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Jul 10
AÍ, OLAIA, QUE LÁ SE IA O BRINQUEDO ! O João da Olaia, um velho cerâmico e serrador, ex-doente leproso, bastante diminuído pela doença de Hansen que em tempos o tinha atacado, com difilculdade no andar e no trabalho braçal, para matar o tempo e arranjar uns cobres para o seu frugal e pequeno sustento, socorria-se da boa vontade dos antigos patrões e no edifício fabril – Cerâmica, Serração e Moinho de cereal - tinha a função de porteiro, sentado num mocho à entrada, fiscalizando as entradas e, pela madrugada exercia também o encargo de, como fogueiro, acender a caldeira a vapor para movimentar as máquinas e sinalizar o começo da laboração com o sinal sonoro. No estabelecimento fabril, a sua mulher e filhos davam o seu contributo para a sustentação do seu pobre agregado familiar. Moravam, num tugúrio perto do local do trabalho, pobre casebre quase sem condições higiénicas, um forno no arremedo de cozinha, que espalhava por dois ou três espaços, que lhes servia de dormida, o fumo e, no inverno, o calor afugentava, até certo ponto, o vento frio que penetrava pelos intervalos da telha vã, único resguardo contra as inclemências do tempo. Homem prático, sempre que possível e as forças o ajudavam, procurava nas horas mais vagas aproveitá-las para preencher com coisas que lhe recordavam os velhos tempos, quando, pleno de forças, a preguiça não o encontrava. Certo dia em que o encargo de porteiro, lhe concedeu uma folga, lembrou-se que as canhotas para alimentar o fogo da caldeira, estavam quase a findar e, para no dia seguinte não ter de se levantar mais cedo e buscar a indispensável lenha e como tinha chegado um carregamento de serrim, combustível que alimentava o forno cerâmico, entre o qual, normalmente vinham pedaços de toros, procurou os bons pedaços de madeira e assim teria provisão para a fogo da caldeira, pelo menos durante algumas horas enquanto não chegava o carregamento de canhotas. Como os toros, bastante grandes e grossos, resolveu, como o fazia em bons tempos, ligar a serra de disco, e os serrar à medida conveniente. A serra movida por um potente motor eléctrico de dez cavalos, e com mais de mil rotações por minuto, servia também no extremo do veio, onde o movimento era transmitido por uma correia, para lhe ser junto, devidamente protegido, um disco esmeril, seguro por uma contra rosca, que por sua vez, era fixado por um gancho. Todo o conjunto teria de ser protegido, quando o esmeril era desmontado, coisa que o João da Olaia, achava disparate. “Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia se escaqueira”. Ora foi o que aconteceu. Baseado na sua experiência, o nosso João, não tomou as necessárias diligências e, o resultado, depressa se fez sentir. Descuidado aproximou-se de mais do gancho do veio e foi apanhado, precisamente, pela braguilha das calças, que o projectou pelo ar e foi caír no monte de serrim. Um grito assustou o pessoal e todos acorreram ao sinistrado que todos julgavam muito ferido. Entre o pessoal lá apareceram, aflitos, a mulher e os filhos. E ele, sem nada de grave, mas meio atordoado ainda pode dizer para a mulher : :- OLAIA, QUASE LÁ IA O NOSSO BRINQUEDO !
publicado por Varziano às 16:14

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