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A NAÇÃO QUIOCA E A ESPINGARDA LAZARINA Os quiocos, povos do centro de Angola, consagravam, a partir de 1830/1840, a sua actividade quase em exclusivo à caça do elefante, pelo valor do marfim das suas presas, alargando por vezes, de acordo com as suas necessidades de caça, às áreas para norte e nordeste, e também para sul e sudeste da sua região. O aumento da procura em outras regiões limítrofes da nação quioca do grande mamífero ficou a dever-se à enorme procura e o interesse comercial resultante de que o marfim passou a ter pelos europeus, e tendo como especial motivo o facto de em 1834, ter sido liberalizado o seu preço o que levou a uma maior procura do marfim pelos caçadores, resultando desta maneira uma maior oferta, e assim os comerciantes portugueses obterem, por conseguinte, possibilidades de lucro mais acentuadas. A caça era então feita através de instrumentos tradicionais – arcos, flechas, lanças, zagaias e armadilhas. Depois, por volta de 1846, os quiocos passam a aliar aos seus métodos tradicionais, uma nova arte na caça – a utilização das armas de fogo - e é então que aparece uma espingarda que deu grande incremento à caça do elefante e por vezes, também à do rinoceronte, aumentando desta maneira os seus proventos, aliás em prejuízo da conservação das espécies. Segundo nos revela Isabel Castro Henriques, no seu estudo “Os pilares da diferença relações Portugal-África séculos XV-XX”, pag. 380 e seguintes, nos princípios do século XIX “as populações do Lovar e do Quibouco… não utilizaram outras armas para além das lanças… e uma espécie de grande faca em forma de coração… e…arco e flechas, mas não têm armas de fogo, mas por volta de 1846, os quiocos caçam combinando as suas armas tradicionais com a espingarda europeia: o animal depois de cair na armadilha, é abatido a tiro…”.(1) Nos finais do século de setecentos, aparece no mercado uma espingarda que se veio a impor como de grande valia. Em nota, no roda-pé descreve Isabel de Castro Henriques essas armas “como muito compridas de pequeno adarme (calibre) e de sílex “ dizendo após “são fabricadas na Bélgica e tiram o seu nome de um célebre armeiro português que viveu na cidade de Braga, (o sublinhado é nosso) no princípio desse século (finais de XVIII e princípios de XIX), cujos trabalhos chegaram a atingir grande fama em Portugal e nas Colónias”. (1) No entanto, na mesma nota de roda-pé, diz que as armas, fabricadas na Bélgica, eram uma imitação grosseira, das perfeitas armas produzidas pelo armeiro bracarense, e eram destinadas aos nativos africanos. Informa também que o nome do fabricante era Lázaro Lazarino, natural de Braga, nome que sempre se encontrava gravado nas armas que então ficaram conhecidas como LAZARINAS. Anota ainda que na “segunda metade do século XVIII, (se) tinha conhecido (em Portugal) uma produção crescente de armas, em particular no Norte do País.” Assim aparecem as armas de um armeiro estabelecido em Braga - Lázaro Lazarino -, cuja presença em Braga, parece imputar-se a esse período, como pode provar-se pelas armas assinadas e datadas de 1783. Explica também que desde o primeiro quartel do século XIX, a indústria de armas, em Portugal, entra em crise, praticamente “devido a factores como o preço do ferro importado, problemas tecnológicos impedindo a produção integral do produto, organização artesanal da produção que impedem qualquer concorrência ( qualidade e preços ) com a produção estrangeira”.(1) Logo, a produção de armas nacionais, não pode satisfazer a grande procura das lazarinas, tanto no País, onde é muito apreciada no Norte para a caça, como no Brasil e Angola. Dada a grande dificuldade de Lázaro Lazarino satisfazer a excepcional procura das suas armas, no final do século XVIII, passa a importá-las da Bélgica, copiadas das suas e nelas grava o seu nome e a sua marca. Lê-se também no estudo acima citado que o mestre bracarense, a principio importou só os canos, e que depois eram acabadas na sua oficina de Braga, mas depois, já na década de 1830, principia a fazer a importação integral dessas armas que, imperfeitas como já se disse, eram mais destinadas à população indígena sendo, por vezes, “africanizadas” e utilizadas “como um instrumento de trabalho eficaz e inovador”. Eram também consideradas pelos imbangalas, como sinal de prestígio. E, como tal, especialmente destinadas aos chefes. As verdadeiras, tinham outro destino, os colonos. (1) Quem era esse artesão armeiro Lázaro Lazarino ? Segundo a opinião do consagrado investigador Prof. Doutor Aurélio de Oliveira, “não deixa grandes dúvidas sobre a sua origem italiana”. Diz que “outros italianos, existiam ao tempo na cidade …”, afirmando depois em nota, “Aqui ( Lázaro Lazarino ) se vem instalar. Não temos dúvida da sua proveniência italiana.” (2). A fama dos artesãos que fabricavam armas em Braga, vinha de longe e o que é confirmado quando “O Grão Mestre de Artilharia de Honever, recomendava, por isso, nas suas Observações Militares dirigidas ao Conde Oeiras” em 1764 – muitos anos antes portanto do aparecimento das lazarinas – “que nenhum outro lugar no Reino parecia mais conveniente e aconselhado para fábrica de armas e munições do que o centro bracarense”. (2) (1) HENRIQUES- Isabel Castro . Os pilares da diferença relações Portugal-África, sec. XV-XX, pag. 380 e segs. (2) OLIVEIRA – Aurélio. “Indústrias em Braga”. BRACARA AUGUSTA. Vol. XLVII, pag. 168, 178 e 181. Braga, 22 de Outubro de 2006 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 16:52

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