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Ago 08

M  E  M  Ó  R  I  A 

 

                             A PROPÓSITO DE RABANADAS

 

Há dias em conversa com o Neca, meu irmão, veio à baila o Leonardo e as suas rabanadas. Falamos dos velhos tempos, mais velhos para mim do que para ele e, foi com espanto que ele ficou a saber que o estabelecimento do Leonardo no Largo do Castelo, ou forte de Nossa Senhora da Conceição, tinha origem um pouco mais remota do que o que ele julgava.

 

Pensava que a fama do Leonardo tinha partido daquela casa, e logo julguei que “como ele por certo muitos poveiros erradamente assim supunham”. Ora, aqui estava um bom pretexto para uma crónica de MEMÓRIA. Dito e feito cá estou pronto para elucidar, sem o fim de lição, aqueles mais jovens que eu, sobre um passado já um pouco longínquo da Póvoa do Mar.

 

Sabemos, ou julgo que sabemos, que o Leonardo era filho do Zé da Mata, um conhecido comerciante de mercearia e vinhos, ali ao Norte, na rua Elias Garcia ( será este o nome da rua ?), que dava acesso,  pelos quintais, à avenida dos Banhos, já quase ao chegar ao Penedo de Coim, casa que primava pela bom “verdasco de São Torcato”, que tinha o mérito de ficar longe das vistas daqueles que certamente também gostando da boa “pinga”, sempre não se lembrando que tinham “telhados de vidro”, estavam à espreita, para “mal dizer” dos “habitués” do Zé, que pelas traseiras da casa, entravam e saiam sem serem, julgavam, notados.

 

Mas a conversa não é sobre o Zé da Mata, muito embora, esta casa, pelos que por lá passaram, e eu fui um deles, dava “pano para mangas”. O Leonardo, as rabanadas, o estabelecimento de comes e bebes, é que interessam para esta pobre MEMÓRIA.

 

Principiemos aí pelos anos vinte do passado século. No gaveto formado pela rua Tenente Valadim e o largo que vai dar ao porto de pesca, capitania e à rua Cidade de Braga ( frente ao Casino ), existia então uma casa de pasto, conhecida pelo nome atribuído ao seu proprietário, o GASPAR DA MARIQUINHAS. Este senhor, pai do falecido amigo Andrade, um notável artífice de ouro, muito mais velho que eu mas que sempre alinhava nas “patuscadas”, certo dia, (não posso precisar se já existia a casa do Gaspar ou se foi nessa altura fundada) fez o Gaspar uma sociedade para exploração do restaurante com o bracarense Inácio de Macedo que em Braga era o proprietário do Restaurante Inácio, no Campo das Hortas.

 

Seguiu o estabelecimento de “vento em popa”, mas em determinada ocasião, ou por cansaço ou por outra qualquer razão que desconheço, foi passada a exploração ao Leonardo. Assim principia o genial inventor das RABANADAS e do COSIDO POVEIRO, a sua senda no negócio que dia a dia mais rentável se tornava graças, possivelmente, às suas paredes meias com o Casino, que pelas 4 horas da madrugada fechava, e os funcionários da banca e, por certo alguns jogadores iam, os primeiros, saciar o estômago e, os segundos ou refastelarem-se com os pitéus da casa, gastando   algum do que tinham sido bafejados pela sorte, ou afogar, em “canecos”, a sua “mala-pata”. Também por lá andei.

Como vemos o negócio corria o que fez como logo aparecesse quem procurasse apanhar alguma coisa do “bolo”. E assim foi. Um finório espanhol, creio eu, apareceu ao Leonardo propondo-lhe entrar como sócio e entrar com certa “massa” para inovar o restaurante. O Leonardo, na sua boa fé, era fácil de levar, aceitou aquilo que julgaria que era um maná.

 

Mas, em linguagem militar, “o tiro saiu-lhe pela culatra”. Tempos depois, por finais dos anos trinta, o sócio espanhol, consegue tomar as rédeas do restaurante, e acabou por correr com o seu sócio. É então que o Leonardo da Mata, resolve instalar-se no tal local que, muitos julgam ter sido o primeiro onde, pelos anos quarenta se achava.

 

Aquele largo nem sempre apresentava o aspecto de hoje. Até aos princípios dos anos trinta, 1931 ou 32, duas ou três casas enfrentavam a rua Tenente Valadim e as traseiras enfrentavam, por sua vez a porta de armas da fortaleza. Numa dessas casas morava então um meu colega, o Bandeirinha, nome que tinha adoptado do pai. O rés-do-chão dessa casa era ocupado por um armazém de palha. Certa vez, diziam então, uns rapazes tendo apanhado parece que um rato ou um gato (já não sei bem que animal era) ensoparam-no de petróleo e largaram-lhe fogo. O bicho a arder, correu e meteu-se no armazém, e o prédio foi destruído pelo incêndio originado pela má brincadeira. Mais tarde, derrubadas as ruínas, nasceu aquele largo.

 

O negócio do espanhol, parece que não correu bem e, por destino o nosso Leonardo, volta ao seu primitivo local, onde lança a especialidade das RABANADAS e a PESCADA COSIDA Á POVEIRO.

 

Os anos correm, e nosso amigo Leonardo, acaba por passar o restaurante e vai morar por muito perto. Um dia, numa das poucas visitas à Póvoa, fui procurá-lo na rua Tenente Valadim e lá me disseram que nessa manhã, tinha sido depositado no Cemitério da Giesteira.

 

Já agora e porque todos os Natais, na minha casa como nas das minhas filhas, as rabanadas do Leonardo e o cosido à poveiro com molho fervido, são iguarias que nunca faltam, vou dizer-lhes como conheci a receita. Certa vez, numa atribulada viagem de negócios, acabei com uns amigos por ir jantar ao Leonardo. Como tinha sido uma atribulada viagem, como disse, aproveitei para a relatar no Comércio, rematando com elogio as especialidades do restaurante. No verão encontrando-me o mestre da culinária, agradeceu-me a referência e ao mesmo tempo ofereceu-me uma dúzia de rabanadas e ainda confiou à minha mulher a receita. Desde então as RABANADAS DO LEONARDO sempre, no Natal, figuram na doçaria da nossa casa.

 

Braga, 8 de Abril de 2008

 

                                                                LUÍS  COSTA

 

 

publicado por Varziano às 19:37

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