20
Fev 13
INÊS DE CASTRO

COROA DE AMOR E VINGANÇA
- 1 -
A triste história da galega Inês de Castro, amada além da vida, que reinou, na Corte Portuguesa, depois de morrer.

Até seis anjos velam o seu sono. Solícitos, como habituados à tarefa que lhes encomendou o desconhecido artista de tal maravilha funerária, estende os seus braços para compor os mil detalhes do túmulo, suportado por quatro esfinges. O que está à cabeceira, à esquerda, toca e guarda o toucado de sua dama. O que segue, faz outro tanto com o ramo de lírios que sustenta em suas mãos que parece que sonha. Todo o coro, se extasia na contemplação a que foi eternamente destinado.
Dona Inês apoia a cabeça sobre duas almofadas e veste galas a um tempo sóbrias e ricas, sobre um historiado dossel. As riscas do cabelo, alisados, partem do meio da ampla testa e cobrem as orelhas com a suavidade da água mansa. Forte e belo colo de garça, remata o início do seio, firme e pequeno. Parecem humedecidas as roupagens compridas que não permitem ver os pés, envoltos nas pregas marmóreas.
Côa-se o último raio de Sol de uma melancólica tarde outonal no cruzeiro do templo de Alcobaça, em Leiria, como se tudo fora o ocaso pressentido neste País de lirismo e saudade. Apenas se notam já os detalhes do lavor, rico em nervuras, volutas e colunas, tão altas, que semelham divisar o céu. Uma música suave, fastidiosa, como aroma de presbitério oriental, alaga o espaço deserto.
Por um momento quer ser um sussuro dos lábios entreabertos, pétalas de uma rosa imarcescível, que a galega que amou e morreu por amor mui adorável na corte gótica de Pedro, seu amado, apodado de Cruel e quem deve recordar-se como um enamorado justiceiro, cuja vida glosaram legiões de poetas, desde Luís de Camões a Júlio Dantas e, por desconhece-lo, se perdeu uma glosa de Shakespeare, já que a “possuidora” de grandes olhos azuis, como lagos, amou mais que Julieta e lhe cortaram a sua pujante vida mais brutalmente do que como acabou a de Ofélia.
Que nenhum incomodado genealogista se atreva a insinuar sequer a bastardia de origem em tão nobre e apaixonado coração. Veio ao mundo em Monforte, cidade ilustre das terras lucenses, em 1325, filha de Pedro Fernandéz de Castro, o temido “senhor da guerra” e da lusitana Aldonza Soares de Valladares. Teve uma irmã que até se atrevíu a competir com ela em beleza, e dois irmãos intrigantes, ambiciosos, que precipitaram o seu destino. Muito pequena deve ter conhecido o país onde tão depressa acabou a sua apaixonada existência.




INÊS DE CASTRO -

-2 -

PARA CONHECIMENTO DESTE DRAMA E A SUA GRANDE
ATRACÇÃO FORAM OS FEROZES ARREBATAMENTOS DE
PEDRO, O CRUEL ou JUSTICEIRO

A adolescência de Inês decorreu em Castela na corte do seu parente o infante dom João Manuel, frequentador assíduo da casa e amante de poesia, autor de “O Conde Lucanor” e de tratados de falcoaria do que lhe veio a experiência em jornadas proveitosas com aves de rapina altaneiras. A pupila, menina de dona Constância, descansaria em sua mão enluvada, estendida até ao braço por temor, sobressaltos encapuçados, como cascavel cujo tilintar o devolveriam os muros denticulados do Castelo de Penafiel, navio varado no mar imaginário da chamada Castela.
Negócios políticos daquela gótica Espanha no começo concluíram em concreto, que o casamento entre a infanta Constância e o herdeiro de Afonso IV, o atrevido. Desde este o lado da então recente fronteira, convinha recuperar Portugal para Castela, unindo-o no tálamo. Desde a Lusitânia, a secreta intenção era sempre a mesma.
Inês, de quinze anos, veio para Coimbra, a esbelta urbe que se eleva junto ao Mondego acompanhada da sua parente, de corpo pequeno e em demasia roliço, pouco dotada pela natureza, ainda que com um coração ardente que se arrebatou com a galanteria do seu prometido, não obstante a vaidade do seu falar.
Houve dilatados e faustosos anúncios da boda. A pequena galega atendia a sua senhora e convivia com a corte. Começou por exaltar paixões a sua beleza fresca, a sua graça pessoal. Nessa língua que não conhece fronteiras, mas que é tão apta para versificar, inspirou madrigais e cantares que hoje integram cancioneiros de ternura. E entre aqueles que irremediavelmente caíram nas redes dos seus atractivos estava Pedro, o príncipe das esperanças conjuntas de ambos os reinos.
Constância, como mulher, começou a suspeitá-lo. A principio não quis admitir que a sua amiga – Inês – sua amiga de sempre, sua conselheira, a irmã do coração e alma de todas as suas confidências, poderia arrebatar-lhe, aquilo que mais amava no mundo, Pedro. Mas a realidade, entretanto, acabou por impor-se, acumulando detalhes que analisava na solidão do seu desgosto, entre prantos de angústia.
As suspeitas, as participou ao Rei Afonso, feitas em conciliábulo secreto da corte entre prelados e nobres. A imediata maternidade de Constância poderia ser o remédio que secaria um veneno que começava a ser torrente caudalosa. Do infante que nascesse seria madrinha Inês, que ao contrair parentesco canónico por este meio com a princesa teria de seguida suportar o impacto de uma relação aos olhos da igreja pouco menos que incestuosa.
O pequeno infante faleceu pouco depois. A história apenas recorda que lhe puseram o nome de Luís. A monarquia precisava de continuidade e aos poucos, Constância mostrou novo estado de boa esperança. Tinham decorrido apenas três lustros desde o casamento principesco. Está-se em 1345. Chega a hora do parto e a esperada mãe, agoniada pelos ciúmes e pelo contratempo de um desenlace infeliz, adoece gravemente até dar-se, como certa, a sua próxima morte.
Débil, emagrecida, suporta sangrias, toma poções e contempla, do leito, as mil relíquias que tem trazido até ao seu quarto, à sua Câmara, para intercessão celestial.

