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Ago 08
A NAÇÃO QUIOCA E A ESPINGARDA LAZARINA Os quiocos, povos do centro de Angola, consagravam, a partir de 1830/1840, a sua actividade quase em exclusivo à caça do elefante, pelo valor do marfim das suas presas, alargando por vezes, de acordo com as suas necessidades de caça, às áreas para norte e nordeste, e também para sul e sudeste da sua região. O aumento da procura em outras regiões limítrofes da nação quioca do grande mamífero ficou a dever-se à enorme procura e o interesse comercial resultante de que o marfim passou a ter pelos europeus, e tendo como especial motivo o facto de em 1834, ter sido liberalizado o seu preço o que levou a uma maior procura do marfim pelos caçadores, resultando desta maneira uma maior oferta, e assim os comerciantes portugueses obterem, por conseguinte, possibilidades de lucro mais acentuadas. A caça era então feita através de instrumentos tradicionais – arcos, flechas, lanças, zagaias e armadilhas. Depois, por volta de 1846, os quiocos passam a aliar aos seus métodos tradicionais, uma nova arte na caça – a utilização das armas de fogo - e é então que aparece uma espingarda que deu grande incremento à caça do elefante e por vezes, também à do rinoceronte, aumentando desta maneira os seus proventos, aliás em prejuízo da conservação das espécies. Segundo nos revela Isabel Castro Henriques, no seu estudo “Os pilares da diferença relações Portugal-África séculos XV-XX”, pag. 380 e seguintes, nos princípios do século XIX “as populações do Lovar e do Quibouco… não utilizaram outras armas para além das lanças… e uma espécie de grande faca em forma de coração… e…arco e flechas, mas não têm armas de fogo, mas por volta de 1846, os quiocos caçam combinando as suas armas tradicionais com a espingarda europeia: o animal depois de cair na armadilha, é abatido a tiro…”.(1) Nos finais do século de setecentos, aparece no mercado uma espingarda que se veio a impor como de grande valia. Em nota, no roda-pé descreve Isabel de Castro Henriques essas armas “como muito compridas de pequeno adarme (calibre) e de sílex “ dizendo após “são fabricadas na Bélgica e tiram o seu nome de um célebre armeiro português que viveu na cidade de Braga, (o sublinhado é nosso) no princípio desse século (finais de XVIII e princípios de XIX), cujos trabalhos chegaram a atingir grande fama em Portugal e nas Colónias”. (1) No entanto, na mesma nota de roda-pé, diz que as armas, fabricadas na Bélgica, eram uma imitação grosseira, das perfeitas armas produzidas pelo armeiro bracarense, e eram destinadas aos nativos africanos. Informa também que o nome do fabricante era Lázaro Lazarino, natural de Braga, nome que sempre se encontrava gravado nas armas que então ficaram conhecidas como LAZARINAS. Anota ainda que na “segunda metade do século XVIII, (se) tinha conhecido (em Portugal) uma produção crescente de armas, em particular no Norte do País.” Assim aparecem as armas de um armeiro estabelecido em Braga - Lázaro Lazarino -, cuja presença em Braga, parece imputar-se a esse período, como pode provar-se pelas armas assinadas e datadas de 1783. Explica também que desde o primeiro quartel do século XIX, a indústria de armas, em Portugal, entra em crise, praticamente “devido a factores como o preço do ferro importado, problemas tecnológicos impedindo a produção integral do produto, organização artesanal da produção que impedem qualquer concorrência ( qualidade e preços ) com a produção estrangeira”.(1) Logo, a produção de armas nacionais, não pode satisfazer a grande procura das lazarinas, tanto no País, onde é muito apreciada no Norte para a caça, como no Brasil e Angola. Dada a grande dificuldade de Lázaro Lazarino satisfazer a excepcional procura das suas armas, no final do século XVIII, passa a importá-las da Bélgica, copiadas das suas e nelas grava o seu nome e a sua marca. Lê-se também no estudo acima citado que o mestre bracarense, a principio importou só os canos, e que depois eram acabadas na sua oficina de Braga, mas depois, já na década de 1830, principia a fazer a importação integral dessas armas que, imperfeitas como já se disse, eram mais destinadas à população indígena sendo, por vezes, “africanizadas” e utilizadas “como um instrumento de trabalho eficaz e inovador”. Eram também consideradas pelos imbangalas, como sinal de prestígio. E, como tal, especialmente destinadas aos chefes. As verdadeiras, tinham outro destino, os colonos. (1) Quem era esse artesão armeiro Lázaro Lazarino ? Segundo a opinião do consagrado investigador Prof. Doutor Aurélio de Oliveira, “não deixa grandes dúvidas sobre a sua origem italiana”. Diz que “outros italianos, existiam ao tempo na cidade …”, afirmando depois em nota, “Aqui ( Lázaro Lazarino ) se vem instalar. Não temos dúvida da sua proveniência italiana.” (2). A fama dos artesãos que fabricavam armas em Braga, vinha de longe e o que é confirmado quando “O Grão Mestre de Artilharia de Honever, recomendava, por isso, nas suas Observações Militares dirigidas ao Conde Oeiras” em 1764 – muitos anos antes portanto do aparecimento das lazarinas – “que nenhum outro lugar no Reino parecia mais conveniente e aconselhado para fábrica de armas e munições do que o centro bracarense”. (2) (1) HENRIQUES- Isabel Castro . Os pilares da diferença relações Portugal-África, sec. XV-XX, pag. 380 e segs. (2) OLIVEIRA – Aurélio. “Indústrias em Braga”. BRACARA AUGUSTA. Vol. XLVII, pag. 168, 178 e 181. Braga, 22 de Outubro de 2006 LUÍS COSTA
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RECORDANDO TEMPO IDOS Esta época quaresmal trouxe à minha memória os tempos em que, a mocidade e não só, vivia com entusiasmo e sentimento, a semana Santa e a que a antecede, as cerimónias e costumes – cortejo das rezes, os ofícios das trevas, a procissão do enterro do Senhor, o sábado da Aleluia, a visita Pascal e finalmente a festa popular do Anjo, única então na Póvoa sem comissões organizadoras, mas um só grande, único e popular “pique-nique”, com merenda, bailaricos e jogo da pela, que na segunda-feira então se realizava. Na semana de Ramos a azáfama era grande entre a rapaziada da classe piscatória, esmerando-se cada um por apresentar um trabalho digno de ser apreciado e elogiado pelas pessoas que dariam a sua opinião. Não se tratava de um concurso com prémios mas só e apenas uma habilidade e perícia para mostrar uma coisa que na sua simplicidade orgulharia o que de original os pequenos artífices conseguiam impor. Refiro-me às lanternas que com carinho e muito trabalho iriam tomar parte na procissão da trasladação da Imagem do Senhor dos Passos, que saindo da Igreja da Misericórdia, no sábado à noite, seguia para a Matriz, para no domingo, à tarde – Domingo de Ramos – em procissão solene percorrer as ruas do velho burgo poveiro. Era então a única procissão nocturna que as Comissões da Semana