01
Ago 08

O  BOTA  P’R’Á   MULA

 

 

Meu Deus, meu Deus, já foi há tantos anos ! Tantos, tantos que até lhe perdi a conta. Assim, a filosofante Loira, ia pensando enquanto se arrastava, penosamente, já meio trôpega, carregada e sobrecarregada, “agantando” por aqueles caminhos as chuvas e frio de Inverno e a calmosa canícula escaldante do verão. Sempre a minha vida tinha sido esta, nunca experimentei outra, desde que nas lezírias do Ribatejo, reconheci a luz do dia.

Poldra ainda, entrei a ser a cobiça dos negociantes ciganos. Depressa deixei o ninho materno e entrei no mundo do trabalho. Vim parar à Póvoa, à mão de um carreteiro almocreve, que fornecia parte do Minho com o peixe que com sacrifício os pobres pescadores arrancam à custa de muitos perigos e sacrifícios ao generoso mar.

Os ciganos não tem “parança” e desde o Alentejo até ao Minho, há sempre um local para os seus negócios. A Feira de São Sebastião, era um dos lugares onde podiam fazer bons negócios. Fiquei a conhecer essa feira dos Vinte, em Prado, como é conhecida e ali, amarrados pelo cabresto aos sobreiros lá estavam os da minha “igualha”. O almocreve já não confiava na sua velha burra, desdentada e trôpega, que mal podia transportar a carga do seu comércio. Deve ter pensado na Feira de Prado, a feira das trocas, e pôs pés a caminho esperando, por certo encontrar um bom substituto.

Percorreu o recinto da feira desde São Sebastião até perto da ponte do Cávado. O seu olho experiente, veio até junto da minha prisão. Quando o vi simpatizei com ele, apesar do seu cheiro a sardinha. Lançou as “manápulas” as minhas ventas, arregaçou-as, inspeccionou a minha “dentuça” (vê-se que era sabedor e experiente) e assim calculou a minha idade e saúde. Sem me envaidecer, afirmo eu era uma boa peça, bela estampa, fortes quadris, patas fortes e possante lombo. O aloirado da minha trunfa caiu-lhe no goto, ele parece que tinha um fraquinho pelas loiraças, descendentes dos “witikindis” do Norte, ou Fenícios do Mediterrâneo que um dia, há séculos arribaram à Póvoa na mira do bom peixe e sal.

Ver e amar-te foi um instante e nesse dia, discutida e ajustada a compra por quinze notas, passei a ter novo dono. Francamente não gostei da maneira como fui parar a novas mãos, fez-me lembrar os tempos da escravidão em que, em Lagos, os homens eram postos em leilão para serem escravos, coisa que não me agradava. Não me importava de trabalhar, mas com dignidade e não como escravo.

Bom, negócio feito e ala que se faz tarde, a caminho da Póvoa. Com a sua apetência pelas loiraças, logo ali me baptizou, passei a ter um nome, o primeiro da minha árdua vida, Loira.

A caminhada a fazer era longa e a estrada passei a conhecê-la bem, de tão calcorreada desde sempre que a vida me tinha lançada neste labor. Não havia grandes subidas, que exigissem muito esforço, era quase plana, como as das planícies ribatejanas, a minha pátria. Tinha ainda uma vaga lembrança da abertura a mando do rei dom Luís, daquela légua, comprida de mais. Légua da Póvoa, não de 5 mas sim ultrapassando os 6, e do ferreiro a quem Sua Magestade recorreu para o seu traçado. A obra era necessária, pois os caminhos desde Laúndos até à Póvoa, eram “estradões” que apenas serviam para um que outro ronceiro carro de bois se lançar na tortuosa caminhada.

Ia pensando que o jogo de interesses, é velho no mundo do homem. Só estavam a atrasar a obra: uns queriam que passasse por perto das suas propriedades, valorizava os seus terrenos mas outros, essa estrada não podia prejudicá-los, não podia ocupar as suas leiras. Dom Luís, não pensou duas vezes, procurou entre os interessados um que não se subornasse a opiniões interesseiras.