de Castela, amparados pelo prestígio do seu pai, um dos nobres mais
influentes nessa corte.

INES DE CASTRO - 3 -

Ao lado da moribunda está o príncipe Dom Pedro, tenebroso pelo que se avizinha, e está Inês, para quem são as olhadelas mais ternas e insinuantes de Pedro. Está a desenvolver-se uma das páginas mais comoventes da história do Palácio de Coimbra, a cidade que sobe e de agacha numa colina, enquanto que, alheio à tragédia, corre mansamente, brilha o inquieto Mondego.
O doce e exacerbado lírico Eugénio de Castro, glosou esta cena nos versos mais belos que entesoura a literatura portuguesa. Pedro, comovido, abraça o corpo lasso de Constância e deposita nos seus lábios, já arroxeados, um beijo apaixonado, mais de arrependimento do que amor. Inês contém os seus gestos, porque a piedade se impõe a sentimentos mais profundos.
Quando trata, discretamente, de retirar-se, para não perturbar a intimidade daquele instante, escuta seu nome na voz débil da sua senhora. Se aproxima. Uma negação da enferma que pretende ser imperioso na sua obrigada lassidão, a evita de chegar seu rosto ao de Constância, que lhe entrega o beijo que recebeu enquanto que umas palavras permitem dar a entender à galega que lhe devolve o que para ela era, um dos que de seus lábios tinha recebido. Fizeram-se as solenidades a que o luto oficial determinava. Dobraram, lentos e lúgubres, os sinos de todos os templos da cidade. Gasta-se o incenso nas exéquias na catedral. O povo chora a morte inesperada de uma princesa que ama, e que entregou a sua vida dando-a a quem um dia cingirá a coroa portuguesa.
Com a gala e o sigilo do luto oficial, Pedro vê em segredo, Inês. A corte não oculta o seu profundo desgosto, e Inês é levada à força para Albuquerque, na Estremadura, do outro lado do Tejo. O cuidado apenas consegue seu fim – afastar o príncipe de Inês. Mas sem resultado, porque Pedro, para aliviar suas supostas penas, organiza saídas da casa que lhe destinam até onde se encontra o seu amor.
Olvidando a oposição rei, seu pai, traz de novo para Portugal Inês e a instala no palácio de Santa Clara, nas amenas margens do rio que circunda Coimbra. As tensões se extremam e o príncipe se revolta contra o seu pai. Tem partidários no Norte, desde o Porto até à fronteira galega. Anuncia que secretamente contraiu matrimónio com Inês, de quem já tem dois filhos e que a sua espada cortará a língua de quem ouse sequer chama-los de bastardos e não infantes legítimos de Portugal. Os irmãos de Inês, com seus partidários, apoiam Pedro e intrigam na corte
Os amores de Pedro e Inês atingem o escândalo. Afonso IV consulta e ouve os seus cortesãos. Recusa horrorizado a proposta que lhe formulam de assassinar Inês, mas, finalmente, concorda alegando razões políticas e como tal aceita. Álvaro Gonçalves, Pedro Coelho e Diogo Lopes Pacheco encabeçam a conjura.
Aproveitando uma ausência do príncipe cavalgam, ainda noite cerrada, até ao palácio de Santa Clara. Inês que os conhece, recebe-os confiada enquanto atende os seus filhos, mesmo ao começar o novo dia. As crianças, de tenra idade, presenciam horrorizados a cena. Desembainham as espadas os conspiradores. De nada vale as súplicas de Inês, que apela a sua condição de mãe. Na sua própria câmara é decapitada. Uma tela da parede do palácio é a mortalha do seu corpo sem vida, que se enterra num lugar próximo.
A notícia, apesar do segredo, corre de boca em boca. Pedro a recebe e não quer admiti-la. Os conjurados assassinos fogem para Espanha e refugiam-se em Sevilha. O príncipe, desesperado, começa a preparar a vingança.(cont)



INÊS DE CASTRO
- 4 –

EL REI VINGOU A MORTE DA SUA AMADA NUMA
CERIMÓNIA DOLOROSA

Os acontecimentos precipitam-se. Pouco mais de um ano tinha passado quando, em 28 de Março de 1357, faleceu o rei Dom Afonso IV. Pedro é já rei de Portugal. O seu poder e influência junto do seu sobrinho, o rei de Castela, de seu mesmo nome e idêntico apodo futuro, o Cruel, entrega-lhe dois dos assassinos, Álvaro Gonçalves e Pedro Coelho, porque o terceiro tinha desaparecido.


Pedro os leva a Coimbra. Reúne os seus mais fiéis e ordena que em presença de todos, os traidores sejam submetidos aos mais cruéis tormentos, tão habilmente aplicada que não julguem tratar-se de morte. Contam os cronistas, talvez apócrifos, que a um arrancaram o coração pelo peito e ao outro pelas costas. Os cadáveres foram queimados e as cinzas lançadas ao Mondego, para que a corrente as distanciasse da tragédia. As depositasse em mil pontos do seu leito.

O SEU ESQUELETO FOI VESTIDO DE GALAS REAIS
PARA LHE RENDEREM HOMENAGEM

O rei ordenou a exumação do cadáver da sua amada, cuja localização lhe foi indicada pelos assassinos durante o tormento. O transladou para o palácio, aí o vestiram com as melhores roupagens, de gala e ele mesmo coroou a caveira que rematava o momento de tão macabra simulação.
Ocupou o sítio ao lado de sua amada, com os restos dos dedos da mão enjoiada a tomou entre as suas, e obrigou a toda a corte, incluindo dignidades eclesiásticas, se ajoelhassem perante o revestido esqueleto e o acatassem como imaginária rainha de Portugal. Quem não tinha sido coroada em vida, reinava depois de morrer, de tão alucinante e insuperável maneira.
O nosso grande lírico Luís de Camões o disse nos Lusíadas “ Que depois de morta foi Rainha”. Repete-o Luís Véles de Guevara na peça dramática “Reinar depois de morrer” Até Júlio Dantas, o apaixonado romântico muitas vezes o confirmou. Um artista espanhol, Martínez Cubells, foi distinguido com a primeira medalha com a pintura de um quadro há cem anos, que está guardado no museu de Madrid. Debaixo do historiado toucado com que foi revestido o esqueleto se oculta apenas a palavra impossível de uma boca que perdeu a mandíbula inferior. Nobres e eclesiásticos se amontoam à esquerda da macabra do par real, esperando seu turno, da imposta reverência à defunta. Há historiadores que negam este acontecimento, e até tem razão apoiando-se em documento antigos, de sigilo plúmbio. Não o creiais, porque, se o fazeis, renunciareis à fantasia. Pensai, ao contrário, que o cadáver de Inês foi levado aos ombros, por caminhos medievais, desde Coimbra até Leiria, para que repousasse eternamente em Alcobaça, junto a ele mesmo, el Rei, em sepulcros de tão belo lavor que parece que os vultos funerários palpitam.
Oitava CVIII de canto III de “OS LUSÍADAS” de Camões, dedicada a que reinou depois de morrer :

PASSADA ESTA TÃO PRÓSPERAVITÓRIA,
TORNADO AFONSO Á LUSITANA TERRA,
A SE LOGRAR A PAZ COM TANTA GLÓRIA,
O CASO TRISTE E DINO DA MEMÓRIA,
QUE DO SEPULCRO OS HOMENS DESENTERRA
ACONTECEU DA MÍSERA E MESQUINHA
QUE DEPOIS DE SER MORTA FOI RAINHA

FARO DE VIGO - Mitos y Lendas de Galícia Fascículo nº 3 – 1993 –
TRADUÇÃO de LUIS COSTA -
Email : luisdiascosta@sapo.pt
publicado por Varziano às 14:53

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