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RUA EÇA DE QUEIRÓZ E JARDIM DE SANTA BÁRBARA Com início na rua Dr. Justino Cruz e final na Praça do Município a rua Eça de Queiroz foi aberta no final dos anos quarenta do século findo tendo, na altura recebido, em 27 de Abril de 1950, o nome do então Ministro das Obras Públicas, Engenheiro Frederico Ulrich, em consideração pelo interesse e facilidades concedidas para a conclusão da obra. Decalca esta rua parte da cerca do antigo Paço dos Arcebispos, e para sua abertura teve de se derribar a capela de Santo António da Praça, um pequeno templo que se situava à ilharga do edifício do antigo Paço de Dom José de Bragança. Desmontado peça por peça, este templo tinha então sido destinado a ir ocupar um lugar no Bairro da Misericórdia mas ficou pela intenção e as pedras acabaram por se perder bem como a memória do Santo Taumaturgo que era oficial do exército português. Cabe aqui dizer que Santo António de Lisboa, assentou praça, figurando, como soldado recruta, fez a sua instrução militar e acabou como oficial do exército recebendo a princípio o pré e, depois o ordenado que a patente lhe atribuía. Nos dias do pagamento um mesário ia ao quartel onde lhe era entregue o quantia que lhe era devida. No dia da sua festa, integrava sempre a procissão uma força do então Regimento de Infantaria 8, aquartelado no Pópulo, prestando-lhe as honras militares. Como curiosidade, apontamos que os soldados ao passar defronte Capela, tinham, obrigatoriamente, de saudar o seu superior hierárquico, fazendo a continência. Depois do 25 de Abril foi, em 5 de Junho de 1964,foi substituída a sua primitiva denominação pelo nome do escritor poveiro Eça de Queiroz, conforme reza a acta camarária desse dia : “ a rua Engenheiro Frederico Ulrich passará a denominar-se rua Eça de Queiroz…”. Nasceu Eça de Queiroz, na Póvoa de Varzim, em 25 de Novembro de 1845 e faleceu em Paris em 1900. A questão da naturalidade do escritor poveiro tem dado azo a imensas disputas entre a Póvoa que reivindica, baseada em testemunhos irrefutáveis como a própria declaração da mãe e, como ele mesmo declara, numa disputa jornalística com Pinheiro Chagas: “Você (Pinheiro Chagas), bem sei, acha isto risível. Mas que diabo! Você é um poeta, um orador, um lutador – e eu sou apenas um pobre homem da Póvoa de Varzim.”, e, Vila do Conde que, como único testemunho se baseia no assento de baptismo, efectuado na Igreja Matriz, dias depois do seu nascimento. Ora o facto de Eça ter sido baptizado naquela igreja, já está devidamente esclarecido por vários autores, como, entre outros, por exemplo, o Monsenhor Manuel Amorim in “Separata do Boletim Cultural da Póvoa de Varzim – Vol. XXXII, nos 1 / 2 – 1955 – O nascimento e o Baptismo de Eça de Queiroz”. Eça de Queiroz, formado em Direito na Universidade de Coimbra, tentou a advocacia, tornou-se jornalista e, finalmente, ingressou na via diplomática, tendo servido em Havana, Newcastle, Bristol e Paris, onde veio a falecer. Em Portugal, ocupou o cargo de Administrador do concelho de Leiria, onde escreveu um dos mais conhecidos dos seus romances, “O Crime do Padre Amaro”. Pertenceu ao grupo “Os vencidos da Vida” e foi um dos intervenientes das célebres “Questão Coimbrã” e “Conferências do Casino”. Introdutor do romance realista em Portugal, ninguém o excedeu na plasticidade da linguagem, onde por outro lado a clareza, elegância e musicalidade da sua obra o colocam como um dos principais estilistas do idioma português. Possivelmente a ironia caustica com que retratou a sociedade do seu tempo, esteja na origem do seu obscuro nascimento. Caso raro, e talvez único em todos os tempos, no assento do seu baptismo consta como filho de mãe incógnita. Deixou-nos uma valiosa obra, constituída por livros editados em sua vida, como outros de edição póstuma. É difícil destacar quais os melhores, mas sem dúvida, não podemos esquecer “Os Maias”, “A Cidade e as Serras”( póstuma ), “ A Ilustre Casa de Ramires”, “O Primo Basílio”, isto só para mencionar alguns da sua obra. À esquerda da rua Eça de Queiroz, situa-se o belo jardim de Santa Bárbara, um ex-libris da cidade e um dos mais bonitos recantos da cidade. O nome deste jardim não foi de escolha camarária, da sua Comissão de Toponímia, mas sim ele foi baptizado pelos bracarenses que aproveitando o motivo que se encontra ao centro, um fontanário que tem a encimá-lo a estátua da Santa protectora das populações contra as trovoadas, baptismo logo apoiado pela Toponímia e Câmara. Sobressaí este fontanário de um plano elevado por degraus estrategicamente dividido pelos quatro lados de um patamar que suporta o tanque onde ao centro uma coluna interrompida por uma taça do qual jorra a água e que, por sua vez, é continuada por um tronco realçado por quatro elementos, separados por argolas, sendo que o terceiro tem esculpidos motivos decorativos, servindo este conjunto de suporte à imagem da Santa que deu o nome ao jardim. Este motivo arquitectónico pertenceu ao jardim-cerca do antigo Convento dos Remédios e esteve por largos anos no Parque da Ponte, vindo a embelezar este local quando o jardineiro paisagista de seu nome Cardoso, funcionário camarário, delineou, ao tempo do Presidente Santos da Cunha, o belo recanto de que estamos a tratar, traçando os seus canteiros num conjunto admirável. A Câmara, premiando o seu extraordinário bom gosto em todo o aspecto, homenageou-o colocando uma lápide com o seu nome num lugar destacado do jardim. Hoje essa lápide está escondida, num recanto quase obscuro e, poucas pessoas tem dela conhecimento. Foi retirada do seu primitivo destacado lugar quando, há anos, em Braga, com a presença do então Presidente da República, Mário Soares, se comemorou o 10 de Junho, o dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, e a Câmara resolveu homenagear o Dr. José Ferreira Salgado, atribuindo o seu nome ao novo largo que fica fronteiro ao jardim de Santa Bárbara e colocando no sítio anteriormente ocupado pela lápide do jardineiro Cardoso, o busto de Ferreira Salgado. Este busto, colocado naquele lugar tem dado lugar a confusões, pois que alguns quase esquecem o nome do político bracarense e, não sabem tampouco que o topónimo do Dr. Ferreira Salgado é o do largo fronteiro ao jardim, separado pela rua Dr. Justino Cruz, onde está colocado um espelho de água com repuxo, largo onde deveria figurar o busto e não no lugar onde o colocaram. Verdadeiro tapete persa de flores naturais, constantemente renovadas, conforme as espécies relacionadas com as estações do ano – amores perfeitos, rosas, cenerárias, camélias, bem-me-queres, etc. - que dão um colorido especial a este belo recanto, um dos mais bonitos, senão um dos mais belos da Bracara Augusta. É de notar