Difícil era encontrá-lo mas a sua tenacidade achou, na pessoa de um ferreiro, mal quisto entre os vizinhos dos locais, o encarregado ideal para o traçado da nova via. Da primeira bandeira à última ficou estabelecida a recta da Légua da Póvoa, e continuando nos seus pensamentos, concluiu que só quem a percorre sabe quanto é longa.

E assim o velho mestre do ferro, não olhando a conveniências particulares, colocou à saída da curva a seguir à ermida da Senhora da Saúde, uma bandeira, bem visível ; a seguir, por Santo António de Terroso, cravou outra; da mesma maneira o fez em Amorim e, já na Póvoa, a última. Assim nasceu a Légua mais famosa do mundo.

Há tantos anos, tantos, tantos que até já esqueci a minha idade. Agora já um pouco trôpega, sem a ligeireza dos anos de juventude, passados sempre a “alombar” com cargas cada vez mais pesadas – o meu patrão partia do princípio de que quanto maior fosse a carga, maior seria o lucro, e como tal quanto lhe diziam : Ó “Se Zé” olhe que assim a mula assim não vai  a “galhelo”. Ao que ele respondia : Qual quê! A Mula é possante, BOTA P’R’Á MULA.

Esta conversa não me agradava muito, cada vez sentia mais a difícil caminhada e o patrão, é certo que bom homem, não via ou não queria ver que os anos vão pesando, e uma mula não é de ferro. Não fora esta sua falta e aquela teimosia de querer que caminhasse nas pontes, sempre a direito, quando eu só o sabia fazer às arrecuas, teimosia de que pela minha parte era a herança que me tinha ficado dos meus ancestrais avoengos, não tinha muitas mais queixas do bom homem.

Com o rodar dos anos, ficamos a conhecer bem os nossos defeitos, os nossos desejos. Quando, nos dias de intensa canícula, com atroz sede, tendo farejado água nos bicas que o Fontes espalhou ao longo das estradas, apressava o passo, ele, sem regatear, apressava-o também, pois o corpo pedia-lhe o regalo. A fresca de umas sombrosas árvores e água cristalina que jorrava do fontanário, davam-nos alento para continuar a caminhada. No Inverno, a ração de uma boa dose de milho, metida no saco e atada ao meu focinho, ou então uma saborosa merenda de umas sopas de cavalo cansado, bem ensopadas em vinho, e açucaradas, arredavam o frio e o cansaço e animavam para a carreira.   

As estações onde o seu negócio principiava, era já por perto das Necessidades. Enquanto me refastelava com o merendeiro na tasca do Vicente,  puxava do búzio e, com estridente barulho, secundado pelo meu zurrar, a minha linguagem, dava sinal que ali ai principiar a venda do requintado pitéu, a boa sardinha do São João, a tal que pinga no pão, se era o tempo dela, ou da salga, salgada nos tanques do Casanova, junto ao fieiro.

Depois ala, para outras paragens até toda a mercadoria acabar e então o regresso já se fazia mais comodamente, o fardo tinha ficado por essas aldeias e, agora só com o peso do patrão tinha de “agantar”.

E era assim, no continuar do dia a dia. Manhã, cedinho, no tempo da safra da sardinha, mal os sardinheiros abicavam à barra, e chegados à praia, à língua da maré, e descarregados os milheiros do peixe, ei-lo ali estava regateando o preço, e chegado a acordo, “bota p’r’á mula”, sem importar com o que dizia a pescaria, “Se Zé, olhe que mula ainda vai arrear, vai arrebentar!”.

 

                                ##########

Os anos correram e sempre, dia a dia, carregou, ao lombo as pesadas cargas de sardinha, o presigo então apreciado por aqueles que viviam longe do mar e o presságio daqueles pescadores, veio um dia a confirmar-se e a mula arrebentou e deu o seu corpo à terra.

