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Ago 08
RECORDAÇÕES DE OUTROS TEMPOS Num dos últimos " COMÉRCIO DA PÓVOA" , o seu prestigioso colaborador JOTEME, creio ser rapaz do meu tempo, hoje já na Casa do oitenta, mas que eu só conheço pelo pseudónimo, trouxe-me à lembrança o velhinho TEATRO GARRETT. Ora, sem desprestígio para o citado cronista, permito-me trazer mais algumas achegas para a história da velha Casa de espectáculos, única durante perto de 40 anos na então vila da Póvoa de Varzim. Durante vários anos fiz parte da familia que proporcionava ao póveiros um domingo de diversão, pois, pelo menos a partir de 1934, era eu, sobrinho do Zé Costa, então o empresário que o explorava o Garrett, que projectava, como projeccionista todos os filmes que nela eram exibidos, isto até por volta dos princípios dos anos de quarenta do século passado. Os filmes de aventuras no Far West , com Buk Jones, Tom Mix, Tim Mac Coy, Pamplinas, Harold Lolyd e outros artistas de comédia, drama e aventuras, enchiam a velha Casa, um barracão melhor dito, friorento no Inverno dadas as suas más instalações, onde o vento se fazia sentir penetrando por entre as frinchas das chapas de zinco ondulado, que forravam o exterior do edificio e palco. A disposição dos lugares feita pelo estimado colaborador JOTEME, estão quase certas, só diferindo no facto do galinheiro estar repartido por quatro espaços, dois em cada face, isto é de cada lado da porta principal e outros dois junto às portas laterais, lugares dispostos em escada, com uma grade a delimitar os bancos do superior. Foi de facto uma Casa de espectáculos sem condições mínimas para, confortavelmente se assistir a uma boa comédia, drama ou coboyada, mas como não havia melhor, era de suportar. Lembro-me perfeitamente da disposição sala com a separação, na plateia, entre o superior de bancos corridos e as cadeiras, à frente, disposição mais para espectáculos teatrais do que para cinematográficos, as suas frizas, uma delas sempre ocupada pela familia Gomes ( ourivesaria ) e a sua camada de camarotes no piso superior. Recordo a sua decoração em pinturas azuladas em tela devidas ao mestre Lino da Costa Nilo, pai do saudoso Padre Américo Nilo, que havia mudado o seu apelido com o qual não simpatizava de Fajardo, invertendo as sílabas do seu nome Lino por Nilo, substituindo o Fajardo. Lembro, como se fosse hoje, o facto de incêndio na cabina de projecção, quando da exibição de um filme da então famosa parelha de cómicos do cinema mudo Pat e Patachon, rebentou a fita e o projeccionista, sempre de charuto ou cigarro ao canto da boca, chegou ao celulóide do filme e o inflamou. Foi esta a razão principal para que a exibição passasse a maquinaria mais moderna e finalmente fosse introduzido o cinema sonoro. A sonorização fazia-se por dois sistemas - uma o chamado Vitafone, através de discos, devidamente sincronizados com a imagem, ou ao actual sistema gravado na própria fita, junto picotado, e que o contraste de sombra e luz faz activar uma célula fotoeléctrica, que sua vez é transformada em som. Mas a primeira vez que se ensaiou dar uma realidade ao cinema, introduzindo-lhe sons que mais não era que barulhos, fez-se no Garrett, por volta dos finais da década de 20 do século passado. Tratava-se da apresentação de um filme - Asas - que relatava a odisseia dos combates com auxílio da aviação na guerra 14/18. Como sabemos nesses gloriosos tempos do cinema mudo, só usando artimanhas se podia criar a ilusão de um combate, com o picar dos aviões, o rebentamento das bombas, o matraquear das metralhadores. Para obter esses efeitos recorreu-se à instalação no palco, por detrás do pano branco do ecran de uma verdadeira máquina de ilusões sonoras . O ruído dos aviões em voo picado era otbido pelo raspar de uma de um cilindro de madeira numa tela, cilindro