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Ago 08
PARA A HISTÓRIA DO VELHO TEATRO GARRETT - 3 – Dissemos no anterior escrito que para a modernização da projecção filmes no Garrett, contribuiu em muito, o facto de ter ardido o filme de Pat e Patachon. De facto após este incêndio, logo principiou a pensar o empresário, o meu tio Zé Costa, em adaptar o Garrett à nova corrente do cinema sonoro, ainda com Vitaphone, mas também já com o novo invento da célula foto eléctrica, sistema que apareceu para ficar e como tal ainda hoje é o usado, muito embora, mais aperfeiçoado e simplificado, A primeira célula era um cilindro do tamanho aproximado das latas de cerveja e, agora, a célula é mais pequena do que uma unha do dedo mendinho. Um ano ou depois da incidente do filme cómico que ardeu, foi resolvido fazer uma nova cabine de projecção, utilizando um espaço, separado da sala de espectáculos pela parede que há entre o salão, que foi sede da Assembleia, Sala de Jogo ( dependente do Casino, instalado no Café Chinês ) e ultimamente sede do Desportivo. A máquina de projecção era então o ultimo grito da indústria alemã, uma Bauer. O primeiro filme, com esta nova maquinaria apresentado, se bem me lembro, foi uma comédia de Harold Loydd, intitulado “Harold, trepa, trepa” e logo a seguir um outro que também me ficou na memória, porque previa acontecimentos e coisas que se vieram a concretizar e eu, na altura dizia para mim: “ quem me dera chegar lá para ver se as previsões irão acontecer ! O argumento andava à volta de um individuo que em 1930, tinha sido fulminado por um raio e metido num congelador e era, por artes da nova ciência, ressuscitado em 1981, ano que dava nome ao filme. Nele eram apresentados, numa antecipação que se veio em parte a concretizar, aspectos do nosso dia a dia de hoje, como a paragem em pleno ar de uma máquina parecida com o avião, a transmissão à distância de imagens, as refeições e bebidas condensadas, as ruas iluminadas, não por candeeiros, mas sim por tubos e raios. Mal sabia eu que parte destas novidades ainda seriam concretizadas nos meus tempos. Também nunca julguei chegar à idade que tenho para ver os helicópteros, a televisão, a comida condensada, o neón e os raios lazer iluminando os espaços e outras novidades da ciência de hoje. Única coisa que não conseguiram e se a vierem a conseguir, mas já não será para os meus tempos, é ressuscitar um morto ! Aí por volta de 1934, uma novidade veio dar mais interesse ao espectáculo cinematográfico, foi o surgimento do filme colorido. O primeiro filme a cores projectado na tela do Garrett, foi, se não estou em erro, “O Jardim de Allá”, com Charles Boyer. Era ainda um principio, depois muito melhorado pelos americanos com o Tecnicolor e pelos alemães com o Agfacolor. Perguntarão como é que ele sabe disso ? E eu respondo. Nesses gloriosos anos do cinema principiei eu, juntamente com os meus primos José e Américo a encarregarmo-nos do cinema. Como eu e o Américo ainda éramos muito novos e como tinha de haver um chefe de cabine encartado o único que reunia as condições era o José, o que deu em resultado ( não conheci outro ), que um médico radiologista Dr. José Alfredo Campos Costa, pudesse aumentar ao seu curriculum, o de primeiro projeccionista de cinema, carteira de que tinha muito orgulho, como há anos. aquando da visita de Ramalho Eanes à Póvoa, ele a exibisse ao nosso muito amigo e recordado Agonia Frasco, nas então instalações no porto de mar, do Clube Naval. Na projecção estava eu, auxiliando pelo ajudante Ismael, que mais tarde foi motorista do bombeiros e na regulação sonora, na sala, cabia a vez ao Américo. Assim estivemos até que em 1938, a família Evaristo, à frente da qual e como principal impulsionadora estava a Dona Clara, mãe dos meus muito amigos Carlos e Óscar Batista, resolveu transformar o velhinho e saudoso Café Chinês, numa moderna casa de espectáculos que todos conhecemos e que agora julgo que transformado num Super Mercado. Foi o Póvoa Cine. Os proprietários e a empresa do Garrett, que não contando com concorrência, continuavam a fazer a exploração no velho teatro do século XIX. Mas agora seria diferente e só o remédio da transformação das instalações dando comodidade aos espectadores seria medida a tomar. Assim o velho teatro foi modernizado. Das instalações antigas nada ficaria, excepto o palco, porque até ao verão de 1939, não haveria tempo, ficando este para mais tarde. Iniciadas as obras no final da época de 38, a toda a força se trabalhou. O projecto foi confiado ao arquitecto que desenhou o Palácio Hotel e as obras lá foram correndo apressadamente, para que em Agosto se pudesse apresentar uma nova sala. Estavam as obras muito adiantadas, pensando-se que por certo a sala abrira ainda mais cedo do que em Agosto. Chegou o dia do corpo de Deus, dia Santo, e no principio da tarde desse dia ao passar pelas obras notei que na abóbada da sala havia uma rachadela. Chamei à atenção do facto e o encarregado da obra que me respondeu ser a massa a secar. Saí da sala e um pouco depois, toda a abobada ruiu e como consequência todo o esforço até aí feito foi inglório. A obra por um erro grosseiro de cálculo do peso da abóbada iria atrasar a abertura da sala. No entanto graças a um enorme esforço no dia 1 de Agosto estava tudo pronto e o público pode afluir ao espectáculo da estreia da nova sala. Já quase no final de 1939, a empresa do teatro e o proprietário do edifício acabaram de formar um acordo com a empresa do Póvoa Cine que passou a explorar, sem concorrência o Teatro Garrett, exploração que durou alguns anos até que foi rescindido o contrato. Mas voltando uns anos atrás. Os cineastas não estavam contentes só o com o cinema sonoro e as cores, queriam mais e pensaram em, para dar mais realidade, acrescentar também o cheiro. De facto quando a cena se passasse num lugar perfumado, num campo florido, num pinheiral, a coisa corria bem, mas logo surgiu um problema : o público aguentaria o cheiro de um curral ou cavalariça ? Como tal esta novidade nem chegou a experimentar-se. Mais ou menos pelo final do ano de 39, quando a Empresa José Costa, deixou o Garrett, também deixei de dar o meu contributo ao Garrett, A vida militar e a mobilização ocuparam o meu tempo e, é praticamente aqui que terminam as minhas memórias do velho Teatro Garrett, enquanto por lá vivi. Sei que mais tarde, já estava em Braga, talvez nos finais da década de 40, o Póvoa Cine, rescindiu também o contracto e depois em Braga, nos escritórios do Teatro Circo, parece-me que se assentou um plano para a exploração do Garrett, ser feita pela Sonoro Filme, com a obrigação de construir um novo palco. Também na ocasião se falou que passaria a ser representante daquela distribuidora o Dr. Zé Sá. Não sei se a ideia foi ávante. E agora, sim, acabo as MEMÓRIAS DO TEMPO QUE PASSOU, e passei no velho Garrett. Braga, 29 Junho de 2005 LUIS COSTA
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NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE UM HOMEM DE RESPEITO Há cem anos viu a luz do dia um homem de respeito, um homem bom, da Póvoa do Mar. Paladino da sua terra, sempre por ela pugnou, contra ventos e marés, não se cansando de levar a nome da sua terra até aos quatro do cantos mundo onde sempre chegava a sua mensagem de amor à terra que o viu nascer. Refiro-me como é óbvio aquele que durante várias décadas esteve à frente de jornal semanário COMÉRCIO DA PÓVOA DE VARZIM, cujo centenário se comemora também neste ano da graça de 2001, Manuel Agonia Frasco. Talvez caiba aqui dizer como começou a minha colaboração neste semanário que leva notícias da Póvinha do Mar, até aqueles que, por várias razões, estão longe da terra onde foram nados ou nela se radicaram por longos anos e a passaram a amar, como se póveiros fossem. Estavamos, possivelmente, no finais da década de quarenta do século passado, quando com a minha saudosa filha, que Deus haja, Conchita Costa, principiamos, os dois, a alinhavar uns escritos que relatavam factos, ocorrências da vida da Póvoa e das suas gentes e costumes. Apenas, a princípio, pensávamos em arquivar essas recordações sem nunca pensar em as dar à estampa. Aqui, agora é que entra, como motor de arranque, o nosso homenageado de hoje - Agonia Frasco. Não posso precisar como é que ele teve conhecimento dessas notas que, em horas de ócio, nos entretíamos, eu a recordar e ela, minha filha, a alinhavar. O que é certo é que tendo, por linhas travessas, elas chegado à redacção de "O Comércio", logo o director as aproveitou e as transportou para linhas de forma. Se não fora o entusiasmo, do velho amigo Agonia, nunca, certamente essas viriam a luz do dia. Com o entusiasmo que lhe era peculiar, incentivou-nos a continuar e de então para cá, a princípio em parceria com a Conchita, e mais tarde