De tantas vezes que dizia “bota p’r’á mula”, que o nome do patrão pegou e na Póvoa, só era conhecido de o “bota p’r’á mula”. Agora quando no céu os cúmulos apresentam, um quase desenho de um almocreve com a sua mula, a catraiada e todo o mundo diz:

  “lá vai o ‘bota p’r’á mula’ levar sardinha às estrelas”

 

                                                       LUÍS COSTA

 

 

 

        SERRE-SE  ESSA  VELHA

 

Hoje é quarta-feira, não uma das vulgares quartas-feiras que ao longo das cinquenta e duas semanas se encaminham durante o ano. Estamos a meio da Quaresma, tempo de reflexão, tempo de oração. Mas hoje o dia não nos proporciona um estado de espírito contemplativo. É sim, um daqueles em que a alegria, a boa disposição nos faz esquecer por umas horas o tempo que resta e nos acompanhará até à Páscoa da Ressurreição.

Se para uns, é uma quarta-feira de folga, de brincadeira, que dá azos à boa disposição e até, para alguns um dia de esperança, para outros é dia de zanga, de impropérios, de ameaças.

Anoitece, um grupo de jovens, e não só, está a reunir-se, no Largo do Correio, para a brincadeira, à espera dos mais retardatários que ficaram de aparecer, logo que o relógio da Câmara badalasse as nove horas da noite. Já se ouvem os seus cantares e, como combinado trazem, sustido sobre os seus ombros, como um andor na procissão, o estrado em que se vê a representação duma velha encarquilhada, nariz adunco, saia pelas costas, servindo de protecção ao frio cortante do quase final do Inverno e na cabeça um capuz, figurando uma velha bruxa, das que pelas noites de lua nova, se acavalam numa vassoura e percorrem o sideral.

Está tudo em ordem, e o maioral, isto é aquele que dirige o cortejo, deu ordem de marcha para percorrer as ruas da Póvoa, e com a sua alegria exultante, principiar os seus motejos.

O grupo segue em à direcção à rua Tenente Valadim. Há por ali locais onde se pode dar largas à boa disposição e boa alegria às zombarias, mas no catorze, não convém demorar muito a estada e os remoques, pois pode haver alguma coisa muito desagradável.

Sigamos em frente, e vamos até à casa da do Trinta. Acompanhados do barulho de da percussão de paus em latas velhas sai o motejo :

                    SERRA ESSA VELHA

                    EM CIMA DUMA DA TINTA

                    QUEM VAI A SARRAR

                    É A VELHA  DO TRINTA

 

Então. como nos anos passados, abre-se o postigo e de lá como sempre  desde que nos conhecemos, aparece a simpática velhinha, duas carradas de anos bem puxados,  que nos acolhe :

 

- Vinde cá meus meninos. Tendes aqui, como sempre, castanhas e vinho. E para o ano, cá vos espero. Comei e bebeu à vontade, que “inté” gosto de vos ver todos os anos. Já sabeis, a tia do Trinta não é “com’ós” outros.

 

De facto, os outros, só não nos chegavam a roupa ao pêlo, porque nós “á pernas para que vos quero”!

                               

 

 

            Mas teve que ter um fim, e neste ano a tia dos Trinta deu “a alma criador” e agora e início do cortejo “Serra essa velha”, passou a ter princípio noutras paragens das ruas da Póvoa, desde o Ramalhão à Lapa, desde a praia até Coelheiro, de Norte a Sul, de Nascente a Poente, e do postigo da tia do Trinta, a simpática velhinha já não pode dar-nos castanhas e vinho, e lá do etéreo céu, se é que nos vê, deve abençoar esta alegre rapaziada, que sempre aproveita o que de bom tem a vida, divertindo-se, pensando que “tristezas não pagam dividas”.

