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Ago 08
DIANA BAR …É DE GANCHO !… Por volta dos cinco últimos anos da década de quarenta do século passado vim para Braga, trabalhar no Teatro Circo, cujo empresário era o meu tio Zé Costa. Nesta casa de espectáculos fiz de tudo, desde coadjuvar na gerência, na projecção, contratação ou marcação de filmes. Mas a minha acção não se limitava ao serviço dos espectáculos. José Costa era pessoa de prestígio não só no meio bracarense mas também, pelos seus conhecimentos, que extravasavam Braga, estendiam-se a outras terras do Norte. Sempre que era necessário algum pedido o Zé Costa, era a tábua de salvação, a que todos recorriam, principalmente, os seus conterrâneos para debelar os impossíveis. A sua fama correu e, assim, quando algum aluno poveiro ou não, precisava de uma valente “cunha”, por exemplo, junto do Dr. Carrilho – professor temido – mas de sua grande amizade e competência, no exame do sétimo ano do liceu, ou qualquer outra necessária “cunha” para os mil e um assuntos, sempre do interesse de alguém amigo ou conterrâneo, lá tinha de se recorrer ao Zé Costa. Ora com a minha vinda para esta cidade, ficou o meu tio, em parte, aliviado de correr “Seca e Meca”, pois bastava apresentar-me como enviado dele para obter ou dar uma satisfação ao amigo que esperava a sua influência. Vem isto a propósito de um pedido que da Povinha do Mar lhe fez um amigo poveiro. Todos sabemos ou pelo menos os mais velhos que já entraram na Confraria dos Oitenta, que ali por meia dúzia de anos antes da segunda guerra mundial o poveiro Vicente, creio que Regufe, viu-se e desejou-se para montar no areal da praia de banhos, o Diana Bar. Os projectos não eram aprovados, dando sempre como desculpa, da parte tanto da repartição que intervinha na licença para a desejada concretização do projecto, como até de algumas pessoas, que diziam que a instalação de qualquer construção naquele local, enfiamento da Avenida Mousinho, iria colidir com a perspectiva marítima, quebrando a vista do mar. Alegou o amigo Vicente que o projecto seria feito de tal maneira que nada prejudicaria a vista marítima, pois o que estava idealizado teria o formato de uma pêra, estreitando a vista da parte da Avenida dos Banhos e alargando-a um pouco mais ao fundo, ficando como que uma varanda soalheira sobre o mar. Depois de várias tentativas sempre foi aprovado o projecto e assim nasceu o Diana Bar. Anos decorridos, por volta dos finais dos anos quarenta do século transacto, porque a afluência ao Diana se ia mostrando cada vez maior, ou porque o proprietário resolveu dar uma nova fisionomia ao espaço, pensou numas obras. Para isso teria que obter autorização ou deferimento da respectiva repartição que superintendia na autorização e que por sinal era em Braga. Dadas as dificuldades que tinha tido quando da primitiva construção e porque lhe tinham informado, mal é certo, o que vim a saber depois, que o director engenheiro “ERA DE GANCHO”. Lá teve o amigo Vicente Regufe de recorrer ao Zé Costa, julgando por certo que assim teria a tábua de salvação assegurada e assim o empurrão para o fim desejado, não encontraria obstáculos como da primeira vez. Não sabia o meu tio quem era esse director e, nada melhor do que me encarregar de o descobrir para depois, se necessário, “mexer os pauzinhos”. E lá fui eu, rua do Souto abaixo até à rua Andrade Corvo, indagar onde era a repartição e procurar saber quem era afinal o tal temível engenheiro. Encontrada a repartição um tanto a medo, lá subi a escada até ao primeiro andar pronto a enfrentar o temível ou na esperança de que qualquer funcionário me desse a informação pretendida. Assomei ao balcão e lá estava remexendo nuns papeis um indivíduo resolvi enfrentá-lo com o habitual bom dia. Em resposta à saudação o funcionário voltou-se, mas nem chegou a responder ao desejo de um dia bom. Pelo contrário, numa saudação amiga e de certo espanto disse-me: - Por aqui, há tantos anos que nunca mais soube de ti! Se o espanto dele foi grande, menor não foi o meu. E o diálogo estabeleceu-se, entre dois amigos e colegas de juventude da Póvoa. Tratava-se de um moço – ambos o éramos – eu, desviado da povinha do mar, primeiro devido ao serviço militar, e depois de desmobilizado de Cabo Verde, fixei-me nesta Augusta Cidade onde aqui fiquei até hoje. Ele, talvez, após o falecimento do seu pai, como os irmãos – um deles foi jogador de futebol do Sporting da Póvoa, nos tempos em que este desporto era praticado por carolice – não seguiram o negócio do pai e tiveram rumos diferentes, tendo abandonado a nossa bela praia. Nunca mais nos voltamos a encontrar. Quem diria que um fortuito pedido de informação nos voltaria a aproximar, reatando a velha amizade? Mas assim foi. Passamos uma hora na conversa, mais isto, mais aquilo, e a hora foi passando na recordação dessa meia dúzia de anos que separou a nossa amizade. Disse-me que tinha casado, que já tinha uma filha que tendo nascido no dia São João lhe pusera o nome de Maria João. Dei-lhe conhecimento que o mesmo facto se tinha dado comigo e que também tinha uma filha. Apresentou-me à esposa e com a conversa de tanto tempo ia-me esquecendo do que me tinha levado a procurar a repartição. Mas o assunto tinha de ser resolvido e apressei-me então a informá-lo do que me tinha trazido à rua Andrade Corvo, não omitindo que era para satisfazer o pedido do Vicente ao meu tio e que, ao encontrá-lo, tinha a tarefa facilitada. Dei-lhe conhecimento do problema do Diana Bar e pedi-lhe o favor de me dizer quem era o director do serviço, que o Vicente apelidava “DE GANCHO”, para ver se se conheceria alguém para o convencer a não colocar entraves ao projecto. E a resposta foi pronta: SE TUDO ESTIVER DENTRO DO NORMAL, não haverá novidade. Não me disse quem era esse temível engenheiro, mas que poderia dizer ao pretendente ao processo da obra do Diana que estivesse sossegado e apresentasse o caderno de encargos. Então agradeci-lhe, e se o chão se tivesse aberto por certo me teria ENGOLIDO. É que o temível engenheiro era nem mais nem menos que o meu amigo Engenheiro Teles Carvalhal, soube-o a seguir e depois de risota acompanhada do indispensável pedido de desculpa pelo apodo do GANCHO, dei por cumprida minha missão Resta dizer que profissão do pai Carvalhal, era a de farmacêutico, com estabelecimento no Passeio Alegre e que hoje é a Farmácia da Praia. Braga., 3 de Fevereiro de 2006 LUÍS COSTA Email :luisdiasdacosta@clix.pt www. bragamonumental.blogs.sapo.pt
publicado por Varziano às 15:36

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