que as árvores estão ausentes deste espaço, porque ele foi delineado mais para o encanto da vista, razão de ser constantemente fixado nas objectivas das máquinas dos turistas, do que lugar de lazer e recreio, pela sua exposição durante o dia aos raios solares e, só nas noites cálidas de verão, se pode aproveitar para um pequeno descanso nos poucos bancos de pedra ali existentes. No entanto, tem algumas árvores, mas apenas as que foram colocadas à face da rua Eça de Queiroz, como uma cortina arbórea para não chocar o bonito jardim com as construções modernas da rua, uma vez que todo o conjunto que pertenceu à cerca do antigo Paço Arquiepiscopal, hoje um nexo da Biblioteca Pública, é um verdadeiro museu pétreo ao ar livre, onde se encontra muito da parte histórica da velha Bracara. Assim, num plano inferior ao do jardim, depare-se-nos o Paço Medieval de dom Gonçalo Pereira, que foi Arcebispo de Braga (1625/1358), constituída por uma torre ameada, acrescentado por Dom Fernando Guerra, também Arcebispo (1416/1467) e ainda a obra do mesmo, o Salão Medieval. Na torre, notam-se pedras almofadadas, românicas, aproveitadas de alguma construção desse tempo e pedras sigladas do período medieval. Uns arcos góticos dão realce a este conjunto e foram ali colocados quando ao tempo do director da Biblioteca, Dr. Alberto Feio, cerca dos finais dos anos vinte e princípio de trinta do século ido, foi restaurado o edifício do Paço de Dom José, que meados do século XIX, tinha sido quase destruído por um incêndio. Serviam eles para sustentar o piso do hoje salão do Arquivo. Muitos elementos se encontram no local e que pertenceram a construções demolidas, principalmente durante os séculos dezanove e seguinte, como os anjos e grinaldas da fachada do Convento dos Remédios, brasões de fé e de armas, a Cruz de Dom Diogo de Sousa que deu origem à Irmandade de Santa Cruz, entre outros restos que seria fastidioso enumerar. Mas há ali uma pedra que não podemos deixar de assinalar, pois só conhecemos três exemplares. Trata-se do antigo brasão de Braga. Os dois restantes encontram-se, um, no Parque de São João da Ponte, no portão de entrada do que foi um Jardim Infantil, e que apara ali foi quando destruíram no Campo do Salvador (Mercado Municipal) o antigo mercado do Peixe e que serviu durante anos de quartel aos Bombeiros Municipais e, o outro, está nos claustros do Convento do Pópulo (hoje dependências da Câmara Municipal) e que pertenceu ao portão de entrada do antigo matadouro, nas Carvalheiras. Ainda se pode observar, na parte sul do plano inferior, a traseira do Paço, que dom Rodrigo de Moura Telles (1704/1728) mandou edificar. Braga, 29 de Fevereiro de 2008 LUÍS COSTA
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POSTAIS DO TEMPO QUE PASSA A TORRE DE SÃO ROQUE ( Em jeito de carta ) Ao receber hoje segunda feira, o sempre esperado velhinho, mas com espírito sempre jóvem, “COMÉRCIO DA PÓVOA DE VARZIM” e ainda antes de ler os jornais locais, que relego para depois de saborear, com prazer e deleite, as notícias da nossa póvinha do mar, infelizmente nem sempre boas, um dos assuntos ao qual presto cuidadosa atenção é a secção que me serve de título. E isto se deve porque a mor parte das vezes vem-me recordar os tempos de menino e juventude que passei na Princesa das Praias de Portugal. Aspectos de pelo menos mais de setenta anos que, agora que com a idade de 83 anos, vivi e recordo com saudade. É Avenida Mousinho com o seu túnel de árvores até lá ao cimo já pertinho da Igreja da Misericórdia, é o fontanário do menino a fazer “chi-chi”, e os trambulhões a que foi sujeito, até acabar no jardim traseiro da Capela das Dores, é o monumento ao mortos da Grande Guerra, desde os diversos locais a partir do cimo da Praça do Almada, e mais tarde ao meio e depois na Praça Marquês de Pombal e agora frente ao que resta do Mercado David Alves, com os seus talhos no interior, como o do “priminho” Barbosa e as hortaliceiras rodeando os arruados que ali existiam, é a feira dos porcos e da lenha no Largo das Dores, é a igreja de São José, de risco de Moura Coutinho, demolida par dar lugar à actual, é a Casa do Galo, é o velho guarda-sol desmontável no Inverno, é o Chinês, lugar ideal para passar umas noites, vendo Maravilhas e perdendo lá a “massinha”, é o Café da Libania, com o seu gostinho “a rabo de bacalhau”,… que sei eu de mais recordações. Seriam infindáveis e ocupariam todo a espaço do nosso centenário e os outros colaboradores ficariam a ver “navios” e isto não pode ser. Portanto regresso ao titulo deste artiguelho. Sugere a modos de pergunta o apreciado colaborador G. S. que não tenho o prazer de conhecer mas que aprecio a sua preciosa colaboração, fazendo-me recordar tempos que não voltam mais. Que pena não sermos como diz a quadra “…Primavera rainha das flores… vai e volta sempre”. Ora diz ou pergunta, volto a dizê-lo : “surge curiosamente com uma torre sineira que creio nunca ter existido” e continua “Estou certo ou errado ?.” Está errado, meu amigo, deixe-me tratá-lo assim, pois no Comércio, pudemos dizê-lo somos quase uma família que se vem transmitindo de pais para filhos. Contava a minha avó e também a minha tia, que uma furiosa tempestade, chuva e vento, por alturas do Inverno de 1922, uma fortíssima rajada fez desabar a torre sineira da Capela de São Roque e até situavam o dia, 21 de Março, e isto porque essa data ficou gravada nas suas memórias, pois esse temporal se fez sentir em Coimbra, e na Republica dos Grilos, republica de estudante minhotos e poveiros e da qual fazia parte o meu pai Jerónimo Luís da Costa. Quem, pode dizer-se, era a ecónoma ( para usar os termos de hoje ) era a minha mãe. À luz da vela ou do candeeiro estavam a preparar o jantar, nesse dia 21 de Março, na velha cozinha conventual, com uma avantajada chaminé, de grossos e pesados esteios de pedra. Eu estava ( tinha então 7 meses ) embrulhado numa manta ao colo da minha mãe. A cozinheira uma robusta poveira preparava “comezaina” para os esfomeados repúblicos e nisto um ruído como de um trovão, fez estremecer o velho casarão, os enormes pedregulhos desabam sobre a dependência e por um enorme buraco levam tudo à sua frente até à cave. A desgraçada cozinheira, dependurada pelo saiote é partida pela coluna, com morte imediata. A minha mãe cai no buracão e com fractura de crânio fica como morta e eu, confirmando o aforismo AO MENINO E AO BORRACHO PÕE-LHE DEUS A MÃO POR BAIXO, fui encontrado debaixo de um montão de entulho e tijolos sem uma beliscadura. Isto foi-me relatado, pois com sete meses, não podia ter qualquer “recuerdo”, e assim aliavam este vendaval de Coimbra ao do derrube da Torre de São Roque. Esclarecido o meu amigo, creia-me sempre Luís Costa Braga. Natal de 2003.