 

                                            LUÍS COSTA

 

 

 

                         

                 

  

            

               

   

 

publicado por Varziano às 19:52

                  PASSEIO  ALEGRE

 

Gratas são as recordações que tenho das manhãs dos domingos soalheiros de inverno, enquanto se esperava pelo missa do meio-dia, celebrada pelo saudoso Padre Pontes, na primitiva e então inacabada igreja de São José de Riba Mar, delineada pelo arquitecto Moura Coutinho, que chegou a apresentar um grandioso projecto para êste passeio, prolongando-o desde a Meia Laranja, na entrada para o pequeno paredão, única defesa da baía, onde arribavam os barcos para despejar no extenso areal a sua preciosa carga do bom e fresquinho peixe, até pelo menos creio que à casa do “galo”, em frente à esplanada majestosa mansão, que ainda há pouco foi sacrificado à senha do camartelo do progresso.

Se o projecto tivesse ido avante, hoje a Avenida dos Banhos não nos apresentaria um muro de cimento, com avantajados apartamentos, quase a beijar o céu e onde os alicerces desses monstros ao mesmo tempo que conquistaram alturas, poderão, pode dizer-se, refrescar os pés nas salsas ondas que a língua da maré, pelo menos nos tempos de borrasca, tempos de marés vivas, “esbordam”, ultrapassando os pequenos obstáculos de “figurados bancos” e se espraiam pelo asfalto do arruado.

Na década de 30/40 do século que findou era então frequente, logo que o Sol principiava a aquecer o ambiente nas manhãs de Domingo o então picadeiro, isto é o espaço que ia desde a Meia Laranja até à Esplanada do Carvalhido, como a recordar o verão ido, encher-se de animados passeantes que, naquele “vai e vem”- dizia-se “como estando a tirar água à nora”- por ali circundavam num aquecer os pés e saboreando o cheirinho do ar fresco temperado pelo salitre do mar e o odor do iodo das algas.

Era rapaziada mais nova e as meninas que, nostalgicamente, assim recordavam os dias e noites dos meses de veraneio, dias e noites por vezes enregelantes pelas cortantes nortadas que o senhor vento vindo lá dos lados de Cedovem, obrigavam a um enroupar mais quentinho. Mas isto era no Verão, principalmente no mês de Agosto ( para mim os melhores meses de veraneio na Póvoa, são o mês dos Santos populares, o de Julho e o de Setembro ) meses mais calmos de onde, praticamente, as nortadas andam arredias.

Na Primavera e no Outono, com dias soalheiros era bom passear naquele picadeiro, saboreando as réstias de Sol, sem a confusão e o bulício das muitas gentes e era por ali que encontrávamos velhos amigos e até recordávamos outros que a parca ceifou.

Mas não é de nostalgia que tratamos hoje, e como “tristezas não pagam dívidas” ,  viremos a página e passemos a outro capítulo.

Na foto que acompanha esta crónica ressaltam alguns elementos já desaparecidos e outros ali representados estão como inicialmente foram projectados. Estão nestes caso o Guarda-Sol e o Diana Bar, bem como a própria Avenida dos Banhos, vedada do areal por extenso banco de encosto aqui e além interrompido para dar passagem à praia, por uma meia circunferência com bancos e os postes de iluminação e que agora tem os seus passeios mais largos, com sacrifício dos citados Guarda-Sol e Diana, sem bancos de encosto, que dão caminho às areias. 

Dos desaparecidos contam-se o coreto de cimento, entre as placas ajardinadas do Passeio Alegre e a casa de gaveto entre o Passeio e a Avenida dos Banhos e ao seu lado o famoso Café Ribeiro, também conhecido pelo café da “Libânia”, formando gaveto com a rua Dr. Caetano de Oliveira.

Também se pode ver a casa do Dr. Caetano, ocupada ao tempo da fotografia, pelo seu filho, o oftalmologista com o mesmo nome do pai, Dr. Caetano de Oliveira, pai do meu prezado e meu muito amigo Zeca Caetano ( era assim que o tratava ) e que há já longos anos que nada sei dele. A última vez em que nos encontramos, era Director do Sanatório, no Caramulo e, se ele ainda se “encontrar neste caminho de recordações, daqui lhe mando um forte abraço”.

