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Jul 10
RECORDAÇÕES DA PÓVOA Luís Costa Numa das minhas passagens esporádicas pela Póvoa, onde já tenho levado muitos dos alunos que, em Braga, frequentam as Escolas de Terceira Idade ( vulgo Universidades de Terceira Idade ), tive que deambular por aquela nossa cidade, que para muitos, é(ra) só o areal, a praia de banhos. Necessariamente, aos revelar-lhes uma Póvoa diferente daquela que eles conheciam tive que lhes mostrar, graças ao Amigo Ferreira Lopes, o museu, a biblioteca, o castelo de Nossa Senhora da Conceição, a Matriz, a Capela da Senhora das Dores, entre outras muitas coisas, que para esses estudantes era uma Póvoa desconhecida. Entrei por Aver-o-Mar, ( para mim sempre gostei do seu popular nome ABREMAR ) e deparei com uma terra para mim desconhecida. Julguei estar num País, em qualquer parte do mundo, menos às portas da Póvinha ( sinal da era ! ). Em tempos idos que jamais voltam. passei por ali muitas tardes de verão, num sossego absoluto, sem o trepidar dos meios de comunicação que não só atroam os ares, como num enchem de poluição, no primeiro caso sonora e no segundo nos envenenam os pulmões e o sangue. Hoje, a onda do progresso que assaltou esta ridente freguesia, não nos torna possível desfrutar o bem estar de outro tempos. As construções habitacionais, surgiram por aquelas bandas, como cogumelos em pinhal derrubado e abandonado que, quanto a mim ( podem discordar à vontade ), descaracterizaram uma aldeia tipicamente piscatória. Como acima disse, podem discordar, achando que sou " bota de elástico ", mas gosto do sossego e por isso era o meu local escolhido para passar as férias de Verão. Barulho, empurrões, bichas, bastam as dos meses restantes do ano, quando os temos de suportar no dia a dia do trabalho. Hoje o bulício da Póvoa no Verão, se para muitos ( e que o são ) é agradável, para mim que já vou a caminho " dois carros " , isso é insuportável. Ele extravasou os limites da velha vila da Póvinha do Mar, deu-lhe com razão os foros de uma cidade moderna, ultrapassou a faixa marítima de Beiriz sem ligar ao "Juiz do Sub-Sino " e entrou, sem cerimónias pelo antigo lugar de Amorim, (ABONEMAR - Liber Fidei, doc.150, pag, 176 - Tomo I. - Prof. Dr. Avelino de Jesus Costa) . Passando pela deslumbrante orla marítima, onde se nos deparam os caprichosos arranjos dos montes de sargaço e que ao longe nos dão a ilusão de estarmos em pleno sertão africano com as suas palhotas, encontramo-nos na praia do pescado daquela freguesia - a praia e portinho da Forcada. Seguindo em direcção à Póvoa, tive o desgosto de ter de deixar de continuar a ver as salsas ondas correndo e beijando as areias da praia da Lagoa, agora vedada pelo Vermar e ter de me sujeitar a dar a volta ao hotel até chegar ao local onde se acha instalado o monumento à Póvoa, às suas gentes, à vida dos povos da beira-mar e do interior do concelho, e só depois poder desfrutar a vista do nosso mar pela moderna e muito modificada Avenida dos Banhos. No Monumento, cuja concepção, quanto à beleza artística, nada se pode apresentar de mal, é até um bom e bonito exemplar que dignifica o escultor que o concebeu, está destacada toda a actividade das gentes do concelho, desde aquela que deu também a esta terra fama - a agricultura - as novidades que dos Campos Masseira vão até aos mercados de todo o Norte como os saborosos coivões e batatas da areia, tão apreciados nas Ceias de Natal, até aquela que deu fama e nome que ultrapassou as fronteiras da região - a vida do mar - o mar em si, a bravura dos pescadores que dia a dia arriscam a sua vida, procurando meios de subsistência que só no mar sabem achar. São os descendentes desses homens que no já longínquo ano do século passado responderam ao Rei Dom Luís, ao vê-los numa frágil casca de noz , longe. a muitas milhas distantes da orla marítima, se eram portugueses, responderam, humildemente : " somos, pela graça de Deus, da Póvinha do mar " Ora a Póvoa sempre viveu do mar. Foi, principalmente, o mar que a projectou desde tempos imemoriais. Logo os pescadores tem lugar de destaque no monumento. Mas vale a pena procurar um pouco da história da Póvoa. Para isso socorri-me de algumas obras que falam desta terra de pescadores, como o dicionário " Portugal Antigo e Moderno " ,de Pinho Leal, Vol. I I , pag. 618, 2ª edição, Braga. 