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A FARMOCOPEIA NA IDADE MÉDIA E NO SÉCULO XVIII PELOS CAMINHOS DE SANTIAGO ABUNDAVAM AS PLANTAS SALUTÍFERAS. NO SÉCULO XVIII UM TRATADO DE MEDICINA DÁ-NOS OUTROS REMÉDIOS Muito antigo é o conhecimento do valor de certas plantas na cura ou alívio de doenças que desde os primórdios, afligem a humanidade. Sabemos, já para não recuar aos tempos pré-históricos, que o conhecimento dessas plantas possivelmente anterior à alquimia, resultou provavelmente de uma “observação casual e seu raciocínio, está já nos papiros egípcios, nos escritos ideográficos do Imperador Chinês Cho-Chim-Kei, na Índia do Caraca…na Assíria e Babilónia, na Bíblia. ( 1 ) A divulgação dessas plantas curativas e ou alívio dos pacientes, muito devem às várias boticas conventuais espalhadas ao longo dos caminhos de Santiago, sejam os caminhos portugueses ou os jacobeus. As caminhadas eram longas, cansativas, sujeitas às inclemência do tempo, as doenças surgiam, o cansaço e por vezes até uma deficiente alimentação eram propícios até que o peregrino não chegasse a alcançar a meta da visita ao sepulcro do Apóstolo. Restava a esses romeiros a hospitalidade dos frades, que aos poucos foram conhecendo o valor curativo de diversas plantas, aplicando-as aos que a essas albergarias recorriam não só para tratamentos como também para desfrutar uns breves momentos de descanso nas suas infindáveis caminhadas. Ficaram famosas as boticas fradescas e ainda hoje, podemos ver as suas instalações da que foi do Mosteiro de Tibães, que ficava um pouco desviada por certo do caminho português, mas uma que ficava no caminho era a de São Salvador de Montélios. Muitas outras deviam figurar nesse roteiro, mas por agora vamos é falar das ervas curativas que então se usavam com plena satisfação dos peregrinos medievais. Esses remédios naturais, primeiro, a sua experimentação e aplicação principiou a fazer-se nas boticas dos conventos e só mais tarde eles passaram a ter uso nos incipientes hospitais daquela, até certo ponto, obscura Idade. Assim temos que desde nevralgias a calosidades e chagas nos pés, doenças dos olhos, provocadas muitas vezes pelo pó, vento ou frio, dificuldades na respiração, disenterias, vómitos, e um infindável rol de mil doenças, as ervas, as plantas, aplicadas por chás, por maceração ou emplastro tudo curavam. Por vezes o processo de cura era acompanhado de benzeduras, principalmente quando o doente recorria a curandeiros. Disso é exemplo a lenga-lenga que abaixo se reproduz : “ERESIPELA QUE VIESTES NUM DIA DE LUA CHEIA, TENS QUE MORRER SEM IR DAR A OUTRA PESSOA NA TERRA. A VIRGEM MAIS ME AJUDE E TAMBÉM O NAZARENO, OS DOIS ME DEEM PODER PARA SALVAR ESTE ENFERMO”. ( 2 ) Nem só os medicamentos eram compostos apenas por produtos vegetais, também era vulgar recorrer-se a outros de origem animal ou mineral. No entanto para o que estamos a tratar, interessam-nos apenas os de origem vegetal e usados, como dissemos na Idade média. Utilizavam-se as raízes, as folhas, os bolbos e até as flores, como a seguir veremos. O acónito ( planta venenosa ), era servido para calmante e regulador do coração e pulmões ; a angélica ( planta medicinal ), tinha propriedades estomacais; a argentina ( planta rosácea ), o cozimento das suas raízes e folhas, era remédio santo para acabar com a diarreia e hemorragia, enquanto que a arnica, em tintura, era usada para curar feridas e, por via oral se empregava contra o paludismo. A chicória tinha qualidades laxantes; aproveitando a água do cozimento do teixo, faziam-se excelentes xaropes, e era remédio estomacal. Também servia para combater a icterícia e ainda como tónico cardíaco e bem diurético. Havia ervas contra todos os males, desde a vulgar dor de dentes, até à retenção de urina ou espasmos nervosos. Remédio notável contra os escaldões do sol ou do frio, nada melhor do que esfregar o corpo, como o Senhor o deu ao mundo, num monte de urtigas. Deixando o medievo, vamos entrar agora, num novo período, a idade Moderna, ou seja no século XVIII. Para isso socorremo-nos do velho livro, datado de l726, cujo título é PORTUGAL MÉDICO – MONARCHIA MEDICO—LUSITANA, que a páginas 37, acrescenta, sem desaconselhar os remédios medievais, ou pelo menos a eles não faz referência, receitas de origem animal, das quais resumidamente, vamos descrever umas poucas, deixando outras pois que podem não as suportar os estômagos mais sensíveis. Respeitando a grafia para lhe dar mais sabor, eis, então, algumas : “Os cabbelos, destilados, & misturados com mel e óleo que shair hé este linimento hum grande remédio, para a produção dos cabellos. Reduzidos a cinza servem para o lethargo, e mais affectos supurosos pulverizando a cabeça. O mesmo pó bebido cura a icterecía. A mesma cinza misturada com cebo de ovelha corrobora os membros dislocados, & acode ao fluxo de sangue das feridas. Os cabellos da cabeça & do corpo enfermo introduzidos em um ovo, & dando-o a comer a qualquer ave depois de cozido, curaõ perfeitamente quartãas. Posto nos narizes fazem parar a hemorragia & applicados sobre a Erysipela applacaõ a ebuliçaõ do sangue. As unhas, tomadas ou em pó, ou em infusaõ provocaõ a vótimo: cortadas dos pées, & das mãos, & aplicadas ao embigo, expurgaõ os foros lympháticos os hydrópicos. Alguns para curar qualquer febre, intruduzé as unhas dos pees, & mãos do enfermo em um ovo, e daõ a comer a qualquer ave. Outros as envolvem & encorporam em cera, & de manhã, antes de nascer o Sol pregaõ a cera na pedra da janella. Outros as prendem a um caranguejo vivo & o tornaõ a lançar na agoa. Para recuperar as forças prostradas daõ um golpe na raiz de uma ceregeira, & aí introduzem as unhas, & cabbelos do doente, & tornaõ com esterco aglutinar o golpe. A saliva do homem em jejum tem virtudes contra as mordeduras venenosas das serpentes, & caõ damnando, cura as chagas, & as empingens. A cera dos ouvidos, tem-se por admirável remédio contra a cólica se se tomar em agoa appropriada. Exteriormente applicada hé contra a mordedura dos Escorpiões; conglutina as feridas, & fissuras da pelle; provoca a vómito posta no cachimbo com o tabaco, & tomando o fumo. O suor tem bom uso nas alporcas, se sobre ellas se puzer quente com a folha & raiz de verbasco. O sangue, hé decantado remédio para a Epilepsia, se se lançar nos beiços do enfermo em quanto está no actual acidente, também aproveita muito da lepra. Cura qualquer fluxo de sangue, ou bebido fresco ou reduzido a pó. O mesmo sangue que sahe pelos narizes, se se untar com ele a testa até que seque, faz parar a mesma hemorragia … As lombrigas, secas, & reduzidas a pó expelem as que ficam no corpo. Os piolhos tem virtude contra a Icterícia. A Urina, é calefaciente, exsiccante, resolvente, abstergente & mundificante…( 3 ) E por hoje não é preciso dar mais exemplos, a não ser que apareça alguém, se ainda não tiver o estômago revoltado, e que queira mais, então deve procurar o livro PORTUGAL MÉDICO – ou Monarquia Medico-Lusitano, e por ele saberá de muitas e mais novidades, misturadas com algumas poesias de vários poetas, de entre os quais se destaca Sá de Miranda. Muito mudou, e ainda bem, a ciência médica. Braga, 10 de Agosto de 2005 LUIS COSTA ( 1 ) Faro de Vigo, fas. 31 -1993 ( 2) -Ibidem ( 3 )-Portugal Médico – 1726, pag. 37 e segs.