Hoje, como sabemos, neste local foi instalado o moderno edifício da Sopete, mas esta crónica não é para lembrar coisas de agora mas de tempos idos.

Como disse, aos domingos de inverno e não só, tanto a Meia Laranja como o café da Libânia, era ponto de encontro para uma agradável cavaqueira, não só de gentes do mar como até dos chamados “peixes de coiro”.

Vou principiar pela Meia Laranja, local mais propício a juntar o pessoal do mar. Sentados nuns toscos bancos com costas de pedra, era vulgar vermos velhos pescadores entretidos com os seus dizeres. Ali uma personagem raro faltava. Utilizando o seu velho meio de transporte que a sua invalidez locomotora o obrigava a usar, lá não faltava o velho mestre escola que ensinou as primeiras letras a muitas gerações de poveiros – o professor Quilores.

Já no Ribeiro juntavam-se, talvez possa dizê-lo, os mais intelectuais, não faltando aquele que para todos nós, afirmo-o eu, era e é o maior poveiro de todos os tempos – António Santos Graça.

O café da Libânia, ou Ribeiro se assim preferirem, era um local ideal para dois dedos de conversa. Abrigado as nortadas, exposto ao Sol, sentados ou de pé, tinha uma frequência fiel. Possuía todos os requisitos para passar uma manhã agradável e de franca convivência e ainda tinha fama o seu cafezito, considerado como o mais saboroso entre todos os estabelecimentos congéneres poveiros. Segundo constava, a Libânia era dona de um segredo para lhe dar o sabor que não revelava ciosamente.

Ora, a minha mãe, era a enfermeira do consultório do Dr. Caetano, paredes meias com o café. Com vontade de saber o segredo, tanto insistiu coma sua amiga Libânia que ela acabou por revelar-lho. Era nem mais nem menos do que lançar na cafeteira do café de saco, UM RABO DE BACALHAU !... e era, dizia ela, o segredo que lhe dava o bom sabor. Se era assim, não sei mas o que sei é que há muito boa cafezeira que junta à saborosa bebida, UMA PITADA DE SAL!...

E para terminar por hoje, vou contar um episódio, quase anedótico, que se passou à porta do consultório do Dr. Caetano. Um casal de lavradores que nunca tinham visto o mar ficaram deveras admirados com o espectáculo para eles inédito a ponto da exclamação :

 

: Ó MARIA, QUE “POCHA” TÃO GRANDE!...

 

Braga, 23 de Abril de 2007

                                                          LUÍS COSTA

Email: luisdiasdacosta@clix.pt

Email: luisdiascosta@sapo.pt

www: bragamonumental.blogs.sapo.pt             

 

publicado por Varziano às 19:45

       O  SEU  A  SEU  DONO   

 

 

Por mais que se “bata no ceguinho”, a asneira parece que veio para ficar. Por mais “voltas que se lhe dê”, de nada tem valido, pelo menos para alguns, o conselho e afirmação de que DE e DO, tem um significado diferente, no caso que vamos analisar.

 

Ora, pelo envelope que ao lado se vê, as próprias entidades com responsabilidade não foram ainda, até hoje, devidamente esclarecidas. Será por desconhecimento ? Será por teimosia ? Ou será que o novo acordo ortográfico ultimamente aprovado assim o aconselha ?  

 

Vejamos : quando se pronuncia numa frase DO dá-nos a impressão, por vezes, de DONO, PROPRIETÁRIO, enquanto quando nos referimos a DE, nos surge também por vezes, o significado de LOCAL, como é o caso.

