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Jul 10
O NAUFRÁGIO DO VERONESE O HERÓI PATRÃO LAGOA VISTO POR UMA SUA BISNETA Uma feliz coincidência fez com que na passada primeira quinzena do passado mês de Julho, tivesse oportunidade de conhecer uma bisneta do herói poveiro Patrão Lagoa. Para me afastar por uns dias da tórrida temperatura de Braga, resolvi, ou por outra, duas das minhas filhas, aproveitando o resto dos seus dias de férias, resolveram proporcionar-me uns dias, poucos, para me refrescar nos ares marítimos e puros da nossa Póvoa do Mar, terra de boa gente, mimosa, agradável e onde tudo é bom, até a arreliante nortada, que podemos afiançar ser um benefício que vem confirmar os bons e lavados ares poveiros, pois que ela contribui, para afastar para bem longe os miasmas que, do pólo norte, terras de bruma, chegam até nós. Ao mesmo tempo também foi uma feliz oportunidade para chegar à fala com alguns dos poucos amigos que restam dos meus tempos da mocidade que por aí passei, recordando lugares desaparecidos ou de tal maneira transformados que para mim são irreconhecíveis. É o caso que me levou até ao Norte, zona desportiva que, praticamente, é totalmente moderna. Do velho estádio Gomes de Amorim, o tal velódromo, possivelmente o primeiro estádio digno desse nome, construído em Portugal, agora transformado ou adaptado a piscinas e outros lugares de lazer, pouco resta se é que ainda alguma coisa ficou. Ora foi ainda um pouco mais a norte desta zona, que encontrei a Praia da Nazaré – o nome nada tem a ver com a Nazaré, da costa centro oeste deste nosso País – mas sim com a concessionária de uma faixa de praia que quase a partir da pérgola que transformou o miradouro, para melhor, sobre parte da enseada denominada Praia da Lagoa, onde em tempos idos, principalmente em dias de grande borrasca, no inverno, se enchia de automóveis e de onde os seus ocupantes, durante horas assistiam ao espectáculo do mar revolto. Numa fila de barracas perpendiculares à língua da maré (nos anos trinta do século passado as barracas de descanso eram paralelas ao mar, coisa impensável nos dias de hoje que a manter-se esta disposição, certamente chegaria a fila a Cedovem e por aí além) apoiadas por um pequeno bar, após uma refrescante bebida, servida por uma graciosa “barman”, com a qual entramos em conversa amena, viemos a saber que se tratava de uma bisneta do Patrão Lagoa. A bisneta do Lagoa, logo se prontificou a apresentar-nos o marido, e na conversa metida, foi me indicado o seu nome – Dona Maria de Nazaré (razão do nome da concessão) Gomes Pereira de Castro. Entre outras lembranças veio à baila o nome de Lagoa. Procurei saber se era nome de família e logo me foi dito que o seu nome de baptismo era Manuel António Ferreira e o apelido de “Lagoa”, lhe veio desde criança. Morando com seus pais, gente da classe piscatória, vivia perto do mar e, como os pequenos futuros homens do mar de hoje, o seu entretimento de criança, era nas poças da penedia, ora lançando nos laguitos que a maré baixa forma, pequenitos barcos feito com a faca da cortiçada, tentando apanhar no anzol, iscado com a serradela, as pequenas marachombas, ou arriscando ir mais ao largo, nas gamelas do peixe, servindo-se de, como meio de locomoção, dos frágeis braços. O lugar predilecto da sua verdadeira aprendizagem para a aventura que se lhe adivinhava, era precisamente a enseada da Lagoa – já que a praia do Salgueiro, ficava a sul, e a da Forcada, em Abremar (Aver-o-mar) ou a do Quião, já em Aguçadoura, estavam fora de mão. Desta maneira, era certo e sabido, quando procuravam o miúdo, era com certeza na Praia da Lagoa, que se encontrava. Tanta vez foi repetida a procura que, dito e feito, ficou para sempre conhecido como o Lagoa. Mais tarde, já homem feito, dono de embarcação, reconhecido como homem de coragem e abnegação foi distinguido como Patrão do Salva-vidas, Cego do Maio, nome do maior herói poveiro. Podemos dizer que de Patrão Lagoa o maior acto de bravura, de destemor, de abnegação, de audácia, arriscando a sua vida quando ela dependia no salvamento do seu semelhante, ficou bem vincado e assinalado nos Anais dos heróis poveiros, foi a sua acção aquando do naufrágio do vapor Veronese nos baixios do mar de