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Expostos 2 – continuação Como dissemos a Câmara, não tendo possibilidades para as necessárias obras de remodelação da casa dos expostos do Campo de Touros, e para obter alguma comparticipação nos encargos com as instalações alugadas e também conseguir alguns proventos para ajuda da sustentação dos expostos resolveu vender o antigo albergue. A isso se opôs o arcebispo alegando que o prédio pertencia ao arcebispado. Valeu à Câmara o registo da troca e escambo inserida no livro de Tombos com a afirmação confirmada por Dom José de Bragança, arcebispo. Sem mais entraves procedeu-se à venda do prédio que, segundo nos parece, é onde hoje está instalada a farmácia Coelho. O REGISTO DOS EXPOSTOS Quando uma criança era lançada na roda, a rodeira, pessoa encarregada de ter à sua conta o cargo da roda, assim chamado o recipiente onde se colocavam os expostos – cilindro aberto por metade de um lado e fechado pela outra metade – tinha ao seu lado um sino ou campana que servia para chamar a atenção que o sítio tinha lá freguês. A rodeira, logo que o recolhia tinha de ter o cuidado de ver qual a marca que a criança trazia – por exemplo uma tesourada no cabelo junto à testa ou orelha, uma medalha, com a figura de um santo ou qualquer outro símbolo, uma fralda de determinada cor – isto é, qualquer coisa que a pudesse vir a identificar, no caso de mais tarde vir a ser reclamado. Num livro próprio, era anotada essa marca e bem assim a data em que foi encontrado na roda. Por vezes, um bilhete anónimo colocado na sua roupa informava que o exposto já tinha sido baptizado e indicando também o nome de baptismo. Outras missivas pediam para o baptizarem indicando um nome que deveria ser-lhe posto. Muitas e muitas vezes, apenas traziam a marca e mais nada. Cabia ao vereador dos expostos – sempre havia um com este cargo - de resolver os problemas e anotar no respectivo livro os elementos que serviriam mais tarde para os identificar para entrega a quem, de direito, os reclamasse. Convém anotar que muitas vezes a entrega à Casa da Roda de um exposto, era motivada pela falta de condições das mães pelo seu sustento e tratamento e não por simples abandono. As crianças eram mantidas sob a administração da instituição até aos sete anos, idade em que eram reclamadas pelos seus familiares, quando estes apareciam, ou passavam para outras instituições, onde houvesse vaga. A Câmara só era responsável até aos sete anos, partindo do princípio, errado, de que um ente com sete anos já se podia defender !... O Director da Casa, entregava sempre que possível, os expostos a amas criadeiras, pagando a cada uma, isto em 1876, a importância de 260 reis diários, como salário, para o seu sustento e criação dos expostos. Se é certo que algumas os acarinhavam como seus filhos, outras havia que apenas serviam para os explorar, dedicando-os à mendicidade. O vereador constantemente procedia, podemos dizer a um inquérito, convocando as amas e as crianças para evitar abusos. Tinham os expostos um certo apoio médico e até, quando o médico do partido achava necessário, iam a tratamento termal e até a banhos de mar. Curiosa era a maneira, pelo menos no que diz respeito a banhos de mar, como se processava essa ida a banhos. O médico indicava o número de mergulhos no mar e o vereador passava a guia dirigida à autoridade do local onde se iria fazer o tratamento. Por umas actas da Câmara de Braga, de meados do século dezanove sabemos como se processava esse tratamento. Depois de ser atestado pelo médico a necessidade de banhos de mar de um determinado exposto, foi escolhida a praia da Póvoa de Varzim. Passada a autorização, foi então passada uma guia na qual estava mencionado o nome do órfão ou exposto e bem assim o nome da ama. Esta recebeu a quantia necessária para a deslocação e tendo como obrigação de, chegada à Póvoa, se apresentar ao Administrador do Concelho para, no registo poveiro, ser anotado o número de banhos prescrito pelo facultativo. Findo o tratamento a ama voltaria à presença do Administrador do Concelho para este passar atestado em como, o menor, tinha cumprido a prescrição médica, isto é, tinha dado o número de “cachafundas” medicadas, atestado que serviria para apresentar ao respectivo vereador, em Braga, provando que se tinha cumprido com a receita médica e assim poder, a ama, receber o estipêndio acordado. Este foi, talvez, uma maneira, prática e cómoda, de uma ama passar umas férias e provar as salsas águas do mar da Póvoa!... Alguns dos recolhidos na Casa da Roda, apesar do seu triste início de vida, vieram mais tarde a ser a compensados pelo seu trabalho e até pela sorte. De alguns temos exemplos