quando, por motivos profissionais teve de se deslocar para Lisboa, passei a inteiramente a assinar os escritos que com alguma regularidade enviava. Mas passemos adiante e vamos recordar algumas coisas relacionadas com o velho "Comércio". Recordo que conheci este velho semanário, ainda com oficinas na rua Cidade do Porto, no gaveto desta rua com a Praça da Republica, ou se melhor quiserem, com o Largo de São Roque, onde, creio, que Manuel Agonia, tinha um estabelecimento onde, por vezes, se reuniam velhos e novos republicanos e onde ainda na citada rua, estava a oficina de impressão e redacção. Recordo que ao passar por êste local, ouvia sempre o matraquear de uma máquina impressora, talvez uma "Marinoni" que era movida, braçalmente, pela Reigoiça, uma pescadeira que tinha um genro que era tipógrafo dessa oficina. Foram tempos difíceis para o jornal e para o seu Director, sempre sujeitos ao lápis azul da censura. Quantas vezes, com o jornal pronto a saír, todo ele tinha de ser recomposto porque um ou outro pequeno pormenor tinha sido eliminado pela Censura. Certa vez, por alturas de eleições livres, como a todos os ventos anunciavam, mas que de concreto não eram realizáveis, resolvi a medo, escrever um artiguelho, parodiando uma sessão política do século dezanove, mas que era perfeitamente aceitável para a ocasião. Desconfiando que jámais fosse possível tal artiguelho passar pelas malhas políticas, enviei-o ao amigo Agonia, para dar a sua opinião. Com espanto vi que a paródia tinha ultrapassado o muro da vergonha da Censura e a sua publicação tinha sido efectivada. Isto foi uma manobra arriscada de Agonia que, quando podia sempre aproveitava ao máximo uma crítica sadia. Os fininhos e sábios censores não atingiram a critica e a coisa passou para gáudio de todos nós. Por hoje não me alongo mais. É esta a forma que eu tenho de homenagear e lembrar o centenário um póveiro excepcional, lembrando ainda, se não o foi, deve a Comissão de Toponímia Póveira, colocar o seu nome numa rua nobre da Póvoa, como nobre sempre foi o seu caracter. Termino como comecei esta pequena homenagem : HÁ CEM ANOS VIU A LUZ DO DIA UM HOMEM DE RESPEITO, UM HOMEM BOM, DA PÓVOA DO MAR. Braga, Outubro de 2001 LUIS COSTA luis.dias.costa@clix.pt
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PARA A HISTÓRIA DO VELHO TEATRO GARRETT MEMÓRIAS DO TEMPO QUE PASSOU - 2 – Como as demais casas a princípio destinados aos espectáculos de teatro, variedades, dança e outros em que a representação era ao vivo, o velho Garrett, quando surgiu a novidade lançada pelos irmãos Lumiére, foi também adaptado à nova era de espectáculos – O CINEMA . Logo que a novidade se apresentou nos princípios de 1890 , em Paris, o concessionário ou os proprietários resolveram, por certo, apetrechar-se com a máquina de projecção de fitas, provavelmente uma “Pathé Baby”, então accionada à mão, ou uma máquina rudimentar que o primeiro cineasta português, Paz dos Reis, conseguiu, aproveitando ensinamentos de Lumiére, trazer para Portugal, ou até mesmo produzir a de filmar e a de projectar. Como fotógrafo que era, facilmente e depressa descobriu o movimento das fotografias, dando a impressão da realidade e os segredos da máquina como o rodar da cruz de malta, carreto com dentes e que saltava de quatro em quatro perfurações da película ( quadros ), sistema que é ainda o de hoje. No entanto, devido ao registo de patentes, a máquina e o sistema de Paz dos Reis, foi chamado KINEMATOGRAPHO. Julgo que a primeira casa poveira de espectáculos cinematográficos foi o já falado anteriormente Salão Teatro e isto por que a minha tia falava--me, há muitos anos, que ali se viam “dramalhões” de fazer chorar o coração mais empedernido. Os primeiros e rudimentares filmes vistos em Portugal, foram apresentados no Porto, no Teatro Príncipe Real, e eram pequenas produções de Paz dos Reis, hoje dir-se-iam documentários, que a objectiva da sua máquina fixou e que demonstravam, como dizia então um cartaz anúncio, “projecções luminosas em tamanho natural, surpreendente colecção de quadros reproduzindo scenas e epizódios da vida portuguesa…” Ora deve ter sido apresentada ao público poveiro esta pequena série da maravilha do século XIX, já que um dos quadros representava a tragédia do Veronese, vapor que encalhara no rochedos de Leixões, que fincou vincada na tradição dos heróis poveiros, que no salvamento dos ocupantes daquele barco tomaram parte. Eram filmes mudos e para a compreensão dos assuntos, volta que volta, apareciam um quadros negros com a explicação. Decorreram vários anos, e o cinema foi-se impondo, apaixonando um público cada vez mais interessado. Os assuntos que passavam no pano branco eram dos mais diversicados, desde as aventuras dos cow boys até ao lânguidos amores de um Rudolfo Valentino e aos hoje chamados “pastelões bíblicos”, realizações do famoso Cecil B. de Mille, realizador do filme de grande êxito “O Rei dos Reis”, e ainda o espectacular “Ben-Hur”, produzido pela Metro e cujo actor principal era Ramon Novarro, que apaixonou as primeiras gerações cinéfilas . Mas o público exigia mais realidade. Lembro-me que já há vários anos do surgimento do sonoro o meu tio Zé Costa, então já concessionário da exploração do Garrett, lembrou-se de que ao primeiro de aviação, inspirado na Guerra de 14/18, “Asas”, lhe acrescentar efeitos extras. Assim, no palco e por detrás da tela, contratou uma bateria de som. Quando o avião largava a bomba, o bombo da orquestra lá produzia o som do rebentamento. Um cilindro ripado, movimentado à mão, produzia o som do “picanço” do avião, as ripas ao rasparem sobre um pedaço de pano forte, dava a sensação do barulho assobiado que avião produzia. Um caixa, rufando na pele esticado do tambor, imitava o matraquear das metralhadoras e para a ilusão ser mais completa dois fios eléctricos – um positivo e outro negativo - provocavam o clarão das explosões. Foi um sucesso tal, que no dia seguinte teve de haver uma nova sessão e dedicada à força militar estacionada na Póvoa. Os filmes passaram a ser mais longos e assim debatiam assuntos, uns baseados na literatura romanesca, outros na de aventuras. Como hoje, também havia os artistas cómicos com o famoso Charlot, que só muito mais tarde se adaptou à sonorização. Desse tempo lembro-me de uma parelha que fez rir muitas gerações – Pat e Patachon. Ora foi um filme desta parelha de cómicos, que tiveram em Bucha Estica – Stan Laurel e Oliver Hardy – os seus sucessores que, indirectamente, deu origem à modernização da apresentação dos filmes, agora sonoro na Póvoa. Numa tarde de domingo, estava a ser apresentada uma fita da então parelha Pat e Patachon. O material onde estavam gravadas as cenas do filme era muito inflamável – celulóide – e muito sensível a “rebentar”. Disseram na altura que o projeccionista Calheiros, nunca por nunca, abandonava o charuto e como tinha rebentado o filme, ao colocá-lo de novo nos carretos da máquina, descuidou-se e chegou a brasa do charuto ao celulóide e em resultado ardeu todo o filme que estava na bobine e, até certo ponto, deu cabo da aparelhagem. Necessário foi o de remediar da melhor maneira o sucedido. Passado algum tempo, com o advento do Cinema Sonoro, pensou-se em modernizar o sistema, adaptando o novo invento. Em 1928, os americanos produziram o primeiro filme sonorizado – o Cantor Louco, com Al Jonson . Não era um sistema muito funcional, pois o sistema - Vitaphone - era de disco à parte e teria que haver uma sincronização entre a voz e as cenas, resolvido em principio com o inicio automático. Mas tinha o grande inconveniente dos tamanhos. Enquanto que o disco era sempre certo, o filme estava sujeito a alguns quadros inutilizados. Quando a película rebentava, era preciso fazer a emenda, e sempre ficava com alguns centímetros a menos, logo não podia haver sincronização perfeita entre o som e a cena. Para remediar esse mal havia que medir os estragos e acrescentar com o mesma quantidade de quadros negros o que se tornava aborrecido para o espectador. Deve ter sido apresentado na Póvoa, pois Fernando Santos, mais tarde da Sonoro Filme, comprou os direitos para Portugal e andava correndo o País com a exibição do “Cantor Louco”. Depressa o sistema Vitaphone desapareceu, substituído por uma nova técnica. É desse tempo que surgiu a canção que a princípio sendo contra o cinema sonoro, acabou, talvez, por ser o seu melhor reclamo. Recordar essa canção é para mim como de certo para muitos mais o reviver memórias do tempo que passou: “Teodoro, não vás ao sonoro ! Teodoro, em mim não tens fé ! Teodoro, não vás senão eu choro, Meu rico Teodoro leva-me antes ao café. E por agora ainda fica mais alguma coisa, pois o cinema evolui, e o Garrett também. Braga, 19 de Junho de 2005 LUIS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt.
