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Ago 08
R E C O R D A Ç Õ E S O ler, num dos últimos números do " Comércio da Póvoa ", um artigo do Exmº Senhor Professor Doutor Amadeu Torres, fez-me recuar nos tempos 75 anos quando em 1928, numa manhã de 7 de Outubro, um grupo de três rapazinhos, percorreu, saindo da rua de Santos Minho, o caminho até à Escola Conde Ferreira, no Largo de Nossa Senhora das Dores, para contactar pela primeira vez, um professor que neste longo percorrer da vida para sempre nos ficou gravado como um exemplar pedagogo. Tratava-se do professor Luís Pereira Viana, e os rapazinhos desse tempo eram, contando comigo, o meu primo Américo e o também nosso vizinho Antero Barros. Ali encontramos companheiros e amigos, alguns dos quais já partiram para a Eternidade e outros, por certo muito poucos, ainda se vão arrastando com o pesar dos anos. Lembro, entre outros, ( a memória já não ajuda muito ! ), os alegres miúdos de então como os irmãos Nogueira Guimarães - António e Arnaldo - os irmãos Pereira Leite, que em 1942 encontrei no Curso de Sargentos Milicianos no Porto, o António Augusto, o Alfredo, o Claudionor Sobral, os irmãos Araújo, um dos quais o Laurentino, seguiu como o meu primo Américo, a Magistratura, o Hermínio Janeiro, que depois de algum tempo como médico na Póvoa, foi para Moçambique, e regressado à Metrópole, passou a exercer a Medicina em Caminha, o Alberto Reis, o Eugénio Dias, o Fernando Eça e tantos outros mais que a memória já cansada não permite recordar. Se bem me lembro, o edifício escolar era constituído por três salas, uma a Nascente onde pontificava o meu professor Viana, a do meio a cargo do prof. Leopoldino Loureiro e a do Poente cujo professor era o Snr. Correia. Tinha um vasto recreio ( pelo menos assim o recordo com a dimensão alargada talvez para o nosso olhar de crianças ), com um barracão-coberto que servia de abrigo nos dias chuvosos ou de canícula e umas imundas instalações sanitárias. No largo, existia, encostado ao muro onde morava o sacristão da Senhora das Dores, uma cortina de árvores, creio que eram choupos que na Primavera e Outono proporcionavam umas frescas sombras. Mais tarde, talvez no ano seguinte à minha entrada, a sala do meio foi dividida em duas, ficando a do nascente, junto á do Prof. Viana, a cargo do Prof. Loureiro e a do outro lado, foi entregue a um novo Prof . de seu nome Pinho, que além de mestre era também um distinto musicólogo ( foi o autor da música da opereta MARIA, da autoria do Dr. Zé Sá, representada no velho Garrett, pelos anos de 1938, por Alunos da Escola Comercial Rocha Peixoto, como o Tone Dias ( Padre Olimpo Dias ), Liége Ferreira, Santos, Neca Silva, Neca Barbosa e outros e ainda um fogoso grupo de poveirinhas ). Mas voltemos à Escola Conde Ferreira e ao muito amigo professor Viana. Como disse acima era ele um professor excepcional. Nunca o poderei esquecer, pois foi devido ao seu amor ao ensino e aos seus alunos que fez singrar na vida muitos deles. No seu tempo nunca precisamos de explicadores. Ele era ao mesmo tempo professor e explicador. As aulas de manhã, pelas 9 horas, na sua sala principiavam, impreterivelmente, às 8 horas, com a lição de ditado, que com voz pausada ia ditando, e como tal não admitia erros no Português que lia nas selectas de então preenchidas com textos dos melhores autores nacionais. Depois seguiam--se as aulas de gramática, de geografia, de história Pátria e por vezes até de Mundial, de mineralogia, de matemática ( aritemética ), e tudo que era necessário para se sair com quatro anos de escolaridade, incluindo a urbanidade e sanidade pessoal. O seu método de ensino era tão profícuo que na altura dizia-se que os seus alunos, com a quarta classe , se tivessem bastantes conhecimentos da língua francesa podiam, à vontade, fazer o exame do 2º ano do liceu. Em conversa tida há dias com o meu primo Américo Campos Costa, referiu