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Ago 08
NUM DOMINGO DE AGOSTO Manhã cedinho para fugir ao calor dum esquentado mês de Agosto, num carro com ar condicionado, rumamos em direcção à beira-mar, procurando deixar a canícula dos ares de uma cidade de onde andam arredadas as sombras das árvores, árvores que purificam e perfumam o ambiente e nos abrigam, nas horas de maior intensidade, dos perigosos raios ultra-violeta, que tanto mal tem causado aos mais incautos. Não fora o pulmão citadino do Parque da Ponte, ou a arrabaldina mata do Bom Jesus do Monte, panos frescos naturais da cidade, e uma que outra piscina, duas na cidade e mais algumas nas freguesias, as praias fluviais que nos proporciona o Cávado, onde seria possível aqueles a quem os rendimentos não proporcionam um pouco, já não digo férias, mas alguns fugazes momentos de lazer ? É já andar com sorte, se temos um amigo que amavelmente se dispõe a tirar-nos, nem que seja por poucas horas, da torreira do inclemente clima bracarense, húmido no inverno e calorento no verão, e levar-nos até à praia. Ora, posso dize-lo, desta vez a sorte bafejou-me e lá fomos de abalada até à beira-mar, neste caso concreto até à Póvoa do Mar. No caminho ainda pudemos assistir às fumaças dos incêndios ( não serão criminosos, mesmo aqueles que se devem a incúria ?) que lavravam não só pelos montes, como até em descampados ou bermas das estradas. O dia estava escaldante, mas o tempo que nos liga ao mar agora está encurtado, nem meia hora é preciso para gozar o fresco salino e iodado ar do nosso mar nortenho. A Póvoa estava à vista, num pulo vemo-nos a norte da zona desportiva ( para os velhos como eu, a norte do Estádio Gomes de Amorim, talvez o primeiro estádio digno do nome, construído em Portugal, creio que por finais do século dezanove ou princípios de vinte ). Fiquei banzado. Como estava aquilo diferente. Nos meus tempos de moço, na praia, por exemplo da Salgueira, só meia dúzia de rapazes se viam por aquelas bandas. A Norte e até Abremar (prefiro o topónimo popular ) e por aí fora, ninguém, era só areia e mar. Na penedia, um que outro ganapo às marachombas e no areal, ao sol ( parece que nesses tempos, violetas, só as belas florzinhas ), lá estávamos a tostar e agora, onde é que eu estou ? Nada reconheço, só barracas e toldos, gente e mais gente, Vejam lá: esclareceu-me na Póvoa, um banheiro ESPANHOL !!!. Por ele soube que ali, e apontava para Sul, são as piscinas; do outro lado o Campo do Varzim e Desportivo!!! E então, onde há cinquenta ou sessenta anos eram acampamentos de ciganos, só prédios e mais prédios e por fundo o Hotel Ver-Mar. Só agora é que me apercebi como tinha andado afastado daqueles lugares, da Praia da Lagoa, terreno em disputa com Beiriz e que o falecido amigo Monsenhor Manuel Amorim me dizia : “Pode pôr por lá a barraca, que a confraria do Sub-Sino de Beiriz, não lhe vai cobrar os impostos devidos !!!” Como calor estava a apertar e, entretanto, parecia que a nortada estava a pronunciar-se, o espanhol, alugou-nos uma barraca, pois estávamos a preparar para passar ali o restante da manhã e a tarde, mas o estômago principiou a manifestar-se e o remédio fomos encontrá-lo no Leonardo, onde nos refastelámos com um cosido à poveira, umas sardinhas assadas, regadas com o verde de “pinta a malga” e as saborosas rabanadas. Com o estômago amansado, demos uma volta pela cidade e, logo desisti, pois um passeio assim traz-me à memória os outros tempos que por ali andava, satisfeito, com uma malta fixe e, onde está ela ? Quase todos já partiram e os poucos que ainda resistem, lá se vão arrastando neste “vale de lágrimas”. Voltamos à praia; ao menos o areal ainda quase que é o mesmo e então, sugere o nosso acompanhante: vamos dar uma volta pela via que nos conduz a Vila do Conde. Forte de Nossa da Conceição, Caverneira fora, Casa dos Pescadores, a Senhora da Lapa, o edifício da velha Ronca. E num instante a Poça da Barca, as Caxinas e depressa estamos no areal da Vila. O Forte de São Baptista, agora com a cara lavada, Senhora da Guia e sempre a correr deparamos com o espaço da antiga seca do bacalhau, e à nossa mente vem a recordação : “vira que vira”, lá estava aquele rancho de mulheres a expor, usando o termo moderno , “aos raios ultra-violeta”, o saboroso amigo, curado ao Sol. Então é que era saboroso e, não como agora, quase insípido. Sempre a rodar, lá passamos pelo jardim ensombrado, á espera da Feira do Artesanato. Largo ou Praça do Artistas, e logo a seguir a velha Câmara e a imprescindível visita à Matriz Manuelina, senão por outra coisa, pelo menos para ver o brasão da edilidade poveira, no arco gótico da entrada, mas que é isto ? Uma passadeira vermelha, desde a rua arte à entrada ? Não deve ser por nossa causa, ninguém sabia que aqui vínhamos! Mas não, ela ali estava porque naquele velho templo de quase quinhentos anos, ia realizar-se um casamento. E sem querer, sem o propósito de assistirmos a uma cerimónia religiosa que quase está a desaparecer, lá nos sentamos num dos bancos e não demos pelo tempo que assim estivemos. Foi um acaso que nos levou até à matriz, e demos por bem o tempo que passamos a assistir a esta bela cerimónia. Não sei quem eram os felizes nubentes, nem interessa para o caso. Maravilhou-me a cerimónia. Uma soprano, de bela voz, acompanhada pelo som de trompete ia interpretando os vários momentos em que o ritual obrigava e no final, enquanto os noivos se dirigiam para a saída do templo, o trompetista fazia ouvir os acordes da “Marcha Nupcial”, e gentis meninas ofereciam a todas as senhoras, sem excepção, um botão ou uma formosa rosa chá. Ainda sob a influência dos belos momentos que o acaso nos proporcionou, rumamos à velha Bracara Augusta, bem dizendo o desvio que fizemos ao visitar Vila do Conde. Braga, 11 de Agosto de 2007 LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt Email: luisdiascosta@sapo.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt
publicado por Varziano às 15:23

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