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Ago 08
UMA EXCURSÃO DE BRACARENSES À PÓVOA DO MAR Na primeira metade do século passado era vulgar, na época calmosa, especialmente no mês de Agosto, os vários grupos recreativos bracarenses organizarem excursões a algumas terras do País, prevalecendo o Norte e, como ponto quase sempre essencial, por se tratar de uma praia preferida de sempre pelas gentes minhotas, era a Póvoa do Mar muitas vezes escolhida. Estou a lembrar-me de uma excursão embaixada, levada a efeito julgo por um grupo de pessoas de Braga, aí por volta dos anos trinta do século que nos precede, creio aquando da Presidência da Câmara poveira pelo Dr. Abílio Garcia de Carvalho, e da recepção a uma dessas embaixadas de ilustres visitantes. Recordo que então as varandas e janelas da rua da Junqueira, foram engalanadas com motivos relacionados com a pescaria – redes, cortiçadas, remos, boías, canas de leme, bertedouros, velas, marcas, siglas e tudo o que diz respeito a aprestos marítimos usados pelos nossos pescadores. Ora, um meu velho amigo, colega dos tempos de juventude e mocidade que já “lá vai e não voltam mais”, mas que apesar de tudo foram até certo ponto bem vividos, tempos que hoje recordamos com saudades e muito principalmente daqueles quem a “parca ceifou”, enviou-me há dias um postal, editado em Braga, com a data de 12 de Agosto de 1905 – há cem anos – e que se refere a uma dessas excursões à Póvoa, promovida pelo Clube Bracarense “Os Invencíveis” e que pela recepção tão simpática, mereceu no verso, já que a frente do referido postal mostra um aspecto do Jardim Público de Braga desse tempo, umas quadras dedicadas às “Gentis Damas Povoenses” (talvez o poeta desconhecesse o termo POVEIRAS que mais as identifica). Para não ficar no olvido, peço licença, aos possíveis leitores, para as dar à estampa: RETRIBUINDO O CARINHO DUMA VISITA A PAGAR, VIMOS NÓS DA FLOR DO MINHO, HOJE À PÉROLA DO MAR. NÃO PODEMOS IGUALAR-VOS NO PRIMOR DA GENTILEZA ; SÓ PODEMOS OFERTAR-VOS VERSOS DE ALTA SINGELEZA. AO BELO MAR QUE, INCESSANTE, OS VOSSOS PÉS VEM BEIJAR, VAMOS PEDIR-LHE, UM INSTANTE, SUA VOZ P’RA VOS SAUDAR. LEVEMOS CONCHAS DA AREIA PARA, EM NOSSA MOCIDADE, O DIA QUE NOS ENLEIA RECORDARMOS COM SAUDADE ! O Clube dos INVENCÍVEIS Fotografado de um ângulo extraordinário, do lado do Banco do Minho e Teatro São Geraldo, ( hoje desaparecidos ), mostra-nos a frente desse postal o então chamado “Pavilhão Musical” (coreto) num dia possivelmente de verão em que a Banda da Região Militar de Braga, com os seus acordes deliciavam uma quantidade de espectadores, sentados à volta do pavilhão, à sombra de frondosas árvores, como se pode ver pela gravura que acompanha este escrito ou debaixo de um imponente guarda sol, enquanto que outros iam entretendo o seu ócio conversando e passeando, eles com os seus sombreiros “à toureiro”, apoiados nas suas bengalas, então símbolo e elemento de elegância e, elas, as gentis damas, apoiadas também em elegantes sombrinhas ou com elas protegendo a sua tez, branca como a neve, pois o moreno bronzeado é uma das invenções de agora, muito mais tardias. Curiosa é a vestimenta das duas damas que se sobressaem na foto. Os seus chapéus emplumados, numa, a casaca sobre os ombros, cobrindo em parte uma camisete ( colete ), possivelmente debruado e bordado. Um vestido com saia abotoada até aos pés, encobrindo o tornozelo ( mira e aspiração máxima que os galãs pretendiam ver ). Na outra, também com uma cintura de vespa ( certamente apertadíssima pelos espartilhos ) sobressai a sua camisa branca de gola que se destaca no seu elegante vestido negro traçado sobre o peito e numa das mãos enluvadas ( sinal de bom gosto ), parece que transporta uma pequenita malinha. Quanto a esta, dá-nos a impressão que o seu olhar se dirige para um dos militares que à sua esquerda ocupa uma das cadeiras. De notar que, apesar do luxo muito destacado em vários figurantes, também se vê perto do “Pavilhão”, sentadas em cadeiras duas personagens que de luxo nada apresentam, o que nos leva a crer serem “damas” do povo, destruindo aquela voz de que “O JARDIM GRADEADO SE DESTINAVA APENAS ÀS PESSOAS DE DINHEIRO”. Pelo que nos mostra esse postal que o velho amigo Ezequiel Veloso Gomes me enviou, deveria ser um jardim romântico criado pelos princípios dos anos sessenta do século XIX, transformado em Avenida Central, por volta dos inícios da segunda dezena do século XX, sobre a égide da Comissão Administrativa de Lopes Gonçalves, e que se manteve até aos nossos dias em que foram necessárias duas transformações até chegar ao que é hoje. Quase ou mesmo sem árvores de sombra, com umas esculturas modernas, de discutível gosto ( há quem goste e quem desaprove ), com “três picos” semi enterrados, dirigidos ao céu, perfurando a atmosfera, um murete aqui e além interrompido e que não se sabe para que serve, e uns bancos onde se pode apanhar “banhos de sol” ou até constipações. Salvam-se, para dar uma certa frescura à eira em que foi transformada a Avenida, os espelhos e repuxos de água, fontes luminosas. Braga, 3 de Maio de 2006 LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt Email: luisdiascosta@sapo.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt Obs. Enviei, de novo, mas por carta em 28 de Julho
publicado por Varziano às 17:25

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