1860, que diz : " Póvoa de Varzim " - Villa, Douro, cabeça de concelho e da comarca de seu nome ( roda-pé, informa que " era apenas cabeça de concelho, da comarca de Villa do Conde, que lhe fica a 4 kilómetros ao S. ; mas, em Junho de 1875, for criada a comarca da Póvoa de Varzim, separando-se o seu julgado da comarca de Villa do Conde ), 37 kilómetros a O. de Braga, 33 ao N. do Porto, 43 a O. de Guimarães, 40 ao S. de Viana do Lima, 338 ao N. de Lisboa, 3.500 fogos - em 1757, tinha 545 - Orago, Nossa Senhora da Conceição, Arcebispado de Braga, distrito administrativo do Porto. O Cabido da Sé de Braga apresentava o reitor, que tinha 360$000 reis e pé de altar. O concelho da Póvoa de Varzim, é formado pelas 10 freguesias seguintes : - Amorim, Argivai, Balazar, Beiriz, Estella, Laúndos, Nabais ( ou Navais ), Póvoa de Varzim, Rates e Terroso, todas com 5.600 fogos. . . . Fica na costa do Oceano Atlântico, em 41 º 22 ' de latitude, e 13 ' de long. ocid. " Logo, por uma pequena análise se nota que, dessas 10 freguesias, pelos menos 5 tinham confrontação directa com o mar - Amorim ( que não tinha desmembrado ainda Aver-o-Mar ), Beiriz ( a qual possui uma faixa até á praia fronteira ao Vermar - entre a zona desportiva e Aver-o-mar ), Estela, Aguçadoura e Póvoa. Das restantes - uma há que parece ter sido o núcleo que deu origem à Póvoa de hoje - Argivai - como adiante veremos. Quanto à freguesia Navais, esta está tão perto da costa que dificilmente poderemos dizer que não é uma localidade costeira. Restam-nos as do interior do concelho Laúndos, Terroso, Rates e Balazar. De facto estas não se podem considerar costeiras mas a influência do mar, dos seus produtos de fertilização da agricultura não era do que os pescadores e homens e mulheres da língua de maré o extraiam e o colocavam à disposição dos lavradores - Pilado e sargaço, quando não até, muitas vezes, a sardinha miúda quando a abundância era demasiada ? Portanto a Póvoa sempre viveu com o mar e o seu desenvolvimento está directamente ligado a ele. Mas continuemos com Pinho Leal. " . . . Tem um porto e enseada, onde antigamente entravam navios de todos os lotes, mas que há muitos annos se acha obstruído pelas areias, dando apenas entrada a embarcações miúdas. Uma grande parte da população se emprega na indústria de pesca, do que vivem exclusivamente : sendo os pescadores d'aqui, os mais audazes do norte, e tão corajosos como os de Olhão, no Algarve. " Mas nem só a arte da pesca trouxe a prosperidade a esta pequena terra . Vejamos o que diz ainda Pinho Leal : ". . . Posto ser uma povoação muito antiga, era pobre e insignificante, composta, na sua maior parte, por barracas e pequenas casas térreas, de pescadores. A vulgarização da moda dos banhos de mar, tem feito prosperar quase rapidamente esta povoação, que está sendo uma das mais belas do litoral português. Tem boas hospedarias, cafés, ( superiores em magnificência, a muitos de Lisboa e Porto ) óptimos edifícios particulares e bonitos passeios. " Não podemos esquecer que a fama dos banhos de mar, na Póvoa vem de longe. Podemos dizer que então a época dos banhos de mar, tinha outra concepção . Eram eles como um curativo, como uma saudável maneira de proporcionar aos que até aqui vinham uma possível estadia nas suas terras de origem durante o inclemente Inverno, porque o Mar da Póvoa lhes tinha retemperado o corpo para enfrentar as rudes invernias. Não procuravam, como hoje o bronzear a pele. Nesses tempos era de bom tom, a brancura da epiderme. Também a época de veraneio, não tinha o seu inicio como agora, no mes de Julho. Então a época principiava por meados de Agosto e prolongava-se até Novembro. A explicação era a de que então quem frequentava a praia era, em Agosto e Setembro a Nobreza da Província que deixando as suas quintas com as colheitas já quase prontas, vinham de abalada até ao mar e, só depois do seu regresso, é que os caseiros, os vinham substituir e até era, então conhecidos como o apelativo de ceboleiros, gente honrada e humilde que só abandonava os seus trabalhos de lavoura depois da vindima e da colheita do milho. Esta gente