christã” – 1900, pag. 166 Obs: servi-me também de “Faro de Vigo”fas. 43-1993
publicado por Varziano às 17:35

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