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Ago 08
\ A PROCISSÃO DE NOSSA SENHORA DAS DORES A Rua da Junqueira, é um arruado, o principal da Povinha do Mar, que sempre é integrado nas procissões religiosas desta terra, “RAINHA DAS PRAIAS PORTUGESAS”, rainha sim, há só uma, mas Princesas há muitas, como a Princesa do Ave, a Princesa do Cávado ou a Princesa do Lima. Ora, desde que me lembre, houve só um ano em que esta procissão não passou pela Junqueira mas, segundo a tradição oral transmitida pelos meus avoengos, há já muitos anos, mais de oitenta, este arruado esteve interdito às manifestações religiosas, procissões inigualáveis em toda a costa Norte de Portugal. E o caso que as interditou só será conhecido de “de visu” por algum quase centenário. Mas passemos aos factos. Todos os póveiros e não só conhecem a Junqueira como a palma das mãos, conhecem o relógio da Ourivesaria Gomes, que dum lado divide o dia, com é habitual, em duas partes de doze horas e, no outro mostra as vinte e quatro. Esta é uma das curiosidades que ela apresenta, mas há mais. Talvez, nos últimos anos de segunda, ou princípios da terceira dezena do século passado, um poveiro, creio que da família dos “Agulhas”, decidiu tentar a sua sorte nos “Brasis” e rumou até Manaus. Ou porque a sorte não o favoreceu ou por qualquer outra razão que não vem para o caso, resolveu regressar à “terrinha” não sem antes ter, nas plagas amazónicas, conseguido, talvez, uma certa instrução que por certo não tinha levado para aquelas inóspitas paragens. Dado à poesia, às letras, fundou na Junqueira, uma livraria, a “Livraria Académica”, que depressa se tornou um lugar de tertúlia, para os académicos de então. Já estão a ver que me refiro ao saudoso Ademário Ferreira, poeta que nos deixou alguns poemas e prosador, bom falante, que acolheu, na sua casa com simpatia, os jovens estudiosos. Certamente impregnado do modernismo, resolveu dar um bom aspecto ao seu estabelecimento e transformando a fachada, colocou sob a varanda um motivo que para os puritanos de então era escandaloso – duas sereias – não se lembrando ou até não sabendo que no gótico e até no barroco, elementos mais ousados que este, era habitual nas construções religiosas. Estou a lembrar-me de uma gárgula na ábside da Sé de Braga, ou num modilhão no Convento da Conceição em Beja. Ora esta fachada deu origem à interdição da passagem pela citada rua, dos cortejos religiosos, interdição que acabou por acabar e, voltou a Junqueira a ser itinerário normal desses cortejos, interrompido apenas um ano, por volta dos finais da vintena do século passado. A família Costa, como todos os póveiros, tem muita devoção com Nossa Senhora das Dores, sendo que familiares eram até zeladoras do seu altar. O meu tio Zé Costa, estando muito doente, manifestou o desejo de ver a procissão da Senhora que sempre se faz no segundo ou terceiro mês de Setembro. Assim os seus familiares, principalmente sua irmã Maria, conseguiu com que a Irmandade consentisse que nesse ano o cortejo religioso fizesse um desvio e, alterando o seu trajecto, optasse pela rua Santos Minho em vez da Junqueira. E assim aconteceu. Agora cabe-me a vez de falar na minha intervenção no ano seguinte. Tinham feito promessa, afastada a doença, de que o quadro bíblico mais disputado (os intérpretes eram sempre marcados de ano para ano) seria composto por seus familiares. Era esse quadro “A Fuga para o Egipto”, sempre batido nas chapas dos “turistas” de então nos rudimentares caixotes, precursores das modernas digitais. Com a cura do doente, atribuída à intercessão da Mãe de Jesus, havia que cumprir a promessa. Mas primeiro que tudo tinha de ser resolvido o problema de obter a cedência daqueles que já estavam destinados desde o ano anterior. Para isso tinha de se recorrer a uma grande influência pois o quadro, como acima se diz, era muito disputado. Valeu de novo a zeladora, que conseguiu demover os até então já nomeados. Agora havia que escolher quem seria o par que interpretaria o quadro e, como os filhos do ex-doente, pela sua idade não serviam, recorreram aos sobrinhos cuja idade era a ideal, sete e oito anos, eu e a minha irmã Isabel. Resolvido este óbice, outro teria que ser resolvido, nada mais que arranjar uma jumentinha branca, para transportar a Mãe e o filho. Como os seareiros de “Abremar”, é assim que se referiam no seu linguajar à freguesia de onde vinham todas as manhãs, e transportando no dorso dos seus pequenos animais as novidades que as suas terras produziam, para o mercado diário da Póvoa, facilmente poder-se-ia arranjar o pequeno animal e até, por certo, ficavam contentes com o favor prestado. E assim, naquele distante ano, lá figurei na procissão como São José, e a minha irmã, em cima da jumenta, abraçando a figura do seu filho, o Deus Menino. Para a figura do anjo anunciador foi escolhido creio que Lino Maio, um rapazito, que estava em férias na nossa casa com os seus pais, que labutavam no Rio de Janeiro. O quadro bíblico da “Fuga para o Egipto” nesse ano causou sensação e estranheza, porque o Nossa Senhora não levava a tradicional cabeleira, mas sim o cabelo cortado “a lá garçone”, enquanto que anjo e o São José suavam as estopinhas debaixo dos vestidos de veludo e as cabeleiras postiças e o anjo ainda tinha a sobrecarregá-lo as ASAS. Como o percurso era longo, já na Avenida Mousinho, cansado pedi à Nossa Senhora que trocasse comigo o seu transporte, mas lá tive que aguentar até chegar à Capela da Senhora das Dores. Desses miúdos de então, estou ainda cá eu e quanto ao Lino, nunca mais soube dele. Não sei se é vivo ou se já ultrapassou os umbrais da eternidade. Tenho imensa pena de não ter ficado com uma foto para hoje mostrar aos meus filhos, netos e bisnetos do tempo em que eu fui de anjinho, figura que me marcou para toda a vida. Braga, Agosto de 2006 LUÍS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt Email: luisdiascosta@sapçop.pt www: bragamonumental.blogs.sapo.pt
publicado por Varziano às 16:16

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