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             AVENIDA  DOS  BANHOS

                                                                     

 

                             Um projecto do principio do século XX

 

Ao escogitar nos escaninhos de uma velha secretária para onde costumo arrecadar papéis antigos muitos dos quais já nem me lembrava, fui dar de caras com umas publicações que me tinham em tempo merecido certo interesse e que hoje, de novo, me veio ressuscitar, para mim, uma novidade já esquecida.

 Entre essa papelada fui encontrar uns exemplares da Revista “Arquitectura Portuguesa”, editada nos princípios do século passado e entre elas uma cópia de um projecto sobre a avenida dos Banhos, na Póvoa de Varzim, e num número original outros a realizar também na Póvoa, “Um concurso interessante para projectos de construções económicas aberto pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim”.

 Assinados pelo arquitecto Moura Coutinho, com residência e escritórios em Braga, esta publicação em outro número refere ainda um pedido de um particular para um necessário empreendimento que muito valorizaria a Póvoa, não só nos meses de verão, como em pleno inverno.

  Melhoramento que chegou a concretizar-se, muito embora passados anos, talvez cinquenta, tivesse sido inteiramente modificado e, julgo, que do inicial se tenha apenas aproveitado algumas paredes.

Passemos então a interessar-nos pela perspectiva ou “boneco” que ilustra este escrito. Deve ter sido pela segunda dezena do século passado que a Câmara poveira pensou em dar um novo aspecto a avenida fronteira ao mar – a Avenida dos Banhos. Para isso contratou com o arquitecto Moura Coutinho, artista já consagrado em alguns projectos, dos quais o maior se pode dizer foi o Teatro Circo de Braga, a resolução desse empreendimento, confiando que no seu saber arquitectónico para dar um novo visual à frente marítima da Póvoa, na parte que dia a dia se iam tornando o local, principalmente no verão, mais intensamente movimentado e frequentado pelos “turistas” de então, nem admira, pois era por ali que se encontrava o mar e a praia para as “cachafundas”, receituadas pelos facultativos de então para curas das mazelas acumuladas durante o inverno, bem como os balneários dos banhos quentes, remédio salutar para os reumáticos.

A propósito de mazelas, foi por também por ali que nas tardes soalheiras e nos toldos de zinco, abrigados por vezes das inclementes nortadas que se principiaram a curar muitas mazelas, mas estas amorosas, que acabaram no altar com o nó sagrado.

Mas estou a fugir, como se costuma a dizer “com o rabo à seringa”, isto é, a sair intempestivamente do assunto a que se refere o título desta “escrevinhação”.

Depois de derrubada a primitiva capela de São José de Riba Mar, aquele local que até então estava ocupado pelos varais da seca de redes, velame e à roda de um barracão pela praça do peixe, a Câmara resolveu transformá-lo num lugar de passeio, de recreio, apesar da oposição da população piscatória, com o beneplácito da Irmandade da Lapa, que exercia “uma soberania sobre os areais desde as circunvizinhanças da sua igreja até ao extremo norte da vila.” (1)

E assim nasceu o Passeio Alegre, que veio a esbarrar, mais tarde com o Café da Libânia, assim mais conhecido e pela casa do Dr. Caetano de Oliveira (hoje edifício da Sopete).

No plano sugerido por Moura Coutinho, o Passeio Alegre, deveria prolongar-se, pelo menos até onde agora se encontra a Esplanada do Carvalhido, e assim apresentou à Câmara Municipal o perspectiva que hoje trago ao conhecimento dos póveiros que gostam de saber coisas da história local.

Se o projecto tivesse ido avante, a Avenida dos Banhos teria um visual completamente diferente do que hoje nos apresenta, melhor, pior ?. Responderá com estiver disposto, e a sua sensibilidade o aconselhar.

Haverá que se notar que estava numa época completamente diferente da actual, ainda se fazia sentir o gosto da “belle èpóque”, á qual Moura Coutinho também aderiu, muito embora estivesse, por vezes e quase sempre, nas suas realizações, sujeito ao classicismo.

Segundo o seu neto, João Rui de Moura Coutinho, há pouco falecido, a célebre “Casa do Galo”, derrubada pelo camartelo do progresso, ali em frente à esplanada, fazendo gaveto com a Avenida dos Banhos, tinha sido projectada pelo seu avô. Não sei se a versão apresentada, tem foros de verdadeira. No entanto, quanto a mim, foi uma pena a sua destruição, sempre era uma marca de um período e de uma época que influenciou muita construção.

Se a paciência dos amáveis leitores, não se tiver esgotado, terei a prazer, em nova crónica,  de lhes mostrar outras sugestões e obras do arquitecto que deixou a sua marca no Norte do País, e nesta nossa ( é abuso da minha parte dizer nossa, uma vez que não sou poveiro de nascença, mas sim e apenas poveiro de coração) Povinha do Mar.

 

Braga, 21 de Novembro de 2007.

 

(1)  BARBOSA               - Viriato – A PÓVOA DE VARZIM, pag. 128

 

                                                                            LUÍS COSTA

 

www: bragamonumental.blogs.sapo.pt

email: luisdiasdacosta@clix.pt

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publicado por Varziano às 11:41

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