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Jul 10
TRES FIGURAS POPULARES POVEIRAS Manel Ceguinho, Miséria e Macário Trago hoje aqui três figuras populares poveiras que, pelos anos quarenta do findo século XX, palmilhavam a Póvoa do Mar e que, apesar dos anos que já passaram, ainda retenho na minha mente. “MANEL CÉGUINHO”, como ficou por todos os poveiros conhecido, e como o indica a palavra que segue ao seu nome de baptismo, era um invisual. Morava com sua família ali, na rua Tenente Valadim, numa casa fronteira as traseiras do jardim do Casino. Quase todos os dias via o “Manel”, calcorrear o passeio poente da rua Santos Minho, carregando sobre os ombros um cântaro de água, que ele ia encher na rua das Lavadeiras, hoje Joaquim Martins da Costa, no cano de água que ali existia, e que até deu o apelido do comerciante que deu o nome à rua – Quim do Cano. Sempre bem disposto, e sempre respeitado pelo rapazio, o que é notável, o Manel Ceguinho, lá seguia rua fora, com o matraquear de um pau que lhe servia de bengala, cantando uma lenga-lenga, parecendo que não o incomodava a carga que levava sobre os ombros. Nunca cheguei a perceber porque ia a tão longe da sua casa procurar e carregar com o cântaro. MISÉRIA , era um pobre, meio demente talvez, que passava o dia, praticamente encostado à parede, a meio da Junqueira, mais ou menos por perto da casa de chapelaria feminina Umbelina Bastos, quase junto da farmácia, creio que “Moderna”, onde pontificava o farmacêutico Lemos, com a sua imponente e retorcida bigodaça, pessoa influente na vida social poveira. Podemos dizer, que ali era um local estratégico onde o Miséria se postava na mira de arranjar uns tostões, pelo menos para sustentar o vício do cigarrinho. Era certo e sabido que ao passar pelo seu quartel general, não se ficasse surpreendido com o pedido: “Menino, dá-me um cigarrinho”. Dizem (vendo a informação pelo preço que a comprei), que o Miséria (o seu nome verdadeiro nunca o soube ), quando adoeceu, levaram-no para o Hospital, e para ele água por certo era um veneno, quando lhe deram um banho, “esfaleceu e bateu a bota”. Por fim temos o MACÁRIO SOROMENHO, velho pescador, inválido por cegueira e também de uma mão, acidente que foi o resultado do rebentamento de uma vela de dinamite, meio então muito usado na pesca da sardinha. Este método acabou e muito bem por ser proibido na pesca. Macário, apesar da sua diminuição física, parece que sempre a considerou como um mal menor. Filósofo doutrinário, poeta e político avançado, Macário Soromenho, ainda se fazia ouvir nas suas diatribes, por vezes bastante cáusticas. Jamais posso esquecer uma delas quando um sem homónimo publicou uma opinião em verso, ao qual resolveu criticar acabando pela frase : “que te valha o santo do nosso nome, já que eu te não posso valer”. Macário Soromenho versejador repentino, ainda teve a honra de ver alguma das suas poesias em letra de forma, através de um ou outro jornal. Morava na avenida Mousinho, no gaveto formado pela rua de São Sebastião. Não sei qual o seu final de vida. Sei e apenas, que ainda o conheci quando para angariar algum, era comissionista de um fábrica de massas alimentícias do Porto. Eis três figuras poveiras das quais muito poucos se devem lembrar, a não ser qualquer velho rezingão como eu. Braga, 1 de Agosto de 2008 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 19:47

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