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Mai 13

BOTAR  OS NERVOS P'R'AS PERNAS

 

      Famosos foram os banheiros da Póvoa. Se bem me lembro foi  essa estirpe de homens bons, homens de uma seriedade a toda a prova, e que hoje é, felizmente, ainda seguida pelos seus sucessores, que contribuiram para que o nome da praia da Póvoa extravasasse as fronteiras do seu pequeno concelho e se espalhasse por todo o Norte do País, desde a raia minhota e transmontana até ao Douro Litoral. Os Tambucos, os da Hora, os Canetas, os Moucos, os Sérgios eram conhecidos em todo o Norte de Portugal.  A Póvoa, eram então há sessenta anos, tal como hoje a praia por excelência de todo o Norte.  Braga, Guimarães, Famalicão, Vieira, Fafe, Póvoa de Lanhoso, Chaves, Vila Real ( que sei eu de outras terras ! ), ontem como hoje, aqui vem desaguar nos meses calmosos de verão.

 

      Mas até há uns bons sessenta anos ( quando da minha mocidade passada nesta terra de maravilha ), a época mais procurada, a chamada época cheia, decorria entre o mês de Agosto e Setembro, prolongando-se, por vezes, por Outubro fora, quando os chamados ceboleiros, gente do campo que vinha fazer a sua cura contra o reumático nos milagrosos banhos quentes  de água salgada, que quatro ou cinco estabecimentos termais, espalhados por casas do Passeio Alegre e Avenida dos Banhos, se dedicavam a proporcionar aos doentes um remédio bom e barato e que se não fizessem bem a todos, mal também não lhes fazia.

 

      Mas como disse, a época balnear não se confinava só aos meses citados acima. Quando o tempo o permitia, prolongava-se a época por parte do mês de Novembro. No final das colheitas e vindimas, por Outubro, desciam dos campos até ao mar da Póvoa, os chamados ceboleiros , epigrama que nada tinha de desprestigioso para com a gente do campo, que só depois dos seus trabalhos agrícolas completados podiam procurar cumprir com o receituado pelos seus facultativos, que lhe indicavam qual o numero de cachafundas ( banhos de mar ) que tinham de tomar ou os banhos quentes a que se deviam sujeitar. Era então vulgar verem-se gupos de banhistas ,mal o Sol despontava, dirigirem-se para o mar para tomar o seu primeiro banho, que horas depois se repetia, pois se o fizessem duas ou tres vezes por dia, mais depressa acabavam com o receituado.  Alguns desses banhistas  serodios, prolongavam a sua estadia e muitas vezes, o São Martinho era festejado na praia.

     

      Procuravam estas curas não só a gente do Campo, mas também os senhores, os citadinos,

que nestes banhos viam o alívio dos seus males que os afligiam, principalmente, durante o Inverno.  Estou a lembrar-me de um bracarense,brasileiro de torna viagem, que depois de ter sido atingido pelo reumático nas plagas húmidas do sertão, regressou à terra Pátria e procurou, em quase todas as termas do País alívio para o seu mal sem nunca surtir efeiro.  Um dia falaram-lhe nas curas maravilhosas dos banhos quentes da água salgada da Póvinha do Mar, e então aqui procurou remédio para a doença que o afligia, principalmente no Inverno, época em que mais se faz sentir o mal.

 

      Tão bem se deu, que na Póvoa assentou arraiais e por cá ficou e até, talvez, em agradecimento pela sua cura ou alívio, se tornou um dos beneméritos da então vila da Póvoa, que lhe agradeceu, não só construindo um mausoléu para os seus restos mortais, mas até atribuiu o seu nome honrado a uma artéria principal da vila . Refiro-me a Santos Minho, rua onde morei por perto de vinte anos

 

      Mas o escrito não era com o fim que venho expondo, como se depreende pelo titulo, mas sim outro.  A disposição das barracas, tal como hoje se veem, para os veranistas desfrutarem a beleza do mar, a sua frescura, não era esta. Pode dizer-se que elas nem existiam. Existia sim um toldo. coberto a lona, e com bancos de jardim, onde os papás e as mamás assistiam, da parte da manhã, ás cachafundas da praxe, da sua prole. De tarde o entretenimento, era passado debaixo dos toldos de zinco ( quantos casamentos ali tiveram a sua origem ! ), onde os jogos dos mais novos se desenrolavam, passando as quentes tardes abrigados das fustigantes nortadas, com por exemplo o jogo anelzinho ( babona, que estás no meio, babona, estás vendo o anel passar, sem nunca o podereres agarrar ! ) ocasião propicia para que as mãos dos namorados se pudessem tocar, prazer único, quase só consentido debaixo dos olhares dos progenitores.

 

      Mas lá estou a desviar-me quase perdendo o fio à meada. Ora, nesse já recuado tempo, os fatos de banho, principalmente os das moças, era quase como o hoje pijama. Do corpo, praticamente, só os pés, a cara e as mãos ficavam a descoberto. Não estava ainda em moda o corpo bonzeado. As fogosas banhistas e os banhistas tinham barracas, propriedade do concessionário da zona, disposta em linha, perpendiculares, à linha da maré, que as alugavem para que dentro e a bom recato, vestissem o seu pudico fato de banho, muitas vezes alugado ao banheiro.  Fora encontrava-se uma bacia com água salgada que tinha por função, quando prontos para o banho, entrar em contacto com a água fria do mar. Dizia-se então que era para BOTAR OS NERVOS P'R'ÁS PERNAS. Outro fim tinha também essa bacia que era o de, depois de vestidos, limparem a areia dos pés.

 

      No entanto, algumas vezes servia para outra coisa. Servia para um banho forçado. Eu explico. As barracas para se preparem para o banho nem sempre estavam em boas condições e algumas tinham até uns buraquitos que serviam para os marotos  espreitarem os belos corpos que a vestimenta do banho encobria. As banheiras sempre à espreita ( os homens tinham outra função qual era a de nos seus braços possantes darem as cachafundas necessárias aos que delas precisassem, que no final tinham ainda o prazer de se amarrarem à corda ), quando nos viam, os marotos ( ia-me a fugir a boca para a mentira ) a espreitar, vai de bacia pelo ar, e encharcava o curioso, que tinha de dar às de vila Diogo , se não a coisa não ficava por ali.

 

      Ai, como é bom recordar as brincadeiras e as malandrices da mocidade !

 

 

Braga, Julho de 1977

 

 

                                   LUIS   COSTA

     

 

 

 

 

 

publicado por Varziano às 12:51

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