 

Assim, quando queremos indicar uma terra, tanto podemos indicar DE ou DO. O sentido da frase é que indica a maneira de ortografar. Não cabe na cabeça de ninguém que escreva, por exemplo cidade do Porto do Porto,  Póvoa do Lanhoso, Póvoa do Vieira ou Póvoa do Santa Iria. Ao se escrever uma direcção assim, fica-se com a impressão que se refere a uma posse, neste caso de uma terra, cuja propriedade recai sobre um Clube. É certo que, para esses clubes, seria grande benesse ser proprietário de uma terra, de uma povoação pois não teriam de recorrer aos benefícios das federações ou auxílio dos mecenas. Os Presidentes dos Clubes seriam, logicamente, os Presidentes das Câmaras.

 

Bem a propósito, este pobre arrazoado, ao facto de apesar das inúmeras vezes  que o velhinho Comércio tem chamado a atenção para a direcção ser PÓVOA DE VARZIM e não como aparece muitas vezes, como Póvoa DO Varzim. As recomendações tem, para alguns, caído em “saco roto”! Para aqueles menos esclarecidos a maneira de se grafar DO pode levá-los a julgar que o dono da nossa terra é o glorioso Varzim. Ora a Póvoa não é do VARZIM, a Póvoa é DE Varzim, o clube alvi-negro é que é da Póvoa DE Varzim !!!

 

Portanto, Senhores do Correio, “tirem os cavalinhos da chuva, podem constipar-se”, e mandem concertar o carimbo, substituindo o DO pelo correcto DE, a não ser que a digna administração não possa suportar a ENORME despesa da rectificação !!!

 

Se assim é, parafraseando um cronista do Diário do Minho, e não de Minho, “boa vai ela” !!!

 

Braga, 2 de Fevereiro de 2008 – DOMINGO GORDO

 

                                                                            LUÍS COSTA       

 

publicado por Varziano às 19:40

M  E  M  Ó  R  I  A 

 

                             A PROPÓSITO DE RABANADAS

 

Há dias em conversa com o Neca, meu irmão, veio à baila o Leonardo e as suas rabanadas. Falamos dos velhos tempos, mais velhos para mim do que para ele e, foi com espanto que ele ficou a saber que o estabelecimento do Leonardo no Largo do Castelo, ou forte de Nossa Senhora da Conceição, tinha origem um pouco mais remota do que o que ele julgava.

 

Pensava que a fama do Leonardo tinha partido daquela casa, e logo julguei que “como ele por certo muitos poveiros erradamente assim supunham”. Ora, aqui estava um bom pretexto para uma crónica de MEMÓRIA. Dito e feito cá estou pronto para elucidar, sem o fim de lição, aqueles mais jovens que eu, sobre um passado já um pouco longínquo da Póvoa do Mar.

 

Sabemos, ou julgo que sabemos, que o Leonardo era filho do Zé da Mata, um conhecido comerciante de mercearia e vinhos, ali ao Norte, na rua Elias Garcia ( será este o nome da rua ?), que dava acesso,  pelos quintais, à avenida dos Banhos, já quase ao chegar ao Penedo de Coim, casa que primava pela bom “verdasco de São Torcato”, que tinha o mérito de ficar longe das vistas daqueles que certamente também gostando da boa “pinga”, sempre não se lembrando que tinham “telhados de vidro”, estavam à espreita, para “mal dizer” dos “habitués” do Zé, que pelas traseiras da casa, entravam e saiam sem serem, julgavam, notados.

 

Mas a conversa não é sobre o Zé da Mata, muito embora, esta casa, pelos que por lá passaram, e eu fui um deles, dava “pano para mangas”. O Leonardo, as rabanadas, o estabelecimento de comes e bebes, é que interessam para esta pobre MEMÓRIA.

