19
Jul 10
U M B E I J O “Beijo roubado não tem sabor por ser dado a correr, mas como coisa de valor trata de m’o devolver” Ele era um rapaz todo galante, conquistador e atrevido, um verdadeiro pinga amor e, as moças, todas se derretiam com as suas falécias. Onde aparecia, era um olhar de paixoneta que seduzia todo o elemento feminino. Sempre bem barbeado e penteado onde a brilhantina fazia reflexo nas suas melenas. Vestindo sempre apurado, o seu fato de boa fazenda, as calças bem vincadas. O casaco e a gravata sem sombras de nódoas, a gordura dos comestíveis ali não tinha lugar. Calçando verniz, com passadas bombeantes, todo ele respirava prazer. As moças o adoravam e a sua companhia era uma verdadeira disputa. De entre elas a Mica Cantadeira, um mimo de graça e bom humor, derretia-se quando ele, o Xico das Pingas ( Xico por ser Francisco e das Pingas, por elas sempre andarem atrás dele pingando carícias – inveja dos outros ). . . e quem disse que as cachopas gostam dos atrevidos ? Certamente foi no confessionário que se deu essa descoberta !... Toda chorosa, certo dia a Micas, foi à fala com a Zéfinha, a mãe do Xico : - Senhora Zéfinha, o seu filho é um maroto. -Que “t’aconteceu”rapariga, fez-te mal ? - Não Senhora, roubou-me um beijo,… de fugida ! - E “atão”, não gostaste, “num” é ? - Não sei !É que ele é um maroto, só me ROUBOU UM ! ! ! . . .
publicado por Varziano às 16:40

CONSELHO DE MÉDICO Um grupo de miúdos e miúdas, devidamente acompanhados pelos monitores, deslocam-se numa tarde de verão até à aldeia, para desfrutar o ar sadio, entre pinheirais, campos de milho e a fresca de um regato de boas águas, local ideal para um bom e revigorante mergulho em horas de convívio com a natureza, fugindo assim do dia a dia da cidade, de ares empestados e do nojento cheiro dos combustíveis dos modernos transportes públicos e particulares. A pé como manda o bom exercício, os três escassos quilómetros são percorridos por entre gargalhadas e boa disposição. Armado o acampamento, depois de corridas e saltos como “coelhos” que quase que o são, o repouso preciso e todos se lançam ao descanso à sombra das frondosas arvores, coisa que os citadinos, por artes do modernismo, não podem desfrutar na cidade, tão parca destes espaços. Suados e cansados, pelo esforço das brincadeiras, a fome apertando, o merendeiro é a salvação para os estômagos que às voltas, está já a dar sinais. Mas a sede também aperta, e o rio tão perto, com a sua água fresquinha é uma tentação. Mãos em “borco”, em concha como os primitivos usaram a sua primeira vasilha, sorve, a menina que dá origem a esta receita, fartos goles de água. Dias depois uma febre tifóide atira-a para a cama. Altas temperaturas fazem com os pais receosos da gravidade, chamem o médico. Nesse tempo, ainda era fácil e costume os facultativos deslocarem-se às casas dos doentes. E entre o médico e a doentinha estabelece-se o diálogo : - Então, minha menina o que te dói ? É a barriga ? Bebeste água do rio ? - Bebi, senhor doutor ! - É preciso muito cuidado, água só de confiança. Agora o resultado foi ficares doente. Vou contar-te uma consulta que dei há dias a um pescador. Apareceu-me agarrado a uma enorme barriga e eu, depois de o examinar, disse-lhe prontamente : - Ó homem, você o que tem é água na barriga ! - “N´á, eu cá Se doutor, auga, só p’ra lavar os peses! Só se for do caurgo?” !…
publicado por Varziano às 16:26

