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Ago 08

                N A T AL  DE  2 0 0 6

                           LOAS AO MENINO E CANTARES DOS REIS

Segundo o etnólogo poveiro Rocha Peixoto, a solenidade do Natal “não é referida nas notícias mais remotas que, nos primeiros escritos, nos legou o cristianismo…as investigações relativas ao dia preciso da natividade do Salvador não resolveram uma data justa… os chefes da Igreja do Ocidente, em face da grande e funda solenidade anual, celebrada em Roma e chamada a festa do nascimento do sol invencível, ( o solstício de inverno ), decidiram fazer coincidir com ele o nascimento de Jesus Cristo.” ( 1 ).E assim a Igreja, no século IV, modificou aos poucos a intenção pagã de homenagem ao astro Rei, expurgando um ritual ancestral, transformando-o numa Grande Festa Religiosa, mas não tendo contudo atenuado certos manifestações, certos costume, usos e superstições “que mais ou menos sobreviveram até hoje” .( 1 )

E assim, por exemplo, em quase em todo o mundo, se festeja em Dezembro a Quadra Natalícia, com festins onde não falta boa mesa recheada de belos aperitivos, mexidos, filhoses, rabanadas, aletria, bolos e uma infinidade de guloseimas, regadas com geropiga, ou com uns Cálices de Porto velho, de acordo com as posses dos alegres comensais ( pois que nessa Santa Noite, a alegria familiar se expande, e que para  mais “tristezas não pagam dívidas”) que serão a sobremesa da tradicional “bacalhoada”, tradicional nas Ceias de Natal nas casas portuguesas, reminiscência dos antigos sacrifícios dedicados aos Deuses.

Ainda, e reportando-nos à citada obra acima, diz Rocha Peixoto,

:-“Nas casas e nas igrejas” representando o nascimento do Menino Deus, se construíam pequenos presépios e lapinhas, perante os quais se entoavam outrora colóquios, entremezes e vilancicos ou se entoavam as loas de Natal:

                                      “Filhos de homem rico

                                      Em berço dourado,

                                      Só vós, meu menino,

                                      Em palhas deitado.

 

                                      Em palhas deitado,

                                      Em palhas nascido,

                                      Filho de uma rosa,

                                      Cravo escolhido”

A tradição veio a arreigar-se entre o povo cristão e, pelo decorrer dos anos, desapareceram alguns costumes, os colóquios, os entremezes e vilancicos mas ficaram para sempre a reunião de familiares na Consoada, muitos deles por vezes vindos de longínquas paragens,  as loas ao menino e os cantares dos Reis.

De entre as muitas loas e cantares que pela quadra natalícia, se fazem ouvir, por essas noites, em vozes “esganiçadas”, entoadas normalmente por crianças, acompanhadas de rudes instrumentos, como ferrinhos, bombos, pandeiretas, reques-reques e quejandos, escolhemos algumas, já que há muito por onde escolher e até muitas vezes são improvisações do momento.

Nessas noites, é vulgar verem-se os grupos de miúdos, arrostando com o frio de Dezembro ou uma chuvada, percorrendo as ruas e batendo às portas, desejando Boas-Festas, e dando em troca, uma série de quadras alusivas à época, sempre na esperança de que umas moedas caiam no seu mealheiro ou, quando menos, uma mão cheia de figos, castanhas ou doces.

Normalmente as famílias que são distinguidas por esses pequenos, (poderemos chamar-lhes romeirinhos?), recebem-nos com agrado e não poucas vezes até chegam a convidá-los para, na mesa, provarem as doçarias. É uma maneira de comemorar o Natal que alguns, em casa, não tiveram a graça de “adoçar o bico”, e assim dar um ar mais festivo à sua canseira. Sabemos que, para alguns, principalmente aqueles que acham que esta data UNIVERSALMENTE FESTIVA é uma hipocrisia, eu pergunto porque não fazem Natal todos os dias ? Acham que a reunião familiar é uma hipocrisia ? Bem gostaria que todo o ano tivesse para todos a alegria da noite Santa, e se o quiséssemos isto seria um facto.

