16
Ago 08

AS PELAS E OUTRAS

     OBRIGAÇÕES NA PROCISSÃO

                                        “CORPUS CRISTY”

 

Certo tempo antes da chegada do dia da festa do CORPUS  CRISTY, que, como já o dissemos, incluía uma das Procissões das quais a organização era da responsabilidade  camarária, reunia esta para acordar a ordenação do cortejo religioso. Em 1581 na assembleia que reuniu em 22 de Abril , foram discutidas e aprovadas as obrigações que várias entidades tinham de cumprir para o luzimento, brilho e esplendor dessa grande manifestação de fé.

Baseando-nos no que pacientemente A. do Rosário O.P. transcreveu do Livro de Vereações da Câmara de Braga, e relativo aos dois últimos anos do Senhorio de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires ( 1580 – 1582 ), para a Revista Cultural “Bracara Augusta”, vol. XXIV de 1970, ficamos a saber como, então nesses recuados tempos, em Braga se fazia a procissão, as obrigações, a constituição, enfim, aqueles que contribuíam para a sua realização.

Assim nessa reunião os vereadores, destinavam que as tochas, que iriam diante do Santíssimo Sacramento, seis de cada lado seriam transportadas pelos regedores que tinham sido da Câmara dos dois últimos anos. A Bandeira de Nossa Senhora, que é da cidade, seria levada pelos Juízes, logo seguida da do Anjo, que “levará Antº Sobrinho… e haverá de pitança como…(os) que levam as tochas”. A bandeira de São Tiago, cabia ao Juiz da Confraria. Quanto à de São João, também estaria a cargo do Juiz da respectiva Confraria. Para São Cristóvão e a bandeira, destinavam “ oito homens ( da freguesia de Ferreiros) bem vestidos no dito dia pela manhã para levarem o dito Santo, e o procurador dará a cada um vinte reis para beberem”, pagando ainda sete reis para almoçarem a “Manuel Lopes, e Jmº glz e António glz  carpinteiros e (para) o menino (que levará o mundo) que há-de levar luvas e cem para botas”.

Os gigantes (10) “logo diante sempre dançando e dará o procurador aos dois homens que os levarem a cada um cem reis, e ao pai deles outros cem reis e setenta reis para sapatos e umas luvas e dará ao tamborileiro que (os) tanger oitenta reis”, e os pagamentos se sucedem a todos os intervenientes, para almoçarem e beberem.

Acordaram que a serpe e cavalinhos irão sempre “diante da procissão” e que os espingardeiros com as suas armas, atirando ao ar (estrondos) “irão logo diante da clerezia.” Também aqui entravam os quadrilheiros, sob pena do que faltasse seria multado em cem reis. Resolveram que carro das ervas cheirosas “que levarão os hortelões da cidade e dentro deles moços com esguichos de água”. Acordaram de que o procurador no dia ( da festa) pela manhã, mandaria um carro de junco e muitas ervas cheirosas para se lançarem no terreiro, junto da pedra onde havia estar o Santíssimo Sacramento.

As freguesias de São Jerónimo, Dume, Froços e Semelhe, ficavam encarregadas de trazer à cidade carros de junco e espadanada, já que às de Navarra e Crespos cabia o cargo da limpeza dos terreiros, os muros e portas da cidade, pelo que viriam munidos de enxadas, vassouras, foices e varas compridas para varrerem e limparem.

Uma outra transcrição, que não a de 1581, faz referência que os proprietários das casas das ruas por onde passaria a procissão eram obrigados a varrerem e limparem as testeiras que enfrentavam as suas moradas.

E as resoluções se vão seguindo – pagamentos, para almoços, luvas, varas, calças, barretes, sapatos, e mais despesas – pois a procissão não poderia ser prejudicada com alguma falta.

Não podiam esquecer os dignos edis, as suas comodidades, e assim determinaram que “o porteiro no dito dia pela manhã cedo, leve o escabelo e o lambel a São Sebastião para nele se assentarem os Regedores, e assim terá cuidado de na véspera do dito dia de assento na Sé para eles Regedores se assentarem”. No dia da festa, era dia de Festa Grande, e como tal havia necessidade de fardeta nova e então acordaram que a despesa ficaria a cargo da Câmara: “mais que de ele procurador a eles a ele procurador e escrivão da Câmara a cada um dois mil reis para calças e barrete que levarão na Procissão. Também o escrivão da imposição, mil e quinhentos reis para o mesmo.”

Contemplado era também o porteiro da Câmara, com “quatrocentos reis para barrete e sapatos e trinta reis para luvas”.