 

Principiemos aí pelos anos vinte do passado século. No gaveto formado pela rua Tenente Valadim e o largo que vai dar ao porto de pesca, capitania e à rua Cidade de Braga ( frente ao Casino ), existia então uma casa de pasto, conhecida pelo nome atribuído ao seu proprietário, o GASPAR DA MARIQUINHAS. Este senhor, pai do falecido amigo Andrade, um notável artífice de ouro, muito mais velho que eu mas que sempre alinhava nas “patuscadas”, certo dia, (não posso precisar se já existia a casa do Gaspar ou se foi nessa altura fundada) fez o Gaspar uma sociedade para exploração do restaurante com o bracarense Inácio de Macedo que em Braga era o proprietário do Restaurante Inácio, no Campo das Hortas.

 

Seguiu o estabelecimento de “vento em popa”, mas em determinada ocasião, ou por cansaço ou por outra qualquer razão que desconheço, foi passada a exploração ao Leonardo. Assim principia o genial inventor das RABANADAS e do COSIDO POVEIRO, a sua senda no negócio que dia a dia mais rentável se tornava graças, possivelmente, às suas paredes meias com o Casino, que pelas 4 horas da madrugada fechava, e os funcionários da banca e, por certo alguns jogadores iam, os primeiros, saciar o estômago e, os segundos ou refastelarem-se com os pitéus da casa, gastando   algum do que tinham sido bafejados pela sorte, ou afogar, em “canecos”, a sua “mala-pata”. Também por lá andei.

Como vemos o negócio corria o que fez como logo aparecesse quem procurasse apanhar alguma coisa do “bolo”. E assim foi. Um finório espanhol, creio eu, apareceu ao Leonardo propondo-lhe entrar como sócio e entrar com certa “massa” para inovar o restaurante. O Leonardo, na sua boa fé, era fácil de levar, aceitou aquilo que julgaria que era um maná.

 

Mas, em linguagem militar, “o tiro saiu-lhe pela culatra”. Tempos depois, por finais dos anos trinta, o sócio espanhol, consegue tomar as rédeas do restaurante, e acabou por correr com o seu sócio. É então que o Leonardo da Mata, resolve instalar-se no tal local que, muitos julgam ter sido o primeiro onde, pelos anos quarenta se achava.

 

Aquele largo nem sempre apresentava o aspecto de hoje. Até aos princípios dos anos trinta, 1931 ou 32, duas ou três casas enfrentavam a rua Tenente Valadim e as traseiras enfrentavam, por sua vez a porta de armas da fortaleza. Numa dessas casas morava então um meu colega, o Bandeirinha, nome que tinha adoptado do pai. O rés-do-chão dessa casa era ocupado por um armazém de palha. Certa vez, diziam então, uns rapazes tendo apanhado parece que um rato ou um gato (já não sei bem que animal era) ensoparam-no de petróleo e largaram-lhe fogo. O bicho a arder, correu e meteu-se no armazém, e o prédio foi destruído pelo incêndio originado pela má brincadeira. Mais tarde, derrubadas as ruínas, nasceu aquele largo.

 

O negócio do espanhol, parece que não correu bem e, por destino o nosso Leonardo, volta ao seu primitivo local, onde lança a especialidade das RABANADAS e a PESCADA COSIDA Á POVEIRO.

 

Os anos correm, e nosso amigo Leonardo, acaba por passar o restaurante e vai morar por muito perto. Um dia, numa das poucas visitas à Póvoa, fui procurá-lo na rua Tenente Valadim e lá me disseram que nessa manhã, tinha sido depositado no Cemitério da Giesteira.

 

Já agora e porque todos os Natais, na minha casa como nas das minhas filhas, as rabanadas do Leonardo e o cosido à poveiro com molho fervido, são iguarias que nunca faltam, vou dizer-lhes como conheci a receita. Certa vez, numa atribulada viagem de negócios, acabei com uns amigos por ir jantar ao Leonardo. Como tinha sido uma atribulada viagem, como disse, aproveitei para a relatar no Comércio, rematando com elogio as especialidades do restaurante. No verão encontrando-me o mestre da culinária, agradeceu-me a referência e ao mesmo tempo ofereceu-me uma dúzia de rabanadas e ainda confiou à minha mulher a receita. Desde então as RABANADAS DO LEONARDO sempre, no Natal, figuram na doçaria da nossa casa.