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O CAMPO DE TÉNIS De novo os POSTAIS DO TEMPO QUE PASSA, a apreciada colaboração de G.G. no nosso centenário Comércio, me trouxe à lembrança, tempos que PASSAM E NÃO VOLTAM MAIS. O trazer aos póveiros de hoje o postal nº 156, veio recordar--me que no local onde está implantado e desde 1933, o Casino, foi em tempos da minha meninice, até ao último lustro dos anos 20 do século passado o Campo de Ténis da Póvoa. Lá ao fundo do postal entre o edifício da capitania e, o outro lado, onde existia uma estação dos famosos banhos quentes, vê-se um arvoredo. Era nesse local que se achava instalado o Campo de Ténis, espaço destinado aos banhistas, e não só, mas a todos os que se dedicavam então a esse sadio desporto, muito em voga, principalmente entre os banhistas mais endinheirados. Mas este pequeno apontamento não tem por origem o desporto então praticado naquele recinto. Serve apenas para lembrar que devido à carolice de alguns póveiros, banhistas e principalmente graças ao dinamismo de um senhor que de agora não recordo o nome ( os anos não perdoam e a mente também não ), apaixonado e ligado à Póvoa do qual não recordando o nome mas sei que era o Presidente do Comité Olímpico Português, alma mater de muitas festividades que nessa época se faziam para gáudio de banhistas e indígenas – estou a recordar umas festas marítimas, aí por volta de 1927, que ficaram tragicamente assinaladas – se realizavam nessa recinto recreios-concursos para diversão dos miúdos banhistas enquanto os seus pais se deliciavam com um havano e as suas ilustres mães se entretinham em conversa amena ou iam passando pelos dedos o tricot. As crianças de então entre as quais me incluía, passavam ali a tarde, abrigados da nortada pelo arvoredo, ventania que muitas vezes ainda é o pão nosso das nossas praias do norte. Eram as corridas de saco, a do ovo na colher, as velocidades nos triciclos ou nas trotinetas, e que mais sei eu (?) com prémios para os melhores, para os piores, enfim para todos os das brincadeiras. Os prémios eram dignos de bem saborear, pois eram rebuçados ou doces. Com a cedência daquele terreno para se edificar o Casino, o que foi um desgosto para a miudagem, o entretenimento passou para o Passeio Alegre, também um pouco abrigado pela vedação do murete em cimento e algum arvoredo do lado do mar e do norte pela casa do Dr. Caetano de Oliveira, cujos filhos, o meu amigo Zeca Caetano e a Lurdes deviam também entrar nos concursos, e ainda o edifício do Café Ribeiro, mas conhecido da “Libânia”, onde era servido um saboroso café, dizem, cujo segredo era o tal rabo de bacalhau. A passagem dos concursos, foi sol de pouca. Uma ou duas vezes serviu o velho coreto, de tribuna para a classificação. Os tempos e os costumes idem. Agora desses velhos tempos só ficou a recordação dos velhos rabugentos como eu. Braga, 8 de Fevereiro ( dia de Entrudo ) de 2005 Luís Costa
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R E C O R D A Ç Õ E S O ler, num dos últimos números do " Comércio da Póvoa ", um artigo do Exmº Senhor Professor Doutor Amadeu Torres, fez-me recuar nos tempos 75 anos quando em 1928, numa manhã de 7 de Outubro, um grupo de três rapazinhos, percorreu, saindo da rua de Santos Minho, o caminho até à Escola Conde Ferreira, no Largo de Nossa Senhora das Dores, para contactar pela primeira vez, um professor que neste longo percorrer da vida para sempre nos ficou gravado como um exemplar pedagogo. Tratava-se do professor Luís Pereira Viana, e os rapazinhos desse tempo eram, contando comigo, o meu primo Américo e o também nosso vizinho Antero Barros. Ali encontramos companheiros e amigos, alguns dos quais já partiram para a Eternidade e outros, por certo muito poucos, ainda se vão arrastando com o pesar dos anos. Lembro, entre outros, ( a memória já não ajuda muito ! ), os alegres miúdos de então como os irmãos Nogueira Guimarães - António e Arnaldo - os irmãos Pereira Leite, que em 1942 encontrei no Curso de Sargentos Milicianos no Porto, o António Augusto, o Alfredo, o Claudionor Sobral, os irmãos Araújo, um dos quais o Laurentino, seguiu como o meu primo Américo, a Magistratura, o Hermínio Janeiro, que depois de algum tempo como médico na Póvoa, foi para Moçambique, e regressado à Metrópole, passou a exercer a Medicina em Caminha, o Alberto Reis, o Eugénio Dias, o Fernando Eça e tantos outros mais que a memória já cansada não permite recordar. Se bem me lembro, o edifício escolar era constituído por três salas, uma a Nascente onde pontificava o meu professor Viana, a do meio a cargo do prof. Leopoldino Loureiro e a do Poente cujo professor era o Snr. Correia. Tinha um vasto recreio ( pelo menos assim o recordo com a dimensão alargada talvez para o nosso olhar de crianças ), com um barracão-coberto que servia de abrigo nos dias chuvosos ou de canícula e umas imundas instalações sanitárias. No largo, existia, encostado ao muro onde morava o sacristão da Senhora das Dores, uma cortina de árvores, creio que eram choupos que na Primavera e Outono proporcionavam umas frescas sombras. Mais tarde, talvez no ano seguinte à minha entrada, a sala do meio foi dividida em duas, ficando a do nascente, junto á do Prof. Viana, a cargo do Prof. Loureiro e a do outro lado, foi entregue a um novo Prof . de seu nome Pinho, que além de mestre era também um distinto musicólogo ( foi o autor da música da opereta MARIA, da autoria do Dr. Zé Sá, representada no velho Garrett, pelos anos de 1938, por Alunos da Escola Comercial Rocha Peixoto, como o Tone Dias ( Padre Olimpo Dias ), Liége Ferreira, Santos, Neca Silva, Neca Barbosa e outros e ainda um fogoso grupo de poveirinhas ). Mas voltemos à Escola Conde Ferreira e ao muito amigo professor Viana. Como disse acima era ele um professor excepcional. Nunca o poderei esquecer, pois foi devido ao seu amor ao ensino e aos seus alunos que fez singrar na vida muitos deles. No seu tempo nunca precisamos de explicadores. Ele era ao mesmo tempo professor e explicador. As aulas de manhã, pelas 9 horas, na sua sala principiavam, impreterivelmente, às 8 horas, com a lição de ditado, que com voz pausada ia ditando, e como tal não admitia erros no Português que lia nas selectas de então preenchidas com textos dos melhores autores nacionais. Depois seguiam--se as aulas de gramática, de geografia, de história Pátria e por vezes até de Mundial, de mineralogia, de matemática ( aritemética ), e tudo que era necessário para se sair com quatro anos de escolaridade, incluindo a urbanidade e sanidade pessoal. O seu método de ensino era tão profícuo que na altura dizia-se que os seus alunos, com a quarta classe , se tivessem bastantes conhecimentos da língua francesa podiam, à vontade, fazer o exame do 2º ano do liceu. Em conversa tida há dias com o meu primo Américo Campos Costa, referiu ele que em toda a sua carreira estudantil, desde o liceu à Universidade, nunca encontrou um professor com a categoria de Luís Pereira Viana. As aulas eram entremeadas com os intervalos para o recreio, onde a criançada dava azo à sua folia . E as brincadeiras cifravam-se pelo jogo da barra, da bandeira, do carolo, do pião ( a que se dava o nome do Jogo da Zocha - tinha uma forma diferente do vulgar pião, era mais achatada, mas as regras eram iguais ), o galgo corrido, encostado ou saltado , o botão ( que chamávamos de JOGO DA PINCHA ), por ser um botão usado nas ceroulas e ser de osso, saltava ou PINCHAVA mais. Nesses tempos ainda não se jogava como agora, entre a rapaziada, o jogo das multidões A BOLA. Ora até nos jogos então o bom professor Viana estava sempre atento e num dos que estava sempre de olho e ouvido à escuta era no galgo saltado. Tinha este jogo uma lenga-lenga que todo o saltador tinha que dizer ao saltar por cima do lombo do que estava agachado - porque antes tinha saltado mal ou porque por sorte lhe tenha cabido. Mal me recordo dessa lenga-lenga mas sei que principiando pelo um ia até um certo número. Creio que terminava mais ou menos assim : DOZE CARRADOZE, VINTE QUATRO COM CATORZE , DEZASSETE COM VINTE E UM FAZ UM CENTO MENOS UM. Num dos saltos tinha que o saltador com a mão fazer como se arrancasse do cachaço do que estava aninhado como uma parte do cabelo dizendo ao mesmo tempo ARRANCA A SALSA . Ora no fogosidade da brincadeira havia um ou outro que pronunciava ARRINCA A SALSA. Logo o professor Viana, atento, ordenava ao que tinha dito a asneira, para se colocar na posição do que estava aninhado. Era o castigo da asneira. Logo até a brincar não admitia faltar á boa língua materna. Disse já que com o professor Viana, não era preciso explicador, ele o fazia. O dia de descanso escolar, além do domingo era à quinta feira. Pois neste dia, de manhã para todos nós, era dia de aula e nos fins de tarde, sempre por volta das cinco horas sempre o nosso professor nos estava pronto para dar aulas de explicação, no tempo bom, à sombra dos choupos no recreio e nos dias piores na sala habitual. Mas não se fica só pelo que acima ficou dito, também interessava os seus alunos pelas coisas do passado. Numa vitrine que tinha na sala, expunha