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Ago 08
A SEMANA SANTA DOS MEUS TEMPOS DE MIÚDO É velho o aforismo RECORDAR É VIVER, e eu como estou na idade de recordar o que então vivi, para ver se é certa a máxima, vou ver se consigo viver, de novo, os meus tempos de juventude passados nessa encantadora cidade e princesa das praias de Portugal. Por volta das décadas de vinte/trinta do século que ora findou, nessa Semana Santa ocorriam manifestações religiosas na Póvoa que ficaram gravadas no meu computador cerebral, que falha muitas vezes, atingido pelo vírus do esquecimento dos dois carros e um lustro de anos. No entanto depois de uma lavagem pelo anti-virus, ainda consegui recuperar alguma coisa que, se tiverem a paciência de me aturar, narrá-las-ei. Assim no primeiro dia dessa semana, segunda feira, nada me ocorre digno de menção. Já o mesmo não direi para os dias seguintes, pois estou a ver-me na Matriz para assistir aos ofícios de Trevas que se seguiam, parece-me, por três dias – terça, quarta e quinta. “Cedo nos preparamos com um mascoto de pau ou martelo normal, pois na altura própria do ofício religioso, com os paramentos que ornam as paredes do templo, as sanefas, tudo recoberto de panos negros, altares despidos, tapados encobrindo as imagens, num luto pesado, a iluminação apagada esperamos as Trevas, que depois de apagadas todas as velas do grande candeeiro, seriam assinaladas pelo matraquear dos massetes, mascotos ou martelos com que rapaziada, furiosamente, investia no tablado do chão. E uma ordem é dada pelo chefe da malta :- Mas é só, neste momento que a matulagem entra no templo. O adro é que nos vai servir de entretenimento, jogamos a “pincha”, o “fica”, a barra e tu, que está de plantão vai dar uma espreitadela a ver quantas velas a “mãozinha” que sairá do púlpito tem ainda de apagar. :- Faltam ainda quatro, ainda temos tempo para uma “pinchada”. Continuamos a jogar a pincha, ou vamos ao “fica” ? Qualquer um, o que é preciso é passar o tempo. :- Vai lá ver quantas faltam ? :-Só duas. :- Então toca a ir lá para dentro e escolher o lugar onde uma pescadeira estiver alapada, mas com uma saia grande e com os chinelos ao lado.” Agora volto aos tempos de hoje, para explicar todas estas manobras. É que os malandrecos, no qual me incluía, tinham levado bem escondido nos bolsos das calças, junto do martelo, uns dois ou três pregos e com a escuridão quem pagava era a saia da pobre crente que ao levantar-se tinha a saia presa ao chão e os chinelos, na mesma. “:- Toca a fugir, (lá estou eu outra vez nos tempos da malandrice) senão ainda levo uma estalada. Desta escapei, mas amanhã, cá estou de novo !” E era assim que os malandrinhos de então assistiam e gostavam do ofício das Trevas. Convínhamos que para nós, assim, a sagrada manifestação nada tinha de sagrado, era apenas uma brincadeira, agora digo “de mau gosto”, mas naquele tempo, quem nos podia emendar ? O polícia Forte, ou o seu chefe Pontes ? Não, com os rapazes, diziam, “nem o diabo quer nada com eles!” A solução do abuso-brincadeira, porque estava a passar “fora das malhas”, encontrou-a a Comissão da Solenidades, mandando colocar ao centro do templo um quadrado limitado por quatro bancos preguiceiros, dos usados para a doutrina, e dentro desse quadrado, era o lugar para a rapaziada. “Hoje é quinta-feira ( lá volto a viver os tempos passados) e estou na Praça do Almada, no terreiro fronteiro à Câmara. Os marchantes da vila primam, em cortejo mostrar o gado que será sacrificado, amanhã “dia de verde”, para a grande matança da Páscoa. Com os chifres enfeitados com bonitas fitas bi-colores, levados à soga por belas e coradas moçoilas, com vestimentas características das lavradeiras da região, lenço de cores berrantes, traçado entre os seios tumefactos e o pescoço, onde brilha grosso cordão de ouro com uma libra esterlina, seguem os mais belos e possantes bois, que, de seguida terão por fim o matadouro. E é cada bicho de se lhe “tirar o chapéu”, pesando qualquer deles umas boas dezenas de arrobas. Os marchantes seguem ao lado, cada qual esperando para o seu representante, o elogio do melhor e mais possante. É um cortejo, ao mesmo tempo folclórico e etnográfico.” Continuará hoje ainda essa tradição do cortejo dos bois da Páscoa ?. “Na sexta-feira, á tarde, o dia Maior da tragédia religiosa, é na Sala de Visitas que vou assistir à passagem do féretro do Senhor, que é organizado na Matriz. Num completo silêncio e respeito decorre a Procissão do Enterro. Todos se benzem e ajoelham à passagem do esquife do Senhor, que momentos antes, uma ou duas horas, tinham expirado. De regresso ao templo principal da Póvoa, sede da paróquia, preparam-se os fiéis para assistir ao sermão, que encerrará as cerimónias do dia.” À tarde e pelas primeiras horas da noite dentro, lembrando as Sete Estações de Roma, os fiéis percorrem sete igrejas e perante a nudez delas, apenas um quadro religioso lembra a quadra e incita à oração. Chegados ao sábado, um dos dias mais ansiado pela miudagem “também eu arranjei uma campainha para festejar a aleluia. Ela tem lugar na manhã, pelas onze ao meio dia. Apressado, para arranjar um bom lugar, segurando pelo badalo a campainha – não que é pecado tilintar antes da aleluia – sigo para a Matriz. Espero o momento em que é assinalada a Aleluia, e os panos pretos caiem e o deslumbramento das cores vivas ressurge assinalando a ressureição Salvador. E agora sim, já posso fazer tilintar o estridente som da campainha. Acompanhando os cânticos de exaltação do momento, os sinos de todas as igrejas poveiras, estão a ouvir-se e eu como toda a catraiada exultamos de alegria.” E assim aquele sábado era um dia de folgança, é certo que não correspondia à verdade, até que, para estar conforme as escrituras um Concílio transferiu para a noite de sábado para domingo, essa cerimónia. Domingo de Páscoa, “ainda posso ver a procissão da Ressurreição, mas esta porque percorre um trajecto mais pequeno, limitado desde a Matriz até dar uma volta pela Praça do Almada, tenho que me apressar para a ver. E agora depois do almoço de festa, tenho que esperar que o Padre Américo Nilo, venha trazer de visita à nossa casa, o Senhor Ressuscitado, e enquanto ele não vem, no salão de provas da modista Dona Felicidade, os pares de enamorados, dão um pezinho de dança ao som da grafonola.” E quando o Compasso saía da nossa casa em visita pascal era certo e sabido que lá vinha a tia Maria com a frase : “PRONTO, PASSOU A PASCOA” Braga, 15 de Março de 2006 LUIS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt www. bragamonumental.blogs.sapo.pt
publicado por Varziano às 16:19

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