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PROFESSOR QUILORES Já em tempos fiz uma pequena crónica sobre o Mestre Quilores, crónica que nos veio revelar, por ter tido a audiência de uma pessoa, muito conceituada na Póvoa, onde foi reitor do Liceu, e que quase adoptou a ainda então como uma das principais vilas portuguesas como sua residência, onde mandou edificar uma casa e, depois da sua justa reforma, se fixou em Lisboa, onde na sua casa montou uma espécie de museu, tendo dedicado uma das salas, em homenagem ao seu, por certo, amigo Quilores. Era esse amigo que na sua longa vida nunca esqueceu a Póvinha do Mar, praia que visitava frequentemente, o Dr. Paulo de Cantos. Aproveitando o ensejo e entre parêntesis, tenho que fazer uma pequena referência a seus dois filhos com quem privei. São eles o João e o António que muito devem a seu pai. Foi uma revelação do Dr. Paulo de Cantos muito honrou os seus filhos, João, meu colega e muito amigo e também o exímio artista de talha António de quem recebi a inspiração para a minha descrição, no colóquio Santos Graça, realizado pelos anos de oitenta, dos jogos infantis poveiros e se prontificou a fazer os bonecos representando-os e que depois passaram a figurar no Museu. A António Quilores se deve, entre obras de talha para vários templos, a feitura de duas colunas de talha que figuram no altar-mor da Igreja Matriz. Inicialmente apenas tinha duas de cada banda da tribuna, e ao lado destas colunas, possivelmente para ser ocupado por imagens, um espaço, que veio a ser destinado às colunas que o António Quilores entalhou numa improvisada oficina nos baixos do Museu e que eu tive a oportunidade de o ver trabalhar nelas. Portanto são três colunas em cada lado, duas originais da construção do altar, e uma graças ao labor do Quilores. O João, seguindo as passadas do pai, tirou o Curso do Magistério Primário e foi colocado perto de Famalicão e por lá casou e se reformou. Mas a pequena crónica de hoje, é sobre o Pai Quilores, mestre de gerações poveiras, alguns dos quais chegaram a atingir lugares de relevo não só como exemplares comerciantes, hábeis artistas, profissionais da pescaria (talvez os seus principais alunos) mas também em lugares políticos e de destaque em altos cargos. Vários vezes assisti, sentado no banco de pedra que, em semi-círculo se situava na meia laranja à entrada do molhe norte, às conversas que o velho mestre estabelecia com os da sua igualha pois a ascendências de Mestre Quilores eram também da piscaria. Interessantes eram elas e eu, como sempre gostei de apreciar a maneira de falar, o sotaque, os termos usado na gíria dos poveiros, não me metendo nas conversas, bastava-me ouvir e assim fui aprendendo um vocabulário muito peculiar e decifrando termos só usados pela comunidade piscatória. Parece que ainda foi ontem, e já lá vão passados mais de sessenta anos tantos quantos os que deixei a Póvoa, por diversas razões aos quais não foi alheia a Segunda Grande Guerra, que me despachou para terras estranhas e, que nestes acalorados dias deste verão, me fazem lembrar as inóspitas e tórridas ilhas de Cabo Verde. Nesses recuados anos era sempre certo aos domingos de manhãs solarengas, o Mestre Quilores, dentro do seu carrinho, postado frente aos seus amigos, alguns deles (quem sabe ? talvez seus antigos alunos!...) sentados nos assentos e costas e pedra, na citada meia laranja, onde o paciente burrito, meio de locomoção para mover o transporte, dado que ainda não usava outro meio para a deslocação, por vezes zurrava, como que a preveni-lo de que já chegava de soalheira e que sede o apertava e a pança estava a pedir palha, lá estava o mestre e amigo entretido como se a dar uma lição, ou relatando factos ocorridos na sua já longa vida. Lembro que de certa vez veio à conversa, talvez devido ao zurrar da azémola, os tempos em que no verão, os carros americanos puxados por possantes mulas (os conhecidos mulétricos) estacionavam naquele local, e faziam a ligação entre a praia da Vila e a da Póvoa. Esta ligação merecia uma explicação e ele a deu no seu jeito brejeiro”não julguem que esta ligação era para beneficiar Vila do Conde mas só e apenas porque a mocidade banhista preferia a praia poveira” (aqui salienta-se a rivalidade que havia entre os vizinhos). De facto, Vila do Conde era uma praia frequentada mais pelas gentes conservadoras, e ali os papás e as mamãs tinham os seus rebentos sobre o olho, enquanto que, na nossa, a massa de veraneio era mais liberal e a juventude, a mocidade, estava mais livre da protecção paterna. Já em tempos publiquei um artiguelho relacionado com um respeitável senhor, que desde sempre e depois de casado vinha com a família passar o tempo de férias na Póvoa, até que um dia a esposa descobriu que ele era professor de natação mas só de meninas, e então, ala que se faz tarde, e no ano seguinte mudou a família, com armas e bagagens, para a elegante praia da Vila, artimanha que não resultou, porque o jóvem marido, com o mulétrico à porta, continuou com as lições na Póvoa. Hoje em dia, mudaram os tempos, mudaram as mentalidades e as praias vizinhas tem os seus fiéis habitués e os problemas de outros tempos desapareceram e, quanto a frequência não há distinção de classes e ainda bem. Para terminar esta mal digerida e longa refeição de recordações do HOMEM BOM da Póvoa do Mar, que foi o inesquecível MESTRE QUILORES, bom seria que pelo sua acção no ensino de tantos póveiros alguém tivesse o senso de prestar uma homenagem bem merecida à sua memória. Não sei se o seu nome figura já na toponímia poveira e, se o não figura, faça-se pelo menos essa honra. Agosto de 2010 LUIS COSTA
publicado por Varziano às 19:07

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