fosseis, restos de cerâmica romana, selos e outras quinquilharias que a mim me despertaram o gosto pela história e património. Também tinha por costume, como medida sanitária, antes de sairmos para o recreio colocarmo-nos em fila para uma inspecção de limpeza - mãos, cara, ouvidos, pescoço e cabeça. No caso que fosse falta de água, o caminho era o do rio que passa hoje por debaixo do Colégio das Doroteias e depois das obras prontas deste edifício era no chafariz colocado à entrada da estrada para Amorim. Se o caso era de falta de limpeza da cabeça, mandava para casa e só depois é que os recebia. Republicano convicto, lá por volta dos anos trinta chegou a ser incomodado pela polícia e alguns dias não tivemos aulas, no que então foi substituído num ou outro dia pelo prof. Loureiro. Algumas vezes nós os rapazes de então, saltávamos e íamos brincar sobre os troncos das árvores que tinham sido abatidas na Avenida e estavam arrumadas em frente da cadeia. Findas as horas de aula nunca saiamos sem termos finalmente uma sessão de canto coral onde acompanhados ao violino pelo professor Pinho, cantávamos algumas canções como o RATAPLAN, Á FRENTE O GALO e outras que eu já não recordo, e como bom republicano, terminávamos a cantar A PORTUGUESA e entre as carteiras lá seguia o Professor de ouvido atento não se desse o caso de qualquer miúdo não cantar o HINO NACIONAL. Agradeço ao Senhor Professor Doutor Amadeu Torres o ensejo de me fazer recordar um tempo que com saudade não volta para trás. Braga, Dezembro de 2003 Luís Costa
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RECORDAÇÕES DE OUTROS TEMPOS Num dos últimos " COMÉRCIO DA PÓVOA" , o seu prestigioso colaborador JOTEME, creio ser rapaz do meu tempo, hoje já na Casa do oitenta, mas que eu só conheço pelo pseudónimo, trouxe-me à lembrança o velhinho TEATRO GARRETT. Ora, sem desprestígio para o citado cronista, permito-me trazer mais algumas achegas para a história da velha Casa de espectáculos, única durante perto de 40 anos na então vila da Póvoa de Varzim. Durante vários anos fiz parte da familia que proporcionava ao póveiros um domingo de diversão, pois, pelo menos a partir de 1934, era eu, sobrinho do Zé Costa, então o empresário que o explorava o Garrett, que projectava, como projeccionista todos os filmes que nela eram exibidos, isto até por volta dos princípios dos anos de quarenta do século passado. Os filmes de aventuras no Far West , com Buk Jones, Tom Mix, Tim Mac Coy, Pamplinas, Harold Lolyd e outros artistas de comédia, drama e aventuras, enchiam a velha Casa, um barracão melhor dito, friorento no Inverno dadas as suas más instalações, onde o vento se fazia sentir penetrando por entre as frinchas das chapas de zinco ondulado, que forravam o exterior do edificio e palco. A disposição dos lugares feita pelo estimado colaborador JOTEME, estão quase certas, só diferindo no facto do galinheiro estar repartido por quatro espaços, dois em cada face, isto é de cada lado da porta principal e outros dois junto às portas laterais, lugares dispostos em escada, com uma grade a delimitar os bancos do superior. Foi de facto uma Casa de espectáculos sem condições mínimas para, confortavelmente se assistir a uma boa comédia, drama ou coboyada, mas como não havia melhor, era de suportar. Lembro-me perfeitamente da disposição sala com a separação, na plateia, entre o superior de bancos corridos e as cadeiras, à frente, disposição mais para espectáculos teatrais do que para cinematográficos, as suas frizas, uma delas sempre ocupada pela familia Gomes ( ourivesaria ) e a sua camada de camarotes no piso superior. Recordo a sua decoração em pinturas azuladas em tela devidas ao mestre Lino da Costa Nilo, pai do saudoso Padre Américo Nilo, que havia mudado o seu apelido com o qual não simpatizava de Fajardo, invertendo as sílabas do seu nome Lino por Nilo, substituindo o Fajardo. Lembro, como se fosse hoje, o facto de incêndio na cabina de projecção, quando da exibição de um filme da então famosa parelha de cómicos do cinema mudo Pat e Patachon, rebentou a fita e o projeccionista, sempre de charuto ou cigarro ao canto da boca, chegou ao celulóide do filme e o inflamou. Foi esta a razão principal para que a exibição passasse a maquinaria mais moderna e finalmente fosse introduzido o cinema sonoro. A sonorização fazia-se por dois sistemas - uma o chamado Vitafone, através de discos, devidamente sincronizados com a imagem, ou ao actual sistema gravado na própria fita, junto picotado, e que o contraste de sombra e luz faz activar uma célula fotoeléctrica, que sua vez é transformada em som. Mas a primeira vez que se ensaiou dar uma realidade ao cinema, introduzindo-lhe sons que mais não era que barulhos, fez-se no Garrett, por volta dos finais da década de 20 do século passado. Tratava-se da apresentação de um filme - Asas - que relatava a odisseia dos combates com auxílio da aviação na guerra 14/18. Como sabemos nesses gloriosos tempos do cinema mudo, só usando artimanhas se podia criar a ilusão de um combate, com o picar dos aviões, o rebentamento das bombas, o matraquear das metralhadores. Para obter esses efeitos recorreu-se à instalação no palco, por detrás do pano branco do ecran de uma verdadeira máquina de ilusões sonoras . O ruído dos aviões em voo picado era otbido pelo raspar de uma de um cilindro de madeira numa tela, cilindro movido por uma manivela a qual com um maior ou menor movimento, provocava o roncar do avião. Do barulho do rebentamento das bombas ficava encarregado o mestre do bombo e quanto a fuzilaria das metralhadoras e espingardas o caso era resolvido pelo bater com as baquetas na caixa. Foi um sucesso e até para instruir os soldados do quartel póveiro, foi apresentada uma sessão especial. Tenho na minha mente já cansada com o pesar dos dois carros de anos com que alombo, um recordação do primeiro filme sonoro que vi e que tinha por interprete o cómico Harold Lloyd e cuja titulo era " Harold , trepa, trepa" e um outro cujo título era 1981, no qual se apresentavam ficções que hoje em dia são realidades e que eu dizia com os meus botões " quem me dera chegar a esse ano par ver se alguma coisa virá a ser realidade" e o que é certo é que já estamos em 2002, e muito do que nesse recuado ano de 1930, veio a tornar-se realidade e eu ainda cá estou para o confirmar. Mas voltando ao velho Garrett. A sua primeira transformação teve lugar no ano de 1938. Nesse ano a Família Evaristo, resolveu transformar a pequena jóia que era o Café Chinês numa sala de cinema e que todos nós conhecemos - O Póvoa Cine. O propriétario do Garrett, Neca David ( Amorim Alves ) e o arrendatário ou empresário Zé Costa, não podiam perder ingloriamente a sua sala. Logo no principio do ano, lançaram mãos à obra e trataram de remodelar a sala, apenas a sala deixando para mais tarde o palco. Foi nessa altura que as placas que assinalavam a passagem de artistas teatrais pela Póvoa onde se apresentaram em bons espectáculos. Uma delas - creio que eram duas - tendo uma gravada a letras de ouro, a assinatura em fac- simile de Amélia Rey Colaço e a outra em homenagem a Alves da Cunha e talvez Maria Matos ou Palmira Bastos . Desta última não tenho a certeza . Ni final do ano o empresário José Costa cedeu a exploração à novel empresa do Póvoa Cine, que a manteve durante vários anos até que o distribuidor lisboeta Fernando Santos, da Sonoro Filme tomou a exploração e parece-me com a obrigação de fazer um novo palco. Mais tarde entrou em descalabro e chegou quase a uma ruina da qual parece que vai ser salvo pelos serviços Culturais das Camara póveira o que é de louvar. Chegados a este ponto vamos voltar ao velhos tempos, Não tinha o Teatro Garrett, bar para nos intervalos das sessões satisfazer a clientela. Valia nessa altura o estabelecimento do Branco que ficava mesmo de frente para a entrada do Teatro, no chamado ferro de engomar. Nesse tempo uma entrada para assistir ao cinema custava qualquer coisa como quinze tostões. Ora um dia resolveu um rapaz, julgo de seu nome Crespo ( que será feito dele ? sei que foi para o Brasil e nunca mais soube dele ), com geito para o desenho, resolveu de acordo com outros juntar uns tostões que dessem para comprar um ingresso. Isto era para saber a cor do papel, e depois copiar, e usando um máquina de costura fazer o picotado, o que dava a ilusão de autenticidade. A quantidade era a certa para cobrir o avanço dos quinze tostões. Mas a melhor dele foi num dia de aperto ter copiado uma nota de vinte paus, mas só numa das faces. Dobrou-a muito bem e no intervalo do espectáculo, foi ao estabelecimento do Branco e lá a trocou por uma beberragem. Com a pressa de servir os clientes, o comerciante do Ferro de Engomar nem deu pela falcatrua. Outras e muitas mais recordações tenho do velhinho Garrett, o que daria para muitas crónicas mas o cansaço ( o peso dos oitenta e um ) não permitem muitas divagações, e tenho pena, mas enfim há que nos conformar. Braga, 6 de Dezembro de 2002 Luis Costa Amigo Manuel Estive para fora uns dias e só agora Recebi a sua carta convite. Não sei se irá a tempo. Desculpe. L. C.
