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Jul 10
AFINAL DE QUEM É A VACA ? Final do século XIX. Um escritório de um bacharel formado em Leis. Uma grande mosca assinalava o cimo do queixo, aflorando ao lábio inferior. Umas suíças quase enchiam as rotundas bochechas e encobriam as orelhas e para o qual contribuía, de certo, a trunfa cabeleira. Um bigode retorcido e frisado pelo ferro, colorido pelo queimado do rapé. Ao seu lado um imberbe moço, recente bacharel, também de Leis, formado na Lusa Atenas, praticante do advogado que era seu pai. Um lavrador, usando as suíças da praxe, ofegante e em camisa de mangas arregaçadas, nas mãos o inseparável e habitual cajado, suando as estopinhas, vinha naquela tarde de um calorento verão, galgando a escada de pedra, procurar o Senhor Doutor para apresentar o seu grande e enormíssimo problema. :-Então, “Se Manel do Arco”, o que o traz por cá ? - Ó , “S’e” Doutor. Estou aqui para Vocemecê tratar de um meu caso. É que Tone da Eira, aquele que mora ali p’rás bandas do rio, tem lá uma vaca que é minha. Quer saber, há dois meses, trazia lá no lameiro ao pasto uma vaca, a “marela”, linda com’ó as amores e “atão” pr’a leite, não havia “oitra”. Vai daí, nesse dia o raio da vaca, “num” veio p’ró eido e nunca mais a vi. Até que “oitro dia”, ao passar à beira do rio, “num” é que a vi, no pasto do Tone. Fui ter “c’o” ele e disse-lhe : ò Tone, aquela vaca é a minha que se perdeu. - “T’ás enganado. Não é “gado do vento”. “Cumprei-a” na Feira dos Vinte e dei “bôs carconheis” por ela!... -Não, não, é a minha “marela”!... -Ó senhor doutor, o raio do “home” teima que é dele, e “num” ma dá, e é por isso que eu aqui venho. Toma conta do caso ?- Ó homem, isso nem se pergunta. Arranje vocemecê duas testemunhas e pomos já nas justiças. - Amanhã, cá tem as testemunhas e se for preciso dar já o sinal para as justiças, diga lá quanto tenho que lhe dar já. - Depois vemos. E o Manel do Arco, contente com a entrega do caso, enfiando o polegar no sovaco do colete, lá foi para o seu terrenho. Pouco depois, no mesmo escritório, aparece o Tone da Eira. Suado, esbaforido, com o sempre companheiro varapau, a camisa com as mangas arregaçadas, as suíças de bom lavrador, o bigode retorcido e uma também frondosa trunfa, rematada numa pera esbranquiçada. - Dá-me licença Seu Doutor. - Entre, entre, então o que há. - O Tone do Arco, diz que a minha vaca é dele. Ora, eu “cumprei-a” na Feira dos Vinte, e “num” é “Gado do Vento”. Gastei um ror de “milho” c’o ela. Lá por que é da mesma cor, “num” é a que ele perdeu. “Num” acha que é assim. Diz que vai “p’rás” justiças e eu não m’importo. A vaca é minha! O senhor doutor, vai às justiças defender-me ? -Pois está claro, a justiça acima de tudo e, já agora quem vai tomar conta do seu caso é o meu filho. Vai ser uma estreia de arromba. Arranje duas testemunhas e venha cá depois de amanhã. O Tone da Eira, satisfeito com o resultado do conselho lá foi, aliviado pois, por causa das dúvidas deixou umas notas para os preparos. ##### E agora é a conversa entre o velho causídico e o imberbe advogado. -Então, pai!... Afinal de quem é a vaca ? -Vê-se logo que és um inocente ! … A VACA É NOSSA ! . . .
publicado por Varziano às 16:00

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