AÍ, OLAIA, QUE LÁ SE IA O BRINQUEDO ! O João da Olaia, um velho cerâmico e serrador, ex-doente leproso, bastante diminuído pela doença de Hansen que em tempos o tinha atacado, com difilculdade no andar e no trabalho braçal, para matar o tempo e arranjar uns cobres para o seu frugal e pequeno sustento, socorria-se da boa vontade dos antigos patrões e no edifício fabril – Cerâmica, Serração e Moinho de cereal - tinha a função de porteiro, sentado num mocho à entrada, fiscalizando as entradas e, pela madrugada exercia também o encargo de, como fogueiro, acender a caldeira a vapor para movimentar as máquinas e sinalizar o começo da laboração com o sinal sonoro. No estabelecimento fabril, a sua mulher e filhos davam o seu contributo para a sustentação do seu pobre agregado familiar. Moravam, num tugúrio perto do local do trabalho, pobre casebre quase sem condições higiénicas, um forno no arremedo de cozinha, que espalhava por dois ou três espaços, que lhes servia de dormida, o fumo e, no inverno, o calor afugentava, até certo ponto, o vento frio que penetrava pelos intervalos da telha vã, único resguardo contra as inclemências do tempo. Homem prático, sempre que possível e as forças o ajudavam, procurava nas horas mais vagas aproveitá-las para preencher com coisas que lhe recordavam os velhos tempos, quando, pleno de forças, a preguiça não o encontrava. Certo dia em que o encargo de porteiro, lhe concedeu uma folga, lembrou-se que as canhotas para alimentar o fogo da caldeira, estavam quase a findar e, para no dia seguinte não ter de se levantar mais cedo e buscar a indispensável lenha e como tinha chegado um carregamento de serrim, combustível que alimentava o forno cerâmico, entre o qual, normalmente vinham pedaços de toros, procurou os bons pedaços de madeira e assim teria provisão para a fogo da caldeira, pelo menos durante algumas horas enquanto não chegava o carregamento de canhotas. Como os toros, bastante grandes e grossos, resolveu, como o fazia em bons tempos, ligar a serra de disco, e os serrar à medida conveniente. A serra movida por um potente motor eléctrico de dez cavalos, e com mais de mil rotações por minuto, servia também no extremo do veio, onde o movimento era transmitido por uma correia, para lhe ser junto, devidamente protegido, um disco esmeril, seguro por uma contra rosca, que por sua vez, era fixado por um gancho. Todo o conjunto teria de ser protegido, quando o esmeril era desmontado, coisa que o João da Olaia, achava disparate. “Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia se escaqueira”. Ora foi o que aconteceu. Baseado na sua experiência, o nosso João, não tomou as necessárias diligências e, o resultado, depressa se fez sentir. Descuidado aproximou-se de mais do gancho do veio e foi apanhado, precisamente, pela braguilha das calças, que o projectou pelo ar e foi caír no monte de serrim. Um grito assustou o pessoal e todos acorreram ao sinistrado que todos julgavam muito ferido. Entre o pessoal lá apareceram, aflitos, a mulher e os filhos. E ele, sem nada de grave, mas meio atordoado ainda pode dizer para a mulher : :- OLAIA, QUASE LÁ IA O NOSSO BRINQUEDO !
publicado por Varziano às 16:14

