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PARA A HISTÓRIA DO VELHO TEATRO GARRETT MEMÓRIAS DO TEMPO QUE PASSOU - 2 – Como as demais casas a princípio destinados aos espectáculos de teatro, variedades, dança e outros em que a representação era ao vivo, o velho Garrett, quando surgiu a novidade lançada pelos irmãos Lumiére, foi também adaptado à nova era de espectáculos – O CINEMA . Logo que a novidade se apresentou nos princípios de 1890 , em Paris, o concessionário ou os proprietários resolveram, por certo, apetrechar-se com a máquina de projecção de fitas, provavelmente uma “Pathé Baby”, então accionada à mão, ou uma máquina rudimentar que o primeiro cineasta português, Paz dos Reis, conseguiu, aproveitando ensinamentos de Lumiére, trazer para Portugal, ou até mesmo produzir a de filmar e a de projectar. Como fotógrafo que era, facilmente e depressa descobriu o movimento das fotografias, dando a impressão da realidade e os segredos da máquina como o rodar da cruz de malta, carreto com dentes e que saltava de quatro em quatro perfurações da película ( quadros ), sistema que é ainda o de hoje. No entanto, devido ao registo de patentes, a máquina e o sistema de Paz dos Reis, foi chamado KINEMATOGRAPHO. Julgo que a primeira casa poveira de espectáculos cinematográficos foi o já falado anteriormente Salão Teatro e isto por que a minha tia falava--me, há muitos anos, que ali se viam “dramalhões” de fazer chorar o coração mais empedernido. Os primeiros e rudimentares filmes vistos em Portugal, foram apresentados no Porto, no Teatro Príncipe Real, e eram pequenas produções de Paz dos Reis, hoje dir-se-iam documentários, que a objectiva da sua máquina fixou e que demonstravam, como dizia então um cartaz anúncio, “projecções luminosas em tamanho natural, surpreendente colecção de quadros reproduzindo scenas e epizódios da vida portuguesa…” Ora deve ter sido apresentada ao público poveiro esta pequena série da maravilha do século XIX, já que um dos quadros representava a tragédia do Veronese, vapor que encalhara no rochedos de Leixões, que fincou vincada na tradição dos heróis poveiros, que no salvamento dos ocupantes daquele barco tomaram parte. Eram filmes mudos e para a compreensão dos assuntos, volta que volta, apareciam um quadros negros com a explicação. Decorreram vários anos, e o cinema foi-se impondo, apaixonando um público cada vez mais interessado. Os assuntos que passavam no pano branco eram dos mais diversicados, desde as aventuras dos cow boys até ao lânguidos amores de um Rudolfo Valentino e aos hoje chamados “pastelões bíblicos”, realizações do famoso Cecil B. de Mille, realizador do filme de grande êxito “O Rei dos Reis”, e ainda o espectacular “Ben-Hur”, produzido pela Metro e cujo actor principal era Ramon Novarro, que apaixonou as primeiras gerações cinéfilas . Mas o público exigia mais realidade. Lembro-me que já há vários anos do surgimento do sonoro o meu tio Zé Costa, então já concessionário da exploração do Garrett, lembrou-se de que ao primeiro de aviação, inspirado na Guerra de 14/18, “Asas”, lhe acrescentar efeitos extras. Assim, no palco e por detrás da tela, contratou uma bateria de som. Quando o avião largava a bomba, o bombo da orquestra lá produzia o som do rebentamento. Um cilindro ripado, movimentado à mão, produzia o som do “picanço” do avião, as ripas ao rasparem sobre um pedaço de pano forte, dava a sensação do barulho assobiado que avião produzia. Um caixa, rufando na pele esticado do tambor, imitava o matraquear das metralhadoras e para a ilusão ser mais completa dois fios eléctricos – um positivo e outro negativo - provocavam o clarão das explosões. Foi um sucesso tal, que no dia seguinte teve de haver uma nova sessão e dedicada à força militar estacionada na Póvoa. Os filmes passaram a ser mais longos e assim debatiam assuntos, uns baseados na literatura romanesca, outros na de aventuras. Como hoje, também havia os artistas cómicos com o famoso Charlot, que só muito mais tarde se adaptou à sonorização. Desse tempo lembro-me de uma parelha que fez rir muitas gerações – Pat e Patachon. Ora foi um filme desta parelha de cómicos, que tiveram em Bucha Estica – Stan Laurel e Oliver Hardy – os seus sucessores que, indirectamente, deu origem à modernização da apresentação dos filmes, agora sonoro na Póvoa. Numa tarde de domingo, estava a ser apresentada uma fita da então parelha Pat e Patachon. O material onde estavam gravadas as cenas do filme era muito inflamável – celulóide – e muito sensível a “rebentar”. Disseram na altura que o projeccionista Calheiros, nunca por nunca, abandonava o charuto e como tinha rebentado o filme, ao colocá-lo de novo nos carretos da máquina, descuidou-se e chegou a brasa do charuto ao celulóide e em resultado ardeu todo o filme que estava na bobine e, até certo ponto, deu cabo da aparelhagem. Necessário foi o de remediar da melhor maneira o sucedido. Passado algum tempo, com o advento do Cinema Sonoro, pensou-se em modernizar o sistema, adaptando o novo invento. Em 1928, os americanos produziram o primeiro filme sonorizado – o Cantor Louco, com Al Jonson . Não era um sistema muito funcional, pois o sistema - Vitaphone - era de disco à parte e teria que haver uma sincronização entre a voz e as cenas, resolvido em principio com o inicio automático. Mas tinha o grande inconveniente dos tamanhos. Enquanto que o disco era sempre certo, o filme estava sujeito a alguns quadros inutilizados. Quando a película rebentava, era preciso fazer a emenda, e sempre ficava com alguns centímetros a menos, logo não podia haver sincronização perfeita entre o som e a cena. Para remediar esse mal havia que medir os estragos e acrescentar com o mesma quantidade de quadros negros o que se tornava aborrecido para o espectador. Deve ter sido apresentado na Póvoa, pois Fernando Santos, mais tarde da Sonoro Filme, comprou os direitos para Portugal e andava correndo o País com a exibição do “Cantor Louco”. Depressa o sistema Vitaphone desapareceu, substituído por uma nova técnica. É desse tempo que surgiu a canção que a princípio sendo contra o cinema sonoro, acabou, talvez, por ser o seu melhor reclamo. Recordar essa canção é para mim como de certo para muitos mais o reviver memórias do tempo que passou: “Teodoro, não vás ao sonoro ! Teodoro, em mim não tens fé ! Teodoro, não vás senão eu choro, Meu rico Teodoro leva-me antes ao café. E por agora ainda fica mais alguma coisa, pois o cinema evolui, e o Garrett também. Braga, 19 de Junho de 2005 LUIS COSTA Email: luisdiasdacosta@clix.pt.
publicado por Varziano às 17:48

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