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O B A N H O S A N T O O RITO DAS ONDAS, MAR FECUNDADOR, CURATIVO DE MALES DO MEDO E DE EXPULSAR O DIABO DO CORPO Neste canto do Noroeste da Ibéria – no conjunto Minho-Galaico – os costumes, a cultura e as lendas andam, embora com pequenas alterações, muito ligados. Bem isto a propósito do espectáculo que nos proporciona o Banho Santo, que dentro de dias vai ter lugar na freguesia de Esposende, São Bartolomeu do Mar, a realizar no dia do “Diabo à solta”- 24 de Agosto - ( como assegura a tradição popular ). Nesse dia, a população minhota e não só, e até possivelmente, gentes da raia, acorrem à praia, numa descomunal concentração para “com um banho santo”, afastar dos corpos o diabo, tirar o medo às crianças, curar de muitas maleitas e até conseguir que as mulheres estéreis alcancem, finalmente, um desejado filho. O costume e a tradição manda e de nada valem os avisos, as recomendações da igreja de que se trata ainda de um resquício do paganismo. Madrugada, é ver aquela mole de gente procurar a orla marítima, esperando a chegada de três ondas, para nelas mergulhar em “cachafunda”, as crianças e adultos, pensando que este rito fará com que os seus males assim desapareçam. Também na Galiza se processa este rito, no entanto nesta localidade galega tem o nome de “O rito das nove ondas”, na praia de Lanzada, perto de Sansenxo, a caminho de Grove e da ilha de a Toga, e o costume tem lugar em várias épocas, como seja “no último domingo de Agosto, no dia da Ascensão, que naturalmente é quinta-feira e em 24 de Junho, dia de São João”.( 1 ) Em Lanzada, que o saibamos, não encontramos qualquer referência a alguma ligação entre cerimónias religiosas com o paganismo como acontece em São Bartolomeu do Mar. De facto nesta freguesia esposendense, além do banho, temos ainda que os romeiros terão que dar umas voltas à capela do Santo Protector, creio eu, com uma galinha preta e passar por debaixo do andor do Santo. De resto, este costume de passar por debaixo dos andores dos Santos, não é exclusivo de São Bartolomeu. Também em Vila do Conde, julgo que na Procissão de Cinzas, se fazia o mesmo com crianças a quem tardava a fala, só que nesta hoje cidade, o Santo era “São Luís, Rei de França”, e esta passagem era acompanhada, ao mesmo tempo que batiam com a cabeça do miúdo ou miúda no fundo do andor, com a lenga-lenga “São Luís, Rei de França, dai falinha a esta criança”, e o coitadito se não falava, pelo menos devia chorar, o que devia deixar contentes os seus progenitores, pois assim consideravam o milagre feito. Mas voltando aos benéficos banhos e ares do mar, pois não era só a entrada nas “salsas ondas”, o ar marítimo abria o apetite. E pelo areal espalham-se, os crentes saboreando não a galinha preta, que esta irá de novo para a capoeira, esperando por certo novo ano e nova peregrinação, mas uma outra, ou coelho ou qualquer outra vianda que lhes adormeça o apetite, refeição que deve ter sido bem regada pelo bom vinho verde do que “pinta a malga”. Em Espanha, e segundo a fascículo do jornal citado, agora parece que “O Rito das Nove Ondas”, principia por ter “a preferência … pelo último domingo de Agosto, quando as colheitas já foram feitas e se deu fim ao manifesto da fertilidade da terra, procurando a equivalência no mar, que também é fonte de vida”.( 2 ) Curiosamente o efeito das ondas pode ser substituído, em Lanzada, por nove mergulhos nas águas estagnadas – poças - que o mar forma na baixa-mar, pois a crença está divulgada que o efeito será o mesmo. Estes banhos além da fertilidade, tem como dissemos outras vantagens, isto na Galiza, como por exemplo, o desaparecimento de verrugas. Mas para obter estes resultados torna-se necessário que o banho se efectue durante nove dias seguidos “de maneira que o magismo está na repetição do número e não na circunstância aquática”.(3) Este número nove é uma reminiscência céltica, número mágico na sua religião, povo ancestral dos Minho-Galaicos, em que a semana para eles tinha nove dias e o cálculo era feito por noites e luas, e não como hoje pelo despertar do sol. O Rito das Nove Ondas, deu lugar a aparecerem no folclore manifestações populares traduzidas em canções. Para exemplo aqui deixo algumas extraídas do fascículo do Faro de Vigo : “LEVEI MINHA MULHER Á LANZADA ÁS NOVE ONDAS; LEVEI-A A DESINFECTAR E DEITAR OS DEMÓNIOS FORA” “INDO PELO MAR ABAIXO O VENTO RASGOU-ME A VELA. MINHA VIRGEM DE LANZADA DÁ-ME PANO PARA ELA”. “ONDA DO MAR SAGRADO TIRA-ME O AR DE MORTO, DE VIVO E DE EXCOMUNGADO”- Como vemos, pelo atrás fica escrito o mar é uma fonte de fertilidade – não esqueçamos o sargaço e o pilado que adubavam as terras seareiras da costa norte do concelho da Póvoa , produzindo a boa batata e a tenra tronchuda -, como é um bom lenitivo para a saúde e descanso. E para quando se volta aos tratamentos de TALASSOTERAPIA, os famosos banhos quentes de água de mar que tanta fama tiveram na Póvoa combatendo entras outras doenças, o reumático ? ( 1 ) Faro de Vigo, Fasc.21-1993 ( 2 ) Jornal citado ( 3 ) Ibdem
publicado por Varziano às 15:35

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