publicado por Varziano às 17:48

PARA A HISTÓRIA DO VELHO TEATRO GARRETT MEMÓRIAS DO TEMPO QUE PASSOU Quem se lembra do velho Teatro Garrett que durante várias décadas desde 1890 até 1938, foi senão a única pelo menos a principal casa de espectáculos poveira ? E ao dizermos senão a única, estamos a lembrar-nos de uma outra que existiu na rua Santos Minho, entre a casa do Dr. Abílio de Carvalho e o quartel dos Bombeiros Voluntários, e que segundo a minha já um pouco débil memória, tinha, parece-me, por nome SALÃO TEATRO. Nunca lá entrei. Lembro que, pelo menos na década de 20 do século passado serviu durante anos para alojamento nocturno dos recrutas da então Companhia de Administração Militar, sediada na rua Rocha Peixoto, no antigo colégio das Doroteias, que deve ter passado para a posse do Estado aquando em Abril de 1911, foram expulsas das suas instalações, pelo decreto da nacionalização dos bens da Igreja e bem assim passaram a não poderem leccionar casas que não fossem dirigidas e possuídas por nacionais. Voltando ao Salão Teatro, do seu inicio nada devia ter restado, pois, principiando por servir para reforço de instalações militares, abandonado mais tarde, passou a ser ocupado para outras actividades e até já, talvez, no último quartel do século vinte serviu, creio, para uma fábrica de camisas. Logo o Garrett foi durante muito tempo a única casa de espectáculos da Póvoa. Pertencendo à família do Dr. David Alves, o Teatro Garrett, foi inicialmente, como não podia deixar de ser, destinado a espectáculos teatrais, concertos de música, orfeão e variedades. A configuração da sala tinha, para o fim destinado, uma disposição muito diferente das salas de hoje. Assim os lugares mais próximos da boca de cena, isto é do palco, era o lugar, agora assim diz, da primeira plateia ( nos espectáculos teatrais são os melhores) e que ocupava metade da sala; a seguir, em bancos corridos e com costas, estava o chamado SUPERIOR, mais ou menos um lugar intermediário entre a GERAL ou galerias ; estas situavam-se ao fundo da sala ( dois espaços, um de cada lado da entrada principal ) e outros dois, um á esquerda e outro à direita, mas com entrada comum para cada um dos flancos. (Em aparte e porque vem a “talhe de foice”, dizia a pequena grande actriz Adelina Abranches, quando resolveram, nas salas modernas, afastar do palco a geral, colocando-a muito longe e nos lugares cimeiros da sala, o teatro e os artistas perderam na jogada, pois a alma dos espectáculos era o publico menos exigente,pois era ele que mais se aproximava dos elencos e mais vibrava com as representações) Quanto a lugares, podemos dizer familiares, havia uma ordem de camarotes que corria à volta de toda a sala, formando o único piso superior. Ao lado da primeira plateia, duas frisas chamadas de boca, por estarem colocadas junto “á boca de cena” e mais duas ou três a seguir. A decoração pintada de toda a sala, incluindo o pano de boca, com influência no azul de um neo-barroco, era devida ao artista poveiro Lino da Costa Nilo. ( 1 ) Por aquele velho palco, passaram os mais consagrados artistas do teatro nacional, como Chaby Pinheiro, Maria Matos, Auzenda de Oliveira, Santos Carvalho, Eduardo Brazão, Erico Braga, Silvestre Alecrim, a já citada pequena grande actriz Adelina Abranches, Palmira Bastos, Alves da Cunha, Vasco Santana, António Silva, Amélia Rey Colaço e outros e muito mais outros que, apesar do seu valor real. seria enfadonho citar. Perguntar-me-ão, porque que é que se juntaram tantos artistas nesta terra ? E a resposta é simples. Como sabemos na época de verão os frequentadores de espectáculos, nos principais centros do país diminuem. Uns vão para férias nas suas terras, outros procuram termas e praias, sempre assim foi e é. Ora a Póvoa no verão desde sempre foi um lugar escolhido, principalmente pelos minhotos e terras altas de Trás-os-Montes, logo um lugar onde as companhias teatrais se podiam ressarcir dos prejuízos que tinham de suportar nessa época. O remédio era lançar-se Pais fora em “tournée” e na Póvoa encontravam condições especiais. Tinham um teatro, e acomodações para fazerem desta terra de lazer, o seu quartel general de onde podiam irradiar, com a sua arte, por termas e outros locais de veraneio nortenhos. E assim a Póvoa passou a ser um lugar preferido e a empresa do Garrett aproveitava. Não podemos dizer que era uma excelente sala de espectáculos mas, para a época, era sofrível. O átrio de entrada era espaçoso, tinha aos lados um corredor onde os espectadores nos intervalos podiam no aquecer os pés, dando umas voltas, já que nessa estação do ano, o frio ali, numa casa onde as paredes laterais, a pedra era só no rés do chão e o piso superior era de madeira. Forrada exteriormente por chapa zincada, segundo me parece. Os sanitários estavam situados ao fundo do corredor direito onde também se entrava para o palco, onde a madeira imperava nos camarins, piso com os alçapões usados principalmente nos espectáculos de variedades e por onde desapareciam ou apareciam os comparsas, e lá no alto estava o sistema de subida e descida dos cenários, a teia. A protecção lateral de todo o palco, era madeira e zinco, como na em parte da sala. Aqui se representaram muitos do originais do Dr. Zé Sá, como julgo uma que deu brado, “Quentes e boas” e “Maria”, aquela cuja receita de bilheteira serviu para em benefício do Naval, ajudar na compra de dois escaleres e dois barquitos à vela que nós chamávamos andorinhas. Tanto nos escaleres como nas andorinhas, fartei-me de fazer parte da tripulação, Nas andorinhas, o meu companheiro era o falecido Zé Neves e nos escaleres, entre o Cândido Pinheiro, podíamos encontrar, entre os cinco elementos, o meu bom amigo Tone Dias ( o até à pouco falecido Padre Olimpo Dias, S.J.). O meu lugar era o de sota-proa. Mas é sobre o Garrett que estamos a falar e não a divagar sobre outros assuntos que nada tem a ver com a sala, apesar nas traseiras do palco ter apodrecido um escaler, o Tritão, propriedade, entre outros do meu primo Dr. José Campos Costa e do farmacêutico Dr. Fausto Cardoso, proprietário da Farmácia da Praia. Não sei como processava a iluminação do velho teatro mas sei bem que neste recinto encostado as traseiras do palco havia um barracão onde se encontrava em pleno funcionamento um gerador de energia eléctrica de corrente contínua, que funcionava a óleo ou petróleo e que, nos meus tempos de meninice, nos últimos anos de vinte do século passado e que alimentava já a máquina o arco voltaico. Para quem não saiba esclareço que no arco voltaico, a fonte luz para a projecção de filmes, só funciona com a fonte de energia contínua e de baixa intensidade, e não a que hoje temos em nossas casas que é alterna, normalmente de 220 volts. É natural quando a Póvoa passou a utilizar a energia alterna, toda a instalação eléctrica do velho teatro, tivesse sido adoptada à nove fonte. Mas quanto ao gerador instalado no barracão, por vezes ele fazia a sua partidinha e, embirrando não funcionava, o que dava dores de cabeça ao projeccionista Calheiros e ou a sessão principiava mais tarde ou até nem havia. Havia neste recinto, um portão de servidão do palco, por um corredor bastante largo, até à Avenida Mousinho. Confrontava com o lado nascente da Garagem Rios, servidão que também utilizava. Vem isto a propósito da lembrança do prezado colaborado do Comercio, senhor Manuel Figueiredo, pedindo uma servidão para a entrada do material cénico. Ora servidão existiu. O destino, se ela desapareceu, para mim é uma incógnita. E por hoje já chega de MEMÓRIAS DO TEMPO QUE PASSOU. Fica para a próxima, o resto que falta. ( 1 ) – Este artista era o pai do reverendo Américo Nilo. O seu nome era o de Lino da Costa Fajardo, mas como não gostava que lhe chamassem Fajardo, substituiu pelo anagrama Nilo. Braga, 2005-06-04 Luís Costa Email: luisdiasdacosta@clix.pt
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A CEIA DE NATAL ANTIGA CONSOADA PÓVEIRA Manhã cedinho a catraiada que nos dias anteriores não tinha arranjado o musgo para o presépio, avança, pressurosa pelo velhos caminhos, munido de uma faca para escarabichar os muros e extrair dele aquele elemento necessário para atapetar o chão onde figuras de cerâmica popular, iram recrear a Noite Santa. Na feira da Vila, já tinham, com a meia dúzia de patacos que tinham amealhado, comprado as figuras principais – a Nossa Senhora, o São José, o nuzinho Menino Jesus, o burrico e boizinho, os três Reis Magos com as suas oferendas – ouro, incenso e mirra, “ ofereciam-lhe ouro como a verdadeiro rei, porque este é o principal ornato de magestade real; ofereciam-lhe incenso como a Deus, porque este é próprio dos sacrifícios; ofereciam-lhe mirra como a verdadeiro homem mortal, porque com mirra se embalsamam os corpos” - três ou quatro pastores com os seus rebanhos de ovelhas e, não podendo esquecer, o facinoroso Rei Herodes. Para marcar o caminho, que desde o Oriente, orientados pela estrela, vinham a caminho, prestar homenagem ao Rei do Reis, servia a areia fina que tinham apanhado, na língua da maré, junto do paredão que anos antes o Rei Dom Luís tinha inaugurado. À tarde a azafama era grande. Enquanto os garotitos armavam a “cascata”, a mãe, atarefada, estava a preparar o cozido, o prato forte e único dessa noite maravilhosa, onde não faltaria o belo ruivo, a saborosa raia ou patelo, o congro, o cação e outras espécies que “ o Senhor dá do Mar” e que, no calor do estio, onde algumas, nos varais, quais bandeiras se balançam ao sabor da nortada, secam e se curam. O indispensável bacalhau, bem demolhado, seria talvez, um dos peixes mais apreciados. Da lareira saía, um fumo branco que se espalhava pelo cubículo, exalando um perfume a resina, para o qual contribuíam as pinhas a assar e a rama de pinheiro a arder. Nessa Santa Noite, o mar era um deserto. Nenhum pescador ia ao mar. Era a noite do Senhor, tudo ficava em terra – os barcos varados na areia, longe da maré alta, as redes no palheiro, a vela enrolada. O farol da Senhora da Lapa, lá continuava aceso, mas apenas um luzeiro a iluminar o terreiro, sem préstimo nessa noite para o enfiamento da barra – no mar só o bramir das ondas – e, neste caso, talvez, para indicar ao Menino Deus, uma crente colónia de bons cristãos. Chegada a noite, na cozinha, onde estava caldeira para cozer a casca de salgueiro e a masseira, onde depois do cozimento as redes seriam “encascadas”, isto é tingidas e para as tomarem mais resistentes ao salitre marítimo, compartimento de chão de terra batida, era lançado e espalhado numa grande roda, um colmo de palha trigueira, e sobre o qual era colocada uma toalha branca de linho, luxo que só em dias de grande festa, saía da arca. Do cimo, do balaio, pendurado no tecto da pequena e única sala, tomava-se o pão meado, ali posto no alto para evitar a “rataria”. À volta e sobre a toalha, estavam os aprestos para a ceia. Ao centro num grande alguidar, fumegante de vapor e cheirinho, o cozido à “poveira”, com todos os produtos necessários a satisfazer a gula dos presentes, com os tradicionais peixes, as batatas das “masseiras” de Aguçadoura, com sabor especial do adubo do mar – sargaço e pilado – e as tronchudas de Abremar, ricas do “mimo” que durante o ano lhe foi lançado, regadas com o molho fervido – azeite, vinagre, cebola estalada e colorau – que ensopavam o pitéu e as “sopas de por debaixo”, fatias de pão trigo colocadas no fundo do alguidar, que bem saborosas ficam com este molho. Sentados no chão, à roda, pai, mãe e filhos, depois de uma breve oração iniciam o repasto. Cada um tirava do grande cozido uma parte e entre acalorada conversa, o alguidar se ia esvaziando. Nem admira, por que depois do “desfastio”, pela manhã, era aquela primeira refeição. Ao meio dia, jejuava-se, nada se comia, para à noite “tirar a barriga de misérias”. Mas uma coisa era indispensável – não para abrir o apetite, pois não faltava, mas para acompanhar e para uma boa digestão – vinho verde, rascante, do de “pinta a maurga”, comprado no Zé da Mata ou no Melro (estas vendas são, talvez, mais recentes) que o tinham sempre do bom, dos lados de “São Trocato”, como no seu linguajar pronunciavam. Depois era a vez, do adoçar o “bico” - isto para não ficar com “boca de lacaio”. As castanhas assadas, para os de melhor dentadura, ou cozidas para aqueles a quem os dentes, já tinham “dado o que tinham a dar”, figos secos, nozes, e uma dose de aletria e rabanadas de água ou de vinho, que isso de outra mimos açucarados, não era para a pescaria. Água-pé era a companhia destes mimos, muitas das vezes trazidas pelas moçoilas, pescadeiras que no “corre, corre por estrada fora” levavam as saborosas sardinhas até, entre outros lugares, a Airó, já perto de Barcelos. No final da refeição natalícia, enquanto esperavam a hora da missa do Galo, os homens entretinham-se, entre uma “cachimbada” de tabaco holandês que queimava a garganta a narrar as suas aventuras no mar – o pescador poveiro só sabe do mar – mas como é crente sincero, vai narrando os perigos em que se viu e dos quais se livrou graças à intercessão da Senhora da Lapa, da Senhora da Assunção, da Senhora do Alívio, da Senhora das Dores, São José, de São Bento e muitos outros santos da sua devoção, ao mesmo tempo que acreditando também nas “Almas do outro mundo”, nos “Corredores”, nas “Moiras encantadas”, vão discutindo o que aconteceu com o seu amigo, que ficou embruxado por esses excomungados que “andam pelo mundo para perdição das almas”. As mulheres tem outras conversas, mais “terra a terra”, são os namoricos, as vestimentas que pensavam comprar, quando a safra for boa, isto é quando o generoso Senhor “der do mar”, conversas de entretenimento, para afastar o sono que teima em lhes fechar os olhos. A catraiada, essa para já não estava ensonada, ainda era cedo e o “ Zé pestana” só lhe deveria chegar lá pela missa do Galo, quando o senhor pároco principiasse com a homilia. Agora estava entusiasmada com os irmãos ao “Par e pernão”, jogo tradicional do Natal a pinhões com o Rapa – rapa, tira, põe ou deixa. Finalmente a torre da Lapa dava o sinal para a Missa. Os homens enfiando o Gabão e catalão na cabeça, não que a noites de Dezembro são frias, e a cozinha estava quentinha, as mulheres com a saia pela cabeça, os miúdos aos pinotes não há frio que lhes chegue, iam em direitura à igreja, e as mulheres dentro do templo “alampam-se” enquanto os homens assistiam de pé. Os miúdos enrolavam-se prevendo uma soneca. Enquanto decorria o Santo Sacrifício os devotos abriam os braços quando, com o maior respeito o decorrer do ofício isso impunha, ajoelhando-se também nas ocasiões oportunas e todos recebiam o “Pão do Senhor”, o Corpo de Cristo tendo antes rezado a oração “Senhor não sou digno que entreis na minha morada, mas dizei uma só palavra e eu serei salvo” No final toda a assistência ia até ao altar onde o reverendo dava a beijar, num cerimónia tradicional a pequena imagem do Menino Jesus, desnudada, que todos amorosamente beijavam e se benziam. Depois do dever cumprido, regressavam todos ao seu lar, bastante desconfortável, pois não tinha janelas e só duas portas, uma delas voltada para a rua, com um postigo, que abria em dias de muita chuva, para entrar um pouco de luz, já que nos dias soalheiros estava sempre aberta e a outra dava para o quintal, onde no chiqueiro, se a safra do ano tivesse sido boa, engordava um porquito e onde também se arrecadavam entre umas galegas que serviriam para o “caurdo” com feijões, alguns apetrechos da sua arte do mar a única que o poveiro conhece. Nas duas camaretas, estilo usado nos barcos mercantes, aninhavam-se para dormir o “sono dos justos”, enquanto que os catraios dormiam a seu lado. E assim terminava, há mais de século e meio, a noite de Natal do Pescador poveiro. Braga, l de Dezembro de 2005 Obs. A Ceia antiga poveira, foi-me relatada há muitos anos pela minha vizinha Emilinha Serradeira e sua filha Felicidade Trocado, que a reconstituíram na cozinha da sua casa da rua de Santos Minho e que, até certo ponto também participei, pelo menos no final.
publicado por Varziano às 17:37

O B O I B E N T O Várias vezes tenho encontrado referências, tanto na revista cultural “Bracara Augusta” ( 1 ), como nos estatutos de velhas confrarias, que nas muitas procissões que em séculos passados eram obrigação da Câmara efectuar à sua custa, sempre à frente do cortejo religioso, seguia um boi, chamado então de “Boi Bento”. Entre essas muitas estavam por exemplo a de Santa Isabel, a de São João Baptista, a de São Pedro e, com especial atenção a de “Corpus-Christi”. Tentando achar uma explicação para essa tradição, por mais que rebuscasse, jamais fui capaz de satisfazer a minha curiosidade. Nunca encontrei também alguém que fosse capaz de me elucidar. Assim vemos que o motivo do meu interesse é manifestado pela consulta no Boletim Cultural que, quanto à procissão de S. Pedro Mártir, ordenou a Câmara ( 1569 ), entre outras disposições que : “ it 10, acordaram mais que haja um touro grande e formoso para ir na procissão do dito dia pelas cordas e o levarão os carniceiros de gado miúdo”, bem como o mesmo se vê em 1572 e referido no it. também 10. E quanto à incorporação do boi bento na procissão do Corpo de Deus, a primeira referência que encontrei no referido boletim data do tempo do Arcebispo Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, em que no dia de “terça-feira, seis de Maio de sessenta e um (1561) foram juntos em Câmara os senhores Henrique Sobrinho Juiz e o doutor Manuel Aranha, João Teixeira, vereadores, João de Reudoma Procurador do concelho e o doutor Pedro Alvares Juiz o qual não foi ao cabido” tendo nessa reunião ficado deliberado a ordem procissão: “(…it.47 – o boi das cordas que há-de ir na procissão do dia levaram os moços (?) muito a recado a ver que se não desmanchem nem façam desarranjo… )” , e já na data ( 1575 ), pelo it. 47 ficamos a saber que: “o boi das cordas que há-de ir na procissão do dia diante levarão os de Nogueira muito aferrado (agarrado ?) que se não desmanche nem faça desarranjo na procissão e virá a dita freguesia pela manhã muito cedo com o Jurado para lhe entregarem e o Jurado notificará a dita freguesia e dará a fé da notificação e o Procurador do Concelho lhes dará para beberem 50 reis.” Mas andemos mais cerca de 150 anos, tempos do arcebispo Moura Telles, e vamos encontrar, segundo Albano Belino, (2) o mesmo costume : “A procissão levava na frente o “boi bento” com as pontas enfeitadas de fitas multicores e grandes folhos ao pescoço. Este boi era oferecido pelos marchantes e conduzido por um lavrador de Nogueira”. E o mistério, para mim, do costume da incorporação do bovídeo na procissão, continuava aumentando a curiosidade até que, ao ler, numa colecção de “Mitos e Lendas da Galiza”, publicado em 1993, pelo jornal diário espanhol “Faro de Vigo”me surgiu uma pequena luz que, talvez, me venha dar resposta, à tradição que me intrigava e que durante muitos anos se manteve nas procissões. È sabido que os mouros que em 711, atravessaram estreito Gibraltar para divulgar a doutrina de Alá, há pouco surgida, e conquistar a Península. Na sua fúria avassaladora, quase conquistaram toda a Ibéria, exceptuando um pouco do abrupto território no Cantábrico, onde se refugiaram os restos dos exércitos cristãos. Os sarracenos tinham conseguido aterrorizar os povos de Allariz, pois estes não eram capazes de se defender contra a hordas tão excitadas e bem armadas. Perante tal mal estar, diz a lenda, apareceu um cavaleiro, montado num touro muito feroz, o qual arremeteu contra a chusma de infiéis, pondo-os em debandada. Esta lenda antiga, parece que foi depois aproveitada, no século XIV, para um fim semelhante. Neste século conviviam, o mais pacificamente que podiam, judeus e cristãos nas cidades e vilas da Hispânia. Os hebreus, laboriosos e aforradores, eram os senhores do dinheiro em quase todo o mundo. Os cristãos, muito embora os odiassem, tinham muitas vezes de recorrer a eles em casos de aperto de finanças. Viviam os filhos de Levi, na judiaria de Socastelo, pequena vila onde a população era de maioria cristã. Dado a reduzida dimensão da povoação, na festividade do Corpo de Cristo, o cortejo tinha de percorrer todas as poucas ruas, numa das quais se achava a judiaria. Quando Santíssimo exposto na Custódia, passava pela Sinagoga, os hebreus faziam mofa, e “censuras a eclesiásticos e meninos do coro, devotos e fiéis em geral, o que derivava em confrontos com efusão de sangue”. Nada podiam fazer os cristãos senão aguentar os desvarios, até que aparece, não se sabe de onde, um cavaleiro de nome dom Xan de Arzúa, que por meio do ardil, já conhecido pela tradição oral, praticá-lo como no século oitavo o fez o cavaleiro alaricano contra as hordas de Maomé. Pediu um boi a um lavrador, atou-lhe na cornadura, uma larga soga, enfeitou-o e, ajudado por um par de valentes, colocou o boi à frente da procissão, nem sem antes, para o tornar mais furioso do que os berros da populaça o faziam, diz também a tradição, colocou “junto ao boi um saco com formigas negras, das que se enfurecem e mordem”. Quando os hebreus em grande alarido provocavam os cristãos, soltavam o animal que com grande fúria arremetia contra os que o enfrentavam – os judeus. Com a expulsão dos levitanos da Espanha, pelos reis católicos – Fernando e Isabel – no século XV, as questões entre judeus e cristãos desapareceram, mas a tradição estava muito arreigada no espírito das gentes de Allariz, e o boi continuou, por muitos anos, a abrir a procissão do Corpus Christi. Como sabemos que as tradições, os costumes, a cultura, as festas são muito comuns entre a Galiza e o Minho, teria o costume do boi bento nas procissões do final da Idade Média e princípios da Moderna, vindo da Galiza até aos nossos avoengos que passaram também a inclui-lo nos cortejos religiosos ? Braga, 29 de Maio de 2007 LUIS COSTA B.I. nº 1507748 – Braga Morada: Rua Dr. Elísio de Moura, 141 r/c 4710 – 422 Braga – telf.253 216 602 . assinante do “O Diário do Minho” Email :luisdiasdacosta@clix.pt www. bragamonumental.blogs.sapo.pt 1-“Bracara Augusta” vol.25/6, ano 1971/2, pag.469, - vol.27, 1973 pag.596 - vol.29, 1975, pag.423 – vol. 30, 1976,pag. 724 – vol. 27, 1973, pag.590. 2 –“Archeologia Christã” – 1900, pag. 166 Obs: servi-me também de “Faro de Vigo”fas. 43-1993
publicado por Varziano às 17:35

A COMENDA DE SANTA EULÁLIA DE BALAZAR Ao folhear o Livro de Vereações da Câmara de Braga, referente aos anos de 1828/1834, deparei a fols. 128 e 128 v. com uma informação um tanto ou quanto curiosa que despertou a minha curiosidade. Nada mais do que a referência ao nome de uma freguesia da Póvoa – Balazar. E para mim o mais interessante é que ela referenciava uma provisão mandada passar pelo Rei Dom Miguel, em 28 de Dezembro de 1830 à Câmara de Braga, e a resposta a essa provisão, emitida pela Câmara de Barcelos, dando conhecimento de que, por recibo, se achava cumprido o que Sua Magestade havia ordenado, o que para mim achei muito estranho, razão que desenvolverei mais à frente. Como introdução a este escrito e para uma boa compreensão e recordação dos factos ocorridos nesses conturbados tempos, peço licença aos amáveis leitores para narrar um pouco da história de então. Mais me acirrou a memória, o facto de em 2 de Maio de 1826, Dom Pedro, Imperador do Brasil, ter abdicado ao trono de Portugal, a que tinha direito, a favor de sua filha Dona Maria da Glória, ao tempo de menor idade, que deveria casar com seu tio Dom Miguel, irmão do Imperador. Ora, como sabemos, Dom Miguel foi então nomeado em 1827, por Dom Pedro, seu lugar-tenente, para reger o reino de Portugal, em obediência à Carta Constitucional, durante a menoridade de sua filha Dona Maria da Glória. Contudo, em 22 de Fevereiro de 1828, regressa do seu exílio, jura a Carta no Palácio da Ajuda mas, logo a partir de Março, contraria a resolução anterior e inicia uma nova mudança no Governo do País, instaurando o poder absoluto, convoca nos mesmos moldes da antiga assembleia dos três estados do reino – nobreza, clero e povo – e nomeia-se Rei Absoluto. É então aclamado por algumas Câmaras como Rei de Portugal, e não podia, como terra conservadora, deixar de o ser na Câmara de Braga. Durante o seu curto reinado, com o País sempre em ebulição revolucionária, são várias as actas em que refere Dom Miguel, como Rei de Portugal que, sem dúvida o era então. No entanto em 1830, nomeou Dom Pedro, na Ilha Terceira, Açores, a Constituição da Regência Liberal presidida pelo marquês de Palmela e, no ano seguinte, o Imperador do Brasil, abdica da coroa brasileira a favor do seu filho, menor de 5 anos, Dom Pedro de Alcântara, dispondo-se a assumir a regência de Portugal, em nome de sua filha Dona Maria II. Decorrerem alguns anos – quase quatro – em que se desenvolveram vários episódios guerreiros sobejamente conhecidos – como desembarque das tropas liberais na praia de Arnosa do Pampelido, Mindelo ou o Cerco do Porto – e finalmente a derrota das tropas fiéis a Dom Miguel, que deram origem em 26 de Maio de 1834, à Convenção de Évora – Monte, pela qual foi proscrito e exilado Dom Miguel. Em Junho seguinte Dom Pedro, como Regente, decreta eleições, para reunir as Cortes, e pela primeira vez em Portugal, essas eleições são por sufrágio, sendo no entanto sujeitas ainda a várias condições como, por exemplo serem os sufragistas masculinos, maiores de 25 anos, sendo solteiros ou 21, se casados. Ainda só poderiam ser eleitores se fossem detentores de um rendimento anual de 100$000 reis e, os eleitos, esses teriam que ter um rendimento a partir de 200$000 reis. É então de novo aclamada Dona Maria, como Rainha de Portugal e a partir deste data, em todas as Actas Camarárias, no Livro de Vereações, o nome do Rei Dom Miguel seria riscado, e até a acta da sua aclamação foi inteiramente rasurada, coberta a tinta e obscurecida, não dando possibilidade a uma leitura. Ora na cópia da provisão emanada pelo Tribunal da Mesa da Consciência, transcrita no Livro de Vereações da Câmara de Braga a que acima se faz referência o nome do Rei Dom Miguel encontra-se lá escarrapachado. Teria escapado à censura ? Já agora o como “estou com as mãos na massa”, talvez seja aconselhável, transcrever, algumas passagens dessa Provisão : “Dom Miguel por Graça de Deus Rei de Portugal, dos Algarves, d’aquem e Além-Mar, etc. Como Governador e Perpétuo Administrador do Mestrado, Cavalaria e Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo : Mando a Vós Juiz Presidente, Vereadores da Câmara da cidade de Braga que façais entrega à Câmara de Barcelos o Tombo Antigo da Comenda de Santa Eulália de Balazar que existe em vosso poder, para ali ser examinada pelo Juiz de Fora e dos Órfãos daquela vila que se acha encarregado do Novo Tombo … Por despacho da Mesa da Consciência e Ordem de dois de Dezembro de mil oitocentos e trinta”. A Câmara de Barcelos, por oficio de 1 de Junho de 1831, confirma que recebeu o referido Tombo. Não fiquei satisfeito, quis saber mais e recorri à Corografia Portuguesa e Descrição Topográfica, do padre António Carvalho da Costa, lº Tomo - 2ª edição – Braga 1868, pag. 284, e por essa consulta fiquei a saber que : “Santa Eulália de Balazar é Comenda de Cristo, e Reitoria do Ordinário, que rende ao todo cem mil reis, e para o Comendador duzentos e cinquenta mil reis, e tem cento e seis vizinhos. Na Aldeia do Casal, está fonte, em que São Pedro de Rates estava de joelhos bebendo, quando os tiranos vinham atrás dele de Braga para o matarem, e foi Deus servido de que o não vissem, estando patente à vista : dizem, que duas covinhas que tem, são de seus santos joelhos; vem a esta fonte muitos enfermos de maleitas e sezões, e bebendo dela, voltam livres do achaque. Aqui, na quinta do Casal é o Solar deste apelido, que tem por Armas em campo de ouro cinco flores de Liz vermelhas em aspa, timbre uma flor de Liz com um cardo de ouro sobre a folha do meio; e outros uma aspa de ouro com duas flores de Liz vermelhas sobre a cabeça das pontas dela. Tem dado bons fidalgos, e pessoas de grande talento.” Satisfeito com todos estes esclarecimentos dei por mim pensando: quem seria o Comendatário e onde parará esse Tombo Novo ? Estará na Câmara de Barcelos ? . Responda quem o souber. Braga, 22 de Novembro de 2006 LUÍS COSTA www.bragamonumental.blogs.sapo.pt emeil:luísdiascosta@sapo.pt email:luisdiasdacosta@clix.pt Obs. Meu prezado Amigo e Director Como mandei dois emails com o texto acima e me foram devolvidos, possivelmente por meu erro, resolvi enviá-lo pelo correio. E agora queria pedir-lhe um favor. Será possível enviar-me por correio a direcção da Casa dos Poveiros, no Rio de Janeiro ? Queria oferecer-lhes um exemplar do meu livro “CONTOS POVEIROS”, agora pelo Natal, para lhes fazer recordar a nossa Povinha do Mar as noites de ceia, as sopas de por debaixo, e toda a festa natalícia dos seus velhos tempos. Ficar-lhe-ei muito grato. Um abraço
publicado por Varziano às 17:28

UMA EXCURSÃO DE BRACARENSES À PÓVOA DO MAR Na primeira metade do século passado era vulgar, na época calmosa, especialmente no mês de Agosto, os vários grupos recreativos bracarenses organizarem excursões a algumas terras do País, prevalecendo o Norte e, como ponto quase sempre essencial, por se tratar de uma praia preferida de sempre pelas gentes minhotas, era a Póvoa do Mar muitas vezes escolhida. Estou a lembrar-me de uma excursão embaixada, levada a efeito julgo por um grupo de pessoas de Braga, aí por volta dos anos trinta do século que nos precede, creio aquando da Presidência da Câmara poveira pelo Dr. Abílio Garcia de Carvalho, e da recepção a uma dessas embaixadas de ilustres visitantes. Recordo que então as varandas e janelas da rua da Junqueira, foram engalanadas com motivos relacionados com a pescaria – redes, cortiçadas, remos, boías, canas de leme, bertedouros, velas, marcas, siglas e tudo o que diz respeito a aprestos marítimos usados pelos nossos pescadores. Ora, um meu velho amigo, colega dos tempos de juventude e mocidade que já “lá vai e não voltam mais”, mas que apesar de tudo foram até certo ponto bem vividos, tempos que hoje recordamos com saudades e muito principalmente daqueles quem a “parca ceifou”, enviou-me há dias um postal, editado em Braga, com a data de 12 de Agosto de 1905 – há cem anos – e que se refere a uma dessas excursões à Póvoa, promovida pelo Clube Bracarense “Os Invencíveis” e que pela recepção tão simpática, mereceu no verso, já que a frente do referido postal mostra um aspecto do Jardim Público de Braga desse tempo, umas quadras dedicadas às “Gentis Damas Povoenses” (talvez o poeta desconhecesse o termo POVEIRAS que mais as identifica). Para não ficar no olvido, peço licença, aos possíveis leitores, para as dar à estampa: RETRIBUINDO O CARINHO DUMA VISITA A PAGAR, VIMOS NÓS DA FLOR DO MINHO, HOJE À PÉROLA DO MAR. NÃO PODEMOS IGUALAR-VOS NO PRIMOR DA GENTILEZA ; SÓ PODEMOS OFERTAR-VOS VERSOS DE ALTA SINGELEZA. AO BELO MAR QUE, INCESSANTE, OS VOSSOS PÉS VEM BEIJAR, VAMOS PEDIR-LHE, UM INSTANTE, SUA VOZ P’RA VOS SAUDAR. LEVEMOS CONCHAS DA AREIA PARA, EM NOSSA MOCIDADE, O DIA QUE NOS ENLEIA RECORDARMOS COM SAUDADE ! O Clube dos INVENCÍVEIS Fotografado de um ângulo extraordinário, do lado do Banco do Minho e Teatro São Geraldo, ( hoje desaparecidos ), mostra-nos a frente desse postal o então chamado “Pavilhão Musical” (coreto) num dia possivelmente de verão em que a Banda da Região Militar de Braga, com os seus acordes deliciavam uma quantidade de espectadores, sentados à volta do pavilhão, à sombra de frondosas árvores, como se pode ver pela gravura que acompanha este escrito ou debaixo de um imponente guarda sol, enquanto que outros iam entretendo o seu ócio conversando e passeando, eles com os seus sombreiros “à toureiro”, apoiados nas suas bengalas, então símbolo e elemento de elegância e, elas, as gentis damas, apoiadas também em elegantes sombrinhas ou com elas protegendo a sua tez, branca como a neve, pois o moreno bronzeado é uma das invenções de agora, muito mais tardias. Curiosa é a vestimenta das duas damas que se sobressaem na foto. Os seus chapéus emplumados, numa, a casaca sobre os ombros, cobrindo em parte uma camisete ( colete ), possivelmente debruado e bordado. Um vestido com saia abotoada até aos pés, encobrindo o tornozelo ( mira e aspiração máxima que os galãs pretendiam ver ). Na outra, também com uma cintura de vespa ( certamente apertadíssima pelos espartilhos ) sobressai a sua camisa branca de gola que se destaca no seu elegante vestido negro traçado sobre o peito e numa das mãos enluvadas ( sinal de bom gosto ), parece que transporta uma pequenita malinha. Quanto a esta, dá-nos a impressão que o seu olhar se dirige para um dos militares que à sua esquerda ocupa uma das cadeiras. De notar que, apesar do luxo muito destacado em vários figurantes, também se vê perto do “Pavilhão”, sentadas em cadeiras duas personagens que de luxo nada apresentam, o que nos leva a crer serem “damas” do povo, destruindo aquela voz de que “O JARDIM GRADEADO SE DESTINAVA APENAS ÀS PESSOAS DE DINHEIRO”. Pelo que nos mostra esse postal que o velho amigo Ezequiel Veloso Gomes me enviou, deveria ser um jardim romântico criado pelos princípios dos anos sessenta do século XIX, transformado em Avenida Central, por volta dos inícios da segunda dezena do século XX, sobre a égide da Comissão Administrativa de Lopes Gonçalves, e que se manteve até aos nossos dias em que foram necessárias duas transformações até chegar ao que é hoje. Quase ou mesmo sem árvores de sombra, com umas esculturas modernas, de discutível gosto ( há quem goste e quem desaprove ), com “três picos” semi enterrados, dirigidos ao céu, perfurando a atmosfera, um murete aqui e além interrompido e que não se sabe para que serve, e uns bancos onde se pode apanhar “banhos de sol” ou até constipações. Salvam-se, para dar uma certa frescura à eira em que foi transformada a Avenida, os espelhos e repuxos de água, fontes luminosas. Braga, 3 de Maio de 2006 LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt Email: luisdiascosta@sapo.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt Obs. Enviei, de novo, mas por carta em 28 de Julho
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DIANA BAR …É DE GANCHO !… Por volta dos cinco últimos anos da década de quarenta do século passado vim para Braga, trabalhar no Teatro Circo, cujo empresário era o meu tio Zé Costa. Nesta casa de espectáculos fiz de tudo, desde coadjuvar na gerência, na projecção, contratação ou marcação de filmes. Mas a minha acção não se limitava ao serviço dos espectáculos. José Costa era pessoa de prestígio não só no meio bracarense mas também, pelos seus conhecimentos, que extravasavam Braga, estendiam-se a outras terras do Norte. Sempre que era necessário algum pedido o Zé Costa, era a tábua de salvação, a que todos recorriam, principalmente, os seus conterrâneos para debelar os impossíveis. A sua fama correu e, assim, quando algum aluno poveiro ou não, precisava de uma valente “cunha”, por exemplo, junto do Dr. Carrilho – professor temido – mas de sua grande amizade e competência, no exame do sétimo ano do liceu, ou qualquer outra necessária “cunha” para os mil e um assuntos, sempre do interesse de alguém amigo ou conterrâneo, lá tinha de se recorrer ao Zé Costa. Ora com a minha vinda para esta cidade, ficou o meu tio, em parte, aliviado de correr “Seca e Meca”, pois bastava apresentar-me como enviado dele para obter ou dar uma satisfação ao amigo que esperava a sua influência. Vem isto a propósito de um pedido que da Povinha do Mar lhe fez um amigo poveiro. Todos sabemos ou pelo menos os mais velhos que já entraram na Confraria dos Oitenta, que ali por meia dúzia de anos antes da segunda guerra mundial o poveiro Vicente, creio que Regufe, viu-se e desejou-se para montar no areal da praia de banhos, o Diana Bar. Os projectos não eram aprovados, dando sempre como desculpa, da parte tanto da repartição que intervinha na licença para a desejada concretização do projecto, como até de algumas pessoas, que diziam que a instalação de qualquer construção naquele local, enfiamento da Avenida Mousinho, iria colidir com a perspectiva marítima, quebrando a vista do mar. Alegou o amigo Vicente que o projecto seria feito de tal maneira que nada prejudicaria a vista marítima, pois o que estava idealizado teria o formato de uma pêra, estreitando a vista da parte da Avenida dos Banhos e alargando-a um pouco mais ao fundo, ficando como que uma varanda soalheira sobre o mar. Depois de várias tentativas sempre foi aprovado o projecto e assim nasceu o Diana Bar. Anos decorridos, por volta dos finais dos anos quarenta do século transacto, porque a afluência ao Diana se ia mostrando cada vez maior, ou porque o proprietário resolveu dar uma nova fisionomia ao espaço, pensou numas obras. Para isso teria que obter autorização ou deferimento da respectiva repartição que superintendia na autorização e que por sinal era em Braga. Dadas as dificuldades que tinha tido quando da primitiva construção e porque lhe tinham informado, mal é certo, o que vim a saber depois, que o director engenheiro “ERA DE GANCHO”. Lá teve o amigo Vicente Regufe de recorrer ao Zé Costa, julgando por certo que assim teria a tábua de salvação assegurada e assim o empurrão para o fim desejado, não encontraria obstáculos como da primeira vez. Não sabia o meu tio quem era esse director e, nada melhor do que me encarregar de o descobrir para depois, se necessário, “mexer os pauzinhos”. E lá fui eu, rua do Souto abaixo até à rua Andrade Corvo, indagar onde era a repartição e procurar saber quem era afinal o tal temível engenheiro. Encontrada a repartição um tanto a medo, lá subi a escada até ao primeiro andar pronto a enfrentar o temível ou na esperança de que qualquer funcionário me desse a informação pretendida. Assomei ao balcão e lá estava remexendo nuns papeis um indivíduo resolvi enfrentá-lo com o habitual bom dia. Em resposta à saudação o funcionário voltou-se, mas nem chegou a responder ao desejo de um dia bom. Pelo contrário, numa saudação amiga e de certo espanto disse-me: - Por aqui, há tantos anos que nunca mais soube de ti! Se o espanto dele foi grande, menor não foi o meu. E o diálogo estabeleceu-se, entre dois amigos e colegas de juventude da Póvoa. Tratava-se de um moço – ambos o éramos – eu, desviado da povinha do mar, primeiro devido ao serviço militar, e depois de desmobilizado de Cabo Verde, fixei-me nesta Augusta Cidade onde aqui fiquei até hoje. Ele, talvez, após o falecimento do seu pai, como os irmãos – um deles foi jogador de futebol do Sporting da Póvoa, nos tempos em que este desporto era praticado por carolice – não seguiram o negócio do pai e tiveram rumos diferentes, tendo abandonado a nossa bela praia. Nunca mais nos voltamos a encontrar. Quem diria que um fortuito pedido de informação nos voltaria a aproximar, reatando a velha amizade? Mas assim foi. Passamos uma hora na conversa, mais isto, mais aquilo, e a hora foi passando na recordação dessa meia dúzia de anos que separou a nossa amizade. Disse-me que tinha casado, que já tinha uma filha que tendo nascido no dia São João lhe pusera o nome de Maria João. Dei-lhe conhecimento que o mesmo facto se tinha dado comigo e que também tinha uma filha. Apresentou-me à esposa e com a conversa de tanto tempo ia-me esquecendo do que me tinha levado a procurar a repartição. Mas o assunto tinha de ser resolvido e apressei-me então a informá-lo do que me tinha trazido à rua Andrade Corvo, não omitindo que era para satisfazer o pedido do Vicente ao meu tio e que, ao encontrá-lo, tinha a tarefa facilitada. Dei-lhe conhecimento do problema do Diana Bar e pedi-lhe o favor de me dizer quem era o director do serviço, que o Vicente apelidava “DE GANCHO”, para ver se se conheceria alguém para o convencer a não colocar entraves ao projecto. E a resposta foi pronta: SE TUDO ESTIVER DENTRO DO NORMAL, não haverá novidade. Não me disse quem era esse temível engenheiro, mas que poderia dizer ao pretendente ao processo da obra do Diana que estivesse sossegado e apresentasse o caderno de encargos. Então agradeci-lhe, e se o chão se tivesse aberto por certo me teria ENGOLIDO. É que o temível engenheiro era nem mais nem menos que o meu amigo Engenheiro Teles Carvalhal, soube-o a seguir e depois de risota acompanhada do indispensável pedido de desculpa pelo apodo do GANCHO, dei por cumprida minha missão Resta dizer que profissão do pai Carvalhal, era a de farmacêutico, com estabelecimento no Passeio Alegre e que hoje é a Farmácia da Praia. Braga., 3 de Fevereiro de 2006 LUÍS COSTA Email :luisdiasdacosta@clix.pt www. bragamonumental.blogs.sapo.pt
publicado por Varziano às 15:36

NUM DOMINGO DE AGOSTO Manhã cedinho para fugir ao calor dum esquentado mês de Agosto, num carro com ar condicionado, rumamos em direcção à beira-mar, procurando deixar a canícula dos ares de uma cidade de onde andam arredadas as sombras das árvores, árvores que purificam e perfumam o ambiente e nos abrigam, nas horas de maior intensidade, dos perigosos raios ultra-violeta, que tanto mal tem causado aos mais incautos. Não fora o pulmão citadino do Parque da Ponte, ou a arrabaldina mata do Bom Jesus do Monte, panos frescos naturais da cidade, e uma que outra piscina, duas na cidade e mais algumas nas freguesias, as praias fluviais que nos proporciona o Cávado, onde seria possível aqueles a quem os rendimentos não proporcionam um pouco, já não digo férias, mas alguns fugazes momentos de lazer ? É já andar com sorte, se temos um amigo que amavelmente se dispõe a tirar-nos, nem que seja por poucas horas, da torreira do inclemente clima bracarense, húmido no inverno e calorento no verão, e levar-nos até à praia. Ora, posso dize-lo, desta vez a sorte bafejou-me e lá fomos de abalada até à beira-mar, neste caso concreto até à Póvoa do Mar. No caminho ainda pudemos assistir às fumaças dos incêndios ( não serão criminosos, mesmo aqueles que se devem a incúria ?) que lavravam não só pelos montes, como até em descampados ou bermas das estradas. O dia estava escaldante, mas o tempo que nos liga ao mar agora está encurtado, nem meia hora é preciso para gozar o fresco salino e iodado ar do nosso mar nortenho. A Póvoa estava à vista, num pulo vemo-nos a norte da zona desportiva ( para os velhos como eu, a norte do Estádio Gomes de Amorim, talvez o primeiro estádio digno do nome, construído em Portugal, creio que por finais do século dezanove ou princípios de vinte ). Fiquei banzado. Como estava aquilo diferente. Nos meus tempos de moço, na praia, por exemplo da Salgueira, só meia dúzia de rapazes se viam por aquelas bandas. A Norte e até Abremar (prefiro o topónimo popular ) e por aí fora, ninguém, era só areia e mar. Na penedia, um que outro ganapo às marachombas e no areal, ao sol ( parece que nesses tempos, violetas, só as belas florzinhas ), lá estávamos