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Mai 13

 ROMARIAS   POPULARES

                       

      HÁ TANTO TEMPO QUE TE PROCURO

      E NUM T ' ACHO

      SE T ' ACHASSES

      COMO EU T ‘ ACHO

NUNCA T ‘ ACHARIAS

      COMO EU T ‘ ACHO !

 

      Era, e ainda é vulgar, nas feiras e romarias do Minho, formar-se num espaçoso largo, um circulo de pessoas que se prestam a ver e ouvir os CANTARES AO DESAFIO, costume tradicional que possivelmente terá as suas raízes nas velhas  Cantigas de Amigo e Mal Dizer.

      Sendo normalmente dois namorados, cada um puxava pelo outro a ver qual dos dois melhor se desenvencilhasse da piada que o parceiro ou parceira lhe tivesse dirigido através da quadra cantada,

      Normalmente essas reuniões de foliões era acompanhada um por um tocador de viola ou concertina quando os parceiros que iriam entrar na disputa poética popular encontrassem alguém pronto a acompanhá-los com esses instrumentos musicais .  Neste caso o despique teria mais valor pois a música , por mais variada, dava  mais entusiasmo não só aos cantadores como até ao público que ali se juntava para ouvir os  descantes.

      Ele, com a vara de conduzir os bois, arrimada à cava do braço e fincada no chão, o que servia não só para não se desequilibrar no meio da refrega cantadeira mas também para  descansar, e ela com os braços pousados em arco na cinta, onde se distinguia o característico lenço de cabeça, o xaile e saia bordada a garridas cores,  trabalho em lã, corpete bem retesado, fazendo sobressair os  seios, como abaixo se vai descrever,  toda se bamboleava, quando, com a sua resposta, pensava ter arrumado com o opositor.

      Ele de chapéu cambado,  na cinta o Registo do Santo da festa, calças afuniladas, botas ou tamancos ferrados, colete desabotoado, faixa colorida avermelhada à volta da cinta, quase segurando as calças, camisa de linho, enfeitada com bordado com flores , feitos por hábeis mãos de apaixonadas camponesas que também bordavam os chamados lenços de namorados, que  os moços traziam de volta do pescoço sinal de estarem comprometidos, e na qual escreviam, se assim pode dizer ao lavor, quadras ou promessas de amor.

      Vários sãos os trajos das minhotas, principalmente nesta região. No entanto ela, hoje, a cantadeira apresentou-se com o chamado da Ribeira : lenço de merino de cores garridas, atado em turbante sobre o pescoço, camisa de linho bordada a branco e a ponto de cruz, no peito a nas mangas, colete reduzido quase reduzido a tiras, que faz sobressair o busto. Sobre o peito, cruzado um lenço também de merino, de  cores vistosas, atado em laço nas costas. A saia de cetim preto, abundantemente rodada, enriquecida por vidrilhos. Um grande avental, decorada com tiras de veludo colorido os indispensáveis vidrilhos, brilhando e reluzindo á luz. Ao lado deste uma algibeira em feitio de coração, recoberta de missanga. As meias brancas rendadas faziam sobressair as chinelas de verniz, que calçavam os pés. O ouro, sempre presente no trajo festivo da minhota, ressaltava do pescoço em grossos cordões e das orelhas, pendentes valiosas argolas ou brincos à rainha. Assim preparado o cenário, eis que estão prontos os comparsas para o prélio " cantitístigo " que se iria processar.

      Um deles lança a primeira chistosa quadra. Não interessa ser ele ou ela, o que primeiro se atreveu, foi ela :

                        Não me atires com pedrinhas

      Ao folho do avental.

      A minha mãe não me criou 

                        P'r´òs moços do areal !

ao que ele de pronto responde :

                        Hei-de amar um vale verde,

                        Enquanto tiver verdura.

                        E não te hei-de amar a ti,

                        Coração de pedra dura!

E de novo ela responde : 

                        O anel que me deste

                        Era de vidro, quebrou-se!

                        O amor que me tinhas,

                        Era pouco, acabou-se!

Cabe a vez ao “cantador” :

                        Maria, vê se te recordas

                        Daquela noite de luar.

                        Eu com os olhos em terra

                        Tu, com eles no ar !

E, ela respondendo :

                        Todo o sempre recordo

                        O dia em que te vi.

                        Adormeço em ti pensando

                        Acordo pensando em ti !

Novo o cantor :

                        Ó minha carinha linda

                        Cara cheia de sinais.

                        No dia em que te não vejo

                        O meu coração só dá ais.

E assim continuava, por algum tempo, até que os romeiros “Cantadores ao desafio” , muito embora apesar de serem instados e aplaudidos pelo público, acabavam a “peleja”.

16 de Janeiro de 2013               LUÍS COSTA

publicado por Varziano às 14:26

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