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Nov 08
Expostos 2 – continuação Como dissemos a Câmara, não tendo possibilidades para as necessárias obras de remodelação da casa dos expostos do Campo de Touros, e para obter alguma comparticipação nos encargos com as instalações alugadas e também conseguir alguns proventos para ajuda da sustentação dos expostos resolveu vender o antigo albergue. A isso se opôs o arcebispo alegando que o prédio pertencia ao arcebispado. Valeu à Câmara o registo da troca e escambo inserida no livro de Tombos com a afirmação confirmada por Dom José de Bragança, arcebispo. Sem mais entraves procedeu-se à venda do prédio que, segundo nos parece, é onde hoje está instalada a farmácia Coelho. O REGISTO DOS EXPOSTOS Quando uma criança era lançada na roda, a rodeira, pessoa encarregada de ter à sua conta o cargo da roda, assim chamado o recipiente onde se colocavam os expostos – cilindro aberto por metade de um lado e fechado pela outra metade – tinha ao seu lado um sino ou campana que servia para chamar a atenção que o sítio tinha lá freguês. A rodeira, logo que o recolhia tinha de ter o cuidado de ver qual a marca que a criança trazia – por exemplo uma tesourada no cabelo junto à testa ou orelha, uma medalha, com a figura de um santo ou qualquer outro símbolo, uma fralda de determinada cor – isto é, qualquer coisa que a pudesse vir a identificar, no caso de mais tarde vir a ser reclamado. Num livro próprio, era anotada essa marca e bem assim a data em que foi encontrado na roda. Por vezes, um bilhete anónimo colocado na sua roupa informava que o exposto já tinha sido baptizado e indicando também o nome de baptismo. Outras missivas pediam para o baptizarem indicando um nome que deveria ser-lhe posto. Muitas e muitas vezes, apenas traziam a marca e mais nada. Cabia ao vereador dos expostos – sempre havia um com este cargo - de resolver os problemas e anotar no respectivo livro os elementos que serviriam mais tarde para os identificar para entrega a quem, de direito, os reclamasse. Convém anotar que muitas vezes a entrega à Casa da Roda de um exposto, era motivada pela falta de condições das mães pelo seu sustento e tratamento e não por simples abandono. As crianças eram mantidas sob a administração da instituição até aos sete anos, idade em que eram reclamadas pelos seus familiares, quando estes apareciam, ou passavam para outras instituições, onde houvesse vaga. A Câmara só era responsável até aos sete anos, partindo do princípio, errado, de que um ente com sete anos já se podia defender !... O Director da Casa, entregava sempre que possível, os expostos a amas criadeiras, pagando a cada uma, isto em 1876, a importância de 260 reis diários, como salário, para o seu sustento e criação dos expostos. Se é certo que algumas os acarinhavam como seus filhos, outras havia que apenas serviam para os explorar, dedicando-os à mendicidade. O vereador constantemente procedia, podemos dizer a um inquérito, convocando as amas e as crianças para evitar abusos. Tinham os expostos um certo apoio médico e até, quando o médico do partido achava necessário, iam a tratamento termal e até a banhos de mar. Curiosa era a maneira, pelo menos no que diz respeito a banhos de mar, como se processava essa ida a banhos. O médico indicava o número de mergulhos no mar e o vereador passava a guia dirigida à autoridade do local onde se iria fazer o tratamento. Por umas actas da Câmara de Braga, de meados do século dezanove sabemos como se processava esse tratamento. Depois de ser atestado pelo médico a necessidade de banhos de mar de um determinado exposto, foi escolhida a praia da Póvoa de Varzim. Passada a autorização, foi então passada uma guia na qual estava mencionado o nome do órfão ou exposto e bem assim o nome da ama. Esta recebeu a quantia necessária para a deslocação e tendo como obrigação de, chegada à Póvoa, se apresentar ao Administrador do Concelho para, no registo poveiro, ser anotado o número de banhos prescrito pelo facultativo. Findo o tratamento a ama voltaria à presença do Administrador do Concelho para este passar atestado em como, o menor, tinha cumprido a prescrição médica, isto é, tinha dado o número de “cachafundas” medicadas, atestado que serviria para apresentar ao respectivo vereador, em Braga, provando que se tinha cumprido com a receita médica e assim poder, a ama, receber o estipêndio acordado. Este foi, talvez, uma maneira, prática e cómoda, de uma ama passar umas férias e provar as salsas águas do mar da Póvoa!... Alguns dos recolhidos na Casa da Roda, apesar do seu triste início de vida, vieram mais tarde a ser a compensados pelo seu trabalho e até pela sorte. De alguns temos exemplos extraordinários, apesar o estigma que os apontava como Expostos no seu nome. Aqui bem perto de Braga, um dos grandes empresários tinha no final do seu nome o de Exposto, por certo por não ter ido reconhecimento. Um outro, recolhido no final do século dezanove, chegou a ser um capitalista e, no final da sua vida, considerado um benemérito e homenageado com todo o direito. Recolhido na Roda de Braga, foi aos sete anos entregue a um dos principais comerciantes desta cidade e que quando o viu completar catorze anos o encaminhou para o Brasil, onde pela sua honradez e trabalho, angariou uma considerável fortuna. De regresso a Portugal, trouxe consigo o mal daqueles tórridos e húmidos climas do Amazonas, o reumatismo. Procurando remédio em quase todas as termas nacionais e experimentando todos os remédios aconselhados, nunca surtiu melhoras até, alguém o aconselhou os banhos quentes, da Póvoa do Mar. Assim procurou a Póvoa, onde talvez tivesse tido a dita de, em miúdo, por lá passar. Foi remédio santo. As melhoras se foram acentuando de tal maneira que naquela praia fixou residência e por lá acabou os seus dias. Foi um grande benemérito da Póvoa que em agradecimento atribuiu o seu nome – Santos Minho - a um arruado poveiro e lhe construiu um mausoléu no Cemitério da Giesteira. O seu nome da baptismo era o de João Santos, mas adoptou o de Minho, província que o viu nascer. Notável foi a sua acção perante a Câmara de Braga. No seu testamento deixou à edilidade bracarense, o importante donativo de duzentos mil reis, afirmando que julgava seria, talvez, essa quantia que tinha sido dispendida pela Câmara, com o seu internamento na Casa da Roda. Braga, 2 de Novembro de 2008 LUIS COSTA www: bragamonumental.blogs.sapo.pt www: bragamonumental2.blogs.sapo.pt www: varziano.blogs.sapo.pt email: luisdiasdacosta@clix.pt.
publicado por Varziano às 22:46

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