Santa organizavam, pois a do Enterro do Senhor, saia da Matriz na tarde de sexta-feira, e seguida, depois de recolhida à Matriz, do Sermão, creio que do Encontro. Mas voltemos à procissão da trasladação. Era costume, julgo que ainda está activado, os pequenos futuros pescadores, com arte e boa disposição, durante a semana transformarem uma armação de arame, numa obra de arte - as “alinternas”, como então diziam. Para isso depois de dobrarem e redobrarem o arame, ou até apenas canas, davam-lhe a forma de um barco, um farol, um navio, uma casa ou qualquer outra construção que a sua imaginação criativa lhes ditava. Feita a armação recobriam-na com papel de seda, multicolor, e com uma pena de galinha molhada em azeite, inscreviam os nomes e símbolos do seu curioso trabalho. Ao centro da “maravilha” arranjavam o processo de lhe colocar uma vela que a iluminaria durante percurso até à Matriz. E assim o cortejo transformava-se numa alegoria que causava um efeito de deslumbramento numa manifestação religiosa de respeito que, assim se pode dizer, seria uma abertura à semana Santa que se iniciava na imediata segunda-feira. Abria o cortejo religioso um enorme pendão, talvez de veludo, cetim ou até seda, pesado e de difícil sustentação. Cabe aqui mencionar ( para desenfastiar ) um facto que ocorreu, em dia de nortada, não nesta procissão, mas sim em Amorim, na procissão de Passos, que deu origem ao apelo feito por um mesário àquele que aguentava aprumado, com esforço inaudito o grande estandarte, clamando para lhe dar ânimo “ATESA CUMPADRE, Q´A FESTA É NOSSA”, isto é aguenta ao alto, dando azo a que assim entrou na gíria popular a procissão do “ATESA” . Tendo-me desviado um pouco da procissão das “ALINTERNAS”, para usar a expressão popular, volto atrás e para ingressar na da trasladação e isto porque, como disse a abri-la o estandarte ou pendão como queiram designá-lo, tinha e tem bordadas em grandes letras a divisa “S. P. Q. R.” ( Senatus populusque Romanus) o que dizer, fazendo a sua tradução – senado e o povo romano. Bem isto é o que lá está escrito, mas para a catraiada, no seu jeito dá um sentido mais pessoal à divisa, traduzem: “S – senhor, P - padrinho, Q – quero, R- rosca “. Como sabemos no domingo de Ramos é costume os afilhados oferecerem aos seus padrinhos um ramo de flores, que estes retribuem, dando-lhes no Domingo de Páscoa, o folar, que na pescaria era normalmente uma rosca de pão de trigo. Ora para esses miúdos essas letras era como que uma recomendação para não haver esquecimento. Mas havia e creio que ainda há o costume ( há tantos anos, sessenta, que não passo esta quadra na Póvoa ) de, por vezes ou por promessa ou até porque assim pode o nasciturno ter uma protecção celeste, escolherem os pais para padrinhos dos seus rebentos, um Santo, por exemplo São Francisco ou São José, uma Santa ou Nossa Senhora. Ora não podiam estes padrinhos, a quem tinham sido ofertado o ramo, descer dos etéreos céus e dar folar aos seus afilhados. Mas para não haver desgosto e dar mais crença nos santos padrinhos, encarregavam-se os pais, às escondidas, de colocar no altar do santo padrinho o folar, nem sem antes nele indicarem o nome do afilhado. E era vê-los, cheios de orgulho, deixar o adro da igreja e com a rosca enfiado no braço, correr até casa para provar que o seu santo padrinho não se tinha esquecido. Como disse, na tarde desse domingo, realiza-se a procissão de Passos. Nesta nossa ( vossa ) terra tem as procissões uma notável diferença das realizadas noutros pontos do País. Na Póvoa, não faltam os “anjinhos” num figurado luxuoso, bonito e abundante que chega por vezes a exceder um número que até é repetitivo. Mas isto é devido às promessas de tantos que nas horas de aflição recorrem ao favor divino. E assim, entra-se nas Cerimónias da Semana Santa, que a partir de terça-feira terá lugar, principalmente na Matriz, com os ofícios de Trevas, o sermão do Encontro, a Aleluia e a procissão, no domingo, da Ressurreição. Mas o escrito de hoje já vai longo, e quanto a esta Semana, a Maior, e porque no “O Comércio” o espaço a ocupar tem de ser bem doseado, deixo para outro dia relatos do que era essa semana nos meus tempos da Póvoa. Braga, 11 de Março de 2006 LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt
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O ENTRUDO NA PÓVOA HÁ MAIS DE SETENTA ANOS Quem se lembrará do Entrudo na Póvoa há mais de setenta anos ? Certamente qualquer velho rabugento como eu se lembrará, com saudade, desses tempos da nossa mocidade que, como diz a canção “… vão e não voltam mais!”, dias fugazes de folgança que antecedem o período Quaresmal, em que, contrastando com ele, a mocidade se ia espraiando numa alegria esfusiante aproveitando para esquecer, momentaneamente, os tempos que sempre e vindo de longe, eram de apertos e sacrifícios, apanágio da raça de heróis que “…que deu mundos novos ao mundo…”. Nesses três dias, um outro bailarico. Naqueles de mais posses, o costume da diversão estava nos chamados “assaltos” , não no verdadeiro sentido da palavra, de provocar qualquer dano, mas sim levar a “folgança”, às casas onde, se possível, tivessem a estadia “meninas casadoiras”, já que àqueles arrumados pelos laços do matrimónio, os “assaltos”, serviam apenas para desapertar os “cordões à bolsa”, e preparar a recepção aos assaltantes que, por vezes transportavam e levavam algumas “munições” comestíveis, mas a mor parte das vezes eram os que aguentavam com a despesa, o que faziam de bom grado os assaltados, pois, quem sabe, era meio caminho andado para descontar a “letra” que tinham em carteira – algumas já um pouco quase fora do prazo. Esses serões eram animados por uma grafonola, que ia lançando, pela enorme campânula, as modinhas em uso – os tangos argentinos, as valsas, as marchinhas, o mexido “fox”, a voz de Menano, e outras modas que tais. Ainda vinha longe a era da rádio ou televisão e para o indispensável bailarico, os discos, alguns já riscados e roufenhos pelo uso desmedido, eram a solução pois as modernas “barulhentas bandas de hoje”, nem sonhos eram. Mas também para os “assaltados” essa diversão servia para recordar tempos idos “os tais que não voltam mais”. E para mim estou a recordar um que, apesar de muito miúdo jamais esqueci e que foi à casa de uma senhora brasileira, cuja residência era ali nos princípios da rua Almirante Reis, a Dona Joaquina Osório, conhecida entre os folgazões por Dona Joaquina Urraca e a quem queriam atribuir uma paixoneta pelo elegante Tenente Malheiro. Mas o Carnaval na rua era o que mais dava nas vistas. Tinha por palco a velha Junqueira. Ainda não tinha sido proibido o uso das máscaras feitas de massa de papelão. Desde São Roque até ao “ferro engomar” – conjunto de edificações que ao longo dos anos limitam a nossa principal via comercial e por diversas vezes tem estado nos planos camarários