 

Braga, 8 de Abril de 2008

 

                                                                LUÍS  COSTA

 

 

publicado por Varziano às 19:37

 

 

TRES  FIGURAS POPULARES POVEIRAS

 

                 Manel Ceguinho, Miséria e Macário

 

Trago hoje aqui três figuras populares poveiras que, pelos anos quarenta do findo século XX, palmilhavam a Póvoa do Mar e que, apesar dos anos que já passaram, ainda retenho na minha mente.

 

“MANEL CÉGUINHO”, como ficou por todos os poveiros conhecido, e como o indica a palavra que segue ao seu nome de baptismo, era um invisual. Morava com sua família ali, na rua Tenente Valadim, numa casa fronteira as traseiras do jardim do Casino.

 

Quase todos os dias via o “Manel”, calcorrear o passeio poente da rua Santos Minho, carregando sobre os ombros um cântaro de água, que ele ia encher na rua das Lavadeiras, hoje Joaquim Martins da Costa, no cano de água que ali existia, e que até deu o apelido do comerciante que deu o nome à rua – Quim do Cano.

 

Sempre bem disposto, e sempre respeitado pelo rapazio, o que é notável, o Manel Ceguinho, lá seguia rua fora, com o matraquear de um pau que lhe servia de bengala, cantando uma lenga-lenga, parecendo que não o incomodava a carga que levava sobre os ombros. Nunca cheguei a perceber porque ia a tão longe da sua casa procurar e carregar com o cântaro.

 

MISÉRIA  , era um pobre, meio demente talvez, que passava o dia, praticamente encostado à parede, a meio da Junqueira, mais ou menos por perto da casa de chapelaria feminina Umbelina Bastos, quase junto da farmácia, creio que “Moderna”, onde pontificava o farmacêutico Lemos, com a sua imponente e retorcida bigodaça, pessoa influente na vida social poveira.

 

Podemos dizer, que ali era um local estratégico onde o Miséria se postava na mira de arranjar uns tostões, pelo menos para sustentar o vício do cigarrinho. Era certo e sabido que ao passar pelo seu quartel general, não se ficasse surpreendido com o pedido: “Menino, dá-me um cigarrinho”.

 

Dizem (vendo a informação pelo preço que a comprei), que o Miséria (o seu nome verdadeiro nunca o soube ), quando adoeceu, levaram-no para o Hospital, e para ele água por certo era um veneno, quando lhe deram um banho, esfaleceu e bateu a bota”.

 

Por fim temos o MACÁRIO SOROMENHO, velho pescador, inválido por cegueira e também de uma mão, acidente que foi o resultado do rebentamento de uma vela de dinamite, meio então muito usado na pesca da sardinha. Este método acabou e muito bem por ser proibido na pesca.

 

Macário, apesar da sua diminuição física, parece que sempre a considerou como um mal menor. Filósofo, poeta, ateu e político avançado, Macário Soromenho, ainda se fazia ouvir nas suas diatribes, por vezes bastante cáusticas. Jamais posso esquecer uma delas quando um sem homónimo publicou uma opinião em verso, ao qual resolveu criticar acabando pela frase : “que te valha o santo do nosso nome, já que eu te não posso valer”.

 

Macário Soromenho versejador repentino, ainda teve a honra de ver alguma das suas poesias em letra de forma, através de um ou outro jornal. Morava na avenida Mousinho, no gaveto formado pela rua de São Sebastião.

 

Não sei qual o seu final de vida. Sei e apenas, que ainda o conheci quando para angariar algum, era comissionista de um fábrica de massas alimentícias do Porto.

 

Eis três figuras poveiras das quais muito poucos se devem lembrar, a não ser qualquer velho rezingão como eu.

 

Braga, 1 de Agosto de 2008

 

                                                     LUÍS  COSTA

   

 

 

                  

 

 

 

publicado por Varziano às 19:28

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