mantinha a Póvoa animada por Novembro dentro. O Livro de Actas da Câmara de Braga. anos de 1837 - 1839, dá-nos um a referência interessante que nos prova o que acima dizemos. Assim a fol. 132 v. - 29/ 08/ 1838, vemos que : " O Presidente da Câmara ( Bacharel Francisco Xavier de Sousa Torres e Almeida, requereu : " ... que tendo com a sua família no dia primeiro do futuro mês de retirar-se para uso de Banhos de Mar segundo lhe foi indicado pelos facultativos, se convocasse o substituto ... ". (segue) pag.4 Mas nem só os lavradores se mantinham por este mês, e até ao São Martinho. Também outras classes neste mês na Póvoa estanciavam. Sabemos, que, através da publicação " O CABIDO DE BRAGA ", de A. Luís Vaz, um Deão da Sé de Braga, aqui faleceu em Novembro de 1861 : "D. Guilherme Jerónimo da Cunha Reis, ...Deão, Deputado da Nação, nasceu a 15- 04 - 1795 e faleceu na PÓVOA DE VARZIM. ONDE ESTAVA A BANHOS A 14 - 11 - 1861" Um livro publicado em Chaves, fala dos banhistas, ao referir-se ao famoso GRITO, isto é ao relatar factos dos tempos das lutas liberais, diz que um carreteiro ou almocreve, que fazia o transporte de passageiros banhistas que para aqui vinham a banhos oriundos de Chaves e todo a região de Trás os Montes, ao passar no alto do Marão, pedia aos seus clientes que alto e em bom som gritassem VIVA O SENHOR REI DOM MIGUEL, grito que era depois compensado na Lixa, com uma boa arrozada de frango, por sua conta. E acabamos também de recolher uma outra informação sobre o benefícios dos banhos de mar e que remetem o seu uso para 1823 . No Livro "RAIZES DA LIBERDADE ", de João de Sousa da Câmara, edição de Braga, 1995, encontramos uma referência a um conselho médico para a toma de banhos de mar. Trata-se do conselho dado pelo facultativo para que Francisco Pereira de Sousa Meneses e sua esposa Dona Inácia Xavier Caitana de Aragão e Castro, ele da família Biscainhos, para frequentarem assiduamente os banhos de mar. Não indica a Póvoa, mas isto só vem provar que os benéficos banhos nas salsas ondas eram, já há muitos anos, aconselhados. Mas passemos a transcrever esse parágrafo do acima citado livro : " . . .Deverá dizer-se que o casal, por recomendação dos médicos, passa a frequentar assiduamente os banhos de mar em Pedrouços . . . " E de novo Pinho Leal nos informa : " A concorrência de banhistas, é aqui espantosa, vindo famílias de muitas léguas de distância. A indústria piscatória também nestes últimos tempos se tem desenvolvido prodigiosamente. " A moda dos banhos do mar, se pode mesmo então ser considerada moda, tinha a sua componência de ter ou de proporcionar remédio para alguns males, principalmente se o doente era reumático ou se tinha necessidade de fortalecer o seu organismo, procurando nos banhos de mar, tomados directamente na língua da maré, ou nos benéficos banhos quentes de água salgada, tomados em quatro ou cinco estabelecimentos balneares que os havia na Póvoa. Parece que o entusiasmo pelos benéficos banhos de mar, remonta aos princípios do século X I X. Assim nos informa Raúl Brandão, no seu livro " EL --REI JUNOT ", reedição da Biblioteca Autores Portugueses - Imprensa Nacional - Casa da Moeda, que a páginas 136, diz que em 1805, citando Machado de Castro, Ms. : " Tomavam-se banhos de mar em Caxias onde iam vários criados do Paço tomá-los " Consultando o jornal " A P R A I A ", vemos que muitas das melhores famílias de Braga , Guimarães e outras mais distantes terras do Pais procuravam o benefício de uma férias na Póvoa, para apenas descanso ou até, como acima se diz, para benefícios da sua saúde. Assim vemos que no numero publicado em 10 de Agosto de 1899, menciona além de pessoas e famílias bracarenses, que vieram estanciar à Póvoa, como o Visconde de Sinde, o comendador Guimarães e família, o Dr. Manuel Joaquim Peixoto do Rego e Amorim o comendador Alberto Matos, cujo filho ainda hoje frequenta a Póvoa, a família Américo Barbosa, a família Mota Belo, cujos descendentes continuam arreigados às férias poveiras, e muitos mais que da cidade dos Arcebispos desciam até à língua do mar poveiro, a esta praia. Mas também se dava o mesmo com as famílias de Guimarães, cidade que ainda hoje dá um forte contingente de pessoas , no verão e nos dias calmosos