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Ago 08
A FARMOCOPEIA NA IDADE MÉDIA E NO SÉCULO XVIII PELOS CAMINHOS DE SANTIAGO ABUNDAVAM AS PLANTAS SALUTÍFERAS. NO SÉCULO XVIII UM TRATADO DE MEDICINA DÁ-NOS OUTROS REMÉDIOS Muito antigo é o conhecimento do valor de certas plantas na cura ou alívio de doenças que desde os primórdios, afligem a humanidade. Sabemos, já para não recuar aos tempos pré-históricos, que o conhecimento dessas plantas possivelmente anterior à alquimia, resultou provavelmente de uma “observação casual e seu raciocínio, está já nos papiros egípcios, nos escritos ideográficos do Imperador Chinês Cho-Chim-Kei, na Índia do Caraca…na Assíria e Babilónia, na Bíblia. ( 1 ) A divulgação dessas plantas curativas e ou alívio dos pacientes, muito devem às várias boticas conventuais espalhadas ao longo dos caminhos de Santiago, sejam os caminhos portugueses ou os jacobeus. As caminhadas eram longas, cansativas, sujeitas às inclemência do tempo, as doenças surgiam, o cansaço e por vezes até uma deficiente alimentação eram propícios até que o peregrino não chegasse a alcançar a meta da visita ao sepulcro do Apóstolo. Restava a esses romeiros a hospitalidade dos frades, que aos poucos foram conhecendo o valor curativo de diversas plantas, aplicando-as aos que a essas albergarias recorriam não só para tratamentos como também para desfrutar uns breves momentos de descanso nas suas infindáveis caminhadas. Ficaram famosas as boticas fradescas e ainda hoje, podemos ver as suas instalações da que foi do Mosteiro de Tibães, que ficava um pouco desviada por certo do caminho português, mas uma que ficava no caminho era a de São Salvador de Montélios. Muitas outras deviam figurar nesse roteiro, mas por agora vamos é falar das ervas curativas que então se usavam com plena satisfação dos peregrinos medievais. Esses remédios naturais, primeiro, a sua experimentação e aplicação principiou a fazer-se nas boticas dos conventos e só mais tarde eles passaram a ter uso nos incipientes hospitais daquela, até certo ponto, obscura Idade. Assim temos que desde nevralgias a calosidades e chagas nos pés, doenças dos olhos, provocadas muitas vezes pelo pó, vento ou frio, dificuldades na respiração, disenterias, vómitos, e um infindável rol de mil doenças, as ervas, as plantas, aplicadas por chás, por maceração ou emplastro tudo curavam. Por vezes o processo de cura era acompanhado de benzeduras, principalmente quando o doente recorria a curandeiros. Disso é exemplo a lenga-lenga que abaixo se reproduz : “ERESIPELA QUE VIESTES NUM DIA DE LUA CHEIA, TENS QUE MORRER SEM IR DAR A OUTRA PESSOA NA TERRA. A VIRGEM MAIS ME AJUDE E TAMBÉM O NAZARENO, OS DOIS ME DEEM PODER PARA SALVAR ESTE ENFERMO”. ( 2 ) Nem só os medicamentos eram compostos apenas por produtos vegetais, também era vulgar recorrer-se a outros de origem animal ou mineral. No entanto para o que estamos a tratar, interessam-nos apenas os de origem vegetal e usados, como dissemos na Idade média. Utilizavam-se as raízes, as folhas, os bolbos e até as flores, como a seguir veremos. O acónito ( planta venenosa ), era servido para calmante e regulador do coração e pulmões ; a angélica ( planta medicinal ), tinha propriedades estomacais; a argentina ( planta rosácea ), o cozimento das suas raízes e folhas, era remédio santo para acabar com a diarreia e hemorragia, enquanto que a arnica, em tintura, era usada para curar feridas e, por via oral se empregava contra o paludismo. A chicória tinha qualidades laxantes; aproveitando a água do cozimento do teixo, faziam-se excelentes xaropes, e era remédio estomacal. Também servia para combater a icterícia e ainda como tónico cardíaco e bem