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Set 08
DA JUNQUEIRA AO FERRO DE ENGOMAR - 4 - Recordo, na Junqueira, o dentista Truco, logo seguida do salão de cabeleireiro de homens, Bastos, a casa de confecção de chapéus de senhora, Umbelina Bastos, a farmácia Moderna, onde se reunia uma tertúlia de advogados e magistrados, sob a proficiente assistência do farmacêutico Lemos. Em frente, a marcenaria do Bailardo, destruída por volta dos finais dos anos de vinte, por um pavoroso incêndio. Não se pode esquecer a loja de tamanqueiro e sapataria do Abreu, com a sua enorme bota de propaganda sobre a porta de principal - A Bota do Abreu. Segundo Fernando Barbosa, esta bota tinha história, era um testemunho físico da revolta militar do 31 de Janeiro. Nesse dia estava a assinalar um estabelecimento do género na rua de Santo António, no Porto, e como prova tinha bem marcados os buracos das balas, o que ele dizia com graça “ter sido fuzilada”. Continuando, por volta dos finais dos anos vinte e princípios de trinta ainda se encontrava por este lanço da rua o estabelecimento do espanhol, Alejandro Flores, “O Rendeiro”, como era conhecido, junto da Ourivesaria Gomes, local depois ocupado pela sociedade da ourivesaria, que aqui instalou, creio, um comércio de antiguidades. Na fachada da Ourivesaria Gomes, havia e há uma curiosidade que despertava, e certamente ainda hoje desperta, a atenção da gente miúda e graúda – de um lado o relógio marca 24 horas e, do outro, 12. Também neste estabelecimento, dois grandes espelhos colocados ao fundo, davam a ilusão de um enormíssimo estabelecimento. Nele imperava, como num trono, a figura da filha de António Gomes, a Menina Irene. Quase em frente da ourivesaria, estava um local onde se reunia a maior parte da juventude intelectual poveira. Tratava-se da Livraria Académica, onde o saudoso livreiro-poeta Ademário Ferreira, disputava a primazia de todas as novidades literárias. Este poveiro, que andou, como muitos dos seus compatriotas, pelos ares de Manaus, deixou pelo menos uma dúzia de pequenas obras de poesia de entre as quais podemos destacar “Tristes Rebentos”, “Braçado de Cravos”, “Castanhas, Figos e Nozes”, “Tigela de Amores” e outras que, certamente, se encontram na Biblioteca Poveira. Na fachada desta livraria e como que suportando a varanda, duas elegantes sereias foram esculpidas, coisa escandalosa para os moralistas da época que, em resultado, fizeram com que pelas suas recriminações deixassem de passar pela Junqueira as procissões. Ademário Ferreira, pode dizer-se, foi o precursor da emissão da música gravada na Póvoa. Na varanda colocou uns altifalantes que durante o dia faziam ouvir as modinhas da época. Mais ou menos em frente à Académica, estava uma padaria ( não tenho a certeza do seu nome, mas parece-me que era do “Marinheiro”) e logo a seguir estava um comerciante, cuja especialidade era a venda de café, e que tinha como atractivo publicitário uma escultura de um menino negro, que veio a dar o nome ao estabelecimento – O Pretinho. Essa pequena escultura veio parar a Braga, onde se encontra numa espécie de quiosque, junto à Sé. O negócio dos artigos de Carnaval – bombinhas, trik-trak, ampolas mal cheirosas, serpentinas, confetti, bisnagas de perfume e outros artigos eram vendidos pelo Baldomero, uma casa de brik-a-brak, situada pouco depois do Pretinho. Nos dias de Carnaval, a Junqueira era um lugar de festa. No gaveto formado pela Junqueira e dando saída para o lado da praia do pescado, estava e ainda está a padaria do Cadeco, fundada por um mareante que pelo seu mister de padeiro, trabalhando em navios, correu meio mundo. No lado contrário e já no velho Ferro de Engomar, uma senhora já de certa idade, vendia fruta, castanhas, verduras e rebuçados. O Ferro de Engomar, atribuído pela giria poveira, ao quarteirão formado pela travessa de acesso a Santos Minho, Garrett, largo Dr. David Alves e final da Junqueira, esteve durante muitos anos ameaçado de demolição, o que veio a ser posto de parte, muito embora fosse desejado por muita gente. Finalmente chegamos ao antigo largo do Café Chinês, nome que recebeu por influência deste café, que pela ousadia da sua decoração oriental, era o mais luxuoso da Póvoa. Serviu, praticamente, desde a regulamentação do jogo da fortuna e azar, como sala oficial de jogo na Póvoa de Varzim. Num dos seus ângulos, e quase em frente da Farmácia Rainha, estava a Camisaria Hig-life ( parece ser assim que se escreve) e no outro uma barbearia. No lado norte deste largo era a residência do Dr. David Alves e dos seus filhos Neca David, com a esposa, e Davidinho. O filhos de Neca David, Manuel, João Paulo, Rui e a filha Ana Maria, ali viveram nos tempos que passei na Póvoa, e com os quais mantive longa amizade. Também neste largo tiveram consultório os médicos Dr. Abílio Garcia de Carvalho e Dr. Silva Pereira. Voltando recorrer ao já várias vezes citado velho Comércio, ali esteve instalada a firma: EMPREZA ELECTRICA POVOENSE, LIMITADA Máquinas eléctricas, motores, ventoinhas, para-raios, candieiros, etc. O maior stock de material eléctrico para todas as instalações. Únicos depositários das afamadas lâmpadas FILIPS --- Orçamentos grátis ----- Largo do Café Chinês, 12 Para terminar este nosso passeio diremos que, de São Roque, pela Junqueira e até ao largo Café Chinês, este trajecto foi sempre UM VERDADEIRO CENTRO COMERCIAL e que, portanto não foi preciso chegar o século vinte para se inventar esta maneira de comerciar. Aqui podiam e podem os noivos procurar o seu enxoval e as donas de casa abastecer a sua dispensa, afora os produtos do mar e os de produção animal. Braga, 14 de Agosto de 2008 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 16:15

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