Mas vamos as quadras, pois estava a divagar e a fugir do prometido. Assim das Actas do Colóquio Manuel Boaventura, vou dar algumas das que na minha comunicação fiz no referido colóquio e alusivas ao Natal, e bem assim outras recolhidas no livro “O Poveiro” de Santos Graça. Principiarei por dizer como começavam as cantilenas. Falo da Póvoa, mas em Braga é mais ou menos idêntico o mesmo proceder. Depois da Ceia, no dia 25, os cantores reunidos, percorrem as ruas e batendo às portas ( isto na Póvoa ) perguntando : “Bai ou num bai ?” Se a resposta era pela afirmativa, logo principiava a “função”:

 

                          “ Ó da casa, nobre gente

                          Escutai um bocadinho

                          Uma cantiga bonita,

                          Que se canta ao Deus Menino

E logo vinha o elogio:

                         

                          “ O Patrão desta casa,

                          Raminho de salsa crua,

                          Quando chega à janela

                          “Alumeia” toda a rua.

E principia a narrativa:

 

                          Era uma cabana velha,

                          De penhascos naturais,

                          Entrou lá Nossa Senhora,

                          São José e ninguém mais

 

                          A Virgem logo sentiu,

                          O seu parto milagroso,

                          Chamando com meiga voz,

                          - Vem cá meigo esposo!

 

                          Nasceu o Menino Deus,

                          Com prazer e alegria,

                          Ficando resplandecente,

                          Sua mãe, Virgem Maria !

E continuavam a narrar o maravilhoso nascimento, e não perdendo a ocasião de também serem um pouco chocarreiros. Se soubessem que na casa havia moça casadoira, mas já “entradota”, lá vinha a quadra:

                         

                          “Viva a dona Mariquinhas,

                          Que ainda está solteira.

                           Vamos arranjar-lhe um par

                          P’ra saltar à fogueira!”

Depois da narração, vinha o pedido:

 

                                      “Viva o Senhor desta casa,

                                      Casaquinho de veludo.

                                      Meta a mão no seu bolsinho,

                                      E bote p’ra cá um escudo.

 

                                      Ó patrão desta casa,

                                      Vá dar volta à salgadeira,

                                      Vá ver se encontra toucinho,

                                      Ou bocado de orelheira.

 

                                      Se a criada não quiser ir,

                                      Dê-lhe”c’um” pau “inté cair!

                                      Se a faca não quiser cortar

                                      Dê-lhe um fio no alguidar!

Se na casa não respondiam ao pedido se “vai ou não vai”, logo saltava o remoque :

 

                                      “Esta casa cheira a unto,

                                      Aqui mora algum defunto!

 

                                      Esta casa é tão alta,

                                      É forrada a papelão!

                                      O senhor que nela mora,

                                      É um grande comilão!

Depois, já entrado o Janeiro, continuavam a correr as casas, mas agora já não eram loas ao Deus Menino, mas sim aos três Reis Magos :

 

                                      “Os três reis já são chegados,

                                      Da parte do Oriente,

                                      A  adorar o Deus Menino.

                                      Alto Deus, Omnipotente!

E por agora, acho que já dei uma pálida ideia de como as crianças desta parte vêem o Natal, e porque estamos em tempo, desejo para todos os amáveis leitores um bom Natal, Boas Festas e Feliz Ano Novo

                                                             LUÍS COSTA

Braga, Natal de 2006  

 

( 1 ) OBRAS : Rocha Peixoto – Edição da C.M.P.V. 1967

 

 

Em tempo e fora do texto:

              Para o Amigo Director Costa Guimarães e para toda a família do Correio do Minho, um Bom Natal e Feliz Ano Novo, com boa colaboração para continuar a afirmar o “O CORREIO DO MINHO”, como um dos melhores DIÁRIOS  REGIONAIS de Portugal sem IBERISMOS, pois que a nossa Pátria é una e de “Espanha nem bom vento, nem bom casamento”.

                                                                         LUÍS COSTA

 

publicado por Varziano às 17:53

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