á Póvoa. Muitos deles aqui mandaram construir as suas casas de veraneio. Dos que no final do século, e da cidade berço, vinham até às salsas ondas da Póvinha do Mar, podemos destacar, entre outros os nomes da Marquesa de Lindoso e família, Visconde de Viamonte e família, Comendador Luís Fernandes, João Abreu e família, Dona Ana Mendes Ribeiro, Domingos Martins ( Aldão ) e muitos outros vimaranenses Nesta lista de pessoas gradas do Norte, fazem parte numerosos banhistas do Porto e de toda região duriense, e ainda de Lisboa, de Santarém, de Fafe, de Cabeceiras de Basto, de Lamego, de Vila Flor, do Brasil, do Pará, numa profusão de nomes dos mais ilustrados e nobres de toda a região, mostrando que a Praia da Póvoa , era então, como hoje, uma estância verdadeiramente cosmopolita. Pelo mesmo jornal, ficamos a saber que os banhistas, não se ficavam só pelos benéficos banhos de mar. Também procuravam outros divertimentos, não só à noite, nos cafés. sempre com variedades, aos quais não faltavam as bailarinas, quase sempre espanholas, mas, durante o dia, procuravam outras distracções, alheias à habitual estadia nos toldos de zinco, onde passavam muitas tardes ao abrigo das fustigantes nortadas, como nos relata quase em roda-pé o referido jornal da " PRAIA " . RECORDAÇÕES 2 (Segue) pag. 5 P I C - N I C " Digam lá que há falta de divertimentos na Póvoa. Para complemento do tempo ruidoso e alegre que aqui se passa , vai realizar-se no próximo sábado, um brilhante " pic-nic ", para o qual estão já inscritas mais de cem pessoas. A Comissão promotora desta festa tem-se esforçado por lhe dar todo o brilho e a maneira como este ideia foi recebida pela nossa distinta colónia balnear e pelos habitantes desta villa leva-nos a crer que será um dia admiravelmente passado. O lugar escolhido para o almoço foi a Espinheira. Pede-nos a comissão para noticiarmos que, a pedido de algumas famílias, a saída efectuar-se-há do Café Chinês às 12 horas e não às 9 1/2 horas da manhã como estava anunciado ." Mas outros divertimentos dava a Póvoa aos seus habituais frequentadores, num desejo de sempre proporcionar aos banhistas uma agradável estadia de férias. Assim temos que não podiam faltar as touradas, espectáculo sempre desejado, não só por aqueles que aqui vinham " balnear", com até aqueles amantes da tauromaquia, desta região nortenha, aproveitavam e vinham passar um dia à beira-mar, e satisfaziam a sua paixão por este espectáculo . No jornal a que me venho reportando, lá está a notícia de uma tourada : T O U R O S " Fez-se a primeira corrida no último domingo, inauguração da época nesta praia. O gado saiu bravo e cumpriu bem. Do trabalho dos artistas há a notar o de Tomaz Abreu ( Mazantinito ), que se apresentou muito prometedor. Agradou em todas as lides e foi muito aplaudido. Nas pegas - especialmente nas do segundo cornupeto - os moços de forcado foram violentamente enxovalhados. O criador, Maurício de Carvalho, foi chamado à praça e vitoriado. " Chegada a noite não acabavam os divertimentos proporcionados aos banhistas. Voltando ao jornal " A PRAIA ", vemos que a animação nocturna estava confiada aos cafés, nos quais uns grupos de bailarinas, quase sempre espanholas, acompanhadas de grupos musicais, entretinham a sociedade que não tinha no jogo o seu passatempo. Assim respigando desse jornal da época vamos transcrever alguma coisa que nos interessa para avaliarmos o que erra essa tal animação nocturna : P E L O S C A F É S " Concentrou-se ali toda a animação da praia, todo esse viver pelo diletantismo sem o qual não se compreende a vilegiatura entre nós. Se, na realidade. os banhistas pretendem curar-se de qualquer moléstia verdadeira ou imaginária, quer do coração, quer dos nervos cá estamos no encalço da descoberta da receita para o tratamento : banhos de mar e musica, partes eguais. Ora como esta receita é de resultados eficazes, calcule-se lá o numero dos que procuram ansiosamente a cura dos seus males, saindo do banho e correndo para os cafés, só com o descanso indispensável para que o efeito da primeira dose predisponha bem para a aplicação da segunda ! E, ao que vemos, é fora de dúvida que as virtudes da musica, sobrelevam, sob o ponto de vista terapêutico, as da água salgada . . . Percorramos ,então, os cafés, esses sanatórios da beira mar, onde vae em busca da alegria e bons humores para complemento do bem estar que ao corpo proporciona o oceano. " Lembra, então, com saudade o antigo Café David, já na altura apenas uma recordação, para logo passar para O SUISSO, o café da moda. Neste tinham lugar bons concertos, bailados e por, vezes até "matinées". Diz que ali bem cabidas as preferências dos veraneantes, que se deleitavam com boa musica, a que então havia de melhor e mais em voga. Por aquele palco passou a "VIRTUOSE" Guilhermina Suggia, um tal violinista Pastor. Boa musica, esplêndida música, que por aquela sala passava, sublime nas execuções, que fazia consubstanciar em " em nossa alma fremente de entusiasmo" aos acordes de uma tarantela de Poper ou aos trechos da "Cavalara Rusticana" A vida nocturna era o complemento, indispensável , a umas férias à beira mar, fossem elas para curar males de nervos ou de . . . coração. Como vemos a época de banhos tinha muitos atractivos, mas a razão principal da vinda de tanta gente à Póvoa era o seu mar. Era o atractivo, de resto como ainda hoje o é. Molhar os pés na água salgada, retemperar o organismo com o cheiro da maresia, "cachafundar" nas ondas e descansar amarrado à corda era um prazer que seria lembrado ao rodar dos meses do ano, suspirando por uma nova época. Se é muito difícil saber, quantos, pelo menos os mais abastados que procuravam os banhos de mar , se o vinham por receituário do facultativo, ou pelo menos para gozar uns dias de descanso, há pelos menos uma fonte pela qual ficamos a saber, com segurança, que muitos vinham a banhos procurar melhorar a sua saúde e a conselho dos facultativos. As notícias dos jornais apenas referem que fulano e sua família saíram na época calmosa para banhos, sem qualquer referência se o faziam por conselho médico se vinham para descansar e, muitas vezes, folgar. Mas, como disse acima há uma fonte segura, de onde podemos dizer que vinham a banhos por conselho do facultativo. Nos Livros de Actas da Câmara de Braga, entre referências de que alguns funcionários pediam licença para se ausentarem para "irem a banhos de mar", há outras referências, estas em " Livros de Correspondência Expedida " que indicam que, não funcionários mas " expostos ", vinham a banhos por conselho médico. Assim vamos dar, pelo menos para servirem de exemplo, a extracção de notas de um desses livros que se encontram à guarda do Arquivo da Câmara Municipal de Braga, e referentes a meados do século passado : Admºr do Con.ce da Póvoa de Varzim " Nota nº 205 - Setembro 7 - Por acórdão da Câmara Municipal a que presido vai para essa praia nesta data afim daí fazer uso de banhos de mar por tempo de quinze dias úteis, o exposto deste hospício chamado Eduardo nº 24 do ano de 1888, acompanhado pela ama respectiva Rosa Vieira, casada, da freguesia de S. Vicente de Penço, deste concelho . E em nome da caridade, rogo a V.Exª, segundo o estilo para que digne mandar ministrar os banhos ao mencionado exposto gratuitamente, bem como prestar-lhe os socorros de que ele carecer, durante a sua estabilidade na mesma pensão ( ? ) ; outro sim rogo a V. Exª para regularidade de serviço me informe se a referida ama ai esteve os quinze dias que por esta Câmara lhe foram abonados. Deus Guarde. O Presidente da Câmara -- João Carlos Pereira Lobato d'Azevedo. E com a nota " nº 206 - Idêntico ao nº 205, concedendo 28 dias ao exposto Martinho da Apresentação nº 47, ao cuidado da ama Mª Glr, da freguesia de Seramil, concelho de Amares." E ainda mais outro exemplo : Nota nº 209 - Setembro, 11 - Por acórdão da Câmara Municipal a que presido vai para essa praia nesta data afim de fazer uso de banhos de mar por tempo de 28 dias úteis, a exposta deste Hospício chamada Graciana nº 252 do ano de 1884, acompanhada pela ama respectiva, Maria Francisca, casada, residente nesta cidade. Rogo a V.Exª, segundo o estilo, para que se digne mandar ministrar os banhos à mencionada exposta gratuitamente, bem como prestar-lhe os socorros de que ela carecer, somente na sua estabilidade nessa praia. Outro sim rogo a V.Exª. para regularidade do serviço me informe se a referida ama ai esteve os 28 dias que por esta Câmara lhe foram