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Ago 08
RECORDANDO TEMPO IDOS Esta época quaresmal trouxe à minha memória os tempos em que, a mocidade e não só, vivia com entusiasmo e sentimento, a semana Santa e a que a antecede, as cerimónias e costumes – cortejo das rezes, os ofícios das trevas, a procissão do enterro do Senhor, o sábado da Aleluia, a visita Pascal e finalmente a festa popular do Anjo, única então na Póvoa sem comissões organizadoras, mas um só grande, único e popular “pique-nique”, com merenda, bailaricos e jogo da pela, que na segunda-feira então se realizava. Na semana de Ramos a azáfama era grande entre a rapaziada da classe piscatória, esmerando-se cada um por apresentar um trabalho digno de ser apreciado e elogiado pelas pessoas que dariam a sua opinião. Não se tratava de um concurso com prémios mas só e apenas uma habilidade e perícia para mostrar uma coisa que na sua simplicidade orgulharia o que de original os pequenos artífices conseguiam impor. Refiro-me às lanternas que com carinho e muito trabalho iriam tomar parte na procissão da trasladação da Imagem do Senhor dos Passos, que saindo da Igreja da Misericórdia, no sábado à noite, seguia para a Matriz, para no domingo, à tarde – Domingo de Ramos – em procissão solene percorrer as ruas do velho burgo poveiro. Era então a única procissão nocturna que as Comissões da Semana Santa organizavam, pois a do Enterro do Senhor, saia da Matriz na tarde de sexta-feira, e seguida, depois de recolhida à Matriz, do Sermão, creio que do Encontro. Mas voltemos à procissão da trasladação. Era costume, julgo que ainda está activado, os pequenos futuros pescadores, com arte e boa disposição, durante a semana transformarem uma armação de arame, numa obra de arte - as “alinternas”, como então diziam. Para isso depois de dobrarem e redobrarem o arame, ou até apenas canas, davam-lhe a forma de um barco, um farol, um navio, uma casa ou qualquer outra construção que a sua imaginação criativa lhes ditava. Feita a armação recobriam-na com papel de seda, multicolor, e com uma pena de galinha molhada em azeite, inscreviam os nomes e símbolos do seu curioso trabalho. Ao centro da “maravilha” arranjavam o processo de lhe colocar uma vela que a iluminaria durante percurso até à Matriz. E assim o cortejo transformava-se numa alegoria que causava um efeito de deslumbramento numa manifestação religiosa de respeito que, assim se pode dizer, seria uma abertura à semana Santa que se iniciava na imediata segunda-feira. Abria o cortejo religioso um enorme pendão, talvez de veludo, cetim ou até seda, pesado e de difícil sustentação. Cabe aqui mencionar ( para desenfastiar ) um facto que ocorreu, em dia de nortada, não nesta procissão, mas sim em Amorim, na procissão de Passos, que deu origem ao apelo feito por um mesário àquele que aguentava aprumado, com esforço inaudito o grande estandarte, clamando para lhe dar ânimo “ATESA CUMPADRE, Q´A FESTA É NOSSA”, isto é aguenta ao alto, dando azo a que assim entrou na gíria popular a procissão do “ATESA” . Tendo-me desviado um pouco da procissão das “ALINTERNAS”, para usar a expressão popular, volto atrás e para ingressar na da trasladação e isto porque, como disse a abri-la o estandarte ou pendão como queiram designá-lo, tinha e tem bordadas em grandes letras a divisa “S. P. Q. R.” ( Senatus populusque Romanus) o que dizer, fazendo a sua tradução – senado e o povo romano. Bem isto é o que lá está escrito, mas para a catraiada, no seu jeito dá um sentido mais pessoal à divisa, traduzem: “S – senhor, P - padrinho, Q – quero, R- rosca “. Como sabemos no domingo de Ramos é costume os afilhados oferecerem aos seus padrinhos um ramo de flores, que estes retribuem, dando-lhes no Domingo de Páscoa, o folar, que na pescaria era normalmente uma rosca de pão de trigo. Ora para esses miúdos essas letras era como que uma recomendação para não haver esquecimento. Mas havia e creio que ainda há o costume ( há tantos anos, sessenta, que não passo esta quadra na Póvoa ) de, por vezes ou por promessa ou até porque assim pode o nasciturno ter uma protecção celeste, escolherem os pais para padrinhos dos seus rebentos, um Santo, por exemplo São Francisco ou São José, uma Santa ou Nossa Senhora. Ora não podiam estes padrinhos, a quem tinham sido ofertado o ramo, descer dos etéreos céus e dar folar aos seus afilhados. Mas para não haver desgosto e dar mais crença nos santos padrinhos, encarregavam-se os pais, às escondidas, de colocar no altar do santo padrinho o folar, nem sem antes nele indicarem o nome do afilhado. E era vê-los, cheios de orgulho, deixar o adro da igreja e com a rosca enfiado no braço, correr até casa para provar que o seu santo padrinho não se tinha esquecido. Como disse, na tarde desse domingo, realiza-se a procissão de Passos. Nesta nossa ( vossa ) terra tem as procissões uma notável diferença das realizadas noutros pontos do País. Na Póvoa, não faltam os “anjinhos” num figurado luxuoso, bonito e abundante que chega por vezes a exceder um número que até é repetitivo. Mas isto é devido às promessas de tantos que nas horas de aflição recorrem ao favor divino. E assim, entra-se nas Cerimónias da Semana Santa, que a partir de terça-feira terá lugar, principalmente na Matriz, com os ofícios de Trevas, o sermão do Encontro, a Aleluia e a procissão, no domingo, da Ressurreição. Mas o escrito de hoje já vai longo, e quanto a esta Semana, a Maior, e porque no “O Comércio” o espaço a ocupar tem de ser bem doseado, deixo para outro dia relatos do que era essa semana nos meus tempos da Póvoa. Braga, 11 de Março de 2006 LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt
publicado por Varziano às 16:48

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