ESTÁ DE MOLHO ! . . . A empregada era nova. Logo no primeiro dia a senhora mandou-a dar banho a dois pimpolhos, quase da mesma idade, a diferença entre eles não chegava a um ano. Um deles, branquinho e loiro, parecia ter ascendência lá dos confins do norte europeu, viking, normando ou escandinavo. Em contraste o outro moreno mais parecia cigano ou do norte africano. Diferentes, portanto na tez, como a água do vinho. Brincalhões, dois anitos um, três o outro. A meia da tarde, com as suas traquinices, rolando-se pelo chão, ou brincando na areia, conspurcada pela terra do jardim, sujos necessitavam de banho. A mãe com os seus afazeres domésticos não podia estar com esse trabalho e, para isso, tinha a empregada. -Elvira, vá dar um banho aos meninos, mas tenha cuidado, lave-os bem e veja se a água está boa, nem quente de mais nem fria que os possa constipar. Pressurosa a Elvira que nunca se tinha visto em tais assados, lá os mete na banheira, com alguma dificuldade pois rabujavam que queriam o barquito habitual para a brincadeira “marítima”. Sabão em punho, ou sabonete cheiroso lá foi esfregando, cada um por sua vez, para os por limpinhos e como brincos. Quanto ao loirinho, o problema foi fácil. Depressa a tez apareceu reluzente sem a camada de sujidade do jardim mas, o outro, o moreno por mais que esfregasse, por mais sabão utilizado, o escuro não arredava. Pouco depois, a Elvira vai entregar à mãe o loirinho, branquinho, um mimo de limpeza. E a mãe pergunta à Elvira : e outro menino, também está pronto ? - Não senhora, ficou de molho, para ver se fica mais branquinho
publicado por Varziano às 16:09

AFINAL DE QUEM É A VACA ? Final do século XIX. Um escritório de um bacharel formado em Leis. Uma grande mosca assinalava o cimo do queixo, aflorando ao lábio inferior. Umas suíças quase enchiam as rotundas bochechas e encobriam as orelhas e para o qual contribuía, de certo, a trunfa cabeleira. Um bigode retorcido e frisado pelo ferro, colorido pelo queimado do rapé. Ao seu lado um imberbe moço, recente bacharel, também de Leis, formado na Lusa Atenas, praticante do advogado que era seu pai. Um lavrador, usando as suíças da praxe, ofegante e em camisa de mangas arregaçadas, nas mãos o inseparável e habitual cajado, suando as estopinhas, vinha naquela tarde de um calorento verão, galgando a escada de pedra, procurar o Senhor Doutor para apresentar o seu grande e enormíssimo problema. :-Então, “Se Manel do Arco”, o que o traz por cá ? - Ó , “S’e” Doutor. Estou aqui para Vocemecê tratar de um meu caso. É que Tone da Eira, aquele que mora ali p’rás bandas do rio, tem lá uma vaca que é minha. Quer saber, há dois meses, trazia lá no lameiro ao pasto uma vaca, a “marela”, linda com’ó as amores e “atão” pr’a leite, não havia “oitra”. Vai daí, nesse dia o raio da vaca, “num” veio p’ró eido e nunca mais a vi. Até que “oitro dia”, ao passar à beira do rio, “num” é que a vi, no pasto do Tone. Fui ter “c’o” ele e disse-lhe : ò Tone, aquela vaca é a minha que se perdeu. - “T’ás enganado. Não é “gado do vento”. “Cumprei-a” na Feira dos Vinte e dei “bôs carconheis” por ela!... -Não, não, é a minha “marela”!... -Ó senhor doutor, o raio do “home” teima que é dele, e “num” ma dá, e é por isso que eu aqui venho. Toma conta do caso ?- Ó homem, isso nem se pergunta. Arranje vocemecê duas testemunhas e pomos já nas justiças. - Amanhã, cá tem as testemunhas e se for preciso dar já o sinal para as justiças, diga lá quanto tenho que lhe dar já. - Depois vemos. E o Manel do Arco, contente com a entrega do caso, enfiando o polegar no sovaco do colete, lá foi para o seu terrenho. Pouco depois, no mesmo escritório, aparece o Tone da Eira. Suado, esbaforido, com o sempre companheiro varapau, a camisa com as mangas arregaçadas, as suíças de bom lavrador, o bigode retorcido e uma também frondosa trunfa, rematada numa pera esbranquiçada. - Dá-me licença Seu Doutor. - Entre, entre, então o que há. - O Tone do Arco, diz que a minha vaca é dele. Ora, eu “cumprei-a” na Feira dos Vinte, e “num” é “Gado do Vento”. Gastei um ror de “milho” c’o ela. Lá por que é da mesma cor, “num” é a que ele perdeu. “Num” acha que é assim. Diz que vai “p’rás” justiças e eu não m’importo. A vaca é minha! O senhor doutor, vai às justiças defender-me ? -Pois está claro, a justiça acima de tudo e, já agora quem vai tomar conta do seu caso é o meu filho. Vai ser uma estreia de arromba. Arranje duas testemunhas e venha cá depois de amanhã. O Tone da Eira, satisfeito com o resultado do conselho lá foi, aliviado pois, por causa das dúvidas deixou umas notas para os preparos. ##### E agora é a conversa entre o velho causídico e o imberbe advogado. -Então, pai!... Afinal de quem é a vaca ? -Vê-se logo que és um inocente ! … A VACA É NOSSA ! . . .
publicado por Varziano às 16:00