extraordinários, apesar o estigma que os apontava como Expostos no seu nome. Aqui bem perto de Braga, um dos grandes empresários tinha no final do seu nome o de Exposto, por certo por não ter ido reconhecimento. Um outro, recolhido no final do século dezanove, chegou a ser um capitalista e, no final da sua vida, considerado um benemérito e homenageado com todo o direito. Recolhido na Roda de Braga, foi aos sete anos entregue a um dos principais comerciantes desta cidade e que quando o viu completar catorze anos o encaminhou para o Brasil, onde pela sua honradez e trabalho, angariou uma considerável fortuna. De regresso a Portugal, trouxe consigo o mal daqueles tórridos e húmidos climas do Amazonas, o reumatismo. Procurando remédio em quase todas as termas nacionais e experimentando todos os remédios aconselhados, nunca surtiu melhoras até, alguém o aconselhou os banhos quentes, da Póvoa do Mar. Assim procurou a Póvoa, onde talvez tivesse tido a dita de, em miúdo, por lá passar. Foi remédio santo. As melhoras se foram acentuando de tal maneira que naquela praia fixou residência e por lá acabou os seus dias. Foi um grande benemérito da Póvoa que em agradecimento atribuiu o seu nome – Santos Minho - a um arruado poveiro e lhe construiu um mausoléu no Cemitério da Giesteira. O seu nome da baptismo era o de João Santos, mas adoptou o de Minho, província que o viu nascer. Notável foi a sua acção perante a Câmara de Braga. No seu testamento deixou à edilidade bracarense, o importante donativo de duzentos mil reis, afirmando que julgava seria, talvez, essa quantia que tinha sido dispendida pela Câmara, com o seu internamento na Casa da Roda. Braga, 2 de Novembro de 2008 LUIS COSTA www: bragamonumental.blogs.sapo.pt www: bragamonumental2.blogs.sapo.pt www: varziano.blogs.sapo.pt email: luisdiasdacosta@clix.pt.
publicado por Varziano às 22:46

LUIS COSTA O S E X P O S T O S AS CASAS DA RODA DE BRAGA No Campo de Touros em parte do que foi depois o Edifício do Paço de Dom José (Arquivo Distrital de Braga) Ainda no Campo de Touros, por perto do que foi Edifício dos Órfãos de São Caetano Finalmente na rua de São João do Souto no Casa dos Paiva Marinho UBATI –Universidade Bracarense do Autodidacta e da Terceira Idade 2008 AS CASAS DA RODA DE BRAGA ORFÃOS E EXPOSTOS Por certo para grande parte dos bracarenses, ao falarmos da Casa da Roda, todos aliam a sua localização no edifício da rua de São João do Souto e com razão, pois não há nem poderia existir alguém na cidade que se possa lembrar doutro local onde se recolhiam essas crianças, exposta ou órfãs. O actual edifício que foi o último a receber esses quase, senão mesmo muitas vezes, desprezados da sociedade quem os gerou. Mas vamos por hoje recuar uns centos de anos, e até milénios. Podemos pensar que o abandono de entes, quase que logo à nascença, é uma coisa que vem de muito longe. Uns para encobrir maternidade ou paternidade; outros, eram entregues incógnitos, que por dificuldades financeiras, não podiam dar a assistência aos seus filhos, alimentar e medicamentosa e, ainda por outras razões como a das perseguições religiosas. Recordemos aqui Moisés, colocado numa balsa ou cesto, por sua mãe, uma mulher da tribo de Levi, o lançou, vogando rio Nilo abaixo para assim ser salvo da morte que havia sido decretada por um faraó egípcio, ordenando que todas as crianças do sexo masculino judias seriam assassinadas, tendo vindo a ser sido recolhido pela filha do rei. Talvez, em Portugal, o caso de abandono ou entregue de recém nascidos a outros, amas (mães adoptivas), abandonados ou entregues a instituições se tenha acentuado, a partir do século XIV, quando o “o cheiro da pimenta e da canela” fez com que “se despovoasse o reino” , com o embarque para as conquistas de muitos jovens que deixavam à míngua as suas mulheres e filhos. Parece e mesmo segundo a tradição,”vox populi, vox Dei”, uma das primeiras pessoas que sentiu esse descalabro foi logo no princípio do século XVI, o arcebispo bracarense Dom Diogo de Sousa que tentou, em Braga, dar algum remédio a este problema fazendo um, podemos dizer, ensaio, recolhendo uns expostos na conhecida casa do Passadiço. No entanto é uma afirmação, não documentada e, portanto, de crédito duvidoso. A ser verdade seria talvez este o primeiro albergue para expostos em Braga. Mas de certeza temos o da instalação da Casa dos Expostos no Campo de Touros (Praça Municipal). O seu local era onde hoje está o Paço de Dom José, Arcebispo de Braga, onde agora se encontra instalado o Arquivo Distrital e Biblioteca Pública de Braga, na parte voltada para o referido campo e do lado antiga capela de Santo António da Praça. Mas façamos um pouco de história. Dom