ele que em toda a sua carreira estudantil, desde o liceu à Universidade, nunca encontrou um professor com a categoria de Luís Pereira Viana. As aulas eram entremeadas com os intervalos para o recreio, onde a criançada dava azo à sua folia . E as brincadeiras cifravam-se pelo jogo da barra, da bandeira, do carolo, do pião ( a que se dava o nome do Jogo da Zocha - tinha uma forma diferente do vulgar pião, era mais achatada, mas as regras eram iguais ), o galgo corrido, encostado ou saltado , o botão ( que chamávamos de JOGO DA PINCHA ), por ser um botão usado nas ceroulas e ser de osso, saltava ou PINCHAVA mais. Nesses tempos ainda não se jogava como agora, entre a rapaziada, o jogo das multidões A BOLA. Ora até nos jogos então o bom professor Viana estava sempre atento e num dos que estava sempre de olho e ouvido à escuta era no galgo saltado. Tinha este jogo uma lenga-lenga que todo o saltador tinha que dizer ao saltar por cima do lombo do que estava agachado - porque antes tinha saltado mal ou porque por sorte lhe tenha cabido. Mal me recordo dessa lenga-lenga mas sei que principiando pelo um ia até um certo número. Creio que terminava mais ou menos assim : DOZE CARRADOZE, VINTE QUATRO COM CATORZE , DEZASSETE COM VINTE E UM FAZ UM CENTO MENOS UM. Num dos saltos tinha que o saltador com a mão fazer como se arrancasse do cachaço do que estava aninhado como uma parte do cabelo dizendo ao mesmo tempo ARRANCA A SALSA . Ora no fogosidade da brincadeira havia um ou outro que pronunciava ARRINCA A SALSA. Logo o professor Viana, atento, ordenava ao que tinha dito a asneira, para se colocar na posição do que estava aninhado. Era o castigo da asneira. Logo até a brincar não admitia faltar á boa língua materna. Disse já que com o professor Viana, não era preciso explicador, ele o fazia. O dia de descanso escolar, além do domingo era à quinta feira. Pois neste dia, de manhã para todos nós, era dia de aula e nos fins de tarde, sempre por volta das cinco horas sempre o nosso professor nos estava pronto para dar aulas de explicação, no tempo bom, à sombra dos choupos no recreio e nos dias piores na sala habitual. Mas não se fica só pelo que acima ficou dito, também interessava os seus alunos pelas coisas do passado. Numa vitrine que tinha na sala, expunha fosseis, restos de cerâmica romana, selos e outras quinquilharias que a mim me despertaram o gosto pela história e património. Também tinha por costume, como medida sanitária, antes de sairmos para o recreio colocarmo-nos em fila para uma inspecção de limpeza - mãos, cara, ouvidos, pescoço e cabeça. No caso que fosse falta de água, o caminho era o do rio que passa hoje por debaixo do Colégio das Doroteias e depois das obras prontas deste edifício era no chafariz colocado à entrada da estrada para Amorim. Se o caso era de falta de limpeza da cabeça, mandava para casa e só depois é que os recebia. Republicano convicto, lá por volta dos anos trinta chegou a ser incomodado pela polícia e alguns dias não tivemos aulas, no que então foi substituído num ou outro dia pelo prof. Loureiro. Algumas vezes nós os rapazes de então, saltávamos e íamos brincar sobre os troncos das árvores que tinham sido abatidas na Avenida e estavam arrumadas em frente da cadeia. Findas as horas de aula nunca saiamos sem termos finalmente uma sessão de canto coral onde acompanhados ao violino pelo professor Pinho, cantávamos algumas canções como o RATAPLAN, Á FRENTE O GALO e outras que eu já não recordo, e como bom republicano, terminávamos a cantar A PORTUGUESA e entre as carteiras lá seguia o Professor de ouvido atento não se desse o caso de qualquer miúdo não cantar o HINO NACIONAL. Agradeço ao Senhor Professor Doutor Amadeu Torres o ensejo de me fazer recordar um tempo que com saudade não volta para trás. Braga, Dezembro de 2003 Luís Costa
publicado por Varziano às 14:25

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