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Fev 10
UM COMÍCIO POLÍTICO EM 1960 Prólogo: Figurantes: Apresentante, Regedor, Candidato a Deputado, Zé Povinho e Zé Póvinhas. Fala o apresentador: De teatro uma peça Vou tentar apresentar. Mas que ninguém a meça Pois por métrica não sei pensar ! O que vos vou relatar Numa praia perto do Porto Acabou por se passar. Um regedor atrapalhado Quase dava em morto, Por barco não ver varado Onde pudesse … evacuar ! Facto relatado nos jornais P’ra quem quisesse ler. Era uma oportunidade Que não se podia perder ! Aproveitar tal história, Sem incómodo da Censura, Logo me passou p’la memória. A ideia surgiu com pressura Rapo do lápis e escrevo Um artigo de chalaça. E pela Censura passa, E eu a tremer de medo ! No dia anterior ! Fala o regedor : Minha gente, amanhã, Vamos fazer um comício Ao qual ninguém faltará Senão vai parar ao hospício ! Uma mulher do povo: Mas “seu” regedor, p’ra que é Q’a gente tem de vir ? Se não puzer cá o pé, Onde é que eu vou cair ? O regedor: Já lhe disse e ordenei; Mas quem não for Ao comício que planeei, Terá que se haver com dor ! A mulher: Mas “seu” regedor Eu cá não sou política Nem m’interessa o governador Q’o senhor nos indica ! O regedor: Cale-se, sua besta ! Faça o que lhe ordenar. Ponha merenda na cesta P’ró deputado petiscar ! A mulher : Então política é comer À custa de todo o povo ? Ora vá lá se …morder, Q’o seu cantar não é novo ! O regedor: Pois então estas noites, Já sabe onde dormirá ! A Pide lhe dará açoites, E o mais q’adiante verá ! A mulher: Triste vida é a nossa De ter de os “agantar”. “Inda” quer que não possa Estar contente, sem piar ! O apresentante: À noite lá foi a gancho A mulher tão refilona. Não comeu só rancho, Comeu também “tapona” ! O regedor “bota faladura” Montemos o cenário,. Voltemos ao tempo, Tomaz O regedor Zé Canário Sabe bem o que faz ! O apresentante: No dia do comício Estava o terreiro cheio ! Montaram um edifício, P’ra se falar sem receio ! Mesa p’r’ós oradores Botarem figura do fino, Nem os afligirem os ardores Do Sol mesmo a pino ! Uma praça cheia de gente, Todinha a abarrotar. O regedor está presente, Vai principiar a falar ! O regedor: Fala para o deputado Imponente todo inchado : Como vê, caro deputado, Quem manda aqui sou eu ! Tomei conta do recado Q’o senhor ontem me deu! O deputado: Em confidência para o regedor Que se mostrava tão falador: Assim é que é. Traze-los Bem presos às ideias ; Caso contrário é prende-los P’ra lhes acabar c’o as peneiras ! O apresentante: Tudo a postos, vai começar a sessão. E cada um tratará da sua função. Fala ; Primeiro o deputado, Até aí muito calado : Vou apresentar um programa Em que todos votarão ! Pois de trás, traz fama, Pois é a “Bem da Nação” Um programa de concórdia Que é o da “Acção Popular”; Não é o da discórdia P’ra que nos querem levar ! Á parte, em surdina: A ferro e fogo, se preciso, P’ra saber quem manda ! Salazar é nosso amigo, Faz-nos encher a “pança” ! Voltando-se para o Zé Povinho: Não tendes alternativa, Já vos disse o regedor. Se quereis boa vida, Salazar é nosso senhor ! Ele é quem manda ! Vós como gentes portuguesas, Deveis defender-nos na dança Duma “eleição sem surpresas” ! O Zé Povinho, à parte : Olha que esta é boa ! A gente tem que votar Em quem, lá de Lisboa, Nos interessa governar ? Se eles tem tanto interesse, Teremos que desconfiar, Pois é grande a messe, E o que querem é “mamar” ! O regedor, pensando : Raio, nunca mais acaba Este gajo de falar, E no íntimo pensava, As ameixas “tavam por madurar” ! Pois a barriga às voltas, Lhe fazia recordar Q’as tripas andavam soltas, E o que queria era… despejar ! Fala o apresentante: E o deputado falava, falava, E o programa apresentava ; E o regedor suava, suava ; E a barriga apertava, apertava ! Por fim o deputado, Acabou c’o palavriado. E o regedor, coitado De tanto sofrer, entalado Principiou o seu discurso; Rapa do papel. E suando como um urso Começou o aranzel ! O regedor : Meus amigos, vou A c’o a pressa com que estou, Apresentar o programa Q’a nossa terra reclama ! Como sabeis ao votar No partido “Nacional” Podeis contar C’o melhor q’á em Portugal ! Digo-vos que com o programa Que vos vou apresentar, Todos terão cama, Boa ou má p’ra se deitar 1 Fome e sede não passarão ! Cama, mesa e roupa lavada, Mesmo q’uma levada, Vos carregue p’ra prisão ! Que melhor situação Querem vocês, seus palermas ? Votem com a “Nação”, Não tereis problemas ! Á parte : Mas se não quiseres votar, Cá estou à vossa espera. “Pedreiros livres”, nem pensar, Ideia que não entra na terra ! De novo voltado para o Zé povinho : Podeis estar tranquilos, C’os homens que vão mandar. São todos nossos amigos, Ás ordens de Salazar ! ---------------- Voz do apresentante : De repente, em grandes ais Corre até à penedia, E ali se alivia, Pois não podia mais ! E por onde passou A sofrer co’a a dor, Um perfume deixou Que diziam ser fedor ! Aqui acaba a história Do comício naquela vilória, Q’ali p’rós lados do Porto, Ia dando c’o regedor morto ! Acabada a função Vamos nos despedir. Adeus, até então, Só quisemos fazer rir ! Braga, 1960 VISADO PELA COMISSÃO DE CENSURA Agora!!!... não foi. (distribuído secretamente aos amigos do REVIRALHO )
publicado por Varziano às 16:37

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