02
Ago 08

F O L G U E D O   D O   A N J O

 

                PÁSCOA  DE  1946

 

Meus Deus, como o tempo passa!!! Parece que foi ontem e já lá vão sessenta anos!!! Ainda me estou a ver naquela na última vez que fui de alongada até a Argivai, na segunda-feira de Páscoa do já longínquo ano de 1946, à nossa festa do Anjo, sim nossa, popular, sem música, apenas a voz esganiçada dos foliões cantando, afinados ou desafinados, não importava, as canções para a dança, sem foguetes, ornamentação e sem sequer Comissão Festeira, mas com uma animação e frequência sem paralelo, autêntica romaria, sem procissão, nem andores, numa manifestação que quase se poderia de classificar de pagã, que enchia as bouças daquela ridente freguesia, com destaque para a do Geraldes e que julgo que foi onde se iniciou, com a Festa da Hera, promovida, pelos princípios dos anos de 20, pela Banda dos Passarinhos, esta tradição que os tempos modernos parece destruíram. 

 De tal maneira que como ajuntamento de pessoas, numa alegre tarde, passada entre o jogo da péla ( esguina, esguina para a banda da Caxina ), bailaricos populares, conversa descansada acompanhada do merendeiro onde não faltavam os cambitos de raia, um traço de “chouro”, rosca de pão de trigo, ingredientes para ser, regados com a bela “pinga”, verdasco de “pinta a maugra”, deixava a Póvoa “às moscas”, podendo dizermos que movimentava a Póvoa inteira, só ficando em casa quase que apenas aqueles ou aquelas que por doença não podiam “agantar” a pequena caminhada a pé de poucos mais de três quilómetros.

    Há pouco regressado do serviço militar em Cabo Verde, nos anteriores anos estive privado dessa grande “festarola” poveira, de maneira que as saudades de uma tarde de folgança entre amigos ou simples conhecidos, o jogo, as danças e a merenda eram tamanhas, e muito lembradas, durante as SEGUNDAS FEIRAS DE PÁSCOA em que estive ausente e, portanto, folgazão como era, e para mais ainda não me tinha enforcado, não poderia faltar, mal sabendo que seria a última vez que saltaria, e alegre entoaria a :

                                            SARRASQUINHA, “ASSACODE” A SAIA.

                                            Ó MATILDE “ALEVANTA” O BRAÇO.

                                            JÁ QUE NÃO ME DÁS UM BEIJO,

DÁ-ME SEQUER UM ABRAÇO, UM ABRACINHO

que era a quadra de que mais gostava, pois para remate lá vinha :

                                                     ORA APERTA AMOR, APERTA,

                                                     APERTA, MAS COM JEITINHO!

 

      Outras quadras, saltam agora à minha já gasta mente e de entre as que mal recordo, veio :

                                                     ISTO É QUE SÃO AS SAIAS,

                                                     SÃO CALÇAS Á BRASILEIRA!

                                                     SÃO CANTARES, SÃO BAILARES,

                                                     É AMOR DE TODA A MANEIRA !

     

Bons tempos o da mocidade, agora só o posso recordar, com um mero saudosismo, pois é certo e muito certo o que diz a quadra ;

                                                     PRIMAVERA RAINHA DAS FLORES

                                                     COMO TU NÃO HÁ IGUAIS.

                                                     A PRIMAVERA VAI E VOLTA SEMPRE,

                                                     A MOCIDADE VAI E NÃO VOLTA MAIS !

 

Nem todos se lançavam logo aos bailaricos, para alguns a primeira coisa, e para abrir o apetite, nada melhor que umas jogadas da péla. Escolhidos dois rivais  ( por vezes a rivalidade estabelecia--se entre um casal, já recebido, ou ainda em namorico, assim tinha mais sabor a peleja) e, pé ante pé para ver a quem caberia o primeiro escolhido, que normalmente era aquele que julgassem ter melhor mira para acertar com a bola na “cachola”, e depois de formadas as equipas, principiava o ritual para saber qual dos grupos ficava em cima ( junto da “cachola) ou ia para baixo, apanhar a péla. Era mesmo um ritual : VAI COM UM ( para baixo) e a resposta do representante do outro grupo : VAI COM DOIS, e assim as propostas seguiam até chegar a um consenso.

 Logo principiavam os de cima : PRIMEIRO OLHO, e zás a bola lá ia pelo ar, (a princípio era feita de pano, até de restos de vela, e depois com o rodar dos tempos passou modernamente a borracha), então os de baixo tentavam agarrá-la no ar, perdendo assim o lançador a mão e outro passará ao lanço SEGUNDO OLHO, se não for apanhada no ar, de onde ele caísse, tinha que o tal bom mirador tentar acertar, atirando-a em direcção à “cachola”,( aqui outro ritual se processava, os de cima passavam as pernas por cima dela, para a enguiçar, não faltando o dito “Esguina, para o lado da Caxina).

O jogo terminava quando qualquer do grupo contendor chegasse ao final, cujo número já não me recordo, mas sei que terminava com a frase SEIS A CAVALO QUARENTA EIS, que nunca cheguei a compreender o que era, mas também não fazia mal.

Ora agora, resta ao velho rabugento de mais de oitenta, anos ( onde eles já vão! ), recordar e para isso nada melhor do que rebuscar nas velhas fotografias, algumas como a que acompanham este escrito e foi fotografada há sessenta anos, numa última para mim festa do ANJO. Nela, entre outros convivas ( eu não precisei de levar merendeiro, elas as minhas amigas não me deixaram passar fome) reconheço a Natália, a Branca, filha do falecido Dr. Cardoso, que com as irmãs fizeram parte desse numeroso grupo que estão a dançar, certamente o ABRACINHO.

Saudade, palavra bonita que como dizem :

                                                           QUEM A INVENTOU, CERTAMENTE CHOROU !

 

 

Braga, Páscoa de 2007     

     

                                                                 LUÍS COSTA

 

 

 

 

Obs: Se for possível, agradeço me devolvam a foto, sempre

é uma recordação dos meus tempos de jóvem.                 

 

publicado por Varziano às 11:50

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