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Jun 09
A FEIRA DA LENHA E DOS PORCOS NO MONTE DAS DORES Quem se lembrará hoje daquela velha feira da lenha e dos porcos que nos finais dos anos de vinte e princípios de trinta do século que findou se realizava, semanalmente ás quarta feiras, no largo das Dores ? Alguma velha carcaça como eu, a caminho dos oitenta e oito. Logo pela manhãzinha, ainda sem despontar a aurora, os lavradores ocorriam aquele vasto largo ocupado entre a Capela da Senhora das Dores, Igreja da Misericórdia, Hospital e Escola Conde Ferreira, um lugar estratégico para porem bem à vista os carros de bois puxados por valentes juntas com as canhotas de pinheiro, único combustível usado para a confecção das refeições e mesmo para as padarias cozerem o pão. Era um tempo que hoje recordo com saudade, em que me parece que os alimentos tinham outro sabor, principalmente o pão, a boroa, como por vezes nos é dado hoje, com o gosto e até cheiro do gasóleo. Que bom era uma sardinhada assada nas brasas das canhotas !!! Hoje, nas nossas casas ou é assador eléctrico ou assador a gás. Deixaram de pingar, na brasa e logo, estragam o pitéu. Mas não é pitéu a razão da crónica de hoje, é a feira das quartas no largo das Dores. Como disse, e isto comprovava-o com a minha avó, quando o stok das canhotas no casinhoto do fundo do quintal estava quase a esgotar-se ou o inverno se aproximava, era preciso proceder à renovação e mesmo prevenir porque a lenha ou estava molhada ou verde. Com olho experimentado, ou ela não tivesse a sua origem nos altos de Bastuço (Bastuces, como diz o pescador poveiro, quando no mar alto procura orientação), por entre os pinheirais que lhe serviram de berço, escolhia a melhor carga e com espírito de boa observadora avaliava a dezena de canhotas, o seu estado de seca e discutia com mestria a quantidade da carga, o seu o preço certo. Era um “corre-corre” até meio da manhã, a procura da lenha era uma necessidade – eram os padeiros, os donos dos hotéis e restaurantes, enfim as donas de casa – todos procuravam o melhor lote e o mais barato e, porque com os carreteiros, assim se chamavam os vendedores, os carros carregados chegavam aos seus destinatários sem mais qualquer ónus. A feira decorria, entre o espaço que disse, já que a parte nascente, ou melhor a parte norte-nascente, em frente da Cadeia, estava ocupada pelos grossos toros das árvores que foram derrubadas em toda a Avenida Mousinho, que tinha sido um túnel arbóreo desde praticamente o Passeio Alegre até à Misericórdia. Talvez, e aí tenho uma certa dúvida, haveria por certo, algum vendedor de pinhas e carqueja, combustível ideal para incendiar a lenha, previamente partida em cavacos. Alinhados os carros ao longo dos carreiros, os vendedores procuravam estabelecer o seu negócio que alguns deles completavam para a venda de suínos, já que a feira tinha o aspecto de venda de lenha e assim de “uma só cajada” matavam dois coelhos com soí dizer-se, e, principalmente as feiras onde mais eram transaccionados decorriam entre os meses de Outubro e Novembro, próximo da época da matança. No entanto nos outros meses do ano eles também apareciam não tanto para venda mas para proceder à operação que destinaria os bácoros à engorda. Nesses já longínquos fins de vinte do século passado e ainda alguns da seguinte década, o adro da igreja da Senhora das Dores, ainda não estava delimitado por a hoje balaustrada e, como tal, local para a rapaziada da Escola ao lado, Conde Ferreira - agora ocupado pela G.N-R. – assistir, comodamente sentado e com as pernas a balouçar aos negócios que se estavam a realizar. Hoje, dir-se-á e com razão, o cruel e que mais impressionava a catraiada era o espectáculo de capar os infelizes bacorinhos. Nesse tempo não sabíamos para que os capavam e já depois de anos é que chegaríamos á conclusão da razão porque sujeitavam os pobres animais aquela torpeza. Uns carrancudos e insensíveis homens, os chamados capadores, exerciam a sua tenebrosa profissão, à vista de miudagem, da navalha em punho, cortavam, eliminando sem dó nem piedade o aparelho reprodutor da espécie. Sinistra operação para o sacrifício, é certo que necessário para a engorda que normalmente viria a ter lugar em Novembro, e que de novo num espectáculo impressionante feito na presença de observadores, crianças e adultos. Amarrado o suíno, bem nutrido de carnes e gordura, aos guinchos tenebrosos, como parecendo que estava a adivinhar a sua sorte, presas as patas dianteiras e traseiras, que viriam a tornar-se em belos e saborosos presuntos, era colocado no banco do sacrifício, de lado, enquanto que dois fortes “carrascos, lhe seguravam a cabeça, imobilizando-o para o que “matador” munido de um grande facalhão num golpe certeiro o introduzisse até ao coração e escorrendo o sangue para um alguidar, onde mais tarde se transformaria juntamente com os temperos e algumas miudezas nas famosas morcelas tão agradáveis ao paladar no tradicional cosido à portuguesa minhoto. Depois, um molho de palha a arder, era passado pelo cadáver, e a pelagem desaparecia consumida peças chamas. Finalmente, depois de dependurado para escorrer o pouco sangue que restava e a água da lavagem era esquartejado e a salgadeira era o destino da carcaça para, pode dizer-se, passar a ser a reserva alimentar para os meses e semanas que seguiriam, sendo, para muitos, uma bem sortida reserva e a única que carne consumiam. Costumes bárbaro, não admissível os tempos de hoje, a matança, tal como era efectuada, e ainda é nos recônditos lugarejos desta tradicional região, é um costume que aos poucos vai desaparecendo, dadas as campanhas que se fazem para a sua abolição desta maneira de prover as salgadeiras. Hoje a morte do bicho é mais sensata e o sofrimento do animal quase nem é sentido. Também agora, a dispensa não precisa desse abastecimento. Os talhantes estão sempre providos e, sanitariamente, o público tem a sua saúde protegida. Mas a rapaziada, ficou a perder. Diziam que as cerdas eram ideais para pincéís, e vai daí, à sucapa, toca a arrancar os pelos para os construir, para as pinturas a aguarela que tinham de desenhar nos cadernos. Braga, 18 de Maio de 2009 LUIS COSTA
publicado por Varziano às 15:38

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