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Ago 08
PARA A HISTÓRIA DO VELHO TEATRO GARRETT - 3 – Dissemos no anterior escrito que para a modernização da projecção filmes no Garrett, contribuiu em muito, o facto de ter ardido o filme de Pat e Patachon. De facto após este incêndio, logo principiou a pensar o empresário, o meu tio Zé Costa, em adaptar o Garrett à nova corrente do cinema sonoro, ainda com Vitaphone, mas também já com o novo invento da célula foto eléctrica, sistema que apareceu para ficar e como tal ainda hoje é o usado, muito embora, mais aperfeiçoado e simplificado, A primeira célula era um cilindro do tamanho aproximado das latas de cerveja e, agora, a célula é mais pequena do que uma unha do dedo mendinho. Um ano ou depois da incidente do filme cómico que ardeu, foi resolvido fazer uma nova cabine de projecção, utilizando um espaço, separado da sala de espectáculos pela parede que há entre o salão, que foi sede da Assembleia, Sala de Jogo ( dependente do Casino, instalado no Café Chinês ) e ultimamente sede do Desportivo. A máquina de projecção era então o ultimo grito da indústria alemã, uma Bauer. O primeiro filme, com esta nova maquinaria apresentado, se bem me lembro, foi uma comédia de Harold Loydd, intitulado “Harold, trepa, trepa” e logo a seguir um outro que também me ficou na memória, porque previa acontecimentos e coisas que se vieram a concretizar e eu, na altura dizia para mim: “ quem me dera chegar lá para ver se as previsões irão acontecer ! O argumento andava à volta de um individuo que em 1930, tinha sido fulminado por um raio e metido num congelador e era, por artes da nova ciência, ressuscitado em 1981, ano que dava nome ao filme. Nele eram apresentados, numa antecipação que se veio em parte a concretizar, aspectos do nosso dia a dia de hoje, como a paragem em pleno ar de uma máquina parecida com o avião, a transmissão à distância de imagens, as refeições e bebidas condensadas, as ruas iluminadas, não por candeeiros, mas sim por tubos e raios. Mal sabia eu que parte destas novidades ainda seriam concretizadas nos meus tempos. Também nunca julguei chegar à idade que tenho para ver os helicópteros, a televisão, a comida condensada, o neón e os raios lazer iluminando os espaços e outras novidades da ciência de hoje. Única coisa que não conseguiram e se a vierem a conseguir, mas já não será para os meus tempos, é ressuscitar um morto ! Aí por volta de 1934, uma novidade veio dar mais interesse ao espectáculo cinematográfico, foi o surgimento do filme colorido. O primeiro filme a cores projectado na tela do Garrett, foi, se não estou em erro, “O Jardim de Allá”, com Charles Boyer. Era ainda um principio, depois muito melhorado pelos americanos com o Tecnicolor e pelos alemães com o Agfacolor. Perguntarão como é que ele sabe disso ? E eu respondo. Nesses gloriosos anos do cinema principiei eu, juntamente com os meus primos José e Américo a encarregarmo-nos do cinema. Como eu e o Américo ainda éramos muito novos e como tinha de haver um chefe de cabine encartado o único que reunia as condições era o José, o que deu em resultado ( não conheci outro ), que um médico radiologista Dr. José Alfredo Campos Costa, pudesse aumentar ao seu curriculum, o de primeiro projeccionista de cinema, carteira de que tinha muito orgulho, como há anos. aquando da visita de Ramalho Eanes à Póvoa, ele a exibisse ao nosso muito amigo e recordado Agonia Frasco, nas então instalações no porto de mar, do Clube Naval. Na projecção estava eu, auxiliando pelo ajudante Ismael, que mais tarde foi motorista do bombeiros e na regulação sonora, na sala, cabia a vez ao Américo. Assim estivemos até que em 1938, a família Evaristo, à frente da qual e como principal impulsionadora estava a Dona Clara, mãe dos meus muito amigos Carlos e Óscar Batista, resolveu transformar o velhinho e saudoso Café Chinês, numa moderna casa de espectáculos que todos conhecemos e que agora julgo que transformado num Super Mercado. Foi o Póvoa Cine. Os proprietários e a empresa do Garrett, que não contando com concorrência, continuavam a fazer a exploração no velho teatro do século XIX. Mas agora seria diferente e só o remédio da transformação das instalações dando comodidade aos espectadores seria medida a tomar. Assim o velho teatro foi modernizado. Das instalações antigas nada ficaria, excepto o palco, porque até ao verão de 1939, não haveria tempo, ficando este para mais tarde. Iniciadas as obras no final da época de 38, a toda a força se trabalhou. O projecto foi confiado ao arquitecto que desenhou o Palácio Hotel e as obras lá foram correndo apressadamente, para que em Agosto se pudesse apresentar uma nova sala. Estavam as obras muito adiantadas, pensando-se que por certo a sala abrira ainda mais cedo do que em Agosto. Chegou o dia do corpo de Deus, dia Santo, e no principio da tarde desse dia ao passar pelas obras notei que na abóbada da sala havia uma rachadela. Chamei à atenção do facto e o encarregado da obra que me respondeu ser a massa a secar. Saí da sala e um pouco depois, toda a abobada ruiu e como consequência todo o esforço até aí feito foi inglório. A obra por um erro grosseiro de cálculo do peso da abóbada iria atrasar a abertura da sala. No entanto graças a um enorme esforço no dia 1 de Agosto estava tudo pronto e o público pode afluir ao espectáculo da estreia da nova sala. Já quase no final de 1939, a empresa do teatro e o proprietário do edifício acabaram de formar um acordo com a empresa do Póvoa Cine que passou a explorar, sem concorrência o Teatro Garrett, exploração que durou alguns anos até que foi rescindido o contrato. Mas voltando uns anos atrás. Os cineastas não estavam contentes só o com o cinema sonoro e as cores, queriam mais e pensaram em, para dar mais realidade, acrescentar também o cheiro. De facto quando a cena se passasse num lugar perfumado, num campo florido, num pinheiral, a coisa corria bem, mas logo surgiu um problema : o público aguentaria o cheiro de um curral ou cavalariça ? Como tal esta novidade nem chegou a experimentar-se. Mais ou menos pelo final do ano de 39, quando a Empresa José Costa, deixou o Garrett, também deixei de dar o meu contributo ao Garrett, A vida militar e a mobilização ocuparam o meu tempo e, é praticamente aqui que terminam as minhas memórias do velho Teatro Garrett, enquanto por lá vivi. Sei que mais tarde, já estava em Braga, talvez nos finais da década de 40, o Póvoa Cine, rescindiu também o contracto e depois em Braga, nos escritórios do Teatro Circo, parece-me que se assentou um plano para a exploração do Garrett, ser feita pela Sonoro Filme, com a obrigação de construir um novo palco. Também na ocasião se falou que passaria a ser representante daquela distribuidora o Dr. Zé Sá. Não sei se a ideia foi ávante. E agora, sim, acabo as MEMÓRIAS DO TEMPO QUE PASSOU, e passei no velho Garrett. Braga, 29 Junho de 2005 LUIS COSTA
publicado por Varziano às 18:25

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