José de Bragança, ao chegar a Braga, quis como Príncipe Real, estabelecer na sua cidade uma corte, já que assim vinha habituado desde Lisboa, achando que não se coadunava com a sua categoria real o paço dos antigos arcebispos. Como existia nesse lado nascente do Campo de Touros um albergue Casa dos Expostos, entrave aos seus projectos de fazer um palácio grandioso nesse local, airoso e desafogado, tratou com a Câmara, que iria também situá-la no Campo de Touros, ou do Arcebispo, nome este que vinha do tempo de Dom Agostinho de Jesus, de o desafectar do domínio camarário por troca ou escambo, conforme consta do livro de Tombos da Câmara do período de 1750, com uma casa, nesse campo edificada, e pertença do arcebispado junto ao que, onde mais tarde, foi a primeira séde do Colégio dos Órfãos. Ora, portanto, à face de documentos é esta Casa de Expostos, no local da Biblioteca, considerada a primeira casa de Expostos, ou a Chamada Casa da Roda de Braga. Resolvido o desiderato, a Casa de Expostos e Órfãos, passou a ocupar um prédio no lado norte do campo de Touros, como dissemos, entre o edifício que mais tarde foi a primeira séde do Colégio dos Órfãos de São Caetano e a casa Costas Pereira. Aqui se manteve durante perto de 150 anos até que o adiantado estado de degradação e higiene aconselhava a obras dispendiosas. Vendo, a direcção, sob a direcção do Presidente da Câmara, Dr. Jerónimo da Cunha Pimentel que muito convinha obter um edifício próprio, com mais comodidades e onde se estabelecesse definitivamente o hospício, propôs à Junta Geral do Distrito que votasse a quantia de 1:800$000 reis, para a compra de uma casa condigna destinada a tal fim não tendo a Junta anuído ao pedido Gorada esta solução, a Câmara, cujo responsabilidade pela administração dos Expostos e casa era da sua competência, viu que não tinha disponibilidades financeiras para se lançar no empreendimento. E assim depois de muitos considerandos, consultas e exposições, resolveu, estava-se quase no último quarteirão século dezanove, alugar pela fabulosa quantia de cem mil reis anuais, a casa dos Paivas, ou da rua de São João, gaveto com a antiga rua das Oussias (Rua de Nossa Senhora do Leite) e que hoje conhecemos por Casa da Roda. Passou esta a ser, portanto, a segunda e última Casa dos Órfãos e Expostos de Braga – vulgo Casa da Roda. E assim desde finais do século XIX e até cerca de 1930, serviu esta casa para albergar os expostos e órfãos não só de Braga, como de concelhos limítrofes – a princípio vinham caír a Braga expostos de Amares, Terras do Bouro, Aboim da Nóbrega, Larim e outro concelhos, alguns depois extintos pela reforma de 1850. Esses de fora do concelho de Braga, eram aqui alojados mas as despesas eram cobertas pelas respectivas Câmaras as quais pertenciam mas muitas vezes os atrasos eram notórios e a Câmara de Braga, via-se na necessidade de intimar o pagamento dos débitos. Cerca de 1930, acabaram as Casas de Expostos, em Portugal. Um decreto emanado pelo Governo, extingui-as. Em Braga era já muito reduzido o número de expostos mas havia necessidade de lhes dar uma saída. Primeiro foi tentada a sua colocação na Santa Casa da Misericórdia, que tinha recebido um importante legado para os expostos, mas isso se opôs a direcção, os médicos e enfermeiros pois achavam que não estava nas suas atribuições tratar de expostos mas sim de doentes e mesmo era um perigo levar crianças sadias para um hospital. Depois foi tentada com êxito a colocação desses miúdos na Creche de Braga, onde foram recebidos e por lá terminaram a sua estadia até aos sete anos, idade em que foram entregues às famílias que os reconheciam, ou passaram a outras instituições como, mais tarde, o Colégio dos Órfãos. Pelas gravuras que acompanham esta crónica poder-se-à localizar as casas que em Braga prestaram assistência a expostos. A gravura nº 1, mostra-nos a Casa do Passadiço, (século XVI), mandada construir pelo Deão do Cabido da Sé, D. João da Guarda, casa ou local onde possivelmente serviu para Dom Diogo de Sousa albergar uns expostos. A gravura nº2, revela um aspecto do Campo de Touros, com o edifício da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, ocupando o local onde esteve a Casa dos Expostos. A gravura nº 3, mostra outro aspecto do Campo de Touros com o edifício dos Órfãos de São Caetano, a casa dos Expostos e a Casa Costas Pereira. Nº 4, vê-se a Casa dos Paivas, ou agora conhecida por Casa da Roda. Nº5, aspecto da Casa da Roda, antes da recuperação . Nota: As gravuras 1 e 4, são extraídas do livro “As ruas de Braga”, 1750. As Nºs 2 e 3, são desenhos de João Vieira Gomes, o Dr. Chasco, 1834. . . / . . .
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