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Jul 10
QUE ATRAPALHAÇÃO ! Hoje vou contar um episódio dos princípios da minha vida de trabalho. Cedo principiei a “comer o pão que o diabo amassou”. Aí, com treze anos apenas, fui marçano, na Junqueira, no estabelecimento “Rosa de Ouro”, e é neste período que, certa manhã, me aconteceu uma peripécia que ainda hoje, decorridos tantos anos, me faz dores de barriga despertando gargalhadas quando a conto a alguém. No armazém, bastante escuro, onde se guardavam os sacos com os géneros de mercearia, massa, arroz, açúcar, amendoim e outros produtos, constantemente se deparava com os sacos, apresentando sinais de que por ali devia andar rataria. Era difícil, encontrá-los, pois quando se acendia a luz, eles, como por encanto, escapuliam-se. Para se averiguar, encarregaram-me de pôr à espreita na escuridão, e notando qualquer sintoma dos nojentos bichos, acender rapidamente a luz e ver por onde eles desapareciam. Dito e feito, lá me “pus à coca” e quando pressenti, dei ao interruptor e a luz brilhou. Então reparei que três ou quatro roedores fugiam e entravam por um pequeno buraco no chão, mesmo ao meu lado. Num acto irreflectido, dei uma “patada” sobre o buraco para impedir a fuga. Mas, julgava eu, que tinha conseguido impedir que o último “Mikey”, entrasse no buraco. Procuro, procuro e nada encontro, e “com os meus botões pensei” :foi mais ladino que eu! Entretanto, principiei a sentir na bochecha do rabo, uma arranhadela. “Boto” a mão às calças e senti um inchaço e ao apertar, ouvi um leve chiar. O raio do bichinho, não podendo entrar no buraco, resolveu a situação. Subiu pela perna das calças, e foi alojar-se no quentinho, pensando, se é que os ratos pensam, ESTOU A SALVO! Pois, meus amigos, nunca na minha longa vida me lembro de despir as calças tão depressa ! Luís Costa
publicado por Varziano às 19:11

UMA NOTA DE CINCO PAUS Estava-se na Semana Santa e ele, o pequeno rapazinho, sete ou oito anitos, tinha cumprido como mandava a Santa Igreja, pois tendo feito já a primeira Comunhão era sua obrigação ir à desobriga, mesmo teria que o fazer, para isso a tia, católica muito convicta e praticante lá, estaria para que o “rapazelo” não descurasse a obrigação. Era zeladora do altar da Senhora da Senhora das Dores, e sempre o obrigava a acompanhá-la quando ia tratar de alindar o templo da Senhora. Como era e é de tradição, na Quinta e Sexta Feira Santa, como representação das Estações de Roma, já não sei se são cinco ou sete, normalmente em cada terra, eram as igrejas estão desnudadas, dos altares desaparecem todas as representações e as imagens encobertas, igrejas que os devotos percorriam numa quase Via Sacra. Mas a meio da igreja, eram depositados o esquife do Senhor, e no caso da Capela das Dores, era a imagem da Mãe de Deus, com o seu melhor vestido e rico manto de veludo que ali era posta. Já se sabe, ele como rapaz, nesse dia não acompanhava a tia para ver vestir a Senhora, iria lá ter mais tarde. E assim foi. Nessa quinta feira, desabou um tremendo vendaval. Chuva e coriscos riscavam o Céu, mas ele não podia deixar de prestar a devoção. De repente uma rajada de vento mais forte, colocou a seus pés uma nota de cinco escudos - cinco mil reis ou cinco paus – escolham a melhor maneira de lhe chamar. Jubiloso, pensou lá para ele : é milagre da Senhora, pelo sacrifício de ir até ao Monte, arrostando com o temporal. Chegado ao templo, mostrou à tia a nota e como a tinha arranjado. A tia pressurosa, diz-lhe: - Menino a nota não é tua. Achaste-a, não sabes de quem é. Portanto, tens de metê-la na Caixa das Esmolas. Vai lá. O miúdo, não gostou do conselho e principiou a remoer. Então a nota veio do Céu e agora tenha que a meter na Caixa das Esmolas? Então, minha Nossa Senhora, mais valia não ma dares. Cinco paus um dinheirão para ele que lhe daria para comprar um data de rebuçados dos bichos, e fazer uma data de colecções, comprar uns carramilos de açúcar, uma zocha nova, porque a que tinha estava estragada com as nicas que tinha levado, quando lhe racharam o “pião das nicas” ! “Nã”, tinha de arranjar uma solução. Matutou, matutou e de repente a luz surgiu. Já sei, meto a nota na frincha da caixa até meio, tiro-a e viro-a ao contrário e meto a outra metade e assim a nota entra na Caixa das Esmolas, mas não fica lá e fica satisfeita a recomendação. Luís Costa
publicado por Varziano às 19:03