Os que eram portadores das bandeiras, das tochas, e todas as pessoas que interviessem directamente na procissão, como o, já se sabe, procurador e escrivão, o almoço como era costume que era metade de carneiro, três pães alvos, duas canadas de vinho de fora da terra, uma de branco e outra de tinto, e a cada um seu queijo e tudo muito perfeito. Já para o porteiro, a ração era mais reduzida, um quarto de carneiro, um par de pães alvos e uma canada de vinho.

Pelo vistos no século dezasseis, a Festa do Corpo de Deus, era de facto uma festa, talvez, mais pagã que religiosa. Nesse tempo o Concílio de Trento, possivelmente, não tinha atingido os seus efeitos e, em parte, o paganismo estivesse, de certa maneira, ainda muito impregnado no espírito das gentes. E assim vemos que nas manifestações religiosas das procissões nos aparece sempre qualquer coisa que nos recordará referências a Festas Pagãs. Está neste caso, por exemplo no São João e noutras festividades,  a “Mourisca”, e no caso de que hoje nos ocupamos, as danças à frente do cortejo religioso, “Os gigantes”, o já há dias falado “O Boi Bento”, a “Dança das Espadas”, a “Serpe e os Cavalinhos”,  a “Dança das Pélas”, a “Coca” de Monção e na Espanha, em Redondela, e a nossa bem conhecida romaria de “São João”, a cristianização, e bem, da festa pagã do Solstício de Verão.

Sabemos que em toda a Península Ibérica, a festividade do Corpus Christi, é uma daquelas que com mais respeito se assiste. Acontece sempre numa quinta-feira, nos fins de Maio ou princípios de Junho e segundo um dito popular, esse dia é “um dos três que no ano reluz mais que o Sol, com os da Ascensão e da Semana Santa, os que na distância conveniente, sucedem no calendário”. (1)

 De todos os quadros que integravam a frente do cortejo, um dos que mais atraiu a nossa atenção era o da “Dança das Pélas”, pois, julgávamos nós que se tratava mais de um jogo ( péla =  bola ) do que propriamente uma dança. Assim procuramos esclarecermo-nos e então deparamos no it. 37, da transcrição da reunião de 22 de Abril de 1581, com o título “PÉLAS” , que diz “acordaram mais que hajam duas pellas muito galantes e irão muito bem vestidas e ricas de jóias à véspera e ao dia e as farão as padeiras, segundo seu costume”. Esta citação veio confundir-nos ainda mais. Lembramo-nos que em tempos tínhamos lido num fascículo do “Faro de Vigo” uma alusão às “Pellas”, nas festividades de que vimos tratando.(1)

Ora, nesse fascículo encontramos, até certo ponto, a explicação das várias danças, como a das espadas e das pelas pélas. Tinham uma relação com uma lenda, que deu origem a um quadro que ainda hoje se comemora, tanto em Portugal como na Espanha, “A Coca”. Uma bicha monstruosa, que ceifava com as suas garras, as pessoas, e que acabou por ser derrotada por um valoroso cavaleiro.

As mulheres então, sabendo da derrota e morte do monstro, colocaram as suas pequenas filhas sobre os ombros e, exultantes de alegria, dançaram num ritmo improvisado. Assim nasceu “A Coca”, número agora representada em Caminha e em Redondel, na Galiza. Mas a explicação não estava completa. Porque razão eram as padeiras que tinham a seu cargo o quadro das “Pelas”? E a resposta lá estava.

“As penlas ( pélas ), tradicionalmente, são meninas de pouca idade, ricamente vestidas. A sua denominação pode proceder, ou talvez proceda, do termo latino “puellla” ou por certo de “penulla” ou pena, porque o seu corpo é leve quase etéreo ao colocar-se sobre os ombros da “burra” ou transportadora, sempre uma mulher robusta…”.(1), vestidas de branco, simbolizavam a inocência, a pureza. “As penlas expressam a ingenuidade dos seus obsequiosos ritmos em torno ao Sacramento, representado na Custódia…”.

E assim soubemos, pela referida crónica de “O Faro de Vigo”, que às padeiras estava entregue a cerimónia, “talvez porque no seu trabalho manejavam a farinha com que se confeccionam as hóstias que a consagração transforma em Corpo de Cristo.” (1)

 

 

Braga, 7 de Junho de 2007       

 

                                                             LUÍS  COSTA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 – FARO DE VIGO-

Mitos e lendas da Galiza -

Fas. 29 - 1993

            

  

 

 

publicado por Varziano às 17:03

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