diurético. Havia ervas contra todos os males, desde a vulgar dor de dentes, até à retenção de urina ou espasmos nervosos. Remédio notável contra os escaldões do sol ou do frio, nada melhor do que esfregar o corpo, como o Senhor o deu ao mundo, num monte de urtigas. Deixando o medievo, vamos entrar agora, num novo período, a idade Moderna, ou seja no século XVIII. Para isso socorremo-nos do velho livro, datado de l726, cujo título é PORTUGAL MÉDICO – MONARCHIA MEDICO—LUSITANA, que a páginas 37, acrescenta, sem desaconselhar os remédios medievais, ou pelo menos a eles não faz referência, receitas de origem animal, das quais resumidamente, vamos descrever umas poucas, deixando outras pois que podem não as suportar os estômagos mais sensíveis. Respeitando a grafia para lhe dar mais sabor, eis, então, algumas : “Os cabbelos, destilados, & misturados com mel e óleo que shair hé este linimento hum grande remédio, para a produção dos cabellos. Reduzidos a cinza servem para o lethargo, e mais affectos supurosos pulverizando a cabeça. O mesmo pó bebido cura a icterecía. A mesma cinza misturada com cebo de ovelha corrobora os membros dislocados, & acode ao fluxo de sangue das feridas. Os cabellos da cabeça & do corpo enfermo introduzidos em um ovo, & dando-o a comer a qualquer ave depois de cozido, curaõ perfeitamente quartãas. Posto nos narizes fazem parar a hemorragia & applicados sobre a Erysipela applacaõ a ebuliçaõ do sangue. As unhas, tomadas ou em pó, ou em infusaõ provocaõ a vótimo: cortadas dos pées, & das mãos, & aplicadas ao embigo, expurgaõ os foros lympháticos os hydrópicos. Alguns para curar qualquer febre, intruduzé as unhas dos pees, & mãos do enfermo em um ovo, e daõ a comer a qualquer ave. Outros as envolvem & encorporam em cera, & de manhã, antes de nascer o Sol pregaõ a cera na pedra da janella. Outros as prendem a um caranguejo vivo & o tornaõ a lançar na agoa. Para recuperar as forças prostradas daõ um golpe na raiz de uma ceregeira, & aí introduzem as unhas, & cabbelos do doente, & tornaõ com esterco aglutinar o golpe. A saliva do homem em jejum tem virtudes contra as mordeduras venenosas das serpentes, & caõ damnando, cura as chagas, & as empingens. A cera dos ouvidos, tem-se por admirável remédio contra a cólica se se tomar em agoa appropriada. Exteriormente applicada hé contra a mordedura dos Escorpiões; conglutina as feridas, & fissuras da pelle; provoca a vómito posta no cachimbo com o tabaco, & tomando o fumo. O suor tem bom uso nas alporcas, se sobre ellas se puzer quente com a folha & raiz de verbasco. O sangue, hé decantado remédio para a Epilepsia, se se lançar nos beiços do enfermo em quanto está no actual acidente, também aproveita muito da lepra. Cura qualquer fluxo de sangue, ou bebido fresco ou reduzido a pó. O mesmo sangue que sahe pelos narizes, se se untar com ele a testa até que seque, faz parar a mesma hemorragia … As lombrigas, secas, & reduzidas a pó expelem as que ficam no corpo. Os piolhos tem virtude contra a Icterícia. A Urina, é calefaciente, exsiccante, resolvente, abstergente & mundificante…( 3 ) E por hoje não é preciso dar mais exemplos, a não ser que apareça alguém, se ainda não tiver o estômago revoltado, e que queira mais, então deve procurar o livro PORTUGAL MÉDICO – ou Monarquia Medico-Lusitano, e por ele saberá de muitas e mais novidades, misturadas com algumas poesias de vários poetas, de entre os quais se destaca Sá de Miranda. Muito mudou, e ainda bem, a ciência médica. Braga, 10 de Agosto de 2005 LUIS COSTA ( 1 ) Faro de Vigo, fas. 31 -1993 ( 2) -Ibidem ( 3 )-Portugal Médico – 1726, pag. 37 e segs.
publicado por Varziano às 17:56

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