para ser derrubado – um mar de gente dava azo à sua folia e quem ganhava com o negócio era o estabelecimento do Baldomero, casa especializada na venda de artigos carnavalescos, desde as horríveis e assustadoras “carantonas”, às bisnagas de perfume - mais tarde proibida a sua venda pelo uso indevido de éter -, aos pozinhos das comichões, aos engarrafados fedorentos, às serpentinas, ao confetti, aos pozinhos de espirrar. E a festa de rua só terminava ao escurecer. Depois a festa, no domingo gordo bem como a tradicional terça-feira, passava à noite, para o velho Garrett onde os galãs na plateia lançavam para as frisas e camarotes, os rolos de serpentinas, e eram correspondidos, muitas vezes, pelas elegantes meninas pela remessa de rebuçados, embrulhados em vistosos papeis coloridos que escondiam, em vez de açúcar, um amargoroso paladar. Uma, que outra vez, a empresa da velha casa de espectáculos, levantava parte da primeira plateia, para os pares bailarem e se divertirem. Houve um ano em que se propôs organizar um concurso entre as jovens meninas com vestidos inteiramente confeccionados com papel e os prémios eram atribuídos pelo publico assistente. O primeiro prémio, nesse dia de folia, foi então uma linda boneca de porcelana. Durante muitos anos essa boneca adornou a travesseira da cama da minha saudosa irmã. Para findar estas minhas recordações e para as amaciar um pouco, vou dizer que nesses já tão longínquos dias de Carnaval, ao domingo, no Garrett, havia, como de resto durante todo o ano “matinée”, mas no Domingo Gordo, domingo de Carnaval a minha tia Maria, só nos deixava ir ao cinema depois de uma hora de adoração e desagravo ao Senhor na Matriz, pois dizia ela que nesses dias Jesus sofria muito pelos pecados que a humanidade fazia e com a nossa adoração e desagravo os perdoava. E nós um tanto contrafeitos achávamos essa hora interminável. Braga, Fevereiro Carnaval de 2006. LUIS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt
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UMA ANTIGA CASA POVEIRA DE FOTOGRAFIA Ao rebuscar numa antiga arca onde foram guardados, pelos antepassados da minha mulher, vários documentos, livros antigos, e jornais encontrei por entre um montão de velhas fotografias com mais de um século, uma que despertou a minha curiosidade. Por tradição sei que houve no final do século dezanove um “atelier” fotográfico na Póvoa, propriedade da Família Evaristo, nome creio que tinha a designação de : FOTOGRAFIA EVARISTO, onde trabalhava o já há anos falecido amigo José Neta, e que a tomou, mais tarde, nos princípios das décadas iniciais do século passado até meados desse, com o nome de FOTOGRAFIA JOSÉ NETA e que hoje ainda perdura não sei se com o mesmo nome. Foi aqui que dei os primeiros passos para o mundo do trabalho. Apenas com dez anos, tinha acabado de fazer o exame do segundo grau em Junho ou Julho de 1932, e íeis-me ali a aprender o ofício de fotógrafo, que não resultou. Mas ainda recordo a esposa do Zé Neta, a Dona Laurinda, a ler-lhe, enquanto ele retocava com habilidade, desfazendo as rugas dos fixados nas grandes reproduções fotográficas ( ele apesar de grande artista na arte não sabia ler ), o Jornal de Notícias, de entre as quais muito apreciava a secção “Pelo mundo”, jornal já então muito popular e apreciado muitas vezes pelas notícias “bombásticas” que apresentava. Sei também que existiu uma na Junqueira, cujo nome não tenho a certeza mas que me parece ser o de fotografia MARQUES, e segundo as minhas reminiscências de então, julgo estar ligada ao nosso bem recordado e um dos intérpretes do filme de Leitão de Barros, “ALA ARRIBA”, João Fernandes (?), “baratinha” , cujo nome julgo ser este pois a minha mente já cansada talvez tenha perdido o seu verdadeiro nome. Para além destas duas casas, existia a Fotografia de Avelino Barros, na rua de Santos Minho, ( recordado há dias por uma reprodução neste jornal ), mesmo de frente à casa da minha avó onde passei os meus tempos de juventude e mocidade. Lembro- -me perfeitamente do seu estúdio e parece-me estar a ver a sua galeria na entrada principal, na Santos Minho, onde estavam expostos fotos que tinha tirado ao pescador e sua mulher com os aprestos para ir para a faina do mar, um dos seus trabalhos amplamente divulgados em jornais e revistas da época e os retratos premiados. Recordo ainda e, com saudade, pelas brincadeiras aí efectuadas, o corredor que dava acesso à galeria de exposições na Junqueira, mesmo ao lado da casa daquela desmemoriada, talvez louca, que dava pelo nome de Maria do Sol (?), que sempre ao sair da sua casa a trancava de tal maneira que depois dificilmente entrava nela. Lembro também a impressora tipográfica, com a precisa caixa de caracteres, que serviu para que o filho Armando Barros, precocemente falecido, juntamente com o meu primo José Alfredo Campos Costa, editarem um pequeno jornal, da qual saíram apenas dois ou três números. Ora voltando, como sói dizer-se, á “vaca fria”, isto é à velha fotografia do bracarense Augusto Eduardo Pereira Lobato de Azevedo que, talvez nas suas férias de verão na Póvoa, no último quarteirão do século XIX, se fez fotografar num antigo fotógrafo poveiro, conforme se comprova pela foto que ilustra êste artiguelho, pois na parte posterior indica : ANTÓNIO JOSÉ DE BARROS – PHOTOGRAPHO – PÓVOA DE VARZIM. Ao afirmar que deve ter sido retratado naquela data referida, baseio-me no facto de este bracarense ser avô da minha mulher e o meu sogro, nascido nos finais desse século quase que nem chegou a conhece-lo, pois o seu pai morreu muito novo e ainda dentro do século XIX. Haverá alguma relação entre o fotógrafo António José de Barros e Avelino Barros ? Será que este tenha sido seu familiar ? Dos cinco filhos que conheci de Avelino Barros, a mais velha, que era o braço direito do pai nos seus trabalhos, casou por volta dos anos de trinta e deixou a Póvoa. A Céu, faleceu muito nova bem como o Armando. O Antero, meu companheiro de brincadeiras e escola primária, que foi gerente do banco Pinto Soutto Mayor na Póvoa, faleceu também há dois ou três anos. Resta a Ceiça que se ainda andar por êste vale de lágrimas que é a nossa vida vendo transpor os portais da eternidade os nossos entes e conhecidos queridos será quem me poderá dar uma pista e assim responder à minha pergunta. Se dos descendentes de Avelino Barros já nenhum restar só talvez, através dos assentos paroquiais agora depositados, fazendo parte do Arquivo, na antiga casa do Lima, fronteira ao Museu da Póvoa, se poderá fazer luz sobre o fotógrafo António José de Barros. Dada a minha impossibilidade de me poder esclarecer, deixo esta pergunta a um dos investigadores póveiros, que os há e bons, caso o assunto lhes interesse. Braga, 22 de Março de 2006. LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt Incluso : fotocópia da fotografia a que alude o texto.
