04
Ago 08

                                                     R A P A Z I A D A S

 

Este tempo de princípio do Outono, com a chuva e o vento a bater nas vidraças das janelas do meu escritório sempre provocam em mim uma nostalgia, semelhante aquela que sentia quando, no final de Setembro via despovoar-se a  Póvoa daquela multidão que nos meses calmosos enchiam a praia, ruas e avenidas. Para mais que este tempo invernoso que se aproxima, irá contribuir para fique em casa, junto dos caloríferos, já que não permite o meu passeio higiénico habitual à volta do quarteirão do meu bairro, num combate contra a artrose que muitas vezes me aflige. Costumo dizer que gosto mais de chegar ao Natal do que ao São João. No Natal os dias principiam a crescer, o tal “salto de pardal”, mas que prenuncia a ida para dias maiores, mais solheirentos, enquanto que o São João, nos leva a pensar nos dias que vão minguando, e depressa nas noites mais longas e friorento o tempo.     

E ao dizer que a nostalgia de agora é semelhante aos meus tempos de rapaz namoradeiro, é porque ela me faz recordar o verão que antecedeu a Segunda Grande Guerra. A época balnear, como sabemos tinha, como hoje, o seu início no primeiro dia de Junho, muito embora nesse mês mais dedicado aos Santos Populares a frequência à praia muito longe ficava dos três meses seguintes, com predominância ao mês da Agosto, o mês por excelência para férias.

O mês de Agosto tinha os seus habituais veraneantes, quase sempre alugando as mesmas casas e clientes dos mesmos banheiros, ocupando no areal as áreas concedidas, balizadas, pelo menos de manhã, pelas cordas dos banhos amarradas um pouco ao largo nos pipos, cordas que serviam para depois das “cachafundas”, continuarem com diversão e mais segurança,  receberem as “salsas ondas”.

Ora, muitos veraneantes do Minho, Douro e transmontanos, e até era vulgar ver entre eles alguns alfacinhas, eram sempre fiéis aos banhos póveiros e passando as  férias nesta Rainha das Praias de Portugal, costume que vinha de longa data. Para alguns era um lenitivo, um descanso do dia a dia sempre igual. Para outros era a procura de cura pelos Banhos Quentes de água do mar, remédio santo para os reumáticos. O Algarve nesses tempos ainda não tinha sido descoberto.

  Recordo um casal, julgo que lisboeta, que não dispensava passar as férias na Póvoa. Anos a fio, sempre no areal poveiro assentava arraiais, até me parece que foi, um dos primeiros a instalar o guarda-sol, hoje tão disseminado. Tratava-se um casal de grande respeito, com uma filha, e a avaliar pelas pessoas que sempre os acompanhava e não só. Segundo a minha já hoje muito cansada memória julgo que o nome desse Senhor era V…. A esposa, Senhora de uma esbelta figura, com todo o respeito, não desmerecia a filha, também ela de grande formosura.

Habitualmente o banheiro colocava para os ilustres veraneantes sempre no mesmo lugar o guarda-sol e as respectivas e almofadas, o que para a rapaziada, era um lugar assinalado para, por perto, os conquistadores fazerem “olhinhos meigos” à encantadora menina. Lugar disputado, embora fosse tempo perdido, era ver quem chegava primeiro.

Certa vez, o lugar do casal por ter chegado atrasado, estava de vago, mas ali por perto, nenhum dos galanteadores arredou pé à espera A tarde foi decorrendo, como Sol se dirigia para o zénite e a sombra ia acompanhando o movimento aparente da maior estrela do nosso sistema. Enfim, a sombra chegou ao lugar onde estavam os “basbaques”, eu incluído. Chegou o Senhor e logo interpolou os rapazes :- Fazem o favor de saírem daí. Estão debaixo do meu guarda-sol. Logo um dos mais atrevidos, respondeu :- Perdão, nos já estávamos aqui, a sombra é que veio ter connosco.

Mas como não queríamos fazer má figura perante a gentil menina e também porque o físico do cavalheiro nos assustava, metemos “o rabo entre as pernas” e cedemos a sombra.

Nesses meses de veraneio a Póvoa, como hoje, enchia-se de gente e os galanteadores à volta das mais belas raparigas não faltavam, as quais sabendo que eram amores de verão, lá iam distribuindo como que hoje se diz, “tampas”.Ora de um dia para o outro, tudo desaparecia com o final do verão e daí a nossa, pelo menos comigo, nostalgia.

Até certo ponto era essa nostalgia atenuada com a chegada, em Outubro, dos camponeses, acintosamente chamados de “ceboleiros”. Arribavam até à Póvoa, depois dos senhores das terras terem chegado aos senhorios – quintas e leiras – e se ter processado as colheitas, as vindimas. Vinham, normalmente, a conselho do facultativo lá do lugar, apanhar os banhos de mar receitados – dez, vinte ou trinta.

Com para eles, principalmente elas, o fato de banho, era a camisa de noite, e  era isso que mais apreciavam os nostálgicos. A receita dizia, por exemplo, vinte banhos, e então problema resolvia-se economicamente – dois por dia – um de manhã cedo e outro mais tarde, pelas dez / onze horas.

Era então vê-las, nos braços dos possantes banheiros, normalmente dois para as mergulhar nas ondas - a  tal “cachafunda”. Estão a ver como se portavam os “malandrecos” dos nostálgicos. Esperavam pela hora da saída do banho, e elas com as camisas coladas ao corpo, fazendo realçar as formas femininas, intimidadas e envergonhadas corriam para a barraca onde as esperava a bacia com água que no princípio foi colocada ali junto, para como diziam as banheiras, lhes levar “OS NERVOS PARA AS PERNAS” e depois do banho para retirar a areia e algum sargaço.

E era assim que se compensava a nostalgia do fim de verão.

 

Braga, 3 de Outubro de 2006                        

                                                          LUIS COSTA   

 

publicado por Varziano às 18:13

Agosto 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15

17
18
19
20
21
22
23

24
29
30

31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos
2013

2012

2011

2010

2009

2008

mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO