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                                                     R A P A Z I A D A S

 

Este tempo de princípio do Outono, com a chuva e o vento a bater nas vidraças das janelas do meu escritório sempre provocam em mim uma nostalgia, semelhante aquela que sentia quando, no final de Setembro via despovoar-se a  Póvoa daquela multidão que nos meses calmosos enchiam a praia, ruas e avenidas. Para mais que este tempo invernoso que se aproxima, irá contribuir para fique em casa, junto dos caloríferos, já que não permite o meu passeio higiénico habitual à volta do quarteirão do meu bairro, num combate contra a artrose que muitas vezes me aflige. Costumo dizer que gosto mais de chegar ao Natal do que ao São João. No Natal os dias principiam a crescer, o tal “salto de pardal”, mas que prenuncia a ida para dias maiores, mais solheirentos, enquanto que o São João, nos leva a pensar nos dias que vão minguando, e depressa nas noites mais longas e friorento o tempo.     

E ao dizer que a nostalgia de agora é semelhante aos meus tempos de rapaz namoradeiro, é porque ela me faz recordar o verão que antecedeu a Segunda Grande Guerra. A época balnear, como sabemos tinha, como hoje, o seu início no primeiro dia de Junho, muito embora nesse mês mais dedicado aos Santos Populares a frequência à praia muito longe ficava dos três meses seguintes, com predominância ao mês da Agosto, o mês por excelência para férias.

O mês de Agosto tinha os seus habituais veraneantes, quase sempre alugando as mesmas casas e clientes dos mesmos banheiros, ocupando no areal as áreas concedidas, balizadas, pelo menos de manhã, pelas cordas dos banhos amarradas um pouco ao largo nos pipos, cordas que serviam para depois das “cachafundas”, continuarem com diversão e mais segurança,  receberem as “salsas ondas”.

Ora, muitos veraneantes do Minho, Douro e transmontanos, e até era vulgar ver entre eles alguns alfacinhas, eram sempre fiéis aos banhos póveiros e passando as  férias nesta Rainha das Praias de Portugal, costume que vinha de longa data. Para alguns era um lenitivo, um descanso do dia a dia sempre igual. Para outros era a procura de cura pelos Banhos Quentes de água do mar, remédio santo para os reumáticos. O Algarve nesses tempos ainda não tinha sido descoberto.

  Recordo um casal, julgo que lisboeta, que não dispensava passar as férias na Póvoa. Anos a fio, sempre no areal poveiro assentava arraiais, até me parece que foi, um dos primeiros a instalar o guarda-sol, hoje tão disseminado. Tratava-se um casal de grande respeito, com uma filha, e a avaliar pelas pessoas que sempre os acompanhava e não só. Segundo a minha já hoje muito cansada memória julgo que o nome desse Senhor era V…. A esposa, Senhora de uma esbelta figura, com todo o respeito, não desmerecia a filha, também ela de grande formosura.

Habitualmente o banheiro colocava para os ilustres veraneantes sempre no mesmo lugar o guarda-sol e as respectivas e almofadas, o que para a rapaziada, era um lugar assinalado para, por perto, os conquistadores fazerem “olhinhos meigos” à encantadora menina. Lugar disputado, embora fosse tempo perdido, era ver quem chegava primeiro.

Certa vez, o lugar do casal por ter chegado atrasado, estava de vago, mas ali por perto, nenhum dos galanteadores arredou pé à espera A tarde foi decorrendo, como Sol se dirigia para o zénite e a sombra ia acompanhando o movimento aparente da maior estrela do nosso sistema. Enfim, a sombra chegou ao lugar onde estavam os “basbaques”, eu incluído. Chegou o Senhor e logo interpolou os rapazes :- Fazem o favor de saírem daí. Estão debaixo do meu guarda-sol. Logo um dos mais atrevidos, respondeu :- Perdão, nos já estávamos aqui, a sombra é que veio ter connosco.

Mas como não queríamos fazer má figura perante a gentil menina e também porque o físico do cavalheiro nos assustava, metemos “o rabo entre as pernas” e cedemos a sombra.

Nesses meses de veraneio a Póvoa, como hoje, enchia-se de gente e os galanteadores à volta das mais belas raparigas não faltavam, as quais sabendo que eram amores de verão, lá iam distribuindo como que hoje se diz, “tampas”.Ora de um dia para o outro, tudo desaparecia com o final do verão e daí a nossa, pelo menos comigo, nostalgia.

Até certo ponto era essa nostalgia atenuada com a chegada, em Outubro, dos camponeses, acintosamente chamados de “ceboleiros”. Arribavam até à Póvoa, depois dos senhores das terras terem chegado aos senhorios – quintas e leiras – e se ter processado as colheitas, as vindimas. Vinham, normalmente, a conselho do facultativo lá do lugar, apanhar os banhos de mar receitados – dez, vinte ou trinta.

Com para eles, principalmente elas, o fato de banho, era a camisa de noite, e  era isso que mais apreciavam os nostálgicos. A receita dizia, por exemplo, vinte banhos, e então problema resolvia-se economicamente – dois por dia – um de manhã cedo e outro mais tarde, pelas dez / onze horas.

Era então vê-las, nos braços dos possantes banheiros, normalmente dois para as mergulhar nas ondas - a  tal “cachafunda”. Estão a ver como se portavam os “malandrecos” dos nostálgicos. Esperavam pela hora da saída do banho, e elas com as camisas coladas ao corpo, fazendo realçar as formas femininas, intimidadas e envergonhadas corriam para a barraca onde as esperava a bacia com água que no princípio foi colocada ali junto, para como diziam as banheiras, lhes levar “OS NERVOS PARA AS PERNAS” e depois do banho para retirar a areia e algum sargaço.

E era assim que se compensava a nostalgia do fim de verão.

 

Braga, 3 de Outubro de 2006                        

                                                          LUIS COSTA   

 

publicado por Varziano às 18:13

                N A T AL  DE  2 0 0 6

                           LOAS AO MENINO E CANTARES DOS REIS

Segundo o etnólogo poveiro Rocha Peixoto, a solenidade do Natal “não é referida nas notícias mais remotas que, nos primeiros escritos, nos legou o cristianismo…as investigações relativas ao dia preciso da natividade do Salvador não resolveram uma data justa… os chefes da Igreja do Ocidente, em face da grande e funda solenidade anual, celebrada em Roma e chamada a festa do nascimento do sol invencível, ( o solstício de inverno ), decidiram fazer coincidir com ele o nascimento de Jesus Cristo.” ( 1 ).E assim a Igreja, no século IV, modificou aos poucos a intenção pagã de homenagem ao astro Rei, expurgando um ritual ancestral, transformando-o numa Grande Festa Religiosa, mas não tendo contudo atenuado certos manifestações, certos costume, usos e superstições “que mais ou menos sobreviveram até hoje” .( 1 )

E assim, por exemplo, em quase em todo o mundo, se festeja em Dezembro a Quadra Natalícia, com festins onde não falta boa mesa recheada de belos aperitivos, mexidos, filhoses, rabanadas, aletria, bolos e uma infinidade de guloseimas, regadas com geropiga, ou com uns Cálices de Porto velho, de acordo com as posses dos alegres comensais ( pois que nessa Santa Noite, a alegria familiar se expande, e que para  mais “tristezas não pagam dívidas”) que serão a sobremesa da tradicional “bacalhoada”, tradicional nas Ceias de Natal nas casas portuguesas, reminiscência dos antigos sacrifícios dedicados aos Deuses.

Ainda, e reportando-nos à citada obra acima, diz Rocha Peixoto,

:-“Nas casas e nas igrejas” representando o nascimento do Menino Deus, se construíam pequenos presépios e lapinhas, perante os quais se entoavam outrora colóquios, entremezes e vilancicos ou se entoavam as loas de Natal:

                                      “Filhos de homem rico

                                      Em berço dourado,

                                      Só vós, meu menino,

                                      Em palhas deitado.

 

                                      Em palhas deitado,

                                      Em palhas nascido,

                                      Filho de uma rosa,

                                      Cravo escolhido”

A tradição veio a arreigar-se entre o povo cristão e, pelo decorrer dos anos, desapareceram alguns costumes, os colóquios, os entremezes e vilancicos mas ficaram para sempre a reunião de familiares na Consoada, muitos deles por vezes vindos de longínquas paragens,  as loas ao menino e os cantares dos Reis.

De entre as muitas loas e cantares que pela quadra natalícia, se fazem ouvir, por essas noites, em vozes “esganiçadas”, entoadas normalmente por crianças, acompanhadas de rudes instrumentos, como ferrinhos, bombos, pandeiretas, reques-reques e quejandos, escolhemos algumas, já que há muito por onde escolher e até muitas vezes são improvisações do momento.

Nessas noites, é vulgar verem-se os grupos de miúdos, arrostando com o frio de Dezembro ou uma chuvada, percorrendo as ruas e batendo às portas, desejando Boas-Festas, e dando em troca, uma série de quadras alusivas à época, sempre na esperança de que umas moedas caiam no seu mealheiro ou, quando menos, uma mão cheia de figos, castanhas ou doces.