abonados. Deus Guarde. O Presidente João Carlos Pereira Lobato d'Azevedo. RECORDAÇÕES 3(segue) pag.8 Antes do regresso do exposto e da sua ama à terra de origem, havia, como acima se vê, de junto da Administração do Concelho procurar uma prova de que tinam estado a banhos o exposto, sempre acompanhado pela ama, e até, por vezes, teria que ser mencionado nesse documento passado pela autoridade, o número de banhos que o doente tomou. Assim notamos que a fama do Mar da Póvoa se espalhou como remédio e retemperança de um corpo necessitado de sol, ar do mar, cheiro da maresia, pronto a enfrentar um novo ano de inverno e trabalho. Mas já no principio do século X V I I , ( 1706 - 1712 ), o Padre Carvalho da Costa na sua Corografia Portuguesa, se referia à Póvoa, nos seguintes termos : "DA VILLA DA PÓVOA DE VARZIM" . Hé povoaçam antiga com um porto de enseada, em que antigamente entravão, & sahiaõ navios, da qual foy senhor Dom Goterres tronco dos Cunhas, que sendo francez natural da Gascunha, Província de França visinha da Espanha ao pé dos Pirineos, veyo para este Reyno com o Conde Dom Henrique, que lhe fez mercê desta terra, & de outras em Braga, & Guimaraens. ElRey Dom Diniz lhe deu foral, & a doou a seu filho Affonso Sanches, & entrou no Mosteiro de Villa do Conde por doaçam destes Infantes seus fundadores, até que ultimamente tornou à Coroa, em que está com tributo annual às Freyras de quatro mil reis, & o solho, que ali morre em memória do senhorio. que tiveram. Governa-se por Juiz Ordinário, Vereadores & Procurador do Concelho, feitos por eleiçam trienal do povo, & Pelouro, a que preside o Corregedor do Porto. Vem escrever-lhe por distribuiçam hum dos Escrivaens de Villa do Conde, de que dista hum quarto de légoa. Tem huma Freguesia da invocaçam de Santa Maria, Vigairaria do Cabido, & Mitra de Braga com dez mil reis, ao todo sessenta mil reis, & para a massa do Cabido quinhentos & cincoenta mil reis com a da Urgevay, & dizima do peixe : e tem cem visinhos, de que trinta saõ Couto do dito Cabido." Voltando a Pinho Leal, diz êste autor na obra citada : " Ignora-se a etymologia do sobre-nome d'esta povoação. Querem uns que seja corrupção de Varzinha , pois que está edificada em uma pequena varzea. Outros, julgando que com sonhadas origens nobilitavam a villa, dizem que lhe provém de Cayo Varizino, consul romano, ao qual atribuem a sua fundação. É certo que o primeiro assento da igreja de Argivai, foi no lugar da Varzinha, e que à Póvoa se deu antigamente o nome de Varazim de Jusão ( Varazim de Baixo ). Também se ignora a época em que principiou a dar-se-lhe o nome actual. Vemos que em 1305 se chamava Varazim de Jusão ; mas, o Conde D. Pedro, no seu Nobiliário, dá-lhe o nome de Porto de Varazim." Diz, finalmente, que tudo são opiniões e ele próprio aventa até uma hipótese, na sua " humilíssima opinião " ( sic ) que a origem etimológica, pode estar na origem germânica. Um pouco mais à frente, Pinho Leal, informa que : "Franklim, no seu livro de forais, fez da Póvoa de Varzim, e de Varzim de Jusão ( ou Varazim de Jusão , pois de ambos os modos se escrevia antigamente ) duas povoações diversas, pois dizendo a pag. 154, que o Rei Dom Manuel deu, em Lisboa, foral à Póvoa, a 25 de Novembro de 1514 ( Livro de forais novos do Minho, fl. 55 verso, col. 1ª ) - a pag. 292, e incluído nas terras que não obtiveram foral novo, traz o foral velho de Varazim de Jusão , dado pelo rei Dom Diniz, em Santarém , a 9 de Março de 1308 ( 1288 segundo Carvalho da Costa ) . (segue) pag.9 Povoação que foi aldeia de Argivai, da qual, se desmembrou em 1625, por mérito próprio e dos seus naturais que por certo tiveram na arte da pesca o seu desenvolvimento, a ponto de se separarem do seu primeiro núcleo, tornando-se paroquia independente. Parece que as armas da Póvoa não constavam ao tempo de Pinho Leal na Torre do Tombo. Alguns escritores julgavam que elas eram as antigas armas de Vila do Conde ( reportamo-nos ao que diz o autor citado ) De facto, se repararmos bem na portada principal gótica - manuelina, da Igreja Matriz de Vila do Conde, notamos que lá estão representadas, entre outras, as actuais armas da Póvoa. Qual a razão ? Desconhecemos, mas será esta a da opinião de que se trata das