publicado por Varziano às 14:16

FRONTEIRAS ABERTAS É de todos conhecida a vantagem que resultou da abertura das fronteiras ao transito de pessoas e mercadorias. Todos, quase em uníssono, aplaudiram esta medida resultado dos acordos estabelecidos com a CEE. De facto, hoje em dia qualquer um pode passar livremente as fronteiras sem o incómodo de ter de apresentar o passaporte, sem ter de esperar que lhe revistem as malas, passando por todos os países dessa convenção com a maior facilidade e agora com o Euro, nem sequer tem a preocupação de trocar a moeda ao cambio, o que por vezes se tornava numa verdadeira dor de cabeça. Podemos concordar que foi uma vantagem extraordinária que os Europeus da zona da CEE, conquistaram. Mas contudo, não há bela sem senão. Se de facto temos agora em mão todas essas facilidades, hemos de concordar que " nem tudo são rosas ". Sem controlo, qualquer um pode alojar-se num País, seja criminoso ou pessoa de bem, seja viciado da droga ou traficante. É certo que há medidas tomadas para evitar ao máximo todos os inconvenientes. Mas isto é problema de autoridades e quem sou eu para o poder discutir. Este intróito serve apenas para revelar como as autoridades bracarenses do século XVIII reagiram à entrada de determinado produto de origem estrangeira no nosso mercado. Hoje, com a proliferação de super mercados, lojas de " centios ", de comida enlatada e embalada no estrangeiro, com bebidas que de nacional ás vezes nem o nome tem, com vestuário de marca não nacional, com imensos produtos a invadirem os nossos mercados, com prejuízo para as nossas produções, muitas das quais sujeitas a quotas de produção que não podem ser excedidas para que os excedentes estrangeiros possam ter lugar no nosso mercado, como o caso do leite ( que é vendido com marca francesa ), as frutas que por terem excedido o que nos impuseram, é enterrada, mantendo assim os preços elevados que não chegam a muitas bolsas - fruta tão necessária a uma boa alimentação. E quando uma grande parte da população mundial, se não a maior, e até a portuguesa - vejamos a miséria que paira nos bairros de lata - está a morrer à míngua de alimentos, nós não podermos produzir aquilo que o nosso solo, a nossa mão de obra pode fornecer, é um autêntico atentado à humanidade. Isto revolta-nos e não podemos conceber tal estado de coisas. Mas voltamos a repetir "quem sou eu para remediar tão grande mal ". Mas voltando à razão do escrito de hoje, que até certo ponto servirá para homenagear o Centenário de " O COMÉRCIO DA PÓVOA DE VARZIM ", sempre acérrimo defensor dos desprotegidos, da causa Republicana e do bom nome da Póvinha do Mar, vamos, baseando-nos no que está transcrito num Livro de Actas da Camara de Braga, dar a conhecer como o Senado bracarense reagiu à entrada na sua Alfândega - nome então dado à Casa onde se pagava o tributo das vendas na cidade e se conferiam as medidas e pesos - daquilo que já foi o presigo dos pobres . Primeiro vejamos a reclamação das gentes da Vila de Prado, apresentada ao Senado de Braga. Diziam eles que devido aos constante transito de carros vindos da Galiza, com peixe, o piso da Ponte e as suas guardas estavam sempre em péssimo estado, e que portanto pediam providências à Camara de Prado, ao Abade do Convento e Couto de Tibães, e ao senado da Camara de Braga, responsáveis pela boa conservação da Ponte, o seu arranjo urgente. Valha a verdade que não eram só os carros galegos os culpados . Por ali também passavam numerosos carros com material cerâmico - telha e tijolo. O porto de pesca da Galiza, Vigo, estava a lançar em cheio, a " lavoura do mar ", por todo o Norte de Espanha e Portugal. É certo que para o nosso País foi necessário um privilégio de isenção passado por Sua Magestade o Rei Dom José - livro de Vereações da 1774 - 1782, 5/ 9/ 1781, fol173 v- para poder ser posto à venda determinado produto do mar. No entanto, na sessão do Senado da Camara desse dia, tinham o vereadores acordado que todos os galegos que na Alfândega ( de Braga, na Arcada ), vendiam sardinha da Galiza, para poderem gozar do Privilégio Real, tinham que apresentar na Camara ou se a não houvesse ao vereador mais velho, a partir do dia 27 desse mês por diante, guias passadas pelo Juiz de Fora de Valença, pelas quais se provava que haviam entrado no reino, proveniente de fora do Reino. Mas agora aqui principia a concorrência entre o peixe proveniente dos nossos portos e o proveniente do reino vizinho. Para remediar êsse mal, que atingia principalmente a pescaria da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, e outros portos do País, onde a sardinha era " fabricada e salgada ", o Senado de Camara de Braga, na sua sessão de 25 de Novembro de 1788 anos, fol. 103, determinou que dado que os negociantes galegos, para impor o seu produto, estavam a fornecer por cada vintém meia dúzia de sardinhas, o que era manifestamente contrário ao preço dos negociantes portugueses, que estavam a vender, para não terem prejuízo, por um preço mais elevado, determinou, como se diz acima, que a Sardinha Galega, teria que ser dada ao público por um preço superior, isto é dando mais espécies por vintém que seriam, neste caso, 10 sardinhas, acompanhando assim o preço do peixe dos portos portugueses. E assim a " guerra da sardinha " teve o seu desfecho graças à postura da Camara de Braga. Hoje isto não é possível, e os tratados impõem quotas e o mercado português está a ser invadido por produtos estrangeiros com o consequente prejuízo para a produção nacional, que não pode concorrer com aquilo que os países ditos ricos e com mais poder económico nos impõe. É uma nova guerra dos Super e Hipermercados, lojinhas estrangeiras que estão a transformar e a asfixiar o comércio nacional. Braga, Junho de 2002 LUIS COSTA
publicado por Varziano às 11:58

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Ago 08
PARA A HISTÓRIA DO VELHO TEATRO GARRETT - 3 – Dissemos no anterior escrito que para a modernização da projecção filmes no Garrett, contribuiu em muito, o facto de ter ardido o filme de Pat e Patachon. De facto após este incêndio, logo principiou a pensar o empresário, o meu tio Zé Costa, em adaptar o Garrett à nova corrente do cinema sonoro, ainda com Vitaphone, mas também já com o novo invento da célula foto eléctrica, sistema que apareceu para ficar e como tal ainda hoje é o usado, muito embora, mais aperfeiçoado e simplificado, A primeira célula era um cilindro do tamanho aproximado das latas de cerveja e, agora, a célula é mais pequena do que uma unha do dedo mendinho. Um ano ou depois da incidente do filme cómico que ardeu, foi resolvido fazer uma nova cabine de projecção, utilizando um espaço, separado da sala de espectáculos pela parede que há entre o salão, que foi sede da Assembleia, Sala de Jogo ( dependente do Casino, instalado no Café Chinês ) e ultimamente sede do Desportivo. A máquina de projecção era então o ultimo grito da indústria alemã, uma Bauer. O primeiro filme, com esta nova maquinaria apresentado, se bem me lembro, foi uma comédia de Harold Loydd, intitulado “Harold, trepa, trepa” e logo a seguir um outro que também me ficou na memória, porque previa acontecimentos e coisas que se vieram a concretizar e eu, na altura dizia para mim: “ quem me dera chegar lá para ver se as previsões irão acontecer ! O argumento andava à volta de um individuo que em 1930, tinha sido fulminado por um raio e metido num congelador e era, por artes da nova ciência, ressuscitado em 1981, ano que dava nome ao filme. Nele eram apresentados, numa antecipação que se veio em parte a concretizar, aspectos do nosso dia a dia de hoje, como a paragem em pleno ar de uma máquina parecida com o avião, a transmissão à distância de imagens, as refeições e bebidas condensadas, as ruas iluminadas, não por candeeiros, mas sim por tubos e