Normalmente as famílias que são distinguidas por esses pequenos, (poderemos chamar-lhes romeirinhos?), recebem-nos com agrado e não poucas vezes até chegam a convidá-los para, na mesa, provarem as doçarias. É uma maneira de comemorar o Natal que alguns, em casa, não tiveram a graça de “adoçar o bico”, e assim dar um ar mais festivo à sua canseira. Sabemos que, para alguns, principalmente aqueles que acham que esta data UNIVERSALMENTE FESTIVA é uma hipocrisia, eu pergunto porque não fazem Natal todos os dias ? Acham que a reunião familiar é uma hipocrisia ? Bem gostaria que todo o ano tivesse para todos a alegria da noite Santa, e se o quiséssemos isto seria um facto.

Mas vamos as quadras, pois estava a divagar e a fugir do prometido. Assim das Actas do Colóquio Manuel Boaventura, vou dar algumas das que na minha comunicação fiz no referido colóquio e alusivas ao Natal, e bem assim outras recolhidas no livro “O Poveiro” de Santos Graça. Principiarei por dizer como começavam as cantilenas. Falo da Póvoa, mas em Braga é mais ou menos idêntico o mesmo proceder. Depois da Ceia, no dia 25, os cantores reunidos, percorrem as ruas e batendo às portas ( isto na Póvoa ) perguntando : “Bai ou num bai ?” Se a resposta era pela afirmativa, logo principiava a “função”:

 

                          “ Ó da casa, nobre gente

                          Escutai um bocadinho

                          Uma cantiga bonita,

                          Que se canta ao Deus Menino

E logo vinha o elogio:

                         

                          “ O Patrão desta casa,

                          Raminho de salsa crua,

                          Quando chega à janela

                          “Alumeia” toda a rua.

E principia a narrativa:

 

                          Era uma cabana velha,

                          De penhascos naturais,

                          Entrou lá Nossa Senhora,

                          São José e ninguém mais

 

                          A Virgem logo sentiu,

                          O seu parto milagroso,

                          Chamando com meiga voz,

                          - Vem cá meigo esposo!

 

                          Nasceu o Menino Deus,

                          Com prazer e alegria,

                          Ficando resplandecente,

                          Sua mãe, Virgem Maria !

E continuavam a narrar o maravilhoso nascimento, e não perdendo a ocasião de também serem um pouco chocarreiros. Se soubessem que na casa havia moça casadoira, mas já “entradota”, lá vinha a quadra:

                         

                          “Viva a dona Mariquinhas,

                          Que ainda está solteira.

                           Vamos arranjar-lhe um par

                          P’ra saltar à fogueira!”

Depois da narração, vinha o pedido:

 

                                      “Viva o Senhor desta casa,

                                      Casaquinho de veludo.

                                      Meta a mão no seu bolsinho,

                                      E bote p’ra cá um escudo.

 

                                      Ó patrão desta casa,

                                      Vá dar volta à salgadeira,

                                      Vá ver se encontra toucinho,

                                      Ou bocado de orelheira.

 

                                      Se a criada não quiser ir,

                                      Dê-lhe”c’um” pau “inté cair!

                                      Se a faca não quiser cortar

                                      Dê-lhe um fio no alguidar!

Se na casa não respondiam ao pedido se “vai ou não vai”, logo saltava o remoque :

 

                                      “Esta casa cheira a unto,

                                      Aqui mora algum defunto!

 

                                      Esta casa é tão alta,

                                      É forrada a papelão!

                                      O senhor que nela mora,

                                      É um grande comilão!

Depois, já entrado o Janeiro, continuavam a correr as casas, mas agora já não eram loas ao Deus Menino, mas sim aos três Reis Magos :

 

                                      “Os três reis já são chegados,

                                      Da parte do Oriente,

                                      A  adorar o Deus Menino.

                                      Alto Deus, Omnipotente!

E por agora, acho que já dei uma pálida ideia de como as crianças desta parte vêem o Natal, e porque estamos em tempo, desejo para todos os amáveis leitores um bom Natal, Boas Festas e Feliz Ano Novo

                                                             LUÍS COSTA

Braga, Natal de 2006  

 

( 1 ) OBRAS : Rocha Peixoto – Edição da C.M.P.V. 1967

 

 

Em tempo e fora do texto:

              Para o Amigo Director Costa Guimarães e para toda a família do Correio do Minho, um Bom Natal e Feliz Ano Novo, com boa colaboração para continuar a afirmar o “O CORREIO DO MINHO”, como um dos melhores DIÁRIOS  REGIONAIS de Portugal sem IBERISMOS, pois que a nossa Pátria é una e de “Espanha nem bom vento, nem bom casamento”.

                                                                         LUÍS COSTA

 

publicado por Varziano às 17:53

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