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A SEMANA SANTA DOS MEUS TEMPOS DE MIÚDO É velho o aforismo RECORDAR É VIVER, e eu como estou na idade de recordar o que então vivi, para ver se é certa a máxima, vou ver se consigo viver, de novo, os meus tempos de juventude passados nessa encantadora cidade e princesa das praias de Portugal. Por volta das décadas de vinte/trinta do século que ora findou, nessa Semana Santa ocorriam manifestações religiosas na Póvoa que ficaram gravadas no meu computador cerebral, que falha muitas vezes, atingido pelo vírus do esquecimento dos dois carros e um lustro de anos. No entanto depois de uma lavagem pelo anti-virus, ainda consegui recuperar alguma coisa que, se tiverem a paciência de me aturar, narrá-las-ei. Assim no primeiro dia dessa semana, segunda feira, nada me ocorre digno de menção. Já o mesmo não direi para os dias seguintes, pois estou a ver-me na Matriz para assistir aos ofícios de Trevas que se seguiam, parece-me, por três dias – terça, quarta e quinta. “Cedo nos preparamos com um mascoto de pau ou martelo normal, pois na altura própria do ofício religioso, com os paramentos que ornam as paredes do templo, as sanefas, tudo recoberto de panos negros, altares despidos, tapados encobrindo as imagens, num luto pesado, a iluminação apagada esperamos as Trevas, que depois de apagadas todas as velas do grande candeeiro, seriam assinaladas pelo matraquear dos massetes, mascotos ou martelos com que rapaziada, furiosamente, investia no tablado do chão. E uma ordem é dada pelo chefe da malta :- Mas é só, neste momento que a matulagem entra no templo. O adro é que nos vai servir de entretenimento, jogamos a “pincha”, o “fica”, a barra e tu, que está de plantão vai dar uma espreitadela a ver quantas velas a “mãozinha” que sairá do púlpito tem ainda de apagar. :- Faltam ainda quatro, ainda temos tempo para uma “pinchada”. Continuamos a jogar a pincha, ou vamos ao “fica” ? Qualquer um, o que é preciso é passar o tempo. :- Vai lá ver quantas faltam ? :-Só duas. :- Então toca a ir lá para dentro e escolher o lugar onde uma pescadeira estiver alapada, mas com uma saia grande e com os chinelos ao lado.” Agora volto aos tempos de hoje, para explicar todas estas manobras. É que os malandrecos, no qual me incluía, tinham levado bem escondido nos bolsos das calças, junto do martelo, uns dois ou três pregos e com a escuridão quem pagava era a saia da pobre crente que ao levantar-se tinha a saia presa ao chão e os chinelos, na mesma. “:- Toca a fugir, (lá estou eu outra vez nos tempos da malandrice) senão ainda levo uma estalada. Desta escapei, mas amanhã, cá estou de novo !” E era assim que os malandrinhos de então assistiam e gostavam do ofício das Trevas. Convínhamos que para nós, assim, a sagrada manifestação nada tinha de sagrado, era apenas uma brincadeira, agora digo “de mau gosto”, mas naquele tempo, quem nos podia emendar ? O polícia Forte, ou o seu chefe Pontes ? Não, com os rapazes, diziam, “nem o diabo quer nada com eles!” A solução do abuso-brincadeira, porque estava a passar “fora das malhas”, encontrou-a a Comissão da Solenidades, mandando colocar ao centro do templo um quadrado limitado por quatro bancos preguiceiros, dos usados para a doutrina, e dentro desse quadrado, era o lugar para a rapaziada. “Hoje é quinta-feira ( lá volto a viver os tempos passados) e estou na Praça do Almada, no terreiro fronteiro à Câmara. Os marchantes da vila primam, em cortejo mostrar o gado que será sacrificado, amanhã “dia de verde”, para a grande matança da Páscoa. Com os chifres enfeitados com bonitas fitas bi-colores, levados à soga por belas e coradas moçoilas, com vestimentas características das lavradeiras da região, lenço de cores berrantes, traçado entre os seios tumefactos e o pescoço, onde brilha grosso cordão de ouro com uma libra esterlina, seguem os mais belos e possantes bois, que, de seguida terão por fim o matadouro. E é cada bicho de se lhe “tirar o chapéu”, pesando qualquer deles umas boas dezenas de arrobas. Os marchantes seguem ao lado, cada qual esperando para o seu representante, o elogio do melhor e mais possante. É um cortejo, ao mesmo tempo folclórico e etnográfico.” Continuará hoje ainda essa tradição do cortejo dos bois da Páscoa ?. “Na sexta-feira, á tarde, o dia Maior da tragédia religiosa, é na Sala de Visitas que vou assistir à passagem do féretro do Senhor, que é organizado na Matriz. Num completo silêncio e respeito decorre a Procissão do Enterro. Todos se benzem e ajoelham à passagem do esquife do Senhor, que momentos antes, uma ou duas horas, tinham expirado. De regresso ao templo principal da Póvoa, sede da paróquia, preparam-se os fiéis para assistir ao sermão, que encerrará as cerimónias do dia.” À tarde e pelas primeiras horas da noite dentro, lembrando as Sete Estações de Roma, os fiéis percorrem sete igrejas e perante a nudez delas, apenas um quadro religioso lembra a quadra e incita à oração. Chegados ao sábado, um dos dias mais ansiado pela miudagem “também eu arranjei uma campainha para festejar a aleluia. Ela tem lugar na manhã, pelas onze ao meio dia. Apressado, para arranjar um bom lugar, segurando pelo badalo a campainha – não que é pecado tilintar antes da aleluia – sigo para a Matriz. Espero o momento em que é assinalada a Aleluia, e os panos pretos caiem e o deslumbramento das cores vivas ressurge assinalando a ressureição Salvador. E agora sim, já posso fazer tilintar o estridente som da campainha. Acompanhando os cânticos de exaltação do momento, os sinos de todas as igrejas poveiras, estão a ouvir-se e eu como toda a catraiada exultamos de alegria.” E assim aquele sábado era um dia de folgança, é certo que não correspondia à verdade, até que, para estar conforme as escrituras um Concílio transferiu para a noite de sábado para domingo, essa cerimónia. Domingo de Páscoa, “ainda posso ver a procissão da Ressurreição, mas esta porque percorre um trajecto mais pequeno, limitado desde a Matriz até dar uma volta pela Praça do Almada, tenho que me apressar para a ver. E agora depois do almoço de festa, tenho que esperar que o Padre Américo Nilo, venha trazer de visita à nossa casa, o Senhor Ressuscitado, e enquanto ele não vem, no salão de provas da modista Dona Felicidade, os pares de enamorados, dão um pezinho de dança ao som da grafonola.” E quando o Compasso saía da nossa casa em visita pascal era certo e sabido que lá vinha a tia Maria com a frase : “PRONTO, PASSOU A PASCOA” Braga, 15 de Março de 2006 LUIS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt www. bragamonumental.blogs.sapo.pt
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\ A PROCISSÃO DE NOSSA SENHORA DAS DORES A Rua da Junqueira, é um arruado, o principal da Povinha do Mar, que sempre é integrado nas procissões religiosas desta terra, “RAINHA DAS PRAIAS PORTUGESAS”, rainha sim, há só uma, mas Princesas há muitas, como a Princesa do Ave, a Princesa do Cávado ou a Princesa do Lima. Ora, desde que me lembre, houve só um ano em que esta procissão não passou pela Junqueira mas, segundo a tradição oral transmitida pelos meus avoengos, há já muitos anos, mais de oitenta, este arruado esteve interdito às manifestações religiosas, procissões inigualáveis em toda a costa Norte de Portugal. E o caso que as interditou só será conhecido de “de visu” por algum quase centenário. Mas passemos aos factos. Todos os póveiros e não só conhecem a Junqueira como a palma das mãos, conhecem o relógio da Ourivesaria Gomes, que dum lado divide o dia, com é habitual, em duas partes de doze horas e, no outro mostra as vinte e quatro. Esta é uma das curiosidades que ela apresenta, mas há mais. Talvez, nos últimos anos de segunda, ou princípios da terceira dezena do século passado, um poveiro, creio que da família dos “Agulhas”, decidiu tentar a sua sorte nos “Brasis” e rumou até Manaus. Ou porque a sorte não o favoreceu ou por qualquer outra razão que não vem para o caso, resolveu regressar à “terrinha” não sem antes ter, nas plagas amazónicas, conseguido, talvez, uma certa instrução que por certo não tinha levado para aquelas inóspitas paragens. Dado à poesia, às letras, fundou na Junqueira, uma livraria, a “Livraria Académica”, que depressa se tornou um lugar de tertúlia, para os académicos de então. Já estão a ver que me refiro ao saudoso Ademário Ferreira, poeta que nos deixou alguns poemas e prosador, bom falante, que acolheu, na sua casa com simpatia, os jovens estudiosos. Certamente impregnado do modernismo, resolveu dar um bom aspecto ao seu estabelecimento e transformando a fachada, colocou sob a varanda um motivo que para os puritanos de então era escandaloso – duas sereias – não se lembrando ou até não sabendo que no gótico e até no barroco, elementos mais ousados que este, era habitual nas construções religiosas. Estou a lembrar-me de uma gárgula na ábside da Sé de Braga, ou num modilhão no Convento da Conceição em Beja. Ora esta fachada deu origem à interdição da passagem pela citada rua, dos cortejos religiosos, interdição que acabou por acabar e, voltou a Junqueira a ser itinerário normal desses cortejos, interrompido apenas um ano, por volta dos finais da vintena do século passado. A família Costa, como todos os póveiros, tem muita devoção com Nossa Senhora das Dores, sendo que familiares eram até zeladoras do seu altar. O meu tio Zé Costa, estando muito doente, manifestou o desejo de ver a procissão da Senhora que sempre se faz no segundo ou terceiro mês de Setembro. Assim os seus familiares, principalmente sua irmã Maria, conseguiu com que a Irmandade consentisse que nesse ano o cortejo religioso fizesse um desvio e, alterando o seu trajecto, optasse pela rua Santos Minho em vez da Junqueira. E assim aconteceu. Agora cabe-me a vez de falar na minha intervenção no ano seguinte. Tinham feito promessa, afastada a doença, de que o quadro bíblico mais disputado (os intérpretes eram sempre marcados de ano para ano) seria composto por seus familiares. Era esse quadro “A Fuga para o Egipto”, sempre batido nas chapas dos “turistas” de então nos rudimentares caixotes, precursores das modernas digitais. Com a cura do doente, atribuída à intercessão da Mãe de Jesus, havia que cumprir a promessa. Mas primeiro que tudo tinha de ser resolvido o problema de obter a cedência daqueles que já estavam destinados desde o ano anterior. Para isso tinha de se recorrer a uma grande influência pois o quadro, como acima se diz, era muito disputado. Valeu de novo a zeladora, que conseguiu demover os até então já nomeados. Agora havia que escolher quem seria o par que interpretaria o quadro e, como os filhos do ex-doente, pela sua idade não serviam, recorreram aos sobrinhos cuja idade era a ideal, sete e oito anos, eu e a minha irmã Isabel. Resolvido este óbice, outro teria que ser resolvido, nada mais que arranjar uma jumentinha branca, para transportar a Mãe e o filho. Como os seareiros de “Abremar”, é assim que se referiam no seu linguajar à freguesia de onde vinham todas as manhãs, e transportando no dorso dos seus pequenos animais as novidades que as suas terras produziam, para o mercado diário da Póvoa, facilmente poder-se-ia arranjar o pequeno animal e até, por certo, ficavam contentes com o favor prestado. E assim, naquele distante ano, lá figurei na procissão como São José, e a minha irmã, em cima da jumenta, abraçando a figura do seu filho, o Deus Menino. Para a figura do anjo anunciador foi escolhido creio que Lino Maio, um rapazito, que estava em férias na nossa casa com os seus pais, que labutavam no Rio de Janeiro. O quadro bíblico da “Fuga para o Egipto” nesse ano causou sensação e estranheza, porque o Nossa Senhora não levava a tradicional cabeleira, mas sim o cabelo cortado “a lá garçone”, enquanto que anjo e o São José suavam as estopinhas debaixo dos vestidos de veludo e as cabeleiras postiças e o anjo ainda tinha a sobrecarregá-lo as ASAS. Como o percurso era longo, já na Avenida Mousinho, cansado pedi à Nossa Senhora que trocasse comigo o seu transporte, mas lá tive que aguentar até chegar à Capela da Senhora das Dores. Desses miúdos de então, estou ainda cá eu e quanto ao Lino, nunca mais soube dele. Não sei se é vivo ou se já ultrapassou os umbrais da eternidade. Tenho imensa pena de não ter ficado com uma foto para hoje mostrar aos meus filhos, netos e bisnetos do tempo em que eu fui de anjinho, figura que me marcou para toda a vida. Braga, Agosto de 2006 LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt Email: luisdiascosta@sapçop.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt
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AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO ANTIGO É vulgar, quando alguém quer destacar uma coisa notável, grandiosa, fora do comum, usar a frase “é a oitava maravilha do mundo”, sem muitos dos que a usam não saberem quais sãos as outras sete e só porque são muito citadas, aproveitam para chamar a atenção para o produto ou coisa que querem assim propagandear, pois partem do princípio de assim levam os mais incautos a julgar por eles que deve ser uma, de facto, maravilha, seja produto de higiene pessoal, de qualquer utilidade, de grandiosidade sejam eles estádios ou monumentos. Ora de um “Manual Encyclopedico para uso das Escolas de Instrução Primária”, organizado por Emílio Achilles Monteverde e aprovado pelo Conselho Superior de Instrução Pública, editado em Lisboa pela Imprensa Nacional, em 1850 ( para não haver dúvidas vou escrever por extenso MIL OITOCENTOS E CINQUENTA ), encontrei entre a vária matéria que então era dada, coisas que hoje espantaria meio mundo, como aconteceu comigo, e muito principalmente os pedagogos. Desse interessante manual que inclui matérias, talvez de cultura geral, nas que não ponho dúvidas que para os dias de hoje seria um absurdo ensinar crianças com definições de geometria, de trigonometria, escultura, gravura, arquitectura, história universal e outras disciplinas quejandas o que seria uma obsessão. Talvez certo estaria naquela época, então já que Portugal se tratava de um estado de supremacia católica, como ainda hoje o é, em que o Rei era decisão divina, fossem administradas aulas “Dos nossos deveres para com Deus”, da Religião, História Sagrada, do Velho e o Novo Testamento, mas convínhamos que para catraios com sete, oito, nove ou dez anos, ou até mais, estas aulas não deveriam ser mais que uma passagem ligeira que facilmente não poderiam atingir os fins que os então pedagogos julgavam. Mas há mais, que hoje, se continuasse esse método de estudo, na primária, clamaria aos céus. Ensinar a miúdos escolas de pintura, geografia astronómica, geografia física e política das várias partes do mundo, literatura portuguesa e até mitologia e biografia clássica, deveria ser uma estopada. Agora só algumas delas são ensinadas no secundário e até outras, nem são dos currículos escolares e, quando muito, em cursos superiores ou especializados. Razão tinha um velhinho que conheci muito bem que afirmava que, muito embora não tivesse estudado pelos manuais do meado século XIX, ainda tinha apanhado o método de ensino do final desse século, que “quando se saía, nesse tempo, com a instrução primária bem feita, poderia considerar-se um doutor”. Vem êste proémio a propósito das revelações que nesse manual encontrei e que me parece que agora, só são nomeadas em enciclopédias e nunca como matéria de ensino principalmente para a classe etária a que se dirigia. Menciona esse já velho manual de mais de cento e cinquenta anos, na parte segunda sobre arquitectura como matéria as SETE MARAVILHAS DO MUNDO ANTIGO, e assim principia por as descrever, não sem antes entrar com o preâmbulo: “Os sete monumentos mais célebres da antiguidade, conhecidos pelo nome das Sete maravilhas do Mundo, são as seguintes : ( l ) 1º As Muralhas e Jardins (suspensos) da Babilónia mandados construir por Semiramis, Rainha da Assíria. 2º As Pirâmides do Egipto, ao sueste do Cairo que foram edificadas (não se sabe por quem) há perto de quatro mil anos, segundo se julga, e serviam de sepultura aos Reis do Egipto. Formam dois grupos: As três maiores são chamadas Pirâmides de Giseth; as outras são conhecidas pelo nome de Pirâmides de Mênfis. (2) 3º O Farol de Alexandria, mandado construir por Ptolomeu Philadelpho, no ano do Mundo de 3670 sobre um rochedo, da pequena ilha de Faro ou Faros, situada à entrada do porto de Alexandria. Esta famosa torre tomou pois da ilha em que se achava edificada, o nome de Faro, que se deu a todas as luzes que se acendem de noite para guiar os navegantes, e hoje são mais conhecidos pelo nome de Faróis. 4º - O Mausoléu ou túmulo que a Rainha Artemisia fez levantar a seu marido Mausulo, Rei de Caria: e desde então se ficaram a chamar Mausoléus aos túmulos que se erigem para honrar a memória dos mortos. Esta Rainha, modelo de ternura conjugal, julgou não poder honrar melhor as cinzas do seu marido do que misturando-as com a sua bebida; e para aliviar a sua dor, mandou edificar aquele túmulo, gastando na sua construção, avultadíssimas quantias. 5º- O Templo de Diana, em Epheso, em cuja construção se gastaram 220 anos; tendo toda a Ásia contribuído para essa despesa. 6º- O Colosso de Rodes, que era uma estátua de Apolo, de bronze, colocada à entrada do Porto de Rodes; era de uma grandeza tal, e tinha os pés sobre dois tão elevados rochedos, que os navios lhe passavam à vela por baixo das pernas. Esta estátua era destinada a um fim útil, pois tinha na mão direita um farol que todas as noites se acendia para indicar aos navios a entrada do porto. Um terramoto a derrubou, e os seus destroços carregaram 900 camelos. 7ª A estátua de Júpiter Olímpico no templo de Olímpia, na Elida. Esta estátua assim como o trono em que estava sentada eram de ouro, marfim e pedras preciosas e de um trabalho e uma elegância admiráveis. De todas estas maravilhas do mundo antigo o que hoje ainda existe, são as pirâmides do Egipto, monumentos notáveis que tem sido objecto de vários estudos que tem revelado muito do que hoje se sabe sobre a civilização egípcia, principalmente devidos a trabalhos iniciados a partir dos meados do século dezanove. Com este meu artigo, se é que assim se possa classificar, julgo ter dado a conhecer, não só as “Maravilhas do Mundo Antigo”, mas como era então o ensino primário no já tão longínquo ano de 1850. Braga, 1 de Março de 2006 LUÍS COSTA Email. luisdiasdacosta@clix.pt www :bragamonumental.blogs.sapo.pt (l).- Os autores estão de acordo acerca do número das maravilhas do mundo, mas nem todos citão os memos monumento. É necessário notar que estas informações são colhidas em 1850, estando hoje desactualizadas. (2) – As pirâmides eram o emblema da vida; a base representava o seu principio e a extremidade o fim.
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A LENDA DO REI RAMIRO Como esta lenda tem sido contada de maneiras variadas, não deixará talvez de interessar o resumo das duas versões dos Livros de Linhagens. A do Fragmento II (Ed. P.M.A. , pag. 180-181) reza do Teor seguinte: Um dia. Abencadão foi a Myer, em “Salvaterra”, raptou a mulher do Rei Ramiro e “trousse-a” para Gaia. Dom Ramiro andava pelas Astúrias: mal voltou, chamou o filho D. Ordonho, o que povoou a vila de Leão e os vassalos; embarcaram-se e vieram surgir em São João da Afurada. Deixando os companheiros escondidos entre as árvores marginais do rio Douro, abalou para uma fonte próxima do Castelo. De manhã, na ausência do Casteleiro que saíra para a caça, a covilheira (camareira) da raptada, Ortiga, indo à água, encontrou-o no disfarce de “mouro doente e lazarado”. Deixou-o beber pelo “Antre” (vasilha), no qual o rei deitou um anel. Quando a rapariga “deu água à rainha”, caiu-lhe o anel nas mãos; incontinente (imoderada) mandou-a em busca do forasteiro. Chegado este interrogou-o – Rei Ramiro quem te trouxe aqui?... Cá o teu amor: e ela lhe disse que vinha a morrer, e ele lhe respondeu, que pequena maravilha. Em seguida ordenou à covilheira que o metesse numa câmara, sem comer: a última ordem, porém, não foi cumprida. Regressado o Abencadão e findo o jantar, a rainha perguntou-lhe : “se tu aqui tivesses Rei Ramiro, que lhe farias ? O mouro então respondeu: o que mim faria; matá-lo.” Trazido o prisioneiro escreve o autor este diálogo : “és tu rei Ramiro… - eu sou… - a que vieste aqui ? Vim ver minha mulher que me filhaste (tomas-te) a torto (danosamente); cá tu havias comigo tréguas… -se me tivesses em Mier que morte me darias ?- abrira as portas do meu curral ( cercado) e faria chamar as minhas gentes e viessem ver como morrias, e fariate ( fazia-te) subir a um padrão, e fariate tanger (tocar) o corno, até que te sahice (acabasse) o fôlego.” E assim foi feito. Rei Ramiro trepou a um poste e tirando cinta a trompa de chifre, pegou a buzinar com toda a força. Ao sinal previamente combinado, acudiram o filho e os vassalos, entraram no curral do castelo e mataram quantos mouros lá havia e em Gaia. Depois filhou (tomou) rei Ramiro a sua mulher com as suas donzelas, embarcaram de rota ( de volta) batida até à foz do Âncora. Descansando aí, “D. Ramiro deitou-se a dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce (principiou) a chorar e as lágrimas dela caíram a D. Ramiro pelo rosto, e ele espertouse (acordou)e disse-lhe (perguntou-lhe) porque chorava e ela disse-lhe – choro por o mui bom mouro que mataste – e então o filho… disse ao pai –pia não levemos comnosco mais o demo (diabo). Então rei Ramiro filhou uma mó que trazia na nave, e ligou-lha na garganta, e anchorouha ( ancorou-a –atirou-a) ao mar, e desde aquela hora chamaram aí Foz de Ancora. De volta a Mier. D. Ramiro baptizou Ortiga com o nome de D. Aldora, e casou com ela. Deste casamento descenderam os Maias. A versão do Fragmento IV ( ed. cit. pag. 274-277) contém o fundo da anterior: basta por isso notar somente as divergências principais. Agora o rei é “Ramiro segundo”, entanto que na outra é o primeiro, pois Ordonho, restaurador de Leão, era filho deste e não daquele. O mouro – Alboazer ou Alboazer ou Alboazare Alboçadam, senhor de Gaia, tinha uma irmã, que Ramiro, apesar de casado e com filhos, queria desposar. Em virtude da negativa do irmão, veio roubá-la. Após curta refrega, levou-a a Minhor depois a Leão e baptizou-a e pôs-lhe o nome Artiga. Em represália o mouro raptou raptou-lhe a mulher a rainha Dona Aldora que estava em Minhor. Rei Ramiro correu a buscá-la com cinco galés: a covilheira “servente”, que foi à fonte tinha o nome de Perona natural de França. O resto como na versão precedente. Mais um longo diálogo entre o mouro e a rainha cristã, no qual ela persuade o raptador à execução do marido: Ramiro ouve a conversa onde estava fechado e responde de lá. Lê-se aí a frase “de má ventura é o homem que se fia por nenhuma mulher”. Tradução visível da famosa cantiga de Francisco I de França (1494-1547. Enfim rei Ramiro sobe ao padrão, tanje a trompa. Vem os companheiros e o sarracenos é trucidado com todos os seus. Quando surgiram na foz do Ancora, como a rainha chorasse o amante, por instigação do filho, Ramiro ordenou que a botassem ao mar. “E por este pecado que disse o infante D. Ordonho contra sua mãe disseram depois as gentes que por isso fora deserdado dos povos de Castela” passagem que não quadra ao filho de Ramiro II, mas a Ordonho o Mau, filho de Afonso IV (cf. Herc. Historia de Port.tom. I, pag. 145 -1467). “Rei Ramiro foisse (sic) a Leão e fez as suas cortes… e mostrou-lhes a maldades da rainha Alda sua mulher e que havia por bem casar com Dona Artiga… e eles toda a uma só voz o houveram por bem.” ESTUDOS HISTÓRICOS E ECONÓMICOS ALBERTO SAMPAIO 1ª EDIÇÃO- LIVRARIA CHARDRON - 1923 pags. 423/ 425 – Nota A
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O B A N H O S A N T O O RITO DAS ONDAS, MAR FECUNDADOR, CURATIVO DE MALES DO MEDO E DE EXPULSAR O DIABO DO CORPO Neste canto do Noroeste da Ibéria – no conjunto Minho-Galaico – os costumes, a cultura e as lendas andam, embora com pequenas alterações, muito ligados. Bem isto a propósito do espectáculo que nos proporciona o Banho Santo, que dentro de dias vai ter lugar na freguesia de Esposende, São Bartolomeu do Mar, a realizar no dia do “Diabo à solta”- 24 de Agosto - ( como assegura a tradição popular ). Nesse dia, a população minhota e não só, e até possivelmente, gentes da raia, acorrem à praia, numa descomunal concentração para “com um banho santo”, afastar dos corpos o diabo, tirar o medo às crianças, curar de muitas maleitas e até conseguir que as mulheres estéreis alcancem, finalmente, um desejado filho. O costume e a tradição manda e de nada valem os avisos, as recomendações da igreja de que se trata ainda de um resquício do paganismo. Madrugada, é ver aquela mole de gente procurar a orla marítima, esperando a chegada de três ondas, para nelas mergulhar em “cachafunda”, as crianças e adultos, pensando que este rito fará com que os seus males assim desapareçam. Também na Galiza se processa este rito, no entanto nesta localidade galega tem o nome de “O rito das nove ondas”, na praia de Lanzada, perto de Sansenxo, a caminho de Grove e da ilha de a Toga, e o costume tem lugar em várias épocas, como seja “no último domingo de Agosto, no dia da Ascensão, que naturalmente é quinta-feira e em 24 de Junho, dia de São João”.( 1 ) Em Lanzada, que o saibamos, não encontramos qualquer referência a alguma ligação entre cerimónias religiosas com o paganismo como acontece em São Bartolomeu do Mar. De facto nesta freguesia esposendense, além do banho, temos ainda que os romeiros terão que dar umas voltas à capela do Santo Protector, creio eu, com uma galinha preta e passar por debaixo do andor do Santo. De resto, este costume de passar por debaixo dos andores dos Santos, não é exclusivo de São Bartolomeu. Também em Vila do Conde, julgo que na Procissão de Cinzas, se fazia o mesmo com crianças a quem tardava a fala, só que nesta hoje cidade, o Santo era “São Luís, Rei de França”, e esta passagem era acompanhada, ao mesmo tempo que batiam com a cabeça do miúdo ou miúda no fundo do andor, com a lenga-lenga “São Luís, Rei de França, dai falinha a esta criança”, e o coitadito se não falava, pelo menos devia chorar, o que devia deixar contentes os seus progenitores, pois assim consideravam o milagre feito. Mas voltando aos benéficos banhos e ares do mar, pois não era só a entrada nas “salsas ondas”, o ar marítimo abria o apetite. E pelo areal espalham-se, os crentes saboreando não a galinha preta, que esta irá de novo para a capoeira, esperando por certo novo ano e nova peregrinação, mas uma outra, ou coelho ou qualquer outra vianda que lhes adormeça o apetite, refeição que deve ter sido bem regada pelo bom vinho verde do que “pinta a malga”. Em Espanha, e segundo a fascículo do jornal citado, agora parece que “O Rito das Nove Ondas”, principia por ter “a preferência … pelo último domingo de Agosto, quando as colheitas já foram feitas e se deu fim ao manifesto da fertilidade da terra, procurando a equivalência no mar, que também é fonte de vida”.( 2 ) Curiosamente o efeito das ondas pode ser substituído, em Lanzada, por nove mergulhos nas águas estagnadas – poças - que o mar forma na baixa-mar, pois a crença está divulgada que o efeito será o mesmo. Estes banhos além da fertilidade, tem como dissemos outras vantagens, isto na Galiza, como por exemplo, o desaparecimento de verrugas. Mas para obter estes resultados torna-se necessário que o banho se efectue durante nove dias seguidos “de maneira que o magismo está na repetição do número e não na circunstância aquática”.(3) Este número nove é uma reminiscência céltica, número mágico na sua religião, povo ancestral dos Minho-Galaicos, em que a semana para eles tinha nove dias e o cálculo era feito por noites e luas, e não como hoje pelo despertar do sol. O Rito das Nove Ondas, deu lugar a aparecerem no folclore manifestações populares traduzidas em canções. Para exemplo aqui deixo algumas extraídas do fascículo do Faro de Vigo : “LEVEI MINHA MULHER Á LANZADA ÁS NOVE ONDAS; LEVEI-A A DESINFECTAR E DEITAR OS DEMÓNIOS FORA” “INDO PELO MAR ABAIXO O VENTO RASGOU-ME A VELA. MINHA VIRGEM DE LANZADA DÁ-ME PANO PARA ELA”. “ONDA DO MAR SAGRADO TIRA-ME O AR DE MORTO, DE VIVO E DE EXCOMUNGADO”- Como vemos, pelo atrás fica escrito o mar é uma fonte de fertilidade – não esqueçamos o sargaço e o pilado que adubavam as terras seareiras da costa norte do concelho da Póvoa , produzindo a boa batata e a tenra tronchuda -, como é um bom lenitivo para a saúde e descanso. E para quando se volta aos tratamentos de TALASSOTERAPIA, os famosos banhos quentes de água de mar que tanta fama tiveram na Póvoa combatendo entras outras doenças, o reumático ? ( 1 ) Faro de Vigo, Fasc.21-1993 ( 2 ) Jornal citado ( 3 ) Ibdem
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RECEITA PARA CURAR PAIXÕES MUITAS SÃO ELAS, MAS UNIVERSALMENTE UMA É PREDOMINANTE Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, a palavra Paixão tem o significado de : “ tendência dominante, ou mesmo dominadora e geralmente exclusiva, que exerce, de modo mais ou menos constante, uma acção directora sobre a conduta e o pensamento, orientando os juízos de valor e impedindo e uma lógica imparcial”. Assim sendo, verificamos que há diversas paixões, podendo cada um de nós optar por uma, duas, três, quatro, ou mais. Há-as benéficas, altruístas, bairristas, desportivas, convenientes, simpatizantes, “lambe-botas”, que sei eu da sua infinidade. Temos que algumas delas, não sendo muito sentidas, são apenas para dar nas vistas, para agradar, para obter com a sua manifestação favores, paixões que logo de seguida são postas de parte. São as chamadas “paixões de ocasião” tão disseminadas por toda a parte. Algumas dão para o “torto”, com causas muitas das vezes prejudiciais, resultando em pancadaria, que chega até aos extremos. Aquelas que são bairristas, que disputam o valor das suas terras, de nascimento ou de morada : “esta é que é boa, tem tudo para fazer a gente feliz !”, contrapondo logo outro : “ a minha é que é boa”. No caso desportivo : “o meu clube é o melhor do mundo”: “não vale nada. O meu é que é bom” , e mais uma infinidade de paixões que seria inoportuno mencionar mais, mas não podemos esquecer que até, certamente, para albergar todas elas até já se pensou em arranjar um estádio para as juntar todas – o Estádio das Paixões. No entanto existe uma que é universal e que se junta a todas elas – a paixão amorosa – umas vezes no seu tempo, outras vezes serôdia. Algumas são bem correspondidas, outra só servem para achincalhar os amorosos. Sabemos que surgem aqui e acolá alguns “PEIXÕES”, que as fazem desencadear ao infeliz do mortal que deles se abeire. Se são correspondidos, tudo bem, mas se pelo contrário não merecem um olhar apenas, tudo mal. E há ainda aínda aqueles e aquelas, que sofrem no silêncio sem coragem para a manifestar e se contentam só no olhar – são as chamadas paixões “platónicas”. Mas por agora já chega, e para não aborrecer mais os possíveis leitores, vamos ao que interessa e deu título a este artiguelho. Entre as páginas um velho livro, encontrei há dias, um papelucho amarelecido pelo tempo, com caligrafia quase esvaecida, no qual estava descrita uma receita para curar paixões amorosas, e deve ser remédio santo para quem necessitar dele. Não posso atribuir a sua paternidade, nem tampouco a idade, pois nem está datada nem assinada : “Dr. Coração sofredor. Rua dos Amores – Paraíso Receita para curar paixões Tomam-se duas gramas de desprezo, uma libra de resolução, vinte e sete gramas de pó de experiência, uma dose de tempo, uma libra de água de consideração. Mistura-se tudo com o fogo do amor e junta-se tudo com o açúcar do esquecimento. Mexe-se com a colher da melancolia, despeja-se um garrafão tapado com a rolha da inocência. Toma-se uma colher de hora a hora, marcada pelo relógio do desengano. Os doentes que necessitam desta receita é dirigirem-se a este consultório.” Não sei do resultado da cura, mas não há nada como experimentar, se estiver alguém dela necessitado. Braga, l de Setembro de 2005 LUIS COSTA B.I. nº 1507748 ( Luís Dias da Costa) Tel. 253 216602 Assinante do Diário do Minho Res. Rua Dr. Elísio Moura, 141 r/c Braga www:Bragamonumental.blogs.sapo.pt Email . luisdiasdacosta@clix.pt www:Bragamonumental2.blogs.sapo.pt www:varziano.blogs.sapo.pt
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