antigas armas de Vila do Conde ? ou seria porque a velha Varazim, povoação que pertencia aquela vizinha cidade de hoje, já então se ufanava de ter a sua MARCA PRÓPRIA ? E continuando com as informações obtidas através do Dicionário Portugal Antigo e Moderno , vemos que o mar e a pesca foi sempre o principal desenvolvimento da importante cidade de hoje. Assim por ele achamos a informação de que na época em que foram recolhidas , já então se dizia que o que a mais tem feito prosperar - além dos banhos - era a pesca, que se faz em grande escala, peixe que se exportava não só para o Porto mas também para as províncias nortenhas e até para a vizinha Galiza. Faz de seguida um balanço da actividade dessa gente honrada e heróica, dos seus apetrechos marítimos, dando a informação que então havia cerca de 400 embarcações empregues na pesca, entre lanchas do alto, lanchões, e outras pequenas embarcações como o batel, a catraia grande, a catraia pequena e o caíque, estes destinados à pesca não muito longínqua. Também Vasques Calafate, poveiro de quatro costados, sempre pronto a defender a sua menina dos olhos - a Póvoa - as suas gentes, as suas gestas heróicas, afirmava num desdobrável, nº 184, publicado por volta dos anos de trinta, o seguinte : " Hoje, a Póvoa vive do turismo e da laboração das suas fábricas de conserva de peixe . . . Embora notável a receita da chamada época balnear, ela não compensa a que provinha do exercício da pesca, base importantíssima da economia local, e a que se deve a transformação do antigo e reduzido núcleo de pescadores na grande vila da Póvoa de Varzim" . Como vemos era como é hoje o mar que deu vida à Póvoa, a principio pela aventura do mar de onde extraiam o seu ganha pão pela pesca, como mais tarde, como estância turística e de veraneio que veio completar e aumentar o seu desenvolvimento. Posto isto e como o nosso reparo está justificado, quanto ao possante boi que sobressaí no monumento, passemos a analisar o barco e a sua vela. Todos sabemos, os da Póvoa ou os que há longos anos por aqui assentaram arraiais e a tomaram como sua terra, que a vela do Barco Poveiro, era uma vela triangular, VELA LATINA, própria para navegar no "nosso mar ", á bolina, porque não estando o vento de feição, com a sua manobra de bolinar, vinha a porto de salvamento, indo por vezes, lá bem dentro do mar e depois, aproveitando o vento, chegavam à Praia. Só quem não se lembra de presenciar a chegada à barra dos barcos, engalanados com a sua altiva vela, onde por vezes se assinalava o lenço de cabeça de uma mulher, sinal evidente de que por ali, andava alguém com casamento prometido, ou então de cimo do velhinho cais de Dom Luís, hoje soterrado debaixo de toneladas de areia, ver deslizar, barra fora, aquelas embarcações, que mais pareciam gaivotas à flor da água, e apurando o ouvido ouvir as orações do mestre, depois de por o barrete ao ombro " um Padre Nosso e uma Avé Maria, pelos nossos irmãos que aqui morreram " , pode concordar com a representação de uma vela que não latina. Vela latina foi o que sempre se viu no mar da Póvoa, em embarcações tripuladas por póveiros. Mas continuemos a falar da Póvoa, dos seus heróis anónimos, bem representados no monumento, os dos seus Cego do Maio, Patrão Lagoa, Patrão Sérgio , ou dos sacrificados como o velho Lira, sempre na minha memória desde que ouvia a sua odisseia e sacrifício quando a seu barco naufragou na barra e ele, depois de um esforço hercúleo, trouxe até à língua da maré, salvando à força dos seus potentes braços alguns dos seus companheiros, até que por fim lá ficou entre as ondas revoltas, que por certo não admitiram que um pobre homem da Póvoa as tivesse desafiado Continuando a falar da faina, já que falar da Póvoa e dos seus heróis me fazem perder quase o fio à meada, e como tal o principio é por vezes prejudicado pelo entusiasmo. relato agora - sempre o mar - a chegada dos barcos à praia. Era aqui, na borda da língua da maré que se apresentava um dos espectáculos mais garridos e barulhentos das gentes do mar. Principiava para as mulheres o seu trabalho que iria completar o dos homens. Depois dos rapazes da obrigação, filhos dos pescadores da companha, um por cada barco, ter avisado, de que estava " á bica " um barco da companha, numa correria louca, atravessava os bairros piscatórios a chamar as mulheres da companha, para o " Ala - Arriba ". e de tal maneira cumpriam a sua obrigação, tão lestos eram, que a mor parte das vezes o barco ainda não tinha abicado à barra e já as mulheres e os filhos estavam, pés na água, saia arregaçada, presa pelo " LISTRÃO " ( Era obrigatório ao moço - noivo, quando tivesse de fazer uma arribada a qualquer praia espanhola, trazer à sua noiva um listrão - cordão grosso, em cores, com borlas na ponta, que servia de faixa para arregaçar as saias. Mal o barco abicava, o noivo saltava fora, e ali mesmo, na praia, e na presença de todos fazia a oferta . Santos Graça - O Poveiro - Casamento, nota nº 1, folha 178 ) á espera da chegada. Mal tocava na areia, já os troncos roliços de madeira, devidamente ensebados por onde correria a quilha, estavam a postos.. Depois principiava a algazarra de levar o barco até seco, que terminaria quando os homens - pescadores que estavam quase a terminar o seu trabalho e que findaria logo que o barco estivesse em seco e eles distribuíssem o peixe. Era a cena do Ala-Arriba, grito de esforço que se tornou num quase grito de euforia quando se quer exaltar alguém ou facto : Ala-Arriba , pela Póvoa !, por exemplo. Vestidos com a roupa polé ( béstias ) - casacos impermeabilizados pelo óleo de peixe e que os protegia dos salpicos do mar - pés fincados na areia, possantes ombros encostados ao costado do barco, impedindo que se desequilibrassem ao mesmo tempo que o empuravam dando auxilio ao ALA-ARRIBA, sem ajuda de mais nada que os braços daqueles que amarrados à corda, pretendiam por o barco em seco, fora da língua da maré, com os rapazes, solícitos e prontos a colocar os rolos da madeira, ensebada, junto à quilha, facilitando assim o esforço, e assim chegavam a seco e logo que a embarcação estabilizasse, saltavam os da companha de novo para dentro do barco e iam lançando para as pescadeiras o produto do pescado que havia sido marcado como pertença a cada caça. Essa marcação era feita no mar, aquando da recolha da caça, das redes. Curiosa como ela era feita,. Cada pescador tinha a sua marca especial, e assim ao recolher o peixe os palavras chaves da marcação surgiam, como por exemplo : " cruz no rabo ", " pique na badana " , " corte no olho " e o pai de rapaz ( essa era uma das suas obrigações ), com faca da cortiçada ia marcando o peixe que lhe chegava à mão. E era desta mesma maneira, chegados à praia, que era lançado o peixe que cada mulher recolhia por ser a marca das suas redes. Esvaziado o barco da sua carga de peixe fresco, era levado em masseiras para lota, ou se era de grandes proporções - pescadas, congros, safios - era enganchado pela guelra e de rasto pela areia fora, levado até ao lugar da venda - a lota, outro dos espectáculos mais garridos da venda do peixe na Póvoa. Segurando o peixe com a mão direita pela guelra, elevando-o bem alto , para que todos pudessem ver a frescura - SANGUE NA GUELRA - procediam aos lanços : " quatro, quatro, quatro e meio, quatro e meio, cinco, cinco e meio " e assim por aí fora, conforme os aumentos que iam surgindo entre os compradores e que elas, olhos de lince, notavam com facilidade o último, o de mais elevado lanço. Nunca cheguei a perceber como o conseguiam, mas o que é certo é que nunca perdiam a pessoa que fez o último lanço. Sempre pela guelra, apresentavam o peixe, pois era por ali que se conhecia da sua frescura. Quando por vezes, se tratava de um avantajado espécimen, então com a mão direita elevavam o peixe, sempre pela guelra, e a meio era seguro pela outra, mas nunca pela rabo. E era assim a vida das gentes laboriosas da Póvoa, trabalhando no mar os pescadores, ou trabalhando na terra os lavradores ou os pescadores seareiros da orla marítima do Norte - Abremar, Aguçadoura, Estela, Navais. Segundo informação, foi a faina das gentes de então da Póvoa, a Póvoa em si, que se homenageou tanto no monumento colocado na Avenida que da estrada de Viana ao Porto dá acesso à praia de banhos, como no monumento à pescadeira da lota. Braga, JANEIRO DE 1998 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 18:47

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