HÁ SESSENTA E NOVE ANOS ! …. 1 de Setembro de 1939. Parece que foi ontem ! Manhã brumosa. Na paria apenas e quase só os banhistas de todo o ano. Os de Agosto já tinham partido e os de Setembro estariam a chegar e a desfazer as malas. O mar, apesar do tempo enevoado, convidava a um mergulho. As ondas desfaziam-se, beijando a areia. O sinal sonoro – a Ronca da Póvoa – lá se fazia ouvir desde a Boa Nova até Esposende, prevenindo os mareantes contra os perigos, escondidos pelo nevoeiro - a Ladra, perto da barra da Póvoa, os escolhos desde Leixões até aos Cavalos de Fão, sinistra e constante a ameaça para os mais desprevenidos ou incautos marinheiros. O Modesto, na cabine de som instalada no areal, junto ao passeio da avenida dos Banhos, em frente do Passeio Alegre, ia entretendo com modinhas brasileiras, os poucos passeantes que naquela manhã nevoenta, numa espécie de tirar água à nora, se afoitavam a circular entre o espaço entre o toldo de zinco do Miguel Mouco e a Esplanada. Assim decorria aquela manhã de 1 de Setembro, dia de má memória. Como habitualmente pelo meio dia o falecido amigo interrompeu a sessão de música gravada, e desejando aos escutantes um bom almoço e informando que pelas 3 ou 4 horas da tarde, ali estaria esperando aqueles que quisessem dedicar um disquinho à sua bem amada, os aguardaria com as coqueluches de então, como “O PIRATA DA PERNA DE PAU, OLHO DE VIDRO, CARA DE MAU”. A rapaziada poveira, mesmo sem música, continuou a lançar-se às salsas ondas, num frenesim empolgante, desafiando as vagas que se iam enrolando na areia da praia, de mistura com os corpos amorenados do Sol de Agosto que se foi. E de repente, o som musical da Cabine e a voz do Modesto, volta a ouvir-se. Qual a razão para este recomeço de transmissão ? Todos se interrogavam e, nesse momento, o Modesto voltou aos microfones, chamando a atenção para uma notícia de última hora: “-A Cabine de Som, cumprindo com a sua obrigação de não dar só música aos veraneantes da Póvoa e prestar-lhes outros serviços, quer também dar-lhes um eficiente serviço de informação. E assim, com mágoa, dá a conhecer que na madrugada de hoje as tropas nazis, invadiram o corredor de Dantzig, cortando as ligações da Polónia com o Mar Báltico. A aviação alemã bombardeou já algumas povoações polacas. Os governos Francês e Inglês, convocaram uma reunião ministerial para analisar o insólito problema. Parece que vão estudar um ultimatum dirigido ao governo alemão, para que se retire, imediatamente, de Dantzig.” Com uma notícia assim de chofre, os poucos banhistas que estavam na língua da maré, rapidamente deixaram o banho e correram, pode dizer-se, para o Universal, o único café então da Póvoa que se dava ao luxo de ter um aparelho de rádio, para ouvirem o noticiário da uma hora da tarde, da Emissora Nacional e saberem mais pormenores. Para as gentes de hoje, talvez possa parecer impossível, a corrida que se gerou para o Universal, dado que hoje qualquer bicho careta tem acesso aos transístores, pequenos rádios portáteis, telemóveis com televisão e, nas nossas casas, naquele ano de 39, os modernos meios de informação e divertimento era um sonho irrealizável – televisão, nem sequer se pensava ainda e, os rádios, só os endireinhados os possuíam. E foi assim que tomamos conhecimento do que seria a causa da grande hecatombe que assolou a Europa, primeiro e, depois o mundo durante mais de seis anos, com as consequências terríveis de uma guerra - fome, mortandade, holocausto, destruição, em suma, miséria – e nós por cá sentimos e bem o que foram esses seis anos - racionamento com alimentos às pingas, faltou tudo o que era de primeira necessidade e não só. Principiaram por cá as mobilizações e a nossa juventude lá partiu para a Madeira e Açores e para o Ultramar, como então chamavam a Cabo Verde, Guiné, Angola, Moçambique, Índia Macau e Timor. Foram tempos difíceis que esperamos não se voltem a repetir. Braga, 12 de Agosto de 2008 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 18:54

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