a tostar e agora, onde é que eu estou ? Nada reconheço, só barracas e toldos, gente e mais gente, Vejam lá: esclareceu-me na Póvoa, um banheiro ESPANHOL !!!. Por ele soube que ali, e apontava para Sul, são as piscinas; do outro lado o Campo do Varzim e Desportivo!!! E então, onde há cinquenta ou sessenta anos eram acampamentos de ciganos, só prédios e mais prédios e por fundo o Hotel Ver-Mar. Só agora é que me apercebi como tinha andado afastado daqueles lugares, da Praia da Lagoa, terreno em disputa com Beiriz e que o falecido amigo Monsenhor Manuel Amorim me dizia : “Pode pôr por lá a barraca, que a confraria do Sub-Sino de Beiriz, não lhe vai cobrar os impostos devidos !!!” Como calor estava a apertar e, entretanto, parecia que a nortada estava a pronunciar-se, o espanhol, alugou-nos uma barraca, pois estávamos a preparar para passar ali o restante da manhã e a tarde, mas o estômago principiou a manifestar-se e o remédio fomos encontrá-lo no Leonardo, onde nos refastelámos com um cosido à poveira, umas sardinhas assadas, regadas com o verde de “pinta a malga” e as saborosas rabanadas. Com o estômago amansado, demos uma volta pela cidade e, logo desisti, pois um passeio assim traz-me à memória os outros tempos que por ali andava, satisfeito, com uma malta fixe e, onde está ela ? Quase todos já partiram e os poucos que ainda resistem, lá se vão arrastando neste “vale de lágrimas”. Voltamos à praia; ao menos o areal ainda quase que é o mesmo e então, sugere o nosso acompanhante: vamos dar uma volta pela via que nos conduz a Vila do Conde. Forte de Nossa da Conceição, Caverneira fora, Casa dos Pescadores, a Senhora da Lapa, o edifício da velha Ronca. E num instante a Poça da Barca, as Caxinas e depressa estamos no areal da Vila. O Forte de São Baptista, agora com a cara lavada, Senhora da Guia e sempre a correr deparamos com o espaço da antiga seca do bacalhau, e à nossa mente vem a recordação : “vira que vira”, lá estava aquele rancho de mulheres a expor, usando o termo moderno , “aos raios ultra-violeta”, o saboroso amigo, curado ao Sol. Então é que era saboroso e, não como agora, quase insípido. Sempre a rodar, lá passamos pelo jardim ensombrado, á espera da Feira do Artesanato. Largo ou Praça do Artistas, e logo a seguir a velha Câmara e a imprescindível visita à Matriz Manuelina, senão por outra coisa, pelo menos para ver o brasão da edilidade poveira, no arco gótico da entrada, mas que é isto ? Uma passadeira vermelha, desde a rua arte à entrada ? Não deve ser por nossa causa, ninguém sabia que aqui vínhamos! Mas não, ela ali estava porque naquele velho templo de quase quinhentos anos, ia realizar-se um casamento. E sem querer, sem o propósito de assistirmos a uma cerimónia religiosa que quase está a desaparecer, lá nos sentamos num dos bancos e não demos pelo tempo que assim estivemos. Foi um acaso que nos levou até à matriz, e demos por bem o tempo que passamos a assistir a esta bela cerimónia. Não sei quem eram os felizes nubentes, nem interessa para o caso. Maravilhou-me a cerimónia. Uma soprano, de bela voz, acompanhada pelo som de trompete ia interpretando os vários momentos em que o ritual obrigava e no final, enquanto os noivos se dirigiam para a saída do templo, o trompetista fazia ouvir os acordes da “Marcha Nupcial”, e gentis meninas ofereciam a todas as senhoras, sem excepção, um botão ou uma formosa rosa chá. Ainda sob a influência dos belos momentos que o acaso nos proporcionou, rumamos à velha Bracara Augusta, bem dizendo o desvio que fizemos ao visitar Vila do Conde. Braga, 11 de Agosto de 2007 LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt Email: luisdiascosta@sapo.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt
publicado por Varziano às 15:23

UM CONCURSO INTESSANTE PROJECTOS DE CONSTRUÇÕES ECONÓMICAS Continuando na busca de papeis velhos encontrei mais dois projectos de Moura Coutinho e relativos a iniciativas que, na segunda dezena do século XX, estiveram para se fazer na zona da avenida dos Banhos e no Passeio Alegre, na Póvoa, um a pedido da Câmara Municipal e outro por um particular, neste caso o Dr. Caetano de Oliveira. Debrucemo-nos no concurso aberto pela Câmara, e para isso vamos recorrer à já citada revista “Arquitectura Portuguesa” e ao seu número 6, com data de Junho de 1916. Assim, como início do artigo em que está citado este concurso, diz a revista: “Salvo erro, é a primeira vez que uma câmara municipal do nosso país, ousa sair do dulce far niente, do quotidiano expediente, para se abalançar a tomar a iniciativa do género que hoje vamos tratar. Cabe essa glória à ilustrada vereação da Póvoa de Varzim, à qual desde já felicitamos pela sua feliz inspiração e audaciosa iniciativa, digna de ser imitada, como estamos certos, o será por outras corporações administrativas suas congéneres”. Logo a seguir informa que obteve o prémio instituído pela câmara municipal, o desenho do projecto Camarão, classificado em primeiro lugar, do distinto arquitecto João de Moura Coutinho, já conhecido por trabalhos como o belo Teatro Circo, e o Asilo Conde de Agrolongo, em Braga, o projecto do Teatro São João, no Porto, em que foi também premiado e outros mais. Tendo sido pela câmara escolhido como perito para analisar os projectos apresentados o arquitecto do Ministério do Fomento, Rozendo Carvalheira, prontificou-se este a resumir os seus trabalho num breve relatório, relatório que pela sua pertinência actual, apesar de decorridos quase cem anos, não nos escusamos de, em parte, o transcrever: “…quando dessa apreciação e desse trabalho, depende em grande parte, a valorização estética de uma povoação importante e privilegiada situada, como é a da Póvoa de Varzim. Antes, porém, de me referir propriamente à apreciação desses projectos, cumpre-me congratular-me com a bela resolução da ilustre câmara municipal dessa próspera e linda terra, pela feliz iniciativa que tomou, de preparar um futuro estético e disciplinado para o âmbito da sua jurisdição municipal. Quantas lindas e pitorescas povoações portuguesas se não estragam pelo tumultuário agrupamento das suas edificações inestéticas, pretensiosamente ostentosas, umas vezes; outras deploravelmente ridículas, e quase sempre incaracterísticas e banais ? Abastardou-se o tipo regional, e quase que ostensivamente se puserem de parte, na moderna febre evolutiva da construção, alguns dos mais belos e característicos temas da tradicional edificação portuguesa…Deplorável erro, péssima orientação…”. E muito mais desabafa o articulista de “Arquitectura Portuguesa”. E isto em 1916, e o que ele diria nos tempos de hoje em que não há o mínimo respeito pelo nos deixaram os nossos antepassados !!! Mas deixemo-nos de lamentações já que agora não há remédio para as devastações passadas, pensemos preservar o que ainda o camartelo do PROGRESSO não destruiu !!! Voltemos ao boneco que ilustra esta pobre crónica. Tenho ideia, no que posso estar enganado, que o desenho do projecto do Moura Coutinho, foi aproveitado para uma que outra edificação do Passeio Alegre. Duas estão sensivelmente esfumadas na minha memória. Uma me parece que era a casa do ilustre médico poveiro Dr. Joaquim Graça e, a outra, tenho ideia do edifício da antiga loja do Cândido, casa especializada em azeite e mercearia fina. Estarei enganado ? A propósito da Loja do Cândido, ressalta na minha mente um facto de que ainda se devem lembrar muitos dos póveiros. As ligações entre a Póvoa dos anos de 30 e Braga eram muito deficientes. Por caminho de ferro tinha que, saindo da estação bracarense, em horários nem sempre convenientes, tomar a linha de Famalicão. Perante este transtorno, mudar de comboio, duas empresas bracarenses de transportes rodoviários resolveram estabelecer carreiras de caminhetas entre a capital do Minho e a ridente e rainha das praias portuguesas – a Povinha do Mar. Nesse tempo ainda a peste dos tempos modernos, que hoje nos aflige com a poluição – automóvel particular - era muito reduzida e a maneira mais prática e até económica para procurar o bom e sadio ar poveiro, era utilizar os serviços das carreiras rodoviárias. Eram elas a empresa do Quintela, com saídas e chegadas junto ao Café Ribeiro, ou como era mais conhecido na gíria poveira, o Café da Libânia, e a outra era a Auto-Motora, que tinha o seu escritório na Loja do Cândido. Eram estas a transportadoras dos veraneantes bracarenses e não só, mas também da parte do Minho que procuravam as salsas ondas do nosso mar. Mais tarde o Marinho – Viação Auto Motora – tomou de trespasse a concessão do Quintela e, a carreira de Braga, continua hoje, cómoda e rapidamente – para quem não usa ou não tem auto próprio – a fazer-se pelas caminhetas, termo português utilizado ainda pela nossa boa gente do campo. Braga, 25 de Dezembro de 2007 LUÍS COSTA www: bragamonumental.blogs.sapo.pt Email: luisdiascosta@sapo.pt Email: luisdiasdacosta@clix.pt.
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