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Mai 13

SANTA   MARIA   DE BOURO

 

      A  800  ANOS  DA INSTALAÇÃO DOS MONGES DE CISTER

                       

                                                                                 Decorreu no ano de 1995, o  OITAVO CENTENÁRIO  da instalação dos Monges de Cister, no antigo cenóbio beneditino do seculo  XII, que já existia em 1148. Sendo a ordem de Cister, um ramo desviado da ordem de São Bento, por São Bernardo, parece que a sua instalação em Portugal se ficou a dever ao primeiro rei de Portugal - Dom Afonso Henriques - ou a sua mulher Dona Mafalda, conterrânea de São Bernardo de Clavaral, que convenceu os monges beneditinos a trocaram os seus hábitos negros pelo branco dos cistercienses.

      Fazendo fé na inscrição que se sobrepõe sobre a estátua de D. Afonso Henriques, de joelhos e mãos postas, fitando o céu, consubstanciando na pedra, como no frontão da igreja de Santa Cruz, em Braga, a aparição de Ourique, em listel ondulante a legenda: "AOS INFIEIS SNR ", e ainda sublinhada, por inscrições gravadas latinas a frase : 1 ª . "ALFONSUS COMES PORTUGALIE EXCELSUS ", seguida e intervalada de porta e varanda, voltada para o terreiro outra frase: " ALFONSUS I. US HUJUS DOMUS REGNIQUE FUNDATOR ", ficamos na dúvida se teria sido por influência de Dona Mafalda, que Dom Henrique fundou este mosteiro, ou se ele já existiria como cenóbio, como parece estar provado, pertencente aos monges de São Bento.

      Leva a crer que a primitiva ordem instalada em Bouro fosse de facto a de São Bento, e isto porque na fachada do edifício conventual se encontram as esculturas de São Bento ao lado da de São Bernardo de Clavaral, o que nos mostra a antiguidade e antecedência da ordem dos Monges Negros sobre a dos Monges Brancos de Cister.

      Sabe-se que Dom Afonso Henriques concedeu abastados rendimentos a este antigo mosteiro. Possivelmente este gesto de benemerência para com os Monges Brancos, ficou a dever-se à ajuda que lhe deram na conquista de Santarém. Pelo menos o mesmo gesto foi acentuado quando, em cumprimento de promessa feita, cumprimento apenas baseado em uma lenda, lhes fundou a Real Abadia de Alcobaça.

      Monges guerreiros e lavradores a eles se ficou a dever o grande incremento dado à fruticultura, que transformaram os terrenos pantanosos do rio Alcoa, no verdadeiro pomar de Portugal que é hoje a região de Alcobaça.

      Quanto à concessão dos benefícios concedidos por Dom Afonso Henriques a esta ordem bastar-nos-á o facto de numa das edículas que preenchem a fachada do Convento, lá estar representado, orando, o primeiro rei de Portugal, ( alusão ao Milagre de Ourique ) o que, quanto a nós, é bastante para que, pelo menos na tradição, se atribua a sua fundação a Dom Afonso Henriques,  muito embora datem esta e as outras edículas em que estão as esculturas, e elas mesmo,  do Conde Dom Henrique,  de Dom Sebastião,  do Cardeal Rei Dom Henrique e Dom João  IV, e ainda a Sagrada Família, se saiba que elas datam do século  X V I I I , quando da remodelação e recuperação do edifício conventual e da igreja, data em que foi profundamente alterado o traçado românico desta  mole de pedra.

      Tal foi a importância deste mosteiro e seus ocupantes, que dois séculos depois, reconhecendo o seu esforço nas diversas fossadas na defesa do território e independência de Portugal, foi atribuído aos Abades de Bouro o papel de defensores da Portela do Homem contra a invasão dos castelhanos.  

      De nada valeu o trabalho que estes Monges Brancos tiveram. O seu trabalho, tanto ajuda para consolidar este pequeno país á beira mar plantado e que deu novos mundos ao mundo  fosse reconhecido, o seu ensino nas novas técnicas agrícolas que introduziram em Portugal, todo o seu esforço acabou quando a iniqua lei de 1834, os expulsou como a outros, do território nacional e ultramarino, sem cuidarem, ao menos de salvarem, pelo menos,  o que deixaram atrás de si de bom. E assim assistimos à ruina dessas casas que reis e pessoas ilustres tinham acarinhado. Praticamente ao abandono umas, outras vendidas ao desbarato com o único fim de se destruir obras de séculos. Eram então os ventos da mudança que sempre os nossos governantes gostaram de imitar, mas sem aproveitarem a lição dos outros.

      Ontem como hoje. Bem aqui ao lado, na vizinha Espanha, também como por lá sopraram os tais ventos, mas parece ter havido outro cuidado em preservar aquilo que durante séculos custou a levantar. Vários são os exemplos que ainda hoje nos estão a dar.  O salvamento do Mosteiro Cisterciense de Santa Maria la Real de Osera, é disso exemplo. O Mosteiro de São Francisco em Santiago de Compostela, e o de "Poio", em Pontevedra, é mais um. Todos eles entregues as respectivas ordens a que pertenciam, ou outras que tomaram o seu lugar, lá estão prósperos e bem conservados.  Neles as instituições religiosas transformaram uma parte para servir de estalagens esmeradas, enquanto que uma outra é reservada ao religiosos que administram os seus bens. E até, quanto ao de São Francisco, são estudantes que prestam o serviço nas mesas dos comedouros (salas de jantar).

       Mas não se ficou só pela Espanha Continental.  Esta maneira de olhar para esses monumentos do passado estendeu-se até às antigas Colónias Espanholas da América. Em Santiago do Chile, o convento de São Francisco, conseguiu preservar uma valiosa pinoteca que enche por completa várias salas com pinturas de grandes mestres. E aqui, que é dos quadros da famosa pinoteca do Mosteiro de Tibães? Alguns foram vendidos quase ao desbarato e outros ou acabaram nos antiquários ou pura e simplesmente foram destruídos pela humidade que trespassou dos esventrados telhados.

       Mas não só os conventos e igrejas foram, na vizinha Espanha, salvos. Também Castelos - "paradors" assim lhes chamam - como o Parador Nacional "Conde de Gondomar", em Baiona ou o castelo de Pedro "Madruga" em Souttomayor, este apenas servindo para visitar. É certo que por cá alguma coisa se fez. Não podemos esquecer os Palácios de Sintra, alguns de Lisboa, o Paço dos Duques, e o Convento da Costa, em Guimarães,(este último transformado em pousada ) e outros no Porto, mas não podemos olvidar o Convento de Júnias, o Convento de Tibães, tão tardiamente se está hoje a restaurar, o de Rendufe, agora um pouco mais agradável, mas graças ao malogrado pároco poveiro e meu chorado amigo Cezar Marques, o Convento de Vilar de Frades e outros muito mais espalhados por esse País fora.

       Estando agora a fazer-se o restauro o Convento de Bouro, para servir como de pórtico para a entrada no Parque Peneda-Gerês, e que no futuro irá servir como pousada a explorar por uma grande empresa. Não seria melhor entregue de novo aos Monges de Cister, seguindo o exemplo da Galiza, para a sua exploração, reservando uma parte à instituição religiosa?

       Será esta sugestão uma utopia, mas até certo ponto, já que parece que as comemorações  do oitavo centenário se ficarão apenas pelas intenções, não seria agradável voltar a ouvir ressoar por aqueles restaurados claustros a voz cantante dos monges brancos entoando o canto gregoriano?

 

Braga, Páscoa de 1995

                             LUIS COSTA

 

publicado por Varziano às 14:14

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