raios. Mal sabia eu que parte destas novidades ainda seriam concretizadas nos meus tempos. Também nunca julguei chegar à idade que tenho para ver os helicópteros, a televisão, a comida condensada, o neón e os raios lazer iluminando os espaços e outras novidades da ciência de hoje. Única coisa que não conseguiram e se a vierem a conseguir, mas já não será para os meus tempos, é ressuscitar um morto ! Aí por volta de 1934, uma novidade veio dar mais interesse ao espectáculo cinematográfico, foi o surgimento do filme colorido. O primeiro filme a cores projectado na tela do Garrett, foi, se não estou em erro, “O Jardim de Allá”, com Charles Boyer. Era ainda um principio, depois muito melhorado pelos americanos com o Tecnicolor e pelos alemães com o Agfacolor. Perguntarão como é que ele sabe disso ? E eu respondo. Nesses gloriosos anos do cinema principiei eu, juntamente com os meus primos José e Américo a encarregarmo-nos do cinema. Como eu e o Américo ainda éramos muito novos e como tinha de haver um chefe de cabine encartado o único que reunia as condições era o José, o que deu em resultado ( não conheci outro ), que um médico radiologista Dr. José Alfredo Campos Costa, pudesse aumentar ao seu curriculum, o de primeiro projeccionista de cinema, carteira de que tinha muito orgulho, como há anos. aquando da visita de Ramalho Eanes à Póvoa, ele a exibisse ao nosso muito amigo e recordado Agonia Frasco, nas então instalações no porto de mar, do Clube Naval. Na projecção estava eu, auxiliando pelo ajudante Ismael, que mais tarde foi motorista do bombeiros e na regulação sonora, na sala, cabia a vez ao Américo. Assim estivemos até que em 1938, a família Evaristo, à frente da qual e como principal impulsionadora estava a Dona Clara, mãe dos meus muito amigos Carlos e Óscar Batista, resolveu transformar o velhinho e saudoso Café Chinês, numa moderna casa de espectáculos que todos conhecemos e que agora julgo que transformado num Super Mercado. Foi o Póvoa Cine. Os proprietários e a empresa do Garrett, que não contando com concorrência, continuavam a fazer a exploração no velho teatro do século XIX. Mas agora seria diferente e só o remédio da transformação das instalações dando comodidade aos espectadores seria medida a tomar. Assim o velho teatro foi modernizado. Das instalações antigas nada ficaria, excepto o palco, porque até ao verão de 1939, não haveria tempo, ficando este para mais tarde. Iniciadas as obras no final da época de 38, a toda a força se trabalhou. O projecto foi confiado ao arquitecto que desenhou o Palácio Hotel e as obras lá foram correndo apressadamente, para que em Agosto se pudesse apresentar uma nova sala. Estavam as obras muito adiantadas, pensando-se que por certo a sala abrira ainda mais cedo do que em Agosto. Chegou o dia do corpo de Deus, dia Santo, e no principio da tarde desse dia ao passar pelas obras notei que na abóbada da sala havia uma rachadela. Chamei à atenção do facto e o encarregado da obra que me respondeu ser a massa a secar. Saí da sala e um pouco depois, toda a abobada ruiu e como consequência todo o esforço até aí feito foi inglório. A obra por um erro grosseiro de cálculo do peso da abóbada iria atrasar a abertura da sala. No entanto graças a um enorme esforço no dia 1 de Agosto estava tudo pronto e o público pode afluir ao espectáculo da estreia da nova sala. Já quase no final de 1939, a empresa do teatro e o proprietário do edifício acabaram de formar um acordo com a empresa do Póvoa Cine que passou a explorar, sem concorrência o Teatro Garrett, exploração que durou alguns anos até que foi rescindido o contrato. Mas voltando uns anos atrás. Os cineastas não estavam contentes só o com o cinema sonoro e as cores, queriam mais e pensaram em, para dar mais realidade, acrescentar também o cheiro. De facto quando a cena se passasse num lugar perfumado, num campo florido, num pinheiral, a coisa corria bem, mas logo surgiu um problema : o público aguentaria o cheiro de um curral ou cavalariça ? Como tal esta novidade nem chegou a experimentar-se. Mais ou menos pelo final do ano de 39, quando a Empresa José Costa, deixou o Garrett, também deixei de dar o meu contributo ao Garrett, A vida militar e a mobilização ocuparam o meu tempo e, é praticamente aqui que terminam as minhas memórias do velho Teatro Garrett, enquanto por lá vivi. Sei que mais tarde, já estava em Braga, talvez nos finais da década de 40, o Póvoa Cine, rescindiu também o contracto e depois em Braga, nos escritórios do Teatro Circo, parece-me que se assentou um plano para a exploração do Garrett, ser feita pela Sonoro Filme, com a obrigação de construir um novo palco. Também na ocasião se falou que passaria a ser representante daquela distribuidora o Dr. Zé Sá. Não sei se a ideia foi ávante. E agora, sim, acabo as MEMÓRIAS DO TEMPO QUE PASSOU, e passei no velho Garrett. Braga, 29 Junho de 2005 LUIS COSTA
publicado por Varziano às 18:25

NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE UM HOMEM DE RESPEITO Há cem anos viu a luz do dia um homem de respeito, um homem bom, da Póvoa do Mar. Paladino da sua terra, sempre por ela pugnou, contra ventos e marés, não se cansando de levar a nome da sua terra até aos quatro do cantos mundo onde sempre chegava a sua mensagem de amor à terra que o viu nascer. Refiro-me como é óbvio aquele que durante várias décadas esteve à frente de jornal semanário COMÉRCIO DA PÓVOA DE VARZIM, cujo centenário se comemora também neste ano da graça de 2001, Manuel Agonia Frasco. Talvez caiba aqui dizer como começou a minha colaboração neste semanário que leva notícias da Póvinha do Mar, até aqueles que, por várias razões, estão longe da terra onde foram nados ou nela se radicaram por longos anos e a passaram a amar, como se póveiros fossem. Estavamos, possivelmente, no finais da década de quarenta do século passado, quando com a minha saudosa filha, que Deus haja, Conchita Costa, principiamos, os dois, a alinhavar uns escritos que relatavam factos, ocorrências da vida da Póvoa e das suas gentes e costumes. Apenas, a princípio, pensávamos em arquivar essas recordações sem nunca pensar em as dar à estampa. Aqui, agora é que entra, como motor de arranque, o nosso homenageado de hoje - Agonia Frasco. Não posso precisar como é que ele teve conhecimento dessas notas que, em horas de ócio, nos entretíamos, eu a recordar e ela, minha filha, a alinhavar. O que é certo é que tendo, por linhas travessas, elas chegado à redacção de "O Comércio", logo o director as aproveitou e as transportou para linhas de forma. Se não fora o entusiasmo, do velho amigo Agonia, nunca, certamente essas viriam a luz do dia. Com o entusiasmo que lhe era peculiar, incentivou-nos a continuar e de então para cá, a princípio em parceria com a Conchita, e mais tarde quando, por motivos profissionais teve de se deslocar para Lisboa, passei a inteiramente a assinar os escritos que com alguma regularidade enviava. Mas passemos adiante e vamos recordar algumas coisas relacionadas com o velho "Comércio". Recordo que conheci este velho semanário, ainda com oficinas na rua Cidade do Porto, no gaveto desta rua com a Praça da Republica, ou se melhor quiserem, com o Largo de São Roque, onde, creio, que Manuel Agonia, tinha um estabelecimento onde, por vezes, se reuniam velhos e novos republicanos e onde ainda na citada rua, estava a oficina de impressão e redacção. Recordo que ao passar por êste local, ouvia sempre o matraquear de uma máquina impressora, talvez uma "Marinoni" que era movida, braçalmente, pela Reigoiça, uma pescadeira que tinha um genro que era tipógrafo dessa oficina. Foram tempos difíceis para o jornal e para o seu Director, sempre sujeitos ao lápis azul da censura. Quantas vezes, com o jornal pronto a saír, todo ele tinha de ser recomposto porque um ou outro pequeno pormenor tinha sido