ISSO É CÁ Família tradicional portuguesa – o patrão, a patroa, dois filhos, a cozinheira e a criada de quarto e serviço. Reunidos os patrões vai estabelecer-se o diálogo : : - Xico, fala a patroa :- “Sabes que a nossa criada de quarto está à espera de bebé?” Responde o Xico : “Isso, é lá com ela” ! De novo a patroa :- “Mas sendo assim, não a podemos ter cá em casa !” E o Xico à vontade :-“Isso, é lá contigo!” E agora a patroa não se cala :- “Mas dizem que o pai és tu!” E o Xico responde :- “Isso, é cá comigo!” E assim, ponto final no diálogo !...
publicado por Varziano às 15:50

PARA ONDE VAIS, PORTUGAL ? A pergunta talvez seja pertinente, mas é uma das dúvidas que se apresentam ao meu espírito. De facto para onde querem alguns conduzir um país, que na cauda da Europa se arrogam de elogiar leis que talvez tenham na forja que o “enriquecimento ilegal” não é crime? Quererão, possivelmente, esconder acções comprometedoras de “pessoas que nada tendo de seu” mas, possivelmente por favores recebidos, querem fazer com que nos esqueçamos de que nos velhos currículos de há pouco tempo desses grandes capitalistas do momento, nada se pode encontrar, nem heranças, nem sorteios do Totoloto ou do Euro-Milhões, e apresentam em meia dúzia de anos, para não dizer em meia dúzia de meses, “sinais de riqueza exterior”, como carros de grande gama, casas na praia ou Estâncias Termais Estrangeiros, passam férias nos Alpes ou nos “saffaris” africanos, hotéis “cinco estrelas”, em Londres, Nova Iorque ou Paris, propriedades e herdades nos Montes Alentejanos ou no Brasil, grossas maquias depositadas em Bancos suíços ? Será que o seu vencimento mensal dá para tudo isto ou o dinheiro dos seus vencimentos é elástico? Quanto a mim acho que, assim sendo vale a pena não ser honesto!... pois o enriquecer à custa de terceiros, visto que, desde que esse enriquecimento não é ilícito, logicamente é legal e ninguém o pode acusar de desonesto!... Pode deixar de pagar as suas contribuições fiscais, ou será que o enriquecimento, prejudicando o Estado, neste caso é considerado crime? Ou será que só os outros enriquecimentos ilícitos como as falências fraudulentas mas muito bem disfarçadas, a falta dos pagamentos a fornecedores e pessoal, as benesses recebidas indevidamente, os subornos, os favores a troco de muita massa, os loteamentos feitos à revelia da lei não são crime?... É por isso que eu PERGUNTO PARA ONDE VAIS PORTUGAL com leis assim? Tenho para mim, que toda a vida tenho trabalhado, não poder compreender como é possível que alguns em meia dúzia de anos, partindo do nada, só com o ordenado, honestamente apresentem tais “sinais exteriores de riqueza”? E falta-me saber, não terão mais outros sinais bem escondidos e acautelados de olhares indagadores? Braga, 24 de Abril de 2007 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 15:37

Julho 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
13
14
15
16
17

18
22

25
26
27
29
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
arquivos
2013

2012

2011

2010

2009

2008

mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO