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Ago 08

O  BOTA  P’R’Á   MULA

 

 

Meu Deus, meu Deus, já foi há tantos anos ! Tantos, tantos que até lhe perdi a conta. Assim, a filosofante Loira, ia pensando enquanto se arrastava, penosamente, já meio trôpega, carregada e sobrecarregada, “agantando” por aqueles caminhos as chuvas e frio de Inverno e a calmosa canícula escaldante do verão. Sempre a minha vida tinha sido esta, nunca experimentei outra, desde que nas lezírias do Ribatejo, reconheci a luz do dia.

Poldra ainda, entrei a ser a cobiça dos negociantes ciganos. Depressa deixei o ninho materno e entrei no mundo do trabalho. Vim parar à Póvoa, à mão de um carreteiro almocreve, que fornecia parte do Minho com o peixe que com sacrifício os pobres pescadores arrancam à custa de muitos perigos e sacrifícios ao generoso mar.

Os ciganos não tem “parança” e desde o Alentejo até ao Minho, há sempre um local para os seus negócios. A Feira de São Sebastião, era um dos lugares onde podiam fazer bons negócios. Fiquei a conhecer essa feira dos Vinte, em Prado, como é conhecida e ali, amarrados pelo cabresto aos sobreiros lá estavam os da minha “igualha”. O almocreve já não confiava na sua velha burra, desdentada e trôpega, que mal podia transportar a carga do seu comércio. Deve ter pensado na Feira de Prado, a feira das trocas, e pôs pés a caminho esperando, por certo encontrar um bom substituto.

Percorreu o recinto da feira desde São Sebastião até perto da ponte do Cávado. O seu olho experiente, veio até junto da minha prisão. Quando o vi simpatizei com ele, apesar do seu cheiro a sardinha. Lançou as “manápulas” as minhas ventas, arregaçou-as, inspeccionou a minha “dentuça” (vê-se que era sabedor e experiente) e assim calculou a minha idade e saúde. Sem me envaidecer, afirmo eu era uma boa peça, bela estampa, fortes quadris, patas fortes e possante lombo. O aloirado da minha trunfa caiu-lhe no goto, ele parece que tinha um fraquinho pelas loiraças, descendentes dos “witikindis” do Norte, ou Fenícios do Mediterrâneo que um dia, há séculos arribaram à Póvoa na mira do bom peixe e sal.

Ver e amar-te foi um instante e nesse dia, discutida e ajustada a compra por quinze notas, passei a ter novo dono. Francamente não gostei da maneira como fui parar a novas mãos, fez-me lembrar os tempos da escravidão em que, em Lagos, os homens eram postos em leilão para serem escravos, coisa que não me agradava. Não me importava de trabalhar, mas com dignidade e não como escravo.

Bom, negócio feito e ala que se faz tarde, a caminho da Póvoa. Com a sua apetência pelas loiraças, logo ali me baptizou, passei a ter um nome, o primeiro da minha árdua vida, Loira.

A caminhada a fazer era longa e a estrada passei a conhecê-la bem, de tão calcorreada desde sempre que a vida me tinha lançada neste labor. Não havia grandes subidas, que exigissem muito esforço, era quase plana, como as das planícies ribatejanas, a minha pátria. Tinha ainda uma vaga lembrança da abertura a mando do rei dom Luís, daquela légua, comprida de mais. Légua da Póvoa, não de 5 mas sim ultrapassando os 6, e do ferreiro a quem Sua Magestade recorreu para o seu traçado. A obra era necessária, pois os caminhos desde Laúndos até à Póvoa, eram “estradões” que apenas serviam para um que outro ronceiro carro de bois se lançar na tortuosa caminhada.

Ia pensando que o jogo de interesses, é velho no mundo do homem. Só estavam a atrasar a obra: uns queriam que passasse por perto das suas propriedades, valorizava os seus terrenos mas outros, essa estrada não podia prejudicá-los, não podia ocupar as suas leiras. Dom Luís, não pensou duas vezes, procurou entre os interessados um que não se subornasse a opiniões interesseiras.

Difícil era encontrá-lo mas a sua tenacidade achou, na pessoa de um ferreiro, mal quisto entre os vizinhos dos locais, o encarregado ideal para o traçado da nova via. Da primeira bandeira à última ficou estabelecida a recta da Légua da Póvoa, e continuando nos seus pensamentos, concluiu que só quem a percorre sabe quanto é longa.

E assim o velho mestre do ferro, não olhando a conveniências particulares, colocou à saída da curva a seguir à ermida da Senhora da Saúde, uma bandeira, bem visível ; a seguir, por Santo António de Terroso, cravou outra; da mesma maneira o fez em Amorim e, já na Póvoa, a última. Assim nasceu a Légua mais famosa do mundo.

Há tantos anos, tantos, tantos que até já esqueci a minha idade. Agora já um pouco trôpega, sem a ligeireza dos anos de juventude, passados sempre a “alombar” com cargas cada vez mais pesadas – o meu patrão partia do princípio de que quanto maior fosse a carga, maior seria o lucro, e como tal quanto lhe diziam : Ó “Se Zé” olhe que assim a mula assim não vai  a “galhelo”. Ao que ele respondia : Qual quê! A Mula é possante, BOTA P’R’Á MULA.

Esta conversa não me agradava muito, cada vez sentia mais a difícil caminhada e o patrão, é certo que bom homem, não via ou não queria ver que os anos vão pesando, e uma mula não é de ferro. Não fora esta sua falta e aquela teimosia de querer que caminhasse nas pontes, sempre a direito, quando eu só o sabia fazer às arrecuas, teimosia de que pela minha parte era a herança que me tinha ficado dos meus ancestrais avoengos, não tinha muitas mais queixas do bom homem.

Com o rodar dos anos, ficamos a conhecer bem os nossos defeitos, os nossos desejos. Quando, nos dias de intensa canícula, com atroz sede, tendo farejado água nos bicas que o Fontes espalhou ao longo das estradas, apressava o passo, ele, sem regatear, apressava-o também, pois o corpo pedia-lhe o regalo. A fresca de umas sombrosas árvores e água cristalina que jorrava do fontanário, davam-nos alento para continuar a caminhada. No Inverno, a ração de uma boa dose de milho, metida no saco e atada ao meu focinho, ou então uma saborosa merenda de umas sopas de cavalo cansado, bem ensopadas em vinho, e açucaradas, arredavam o frio e o cansaço e animavam para a carreira.   

As estações onde o seu negócio principiava, era já por perto das Necessidades. Enquanto me refastelava com o merendeiro na tasca do Vicente,  puxava do búzio e, com estridente barulho, secundado pelo meu zurrar, a minha linguagem, dava sinal que ali ai principiar a venda do requintado pitéu, a boa sardinha do São João, a tal que pinga no pão, se era o tempo dela, ou da salga, salgada nos tanques do Casanova, junto ao fieiro.

Depois ala, para outras paragens até toda a mercadoria acabar e então o regresso já se fazia mais comodamente, o fardo tinha ficado por essas aldeias e, agora só com o peso do patrão tinha de “agantar”.

E era assim, no continuar do dia a dia. Manhã, cedinho, no tempo da safra da sardinha, mal os sardinheiros abicavam à barra, e chegados à praia, à língua da maré, e descarregados os milheiros do peixe, ei-lo ali estava regateando o preço, e chegado a acordo, “bota p’r’á mula”, sem importar com o que dizia a pescaria, “Se Zé, olhe que mula ainda vai arrear, vai arrebentar!”.

 

                                ##########

Os anos correram e sempre, dia a dia, carregou, ao lombo as pesadas cargas de sardinha, o presigo então apreciado por aqueles que viviam longe do mar e o presságio daqueles pescadores, veio um dia a confirmar-se e a mula arrebentou e deu o seu corpo à terra.

De tantas vezes que dizia “bota p’r’á mula”, que o nome do patrão pegou e na Póvoa, só era conhecido de o “bota p’r’á mula”. Agora quando no céu os cúmulos apresentam, um quase desenho de um almocreve com a sua mula, a catraiada e todo o mundo diz:

  “lá vai o ‘bota p’r’á mula’ levar sardinha às estrelas”

 

                                                       LUÍS COSTA

 

 

 

        SERRE-SE  ESSA  VELHA

 

Hoje é quarta-feira, não uma das vulgares quartas-feiras que ao longo das cinquenta e duas semanas se encaminham durante o ano. Estamos a meio da Quaresma, tempo de reflexão, tempo de oração. Mas hoje o dia não nos proporciona um estado de espírito contemplativo. É sim, um daqueles em que a alegria, a boa disposição nos faz esquecer por umas horas o tempo que resta e nos acompanhará até à Páscoa da Ressurreição.

Se para uns, é uma quarta-feira de folga, de brincadeira, que dá azos à boa disposição e até, para alguns um dia de esperança, para outros é dia de zanga, de impropérios, de ameaças.

Anoitece, um grupo de jovens, e não só, está a reunir-se, no Largo do Correio, para a brincadeira, à espera dos mais retardatários que ficaram de aparecer, logo que o relógio da Câmara badalasse as nove horas da noite. Já se ouvem os seus cantares e, como combinado trazem, sustido sobre os seus ombros, como um andor na procissão, o estrado em que se vê a representação duma velha encarquilhada, nariz adunco, saia pelas costas, servindo de protecção ao frio cortante do quase final do Inverno e na cabeça um capuz, figurando uma velha bruxa, das que pelas noites de lua nova, se acavalam numa vassoura e percorrem o sideral.

Está tudo em ordem, e o maioral, isto é aquele que dirige o cortejo, deu ordem de marcha para percorrer as ruas da Póvoa, e com a sua alegria exultante, principiar os seus motejos.

O grupo segue em à direcção à rua Tenente Valadim. Há por ali locais onde se pode dar largas à boa disposição e boa alegria às zombarias, mas no catorze, não convém demorar muito a estada e os remoques, pois pode haver alguma coisa muito desagradável.

Sigamos em frente, e vamos até à casa da do Trinta. Acompanhados do barulho de da percussão de paus em latas velhas sai o motejo :

                    SERRA ESSA VELHA

                    EM CIMA DUMA DA TINTA

                    QUEM VAI A SARRAR

                    É A VELHA  DO TRINTA

 

Então. como nos anos passados, abre-se o postigo e de lá como sempre  desde que nos conhecemos, aparece a simpática velhinha, duas carradas de anos bem puxados,  que nos acolhe :

 

- Vinde cá meus meninos. Tendes aqui, como sempre, castanhas e vinho. E para o ano, cá vos espero. Comei e bebeu à vontade, que “inté” gosto de vos ver todos os anos. Já sabeis, a tia do Trinta não é “com’ós” outros.

 

De facto, os outros, só não nos chegavam a roupa ao pêlo, porque nós “á pernas para que vos quero”!

                               

 

 

            Mas teve que ter um fim, e neste ano a tia dos Trinta deu “a alma criador” e agora e início do cortejo “Serra essa velha”, passou a ter princípio noutras paragens das ruas da Póvoa, desde o Ramalhão à Lapa, desde a praia até Coelheiro, de Norte a Sul, de Nascente a Poente, e do postigo da tia do Trinta, a simpática velhinha já não pode dar-nos castanhas e vinho, e lá do etéreo céu, se é que nos vê, deve abençoar esta alegre rapaziada, que sempre aproveita o que de bom tem a vida, divertindo-se, pensando que “tristezas não pagam dividas”.

 

                                            LUÍS COSTA

 

 

 

                         

                 

  

            

               

   

 

publicado por Varziano às 19:52

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