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Ago 08

                  PASSEIO  ALEGRE

 

Gratas são as recordações que tenho das manhãs dos domingos soalheiros de inverno, enquanto se esperava pelo missa do meio-dia, celebrada pelo saudoso Padre Pontes, na primitiva e então inacabada igreja de São José de Riba Mar, delineada pelo arquitecto Moura Coutinho, que chegou a apresentar um grandioso projecto para êste passeio, prolongando-o desde a Meia Laranja, na entrada para o pequeno paredão, única defesa da baía, onde arribavam os barcos para despejar no extenso areal a sua preciosa carga do bom e fresquinho peixe, até pelo menos creio que à casa do “galo”, em frente à esplanada majestosa mansão, que ainda há pouco foi sacrificado à senha do camartelo do progresso.

Se o projecto tivesse ido avante, hoje a Avenida dos Banhos não nos apresentaria um muro de cimento, com avantajados apartamentos, quase a beijar o céu e onde os alicerces desses monstros ao mesmo tempo que conquistaram alturas, poderão, pode dizer-se, refrescar os pés nas salsas ondas que a língua da maré, pelo menos nos tempos de borrasca, tempos de marés vivas, “esbordam”, ultrapassando os pequenos obstáculos de “figurados bancos” e se espraiam pelo asfalto do arruado.

Na década de 30/40 do século que findou era então frequente, logo que o Sol principiava a aquecer o ambiente nas manhãs de Domingo o então picadeiro, isto é o espaço que ia desde a Meia Laranja até à Esplanada do Carvalhido, como a recordar o verão ido, encher-se de animados passeantes que, naquele “vai e vem”- dizia-se “como estando a tirar água à nora”- por ali circundavam num aquecer os pés e saboreando o cheirinho do ar fresco temperado pelo salitre do mar e o odor do iodo das algas.

Era rapaziada mais nova e as meninas que, nostalgicamente, assim recordavam os dias e noites dos meses de veraneio, dias e noites por vezes enregelantes pelas cortantes nortadas que o senhor vento vindo lá dos lados de Cedovem, obrigavam a um enroupar mais quentinho. Mas isto era no Verão, principalmente no mês de Agosto ( para mim os melhores meses de veraneio na Póvoa, são o mês dos Santos populares, o de Julho e o de Setembro ) meses mais calmos de onde, praticamente, as nortadas andam arredias.

Na Primavera e no Outono, com dias soalheiros era bom passear naquele picadeiro, saboreando as réstias de Sol, sem a confusão e o bulício das muitas gentes e era por ali que encontrávamos velhos amigos e até recordávamos outros que a parca ceifou.

Mas não é de nostalgia que tratamos hoje, e como “tristezas não pagam dívidas” ,  viremos a página e passemos a outro capítulo.

Na foto que acompanha esta crónica ressaltam alguns elementos já desaparecidos e outros ali representados estão como inicialmente foram projectados. Estão nestes caso o Guarda-Sol e o Diana Bar, bem como a própria Avenida dos Banhos, vedada do areal por extenso banco de encosto aqui e além interrompido para dar passagem à praia, por uma meia circunferência com bancos e os postes de iluminação e que agora tem os seus passeios mais largos, com sacrifício dos citados Guarda-Sol e Diana, sem bancos de encosto, que dão caminho às areias. 

Dos desaparecidos contam-se o coreto de cimento, entre as placas ajardinadas do Passeio Alegre e a casa de gaveto entre o Passeio e a Avenida dos Banhos e ao seu lado o famoso Café Ribeiro, também conhecido pelo café da “Libânia”, formando gaveto com a rua Dr. Caetano de Oliveira.

Também se pode ver a casa do Dr. Caetano, ocupada ao tempo da fotografia, pelo seu filho, o oftalmologista com o mesmo nome do pai, Dr. Caetano de Oliveira, pai do meu prezado e meu muito amigo Zeca Caetano ( era assim que o tratava ) e que há já longos anos que nada sei dele. A última vez em que nos encontramos, era Director do Sanatório, no Caramulo e, se ele ainda se “encontrar neste caminho de recordações, daqui lhe mando um forte abraço”.

Hoje, como sabemos, neste local foi instalado o moderno edifício da Sopete, mas esta crónica não é para lembrar coisas de agora mas de tempos idos.

Como disse, aos domingos de inverno e não só, tanto a Meia Laranja como o café da Libânia, era ponto de encontro para uma agradável cavaqueira, não só de gentes do mar como até dos chamados “peixes de coiro”.

Vou principiar pela Meia Laranja, local mais propício a juntar o pessoal do mar. Sentados nuns toscos bancos com costas de pedra, era vulgar vermos velhos pescadores entretidos com os seus dizeres. Ali uma personagem raro faltava. Utilizando o seu velho meio de transporte que a sua invalidez locomotora o obrigava a usar, lá não faltava o velho mestre escola que ensinou as primeiras letras a muitas gerações de poveiros – o professor Quilores.

Já no Ribeiro juntavam-se, talvez possa dizê-lo, os mais intelectuais, não faltando aquele que para todos nós, afirmo-o eu, era e é o maior poveiro de todos os tempos – António Santos Graça.

O café da Libânia, ou Ribeiro se assim preferirem, era um local ideal para dois dedos de conversa. Abrigado as nortadas, exposto ao Sol, sentados ou de pé, tinha uma frequência fiel. Possuía todos os requisitos para passar uma manhã agradável e de franca convivência e ainda tinha fama o seu cafezito, considerado como o mais saboroso entre todos os estabelecimentos congéneres poveiros. Segundo constava, a Libânia era dona de um segredo para lhe dar o sabor que não revelava ciosamente.

Ora, a minha mãe, era a enfermeira do consultório do Dr. Caetano, paredes meias com o café. Com vontade de saber o segredo, tanto insistiu coma sua amiga Libânia que ela acabou por revelar-lho. Era nem mais nem menos do que lançar na cafeteira do café de saco, UM RABO DE BACALHAU !... e era, dizia ela, o segredo que lhe dava o bom sabor. Se era assim, não sei mas o que sei é que há muito boa cafezeira que junta à saborosa bebida, UMA PITADA DE SAL!...

E para terminar por hoje, vou contar um episódio, quase anedótico, que se passou à porta do consultório do Dr. Caetano. Um casal de lavradores que nunca tinham visto o mar ficaram deveras admirados com o espectáculo para eles inédito a ponto da exclamação :

 

: Ó MARIA, QUE “POCHA” TÃO GRANDE!...

 

Braga, 23 de Abril de 2007

                                                          LUÍS COSTA

Email: luisdiasdacosta@clix.pt

Email: luisdiascosta@sapo.pt

www: bragamonumental.blogs.sapo.pt             

 

publicado por Varziano às 19:45

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