Leixões. Heroicidade reconhecida no País e internacionalmente, onde nos jornais da época em grandes títulos, mencionaram e relataram o destemor de um punhado de homens humildes, pescadores do “reino da Povinha do Mar”, não se intimidaram perante a fúria do velho Adamastor, salvando das suas garras mais de um centena de aflitos seres, que se viam já muito perto da morte. Apesar do reconhecimento, incondicional dos que na praia assistiram a esse gesto de bravura, fazendo jus ao velho aforismo “Depois do baptizado feito, não faltam padrinhos”, alguns quiseram tomar para eles, as honras desse destemor feito. Não teve sucesso essa tramóia dado que pelo Instituto de Socorros a Náufragos e outras entidades, foi aos humildes póveiros o sucesso do salvamento, tendo sido louvados e condecorados pela sua coragem, não só a tripulação do salva-vidas “Cego do Maio”, mas principalmente o seu principal elemento – o Patrão Lagoa – que desrespeitando a ordem do Capitão do Porto, de Matosinhos, para não se fazer ao alteroso mar, mesmo debaixo do termo de “Ordem de Prisão”, que recebeu não obstou que avançasse em direcção ao “Veronese” a reboque da “Bérrio”, condição imposta pelo Capitão, depois de várias intervenções de várias autoridades entre as quais se encontrava o Administrador do Concelho da Póvoa, Santos Graça. Mas demos a palavra à bisneta do Patrão Lagoa, já que quanto aos episódios decorridos para o salvamento, melhor que uma minha descrição, aconselho os possíveis “ledores” destas minhas mal alinhavadas letras, a consulta do Póvoa de Varzim, Boletim Cultural da Câmara Municipal, vol. 41. 2007, pag. 74. Maria de Nazaré, diz-nos que as únicas referências que tem aos seus avoengos, se referem apenas ao seu bisavô Lagoa, e que as recebeu do seu avô, um dos tripulantes, juntamente com mais dois ou três irmãos, do salva-vidas da epopeia que levou o nome da Póvoa e dos seus heróis aos confins do mundo. Diz que Patrão Lagoa, era um homem altruísta, de boa moral, um tanto do espírito aventureiro, propício a actos de coragem que tão bem incarna o pescador poveiro. Manifesta a sua admiração por este homem bom, que até transmitiu aos filhos a sua crença de que deviam estar sempre presente, quando o perigo rondava qualquer seu semelhante e, a prova, esteve quando na arrojada tripulação do salva-vidas figuraram três ou quatro filhos. Achava, como tal, que só uma coragem inaudita e uma certeza no seu comando, podia fazer aventurar os próprios filhos na tarefa gigantesca que ousou praticar. No momento de grande tensão, quando da machadada que cortou a amarra de reboque ao Bérrio gritou ele no seu, certamente, vozeirão, para a frente, para trás nem um palito. A sua ascendência paterna, diz, como já deve saber, é de origem piscatória enquanto da parte da minha mãe, era de artífices, dado que os meus ascendentes se dedicavam a fazer gigos (cestas de vime). Algumas pessoas, por esta minha ascendência materna me apelidam de “giguinha”, termo que não gosto e sempre reclamo que sou LAGOA, nome do meu bisavô, que eu com muita honra prefiro. Sinto-me orgulhosa dos seus feitos heróicos, e orgulho-me em usar esta alcunha de família poveira. Assim são os poveiros. Não arrenegam os seus antepassados que como Camões, afirma, por actos sublimes “da lei do morte se vão libertando”. E a conversa continuou até que, notando que estava a ocupar o tempo da gentil senhora, em prejuízo do seu negócio, terminei, prometendo não me esquecer da evocação do homem bom que foi o seu bisavô e, como tal o prometido é devido aqui estou a recordar, repito, um HOMEM BOM da Póvoa do Mar. A pouco mais de dois anos do centenário – 16 de Janeiro de 2013 – do encalhe do Veronese nas pedras da Lanha, no mar de Leixões, bom seria que as forças vivas da Póvoa do Mar, não esquecessem essa data, homenageando não só Patrão Lagoa, mas todos os heróis poveiros, desde os mais notáveis como Cego do Maio, Patrão Sérgio e outros mais obscuros de que não reza a história e que pela sua coragem figuram nos Anais Poveiros. Por certo já cá não estarei neste mundo, mas lá, no Além, ficaria contente por esta sugestão “não cair em saco roto”. Julho de 2010 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 21:13

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