eliminado pela Censura. Certa vez, por alturas de eleições livres, como a todos os ventos anunciavam, mas que de concreto não eram realizáveis, resolvi a medo, escrever um artiguelho, parodiando uma sessão política do século dezanove, mas que era perfeitamente aceitável para a ocasião. Desconfiando que jámais fosse possível tal artiguelho passar pelas malhas políticas, enviei-o ao amigo Agonia, para dar a sua opinião. Com espanto vi que a paródia tinha ultrapassado o muro da vergonha da Censura e a sua publicação tinha sido efectivada. Isto foi uma manobra arriscada de Agonia que, quando podia sempre aproveitava ao máximo uma crítica sadia. Os fininhos e sábios censores não atingiram a critica e a coisa passou para gáudio de todos nós. Por hoje não me alongo mais. É esta a forma que eu tenho de homenagear e lembrar o centenário um póveiro excepcional, lembrando ainda, se não o foi, deve a Comissão de Toponímia Póveira, colocar o seu nome numa rua nobre da Póvoa, como nobre sempre foi o seu caracter. Termino como comecei esta pequena homenagem : HÁ CEM ANOS VIU A LUZ DO DIA UM HOMEM DE RESPEITO, UM HOMEM BOM, DA PÓVOA DO MAR. Braga, Outubro de 2001 LUIS COSTA luis.dias.costa@clix.pt
publicado por Varziano às 18:17

PARA A HISTÓRIA DO VELHO TEATRO GARRETT MEMÓRIAS DO TEMPO QUE PASSOU - 2 – Como as demais casas a princípio destinados aos espectáculos de teatro, variedades, dança e outros em que a representação era ao vivo, o velho Garrett, quando surgiu a novidade lançada pelos irmãos Lumiére, foi também adaptado à nova era de espectáculos – O CINEMA . Logo que a novidade se apresentou nos princípios de 1890 , em Paris, o concessionário ou os proprietários resolveram, por certo, apetrechar-se com a máquina de projecção de fitas, provavelmente uma “Pathé Baby”, então accionada à mão, ou uma máquina rudimentar que o primeiro cineasta português, Paz dos Reis, conseguiu, aproveitando ensinamentos de Lumiére, trazer para Portugal, ou até mesmo produzir a de filmar e a de projectar. Como fotógrafo que era, facilmente e depressa descobriu o movimento das fotografias, dando a impressão da realidade e os segredos da máquina como o rodar da cruz de malta, carreto com dentes e que saltava de quatro em quatro perfurações da película ( quadros ), sistema que é ainda o de hoje. No entanto, devido ao registo de patentes, a máquina e o sistema de Paz dos Reis, foi chamado KINEMATOGRAPHO. Julgo que a primeira casa poveira de espectáculos cinematográficos foi o já falado anteriormente Salão Teatro e isto por que a minha tia falava--me, há muitos anos, que ali se viam “dramalhões” de fazer chorar o coração mais empedernido. Os primeiros e rudimentares filmes vistos em Portugal, foram apresentados no Porto, no Teatro Príncipe Real, e eram pequenas produções de Paz dos Reis, hoje dir-se-iam documentários, que a objectiva da sua máquina fixou e que demonstravam, como dizia então um cartaz anúncio, “projecções luminosas em tamanho natural, surpreendente colecção de quadros reproduzindo scenas e epizódios da vida portuguesa…” Ora deve ter sido apresentada ao público poveiro esta pequena série da maravilha do século XIX, já que um dos quadros representava a tragédia do Veronese, vapor que encalhara no rochedos de Leixões, que fincou vincada na tradição dos heróis poveiros, que no salvamento dos ocupantes daquele barco tomaram parte. Eram filmes mudos e para a compreensão dos assuntos, volta que volta, apareciam um quadros negros com a explicação. Decorreram vários anos, e o cinema foi-se impondo, apaixonando um público cada vez mais interessado. Os assuntos que passavam no pano branco eram dos mais diversicados, desde as aventuras dos cow boys até ao lânguidos amores de um Rudolfo Valentino e aos hoje chamados “pastelões bíblicos”, realizações do famoso Cecil B. de Mille, realizador do filme de grande êxito “O Rei dos Reis”, e ainda o espectacular “Ben-Hur”, produzido pela Metro e cujo actor principal era Ramon Novarro, que apaixonou as primeiras gerações cinéfilas . Mas o público exigia mais realidade. Lembro-me que já há vários anos do surgimento do sonoro o meu tio Zé Costa, então já concessionário da exploração do Garrett, lembrou-se de que ao primeiro de aviação, inspirado na Guerra de 14/18, “Asas”, lhe acrescentar efeitos extras. Assim, no palco e por detrás da tela, contratou uma bateria de som. Quando o avião largava a bomba, o bombo da orquestra lá produzia o som do rebentamento. Um cilindro ripado, movimentado à mão, produzia o som do “picanço” do avião, as ripas ao rasparem sobre um pedaço de pano forte, dava a sensação do barulho assobiado que avião produzia. Um caixa, rufando na pele esticado do tambor, imitava o matraquear das metralhadoras e para a ilusão ser mais completa dois fios eléctricos – um positivo e outro negativo - provocavam o clarão das explosões. Foi um sucesso tal, que no dia seguinte teve de haver uma nova sessão e dedicada à força militar estacionada na Póvoa. Os filmes passaram a ser mais longos e assim debatiam assuntos, uns baseados na literatura romanesca, outros na de aventuras. Como hoje, também havia os artistas cómicos com o famoso Charlot, que só muito mais tarde se adaptou à sonorização. Desse tempo lembro-me de uma parelha que fez rir muitas gerações – Pat e Patachon. Ora foi um filme desta parelha de cómicos, que tiveram em Bucha Estica – Stan Laurel e Oliver Hardy – os seus sucessores que, indirectamente, deu origem à modernização da apresentação dos filmes, agora sonoro na Póvoa. Numa tarde de domingo, estava a ser apresentada uma fita da então parelha Pat e Patachon. O material onde estavam gravadas as cenas do filme era muito inflamável – celulóide – e muito sensível a “rebentar”. Disseram na altura que o projeccionista Calheiros, nunca por nunca, abandonava o charuto e como tinha rebentado o filme, ao colocá-lo de novo nos carretos da máquina, descuidou-se e chegou a brasa do charuto ao celulóide e em resultado ardeu todo o filme que estava na bobine e, até certo ponto, deu cabo da aparelhagem. Necessário foi o de remediar da melhor maneira o sucedido. Passado algum tempo, com o advento do Cinema Sonoro, pensou-se em modernizar o sistema, adaptando o novo invento. Em 1928, os americanos produziram o primeiro filme sonorizado – o Cantor Louco, com Al Jonson . Não era um sistema muito funcional, pois o sistema - Vitaphone - era de disco à parte e teria que haver uma sincronização entre a voz e as cenas, resolvido em principio com o inicio automático. Mas tinha o grande inconveniente dos tamanhos. Enquanto que o disco era sempre certo, o filme estava sujeito a alguns quadros inutilizados. Quando a película rebentava, era preciso fazer a emenda, e sempre ficava com alguns centímetros a menos, logo não podia haver sincronização perfeita entre o som e a cena. Para remediar esse mal havia que medir os estragos e acrescentar com o mesma quantidade de quadros negros o que se tornava aborrecido para o espectador. Deve ter sido apresentado na Póvoa, pois Fernando Santos, mais tarde da Sonoro Filme, comprou os direitos para Portugal e andava correndo o País com a exibição do “Cantor Louco”. Depressa o sistema Vitaphone desapareceu, substituído por uma nova técnica. É desse tempo que surgiu a canção que a princípio sendo contra o cinema sonoro, acabou, talvez, por ser o seu melhor reclamo. Recordar essa canção é para mim como de certo para muitos mais o reviver memórias do tempo que passou: “Teodoro, não vás ao sonoro ! Teodoro, em mim não tens fé ! Teodoro, não vás senão eu choro, Meu rico Teodoro leva-me antes ao café. E por agora ainda fica mais alguma coisa, pois o cinema evolui, e o Garrett também. Braga, 19 de Junho de 2005 LUIS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt.
publicado por Varziano às 17:48

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