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Jul 10
O B I S P O “Pelo São Martinho, abre a adega e prova o teu vinho” Mas como nós não tínhamos adega, e queríamos provar o da nova colheita, outro remédio não tínhamos do que o de recorrer ao “ZÉ DA MATA”, e porque não pode haver “São Martinho sem castanhas nem vinho”, lá nos preparamos para cumprir o ritual. E assim principia a história de hoje, mas para princípio temos de recorrer ao habitual início : Naquele tempo, ou melhor naquele ano ( há tantos que já nem sei quantos !... ), um grupo de “pagodeiros”, resolveu, como nos anos anteriores, festejar o dia das castanhas e vinho. Apesar de um sudoeste rijo ( o tal que esfola as redes e rasga as velas ) e uma chuva miudinha que encharcava os ossos ( a morrinha ), o temporal não nos desencorajou de o enfrentar e, pela avenida dos Banhos fora, lá fomos procurar o portão do Zé da Mata, onde iríamos encontrar um acolhedor, quentinho lugar, para saborear, por entre umas “canecadas” de um tinto de São Torcato, do que “pinta a malga”, umas estaladiças castanhas transmontanas, assadas no fogareiro e adubadas por uma camada de manteiga, quase de sabor caseiro e de lamber os beiços. Mas perguntarão, porque optávamos arrostar com o desabrido caminho da beira-mar, e não pela rua interior, mais abrigada do temporal ? Bem, nesse tempo a “bófia”, representada pelo polícia o Carcereiro, andava sempre de olho no horário do fecho dos “tascos” ou das vendas e, como o Zé da Mata era um dos locais preferidos pelos bons amantes da boa “pinga”, era um dos que da zona era vigiado. Como para enfrentar um temporal, numa noite de borrasca, a “bófia” não arriscava uma constipação a fazer vigilância por onde se ouvia o bramir do mar, e sentia os salpicos de salitre que o vento atirava para cima dos “canastros”, o caminho seguro, para a entrada do Zé, era o lado da praia. Construído o cenário do primeiro acto, vamos ao segundo. Entre a “malta”, malta no bom sentido, dos “pagodeiros”, encontrava-se um alegre companheiro, um pouco mais velho que os restantes, de seu nome Napoleão, que morava ali para a rua Almirante Reis. Dizia-se, e várias vezes, confidenciou entre risota, um facto que, constantemente, repetia. Trabalhava num escritório no Porto e todos os dias fazia o trajecto de comboio da Póvoa até à Boavista, estação onde terminava a linha da Póvoa. A casa do amigo Napoleão, era do lado nascente da referida rua e por conseguinte as traseiras com portão, davam para a linha do caminho de ferro. Prático, o Napoleão, não precisava de apanhar o comboio na estação. O maquinista fazia-lhe o favor de moderar a marcha e quase que parava para ele se meter na carruagem ! … Ora, Napoleão, era um dos comparsas da aventura das castanhas e do vinho na memorável véspera do dia de São Martinho. Lá nos encontramos todos no Zé da Mata. Nesta venda havia dois lugares distintos, um, frequentado pelos velhos e importantes e, o outro, pela rapaziada nova. Em banco corrido, tipo preguiceiro, era onde se sentavam os irreverentes moços aguardando a travessa das quentes e boas castanhas besuntadas da indispensável manteiga. E as canecas ou malgas (para saber bem o bom “verdasco” deve ser servido nestes recipientes), sempre cheias, iam afogando as castanhas. Um armário, impondo a sua presença à rapaziada, tinha numa das prateleiras e mesmo à mão de semear, uma e mais apetitosas malgas de marmelada e os olhinhos e a cobiça começaram a dardejar em toda malta. E se o desejo era grande, maior foi o arrojo. Um deles, num rápido ataque à fortaleza “armaria”, rapina uma malga e vai daí logo se pensou acabar aquela farra noutro sítio que não no Zé da Mata. E foram parar a outro da Mata, mas o Leonardo, então já no Largo do Castelo. Já bem bastantes “regados”, ali acabaram com o rico e doce pitéu. Assentaram, como “fim de festa”, já ultrapassada a meia noite, ser eleito o Bispo da noitada. Para isso todos os comparsas teriam que fazer um quatro, cruzando de pé as pernas e aquele que não aguentasse e mais depressa o desfizesse era então entronizado como BISPO. Todos se prontificaram a fazer a prova e o primeiro a quebrar o quatro foi precisamente o amigo Napoleão e assim, em resultado e por unanimidade, foi nomeado o BISPO DAQUELA NOITADA DE FESTA.
publicado por Varziano às 19:33

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