movido por uma manivela a qual com um maior ou menor movimento, provocava o roncar do avião. Do barulho do rebentamento das bombas ficava encarregado o mestre do bombo e quanto a fuzilaria das metralhadoras e espingardas o caso era resolvido pelo bater com as baquetas na caixa. Foi um sucesso e até para instruir os soldados do quartel póveiro, foi apresentada uma sessão especial. Tenho na minha mente já cansada com o pesar dos dois carros de anos com que alombo, um recordação do primeiro filme sonoro que vi e que tinha por interprete o cómico Harold Lloyd e cuja titulo era " Harold , trepa, trepa" e um outro cujo título era 1981, no qual se apresentavam ficções que hoje em dia são realidades e que eu dizia com os meus botões " quem me dera chegar a esse ano par ver se alguma coisa virá a ser realidade" e o que é certo é que já estamos em 2002, e muito do que nesse recuado ano de 1930, veio a tornar-se realidade e eu ainda cá estou para o confirmar. Mas voltando ao velho Garrett. A sua primeira transformação teve lugar no ano de 1938. Nesse ano a Família Evaristo, resolveu transformar a pequena jóia que era o Café Chinês numa sala de cinema e que todos nós conhecemos - O Póvoa Cine. O propriétario do Garrett, Neca David ( Amorim Alves ) e o arrendatário ou empresário Zé Costa, não podiam perder ingloriamente a sua sala. Logo no principio do ano, lançaram mãos à obra e trataram de remodelar a sala, apenas a sala deixando para mais tarde o palco. Foi nessa altura que as placas que assinalavam a passagem de artistas teatrais pela Póvoa onde se apresentaram em bons espectáculos. Uma delas - creio que eram duas - tendo uma gravada a letras de ouro, a assinatura em fac- simile de Amélia Rey Colaço e a outra em homenagem a Alves da Cunha e talvez Maria Matos ou Palmira Bastos . Desta última não tenho a certeza . Ni final do ano o empresário José Costa cedeu a exploração à novel empresa do Póvoa Cine, que a manteve durante vários anos até que o distribuidor lisboeta Fernando Santos, da Sonoro Filme tomou a exploração e parece-me com a obrigação de fazer um novo palco. Mais tarde entrou em descalabro e chegou quase a uma ruina da qual parece que vai ser salvo pelos serviços Culturais das Camara póveira o que é de louvar. Chegados a este ponto vamos voltar ao velhos tempos, Não tinha o Teatro Garrett, bar para nos intervalos das sessões satisfazer a clientela. Valia nessa altura o estabelecimento do Branco que ficava mesmo de frente para a entrada do Teatro, no chamado ferro de engomar. Nesse tempo uma entrada para assistir ao cinema custava qualquer coisa como quinze tostões. Ora um dia resolveu um rapaz, julgo de seu nome Crespo ( que será feito dele ? sei que foi para o Brasil e nunca mais soube dele ), com geito para o desenho, resolveu de acordo com outros juntar uns tostões que dessem para comprar um ingresso. Isto era para saber a cor do papel, e depois copiar, e usando um máquina de costura fazer o picotado, o que dava a ilusão de autenticidade. A quantidade era a certa para cobrir o avanço dos quinze tostões. Mas a melhor dele foi num dia de aperto ter copiado uma nota de vinte paus, mas só numa das faces. Dobrou-a muito bem e no intervalo do espectáculo, foi ao estabelecimento do Branco e lá a trocou por uma beberragem. Com a pressa de servir os clientes, o comerciante do Ferro de Engomar nem deu pela falcatrua. Outras e muitas mais recordações tenho do velhinho Garrett, o que daria para muitas crónicas mas o cansaço ( o peso dos oitenta e um ) não permitem muitas divagações, e tenho pena, mas enfim há que nos conformar. Braga, 6 de Dezembro de 2002 Luis Costa Amigo Manuel Estive para fora uns dias e só agora Recebi a sua carta convite. Não sei se irá a tempo. Desculpe. L